O desmonte do BNDES e o fim do sonho de um Brasil desenvolvido

Coisas diferentes, ou, sejamos claros, estranhas têm acontecido no BNDES na gestão do sr. Gustavo Montezano. Todos os empregados do Banco sabem disso. Infelizmente, a opinião pública segue obcecada por falsos problemas.

A atenção da opinião pública sobre o BNDES nas duas últimas semanas esteve focada na questão da auditoria que concluiu que não houve nada de errado nas operações que envolveram o BNDES e a JBS (entre outras empresas). Ao invés de comemorarmos mais uma confirmação de que não há evidência de malfeitos no BNDES, houve uma concentração em torno do valor (R$ 48 milhões) pago a uma consultoria externa. Devido a uma comunicação infeliz da atual diretoria do banco e o silêncio que se seguiu por 10 dias, instaurou-se uma onda de suspeitas completamente infundada. Hoje, o presidente do BNDES fez uma excelente apresentação para resolver uma crise criada por ele mesmo.

O que passou relativamente despercebido nesse mesmo período foi o desfecho de uma história que foi a público em outubro do ano passado e que despertou alguma atenção, mas nada comparado ao escândalo da consultoria. O BNDES terminou a venda das ações do Banco do Brasil que eram da União e que excediam o necessário para garantir seu controle. Foram vendidas em mesa mais de 20 milhões de ações ordinárias com um saldo de R$ 1,06 bilhão. O BNDES vendeu essas ações, segundo recomendações de seus técnicos, em mesa. As ações foram negociadas durante o mês de janeiro.

Se as mesmas ações tivessem sido vendidas em oferta pública, como queria fazer em outubro o diretor demitido do BNDES, sr. André Laloni, as ações teriam sido vendidas pelo preço médio de R$ 43,46 (valor líquido das comissões pagas aos Bancos, necessárias quando a opção de venda é por oferta pública). O valor total teria dado aos cofres públicos R$ 903 milhões.

A diferença entre os dois valores — o valor que seguiu da venda, segundo os procedimentos sugeridos pelos técnicos do BNDES, e o valor que seria obtido na oferta pública que quiseram impor aos técnicos do BNDES — é de cerca de R$ 157 milhões. Mais de três vezes o valor da polêmica consultoria. Um valor total superior em 17%. Se incluirmos os dividendos pagos pelo Banco do Brasil entre outubro (mês em que foi realizada a oferta pública) e janeiro, a diferença chega a R$ 160 milhões ou quase 18%.

Estamos falando apenas da venda de cerca de R$ 1 bilhão em ações. O valor da carteira da BNDESPar é de mais de R$ 100 bilhões. Se usarmos a diferença obtida nesse caso, se a venda pelo método tecnicamente correto gerasse um retorno 18% superior, estaríamos falando de cerca de R$ 18 bilhões que poderiam potencialmente ser desviados dos cofres públicos para os bolsos de agentes financeiros privados.

Para que a opinião dos técnicos do BNDES pudesse ser respeitada, uma superintendente do Banco foi destituída, os funcionários do Banco tiveram que publicar nota à imprensa e se mobilizar na entrada do Banco. O diretor Laloni foi afastado, mas parte dos assessores e executivos da área de mercado de capital que deram apoio aos seus planos continuam tocando a área que se prepara para vender todas as ações da Petrobras da carteira da BNDESPar, cerca de R$ 23 bilhões. Segundo o plano trienal apresentado pela diretoria de Montezano, há projeção de liquidação da carteira da BNDESPar.

A forma de a atual diretoria, retoricamente comprometida com transparência, em lidar com o tema é da mais completa obscuridade. A AFBNDES pede há meses, porém sem nenhum sucesso, que a diretoria ou a superintendência da área esclareça sua estratégia.

O presidente do BNDES se comprometeu diante de centenas de empregados que realizaria um evento aberto, e até agora nada. O presidente também disse a diretoria da AFBNDES que os recursos arrecadados com venda das ações da BNDESPar não seriam devolvidos ao governo, mas aplicados pelo Banco. Hoje, admite-se abertamente que a receita de vendas será devolvida ao Tesouro.

Completa o quadro de obscuridade vazamentos a imprensa sobre os planos de venda de ações, de atores muito bem informados inclusive sobre decisões do Conselho de Administração. Vazamentos que apontam montante que será vendido, de que empresas e em que semestre de 2020. Vazamentos não desmentidos pela diretoria. História inédita para os empregados do Banco.

Não há qualquer indicação concreta de qual será a política de reinvestimento da BNDESPar. Ainda que haja consenso no Banco sobre a necessidade de vender ativos da carteira da BNDESPar, e as venda ocorreram massivamente nos últimos anos, como já demonstrado pela imprensa, há indignação no corpo funcional com a estratégia programada de liquidação da BNDESPar. As alegações de que a venda da carteira é necessária para que recursos sejam aplicados em projetos como saneamento ou mesmo o argumento de que a carteira da BNDESPar representa um grande risco a sustentabilidade do Banco, como defende a atual diretoria, não sobrevivem a qualquer debate aberto com empregados do BNDES.

A superintendente da área jurídica foi destituída e os ataques à governança do Banco não acabaram por aí. Diretores pressionam e usurpam o papel dos técnicos concursados do BNDES. Acreditem, não há precedente na história do Banco para esse tipo de comportamento.

A carteira de empréstimos do BNDES cai ano a ano e querem acabar com a BNDESPar.

A AFBNDES nos últimos três anos vem afirmando que a “caixa-preta” do BNDES era um invencionice. Hoje, todos sabem que estávamos certos, inclusive parte significativa da imprensa reconhece nosso argumento como correto. Avisamos que as denúncias do sr. ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, eram vazias e que o Fundo Amazônia era uma razão para se ter orgulho e não vergonha do BNDES. Hoje, todos conhecem o valor das afirmações do ministro Ricardo Salles.

Há três anos, denunciamos que operam um desmonte do BNDES. A sociedade brasileira vai esperar o fim do Banco para acreditar nessa denúncia? Vai assistir passivamente o fim do sonho de sermos algum dia um país desenvolvido? E isso tudo apenas para atender os interesses de curto prazo de parte do mercado financeiro.

Presidente da Associação dos Funcionários do BNDES (AFBNDES)