Vermelho

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16/08/2013

Por que ler e reler Vidas Secas?

Encontrei a resposta para essa pergunta no ensaio “Por que ler os clássicos” do escritor Italo Calvino, que diz: “Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo...’ e nunca ‘Estou lendo... ’. [...] Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los nas melhores condições para apreciá-los.” 

Por Ângela Almeida

Pois o romance de Graciliano Ramos, escrito em 1938, é um clássico da nossa literatura.

De minha parte, conhecia Vidas Secas desde menina. Na época da escola, havia uma discussão nacional sobre a seca no Nordeste e os livros que denunciavam os problemas sociais brasileiros, como Vidas Secas, Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, ou Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, figuravam na lista das leituras exigidas pelos vestibulares, além de serem os meus preferidos.

Entretanto, somente agora voltei a apreciar o livro do passado. Retomei a obra prevendo que teria um déjà vu, mas qual não foi a minha surpresa, tudo se apresentou curiosamente novo, fazendo-me lembrar, novamente, do texto revelador do italiano Calvino: “Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira. Toda leitura de um clássico é na realidade uma releitura. [...] Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.”

O livro de Graciliano Ramos é desse tipo. No capítulo Cadeia, o terceiro na ordem do romance, há um diálogo entre Fabiano e o soldado da força pública que vale a pena ser transcrito:

Nesse ponto um soldado amarelo aproximou-se e bateu familiarmente no ombro de Fabiano:
– Como é, camarada? Vamos jogar um trinta-e-um lá dentro?
Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira:
– Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.
 
Destaquei esse capítulo porque ele evidencia o papel da autoridade policial e a violação de direitos presentes na obra, além de uma postura típica reproduzida nas relações sociais fundantes de um imaginário que inviabiliza a práxis da cidadania: “Fabiano caminhou atrás do amarelo que era autoridade e mandava. Fabiano sempre tinha obedecido.”
 
Mas ao sentar-se na esteira, para jogar, Fabiano lembrou-se de Sinhá Vitória e de como ela ficaria danada ao saber que gastara o dinheiro com jogo, ele “ergueu-se furioso, saiu da sala, trombudo”. Atitude suficiente para que o soldado amarelo se sentisse desrespeitado, e após uma surra de facão prendesse o pai da família de retirantes.

“Fabiano marchou desorientado, entrou na cadeia, ouviu sem compreender uma acusação medonha e não se defendeu.” Permaneceu calado quando o que mais queria era falar, era saber falar. Não entendia por que o soldado amarelo tinha feito aquilo. Ele temia o soldado amarelo, sua força bruta como também a força de suas palavras, estas que tão pouco sabia usar: “Era bruto sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. [...] Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?”

Nessa passagem do livro, o escritor identifica um personagem que vive o drama de ver e perceber o mundo, percebendo-se ele próprio no mundo, convivendo com coisas, com pessoas e, no entanto, sentindo-se incapaz de contar, narrar esta inserção, esta convivência, sua história: “Havia muitas coisas. Ele não podia explicá-las, mas havia. Fossem perguntar a seu Tomás da bolandeira, que lia livros e sabia onde tinha as ventas. Seu Tomás da bolandeira contaria aquela história. Ele, Fabiano, um bruto, não contava nada.”

O escritor, assim, vai fundo na sua concepção trágica de homem, fugindo ora da seca, ora de si mesmo, talvez enfatizando que o mais degradante esvaziamento, a supina secura, será antes este processo de desumanização a que está submetido Fabiano, símbolo de boa parte das pessoas deste país, especialmente dessa região de tantas “vidas secas”.

À medida que passavam as horas, Fabiano, na cadeia, começou a se convencer de que nem ele, nem ninguém que ali se encontrava, prestava para alguma coisa. Precisava de razões para entender por que fora preso daquela maneira, restou-lhe acreditar que todos eram uns inúteis, todos uma lástima, não eram como o doutor juiz de direito, o delegado, o seu vigário e os cobradores de impostos da prefeitura. Esses sim mereciam respeito e explicações.

Fabiano então concluiu que, assim como ele, seus filhos também eram brutos e que quando crescessem guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados e machucados por um soldado amarelo. Olhou para si e para os seus e viu que não eram os sujeitos de que falam as leis, na medida em que viviam na periferia do direito e dos direitos: não falavam e deles nada era falado. Simplesmente, não eram!

Bom, eu não quero como diz Calvino, esconder sob uma cortina de fumaça aquilo que “um clássico tem a dizer”, nem figurar como um intermediário que pretenda “saber mais do que ele”. Apenas quero registrar aqui o meu espanto ante a releitura de uma obra de tal monta e, com certo acanhamento, confessar que não foram poucas as vezes que o texto de Graciliano Ramos me levou às lágrimas.

(*) Mestre em Direito, Doutoranda em Letras e Analista-Tributário da Receita Federal do Brasil.

Bibliografia:

Calvino, Italo. Por que ler os clássicos?. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
Ramos, Graciliano. Vidas secas. 46ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1980.