Crítica: ‘Contra o consenso neoliberal’

O Jornal do Brasil publicou, no último dia 4 de abril, uma contundente resenha do sociólogo Emir Sader, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da mesma institui&cc

Contra o consenso neoliberal
Um livro para quem não se deixa levar pela mitologia do “fim do trabalho”

EMIR SADER

“O fim do trabalho, da centralidade das contradições capital/trabalho e da própria classe trabalhadora” — este consenso neoliberal, pós-industrial e pós-moderno — comanda a reação conservadora das últimas décadas. Essa “crise de paradigmas” abriu espaço para o estruturalismo e o pós-estruturalismo, resumidos por Perry Anderson em Considerações do marxismo ocidental como estrutura sem história, história sem sujeito, conhecimento sem verdade. Já que a classe operária morreu, tudo é possível.

Beverly Silver — co-autora, junto com Giovanni Arrighi, de várias análises históricas imprescindíveis para a compreensão do capitalismo contemporâneo — destoa desse consenso. Antes de agregar outra opinião, ela busca enquadrar o tema “numa moldura analítica historicamente mais longa e geograficamente mais ampla do que se faz normalmente”. O que pode ser considerado radicalmente novo e sem precedentes no período histórico atual?

Em Forças do trabalho, lançado pela Boitempo Editorial, alinham-se argumentos como se fossem determinantes inquestionáveis: teria sido criado um mercado único de trabalho mundial onde competiriam todos os trabalhadores; teria havido uma hipermobilidade do capital, enfraquecendo a soberania dos Estados e sua capacidade para garantir os direitos dos trabalhadores; teriam ocorrido transformações na organização da produção e do processo produtivo. Tudo levaria a um cenário radical inédito no mundo do trabalho. Beverly Silver contra-argumenta, mas a novidade radical do livro é uma leitura concreta dos dados — o que já é uma contribuição única, uma referência empírica que permite desfazer mitos e ficções que não encontram fundamento na realidade concreta.

O livro percorre um roteiro de riqueza inquestionável: inicia-se pela análise das manifestações dos trabalhadores e da mobilidade do capital em escala mundial, na principal indústria do século 20 — a indústria automobilística. Em seguida, baseada no conceito de soluções espaciais de David Harvey, apresenta-se a tese de que o sucessivo deslocamento geográfico do capital constitui uma tentativa de solução espacial para crises de lucratividade e controle, que apenas adia as crises no tempo e no espaço.

A autora apresenta o conceito de solução de produto, em que os capitalistas tentam aumentar os lucros e o controle não apenas se deslocando para novos locais ou transformando o processo de trabalho, mas também se deslocando para novos setores e linhas de produto menos sujeitas à competição intensa e a outros obstáculos. São enfocadas as dinâmicas de três ciclos de macroprodutos: a indústria têxtil mundial, a automobilística e os setores emergentes no final do século 20 e começo do 21, como representativos de períodos diferentes do processo de acumulação do capital.

Os enfoques estão centrados na relação capital/trabalho em relação à reestruturação espacial e tecnológica dos processos de acumulação de capital. Em seguida se amplia o enfoque, com a defesa da tese de que a trajetória das manifestações operárias e da reestruturação capitalista está profundamente assentada na dinâmica da formação dos Estados, do conflito entre eles e da guerra em escala mundial. Constata-se uma forte correlação entre mobilizações operárias e guerras mundiais. Um dos capítulos do livro analisa as manifestações dos trabalhadores colocando no seu centro a política internacional, desembocando em uma eventual solução — a financeira, em que o capital não apenas se desloca geograficamente, mas também de um setor a outro, como busca de solução da crise de superacumulação.

Como conclusão, Beverly Silver retoma cada uma de suas teses, reforçando as hipóteses iniciais, articulando-as entre si e buscando tirar conseqüências delas. Sua primeira tese central é a de que o deslocamento geográfico da produção tende a criar e fortalecer novas classes trabalhadoras. Ela acredita assim que o debilitamento da capacidade de negociação no centro seria compensado pelo fortalecimento da classe trabalhadora em eixos da periferia do sistema capitalista. Seria necessário buscar explicações alternativas para a crise global do trabalho e dos movimentos dos trabalhadores no mundo contemporâneo.

Nunca como agora tanta gente vive do seu trabalho e tão poucos do capital. Aqueles, entretanto, vivem em condições de grande heterogeneidade, submetidos a condições precárias e com poucas possibilidades de organizar-se e, assim, adquirir consciência coletiva e socializar-se. O livro de Beverly Silver é o melhor material para quem deseja compreender as novas relações de trabalho no mundo, para quem não se deixa levar pelas mitologias do “fim do trabalho” e outras, que não resiste aos argumentos e aos dados contidos neste livro — essencial, tanto quanto desconcertante, pelos problemas que nos coloca.

FORÇAS DO TRABALHO — MOVIMENTOS SINDICAIS E GLOBALIZAÇÃO DESDE 1870
Autora: Beverly Silver
Editora: Boitempo Editorial
Páginas: 240
Preço: R$ 38