“Progressão Continuada” critica sistema de ciclos na educação

O sistema surgiu como inovação para reduzir reprovações e evasões de alunos da rede básica de ensino, porém sua aplicação tornou-se uma forma de aprovação “automática” de estudantes

William Martins, educador

Adotado no Brasil pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, o sistema de ciclos de aprendizagem na educação básica gera debates na comunidade escolar, especialmente quanto à aplicação da proposta na rede de ensino. Tido como inovador por abolir a reprovação e reduzir o alto índice de evasão escolar, muitos educadores e outros especialistas entendem que o sistema, da maneira como é aplicado hoje, tornou-se uma forma de aprovação “automática” de estudantes sem que signifique aprendizado real.

O professor William Martins, na segunda edição do livro “Progressão Continuada”, que acaba de lançar, traz o olhar crítico de quem trabalha em escolas da rede pública e vivencia o resultado da “aplicação equivocada do sistema de ciclos que, em vez de oferecer programas de apoio pedagógico, de preferência no contraturno, para crianças com dificuldade de aprendizagem, prefere promovê-las de forma automática para as séries subsequentes”. Esse relançamento vem com “revisão, ampliação e atualização do conteúdo para fortalecer o combate ao analfabetismo funcional”, explica o autor.

“Se o sistema de ciclos for aplicado de forma correta, com aperfeiçoamento contínuo, ele pode reduzir e até zerar o analfabetismo funcional, que atualmente atinge 29% da população com idade entre 15 e 65 anos, o que representa, em números absolutos, 38 milhões de pessoas, das quais 11 milhões sabem apenas assinar o nome e as demais conseguem entender, no máximo, informação explícita em texto curto”, argumenta o escritor, que criou seu próprio selo, a Editora Saruê, pelo qual já havia publicado a primeira edição do livro, em 2019.

O título aborda a trajetória da escola pública em seu objetivo principal de compartilhar o saber construído historicamente pela humanidade, os benefícios da leitura no desenvolvimento individual e coletivo e os efeitos positivos do sistema de ciclos, como a possibilidade de redução dos índices de reprovação e evasão escolar.

O professor questiona, no livro, a ineficácia e o oportunismo de ações privatistas como tentativa de resolver o problema do analfabetismo funcional, entre as quais elenca o sistema de voucher; o modelo de escola charter, cuja proposta é entregar a gestão de escolas públicas para alguma entidade privada supostamente sem fins lucrativos; ou o sistema apostilado de ensino, representado por empresas que produzem e vendem material didático para prefeituras, ao custo de milhões de reais, sendo que o material pode ser adquirido gratuitamente via Ministério da Educação.

A obra também desmistifica o modelo experimental ou integrado enquanto solução mágica e demonstra, citando como exemplos cidades do Nordeste brasileiro, a Campanha Nacional de Alfabetização em Cuba ou o sistema de ensino finlandês, que os problemas da escola pública se resolvem no âmbito do poder público – ou seja, do Estado.

Literatura a serviço da educação

“Progressão Continuada” é o quinto livro do professor William Martins, que estreou na literatura em 2008 com uma tiragem artesanal de cem exemplares da coletânea de poemas “S.O.S. Reversos”. No ano seguinte foi a vez do infantil “100+ Nem Menos”, inspirado no espetáculo homônimo da Cia. Noz de Teatro, Dança e Animação, com lançamento no Sesc Santana, em São Paulo. “Um verso na cabeça”, com poemas sobre política, foi lançado em 2016. Os três títulos foram publicados de forma independente. Já em 2020, retomando o ambiente escolar como tema central, ele publicou “Economia Solidária na Escola”, pela Editora Saruê.

William Martins é licenciado em pedagogia pela USP e trabalha como professor de educação básica I na rede municipal de Diadema, onde atualmente compõe a equipe do Departamento de Formação de Professores da prefeitura.

Neste ano 2021, colaborou com um cordel para a intervenção artística Cordel de Feira, da Cia. Terezinha de Contação de Histórias, projeto realizado pela Secretaria de Cultura de São Paulo. O poema foi declamado e distribuído no entorno das casas de cultura Raul Seixas, São Mateus e Campo Limpo e nas bibliotecas Milton Santos, Jaime Rocha, Jamil Haddad, Cora Coralina, Paulo Setúbal, Lenyra Fraccaroli, Vicente de Carvalho, Sérgio Buarque de Holanda, Rubens Borba de Moraes e Raimundo de Menezes.

Progressão Continuada

Ficha técnica
Título: Progressão Continuada
Autor: William Martins
Editora: Saruê
Páginas: 94
Preço: R$ 25,00 – acrescido do frete
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Sueli Scutti é jornalista

Autor