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Pedro Venceslau: o declínio da TV Cultura no governo Serra

Lendas urbanas – ou nem tanto – atribuem a José Serra um comportamento pouco ortodoxo em relação à imprensa. De concreto, sabe-se que ele simplesmente não suporta perguntas difíceis. Quando esbarra em uma, olha nos olhos do perguntador, faz cara de pai

Desde que foi eleito governador, esse modus operandi parece ter contaminado a TV Cultura. Inviolável reduto tucano há 14 anos, desde a eleição de Mário Covas, a emissora está sentindo na pele o estilo Serra. A inesperada dispensa de Luis Nassif, a saída de Lillian Witte Fibe do Roda Viva, a demissão em massa no jornalismo e o fim de vários programas analíticos compõem um retrato em alta definição da atual fase do canal.


 


Vinte dias antes de ser informado sobre a não-renovação de seu contrato, Luis Nassif, entusiasmado, acertava os detalhes finais de seu novo programa. Mas nesse ínterim resolveu criticar a Sabesp e, de quebra, a controversa escolha da bancada que sabatinou Gilmar Mendes no Roda Viva. Um post em seu blogue foi a gota d’água. “Não existe governança na TV Cultura hoje”, desabafa. Prestes a estrear na TV Brasil, ele revela que a mão forte do governador nunca pesou tanto na rotina da emissora. “Isso sem falar na encheção de saco quando não cobríamos algum evento do governo”, conta.


 


Nos corredores e na coxia dos estúdios, comenta-se que a língua solta e ferina de Heródoto Barbeiro também incomoda – e muito – o governador. “Serra acha o Heródoto petista. Então pressionou tanto que tiraram ele do ar e depois devolveram como mero locutor”, diz um ex-jornalista influente da casa. Mas um sinal inequívoco do aparelhamento tucano da Cultura é o seu carro-chefe, o programa de entrevistas Roda Viva. Fórum pediu à assessoria da emissora uma entrevista com Paulo Markun, mas o pedido foi negado pelo jornalista.


 


“Valdemar Setzer (professor titular da USP) tomou 1h30 do telespectador para dizer que é contra computador para criança. Em ano de eleição (2008) não fizemos uma entrevista política!”, disparou Liliam Witte Fibe ao Estadão logo depois de anunciar que estava deixando o programa. “No Roda Viva, muitas vezes diziam que o convite para alguém sentar na bancada era por pressão do Serra”, acusa Luis Nassif.


 


Roda Viva à parte, algumas passagens da história recente da Cultura são emblemáticas. Em 2006, o então presidente da emissora, Marcos Mendonça, chegou a convidar Gabriel Chalita, hoje vereador tucano, na época secretário de Estado, para apresentar um talk show. “Me parecia um bom nome para apresentar o programa (Arena de Ideias). Chalita é um comunicador e apresentava os requisitos para o cargo”, disse a este repórter, na época. Felizmente, recuou a tempo.


 


Markun mãos de tesoura


 


Quando os funcionários da Cultura souberam que Paulo Markun seria empossado presidente, em meados de 2007, organizaram uma recepção de boas-vindas ao novo chefe. Jornalista de raiz e oriundo do chão de fábrica, ele representava para muitos uma nova era; o fortalecimento do jornalismo, a isenção e o fim da obsessão de colocar a Cultura na rota das TVs comerciais, marca de Marcos Mendonça. Ele iniciou sua carreira ali como repórter de TV em 3 de setembro de 1975, levado por Vladimir Herzog, o Vlado. Assumiu prometendo mudar a forma de relacionamento da emissora com o governo e os espectadores. “Teve gente que chorou”, conta uma funcionária da casa.


 


A lua-de-mel durou pouco. “Hoje o clima é de decepção total. Ele está acabando com o jornalismo da Cultura. Tirou do ar o Opinião Nacional, o Jornal do Meio-Dia, e ainda acabou com vários programas da área de sustentabilidade”, diz a jornalista Márcia Dutra. Experiente repórter e âncora de TV, ela era uma das principais apresentadoras da casa – esteve à frente do Jornal da Cultura com Heródoto Barbeiro e Celso Zucatelli. Em fevereiro foi surpreendida quando voltou de férias e soube que seu contrato não seria renovado.


 


“Foi uma traição. No final de novembro, procurei o Pola Galé (diretor de jornalismo) e ele me disse: ‘Pode ficar tranquila, a casa está satisfeita com você’. Então saí de férias e, quando voltei, fiquei sabendo da minha demissão. Na semana anterior a minha, foram 31 dispensas. No total, foram cerca de 60 em 20 dias. E não tem essa de crise. Isso é desculpa para boi dormir”, desabafa. “A engrenagem emperrou”, resume Nassif.


 


Ponto de vista


 


É curioso reparar no tratamento que as duas principais emissoras públicas de TV do país, a TV Brasil e a TV Cultura, recebem da chamada grande imprensa. Não é difícil, basta pesquisar na internet. Enquanto a primeira é tratada como um elefante branco do lulo-petismo, ralo de dinheiro público, aparelho de propaganda estatal e chamada de “TV do Lula”, a segunda é vista como uma ilha de excelência, exemplo de gestão em TV pública, oásis de independência. O caso do ex-editorchefe do telejornal Repórter Brasil, Luiz Lobo, que denunciou “censura” do governo Lula no conteúdo é exemplar. Foi direto para o alto de página da política, um escândalo, diferentemente do que ocorre com a emissora paulista.


 


A atual crise da Cultura é, para muitos, o efeito colateral da gestão Marcos Mendonça. Tucano de alta plumagem, ele assumiu o canal em 2005, por pressão do então governador Geraldo Alckmin. Este, diferentemente de Serra, não monitorava a programação com lupa, mas exigia audiência. E foi imbuído desse espírito que Mendonça abriu a emissora para os comerciais das Casas Bahia e contratou estrelas caras como Silvia Poppovic e Sabrina Parlatore e, em contrapartida, acabou com a orquestra da TV, a Sinfonia Cultura.


 


José Serra, por sua vez, não via com bons olhos a gestão de Mendonça. O motivo é simples: Mendonça era homem de confiança de Geraldo Alckmin, adversário interno do governador até recentemente, quando aceitou o convite para integrar o secretariado estadual. Em 2005, Alckmin se movimentou intensamente para derrubar Jorge da Cunha da Lima e colocar Mendonça em seu lugar.


 


Data dessa época o período de crise mais aguda da emissora, era das goteiras e das fitas reutilizadas. Quando, enfim, Mendonça tomou posse, o dinheiro voltou a entrar. De cara, o governador Alckmin liberou R$ 4 milhões que estavam congelados e ajudou a pagar despesas trabalhistas. Uma vez no governo, Serra tratou de limpar terreno. E ainda reclamam da TV Brasil…


 


Em nome da filha?


 


O último imbróglio envolvendo a TV Cultura nasceu, quem diria, dentro do ninho tucano. O presidente municipal do PSDB, José Henrique Reis Lobo, que também é conselheiro da TV Cultura, enviou, em março, uma irada carta aos seus 46 colegas da Fundação Padre Anchieta desancando a gestão de Paulo Markun. Entre outros torpedos, se disse preocupado com a audiência da emissora, que é “próxima a zero”: “Não há nada de maior nonsense do que falar para auditório vazio ou editar um jornal para um público que não existe”.


 


Para o tucano, ninguém assiste à Cultura. Logo, não se justifica que a emissora consuma anualmente R$ 200 milhões dos cofres públicos. Para finalizar, Lobo fez ainda um apelo para a profissionalização da emissora. O que pouca gente sabe, porém, é que a publicitária Tatiana Lobo, filha do “alckmista” Lobo, foi demitida por Markun do cargo de diretora de marcas da emissora. Há quem diga que foi retaliação.