6 de maio de 2011 - 22h00

O Operário em Construção: o poema católico de Vinicius de Moraes


O poema do “Poetinha” é analisado, aqui, como uma obra de teor cristão e católico, refletindo os limites da consciência de classe dos trabalhadores marcada pela presença da religião. Esta é uma tese polêmica (Nota da redação).


Reprodução
Vinicius de Moraes com Lula na greve de 1980. Vinicius de Moraes com Lula na greve de 1980.
Lamento divergir dos que pensam que o poema de Vinicius é um poema revolucionário. Não é, é um poema que traz em seus versos uma forte marca cristã e conservadora, que aponta para a adesão a ordem e ao conformismo do espírito.

Por Bruno Rabello Golfeto

Vinícius de Moraes retorna em 1954 da França de onde havia servido como diplomata na Unesco. Traz na mala poemas de grande importância para o conjunto de sua obra, poemas como "Receita de Mulher", "Balada das Duas Mocinhas de Botafogo" e "Operário em Construção". O “Operário em Construção” é um poema “visceral” como diria certa vez Vinícius, um poema que nascera de sua revolta. O interessante do poema é que ali está uma certa percepção dos trabalhadores e de sua luta que diz muito sobre a formação do movimento operário no Brasil e de seus limites.

A epígrafe do poema este pequeno fragmento, um trecho do evangelho segundo Lucas, é parafraseado pelo autor de maneira a compor a estrutura do poema e ajudar a orientar sua interpretação. O fragmento:

Imagem representando a passagem bíblica em que Jesus é tentado pelo diabo no deserto.
“E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:

– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.

E Jesus, respondendo, disse-lhe:

– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8”.

Esta cena corresponde à tentação sofrida por Jesus no deserto, na qual após um longo período de privação, o Diabo resolve tentá-lo. A escolha deste momento ao iniciar um poema que retrata o “operário” é uma escolha bastante significativa para o entendimento do poema e encontra justificativa nas bases sociais da metade do século. A epígrafe funciona como um pequeno roteiro para o desenvolvimento do poema, que vai da descoberta do sofrimento até a negação do tentador. Poeta de formação católica, não por acaso Vinícius recorre à Bíblia para pensar o seu operário.

O período de redemocratização do país após o Estado Novo, as promessas de desenvolvimento e a consciência do país subdesenvolvido trazem à tona o debate da eficácia da modernização. Coloca-se em xeque percepção do Brasil como “país novo” deflagrado pelas elites e a crítica às mazelas sociais ganham peso Índices altíssimos de analfabetismo, massas de migrantes em sua maioria de nordestinos vindos para o Sudeste, vão compondo o cenário industrial urbano, mesclando-se a modernização do estado.

De acordo com o IBGE, em 1950, 93,5% da população brasileira declararam-se católicos apostólicos romanos, 3,4%, evangélicos; 1,6% mediúnicos/espiritualistas e 0,8%, de outras religiões. Tendo o sincretismo religioso como característica fundamental da formação cultural do Brasil, pode-se concluir que a grande maioria da população se declararia cristã. Foi na década de 50 que João Cabral de Melo Neto publicou “Morte e Vida Severina” (1955).

A CNBB, fundada, em 1952, por iniciativa de D. Hélder Câmara, nas décadas de 1950 a 1960, prioriza a questão do desenvolvimento. Ao contrário da posição adotada diante do regime do Estado Novo, de Getúlio Vargas, em que a Igreja assumiu uma posição conciliatória diante do regime de exceção, a CNBB desempenha um papel chave na articulação da sociedade civil, em defesa dos direitos humanos, das liberdades democráticas, da reforma agrária, dos direitos dos trabalhadores e da redemocratização e após ter sido, durante séculos, a guardiã mais fiel dos princípios de autoridade, de ordem e de hierarquia, a Igreja – ou uma parte dela – tornou-se, quase sem transição, uma força social crítica, um pólo de oposição aos regimes autoritários e um poder contestador da ordem estabelecida.

Assim as referências a simbologia são componentes do poema. Na estrofe que se segue, as imagens/símbolos que o poeta utiliza para representar as necessidades e o produto do trabalho são o pão (símbolo cristão de alimentação), a casa e o apartamento (que remetem ao lar), a igreja, o quartel e a prisão (símbolos da repressão do Estado).

Os versos trazem no discurso uma concepção marxista, a qual o operário também desconhece: “Mas ele desconhecia, Esse fato extraordinário, Que o operário faz a coisa, E a coisa faz o operário”. Estes versos conceituam a capacidade transformadora do trabalho em relação ao homem e do homem em relação ao produto de seu trabalho, o termo “coisa” remete ao conceito de alienação e reificação do trabalho, sendo o trabalhador alienado e reificado transformado em “coisa” pelo sistema de produção. Se a leitura parasse por aí, produziria uma serie de interpretações equivocadas. No entanto ao tentar dar aos pequenos versos uma interpretação coerente com o conjunto desta reflexão, precisamos atentar que a as soluções do pensamento católico não se encontram em Marx. Ao contrário, existia no ar um profundo sentimento anticomunista.

A imagem do trabalhador sentado a mesa cortando um pão (de maneira que esta passagem pode ser percebida como o simples ato de alimentar-se, mas também como um símbolo cristão do homem à mesa a cortar o pão assim como Jesus o fez), o operário é tomado por uma “súbita emoção” e começa a perceber a relação de seu trabalho com os produtos do trabalho. Mas percebe esta relação de maneira “iluminada” e “emocional”. Esta é a solução encontrada pelo poeta para a contradição do sistema produtivo. Logo em seguida a voz muda seu interlocutor e dirige-se aos “homens de pensamento”, afirmando a esses que lhes é impossível saber o que o “humilde” operário soube naquele momento. Esta é uma concepção anti-intelectual e até preconceituosa, pois coloca a ideia de homem de pensamento em oposição à “humilde operário”. O operário quando olha sua mão tem a impressão de que não há coisa mais “bela”. A mão é o símbolo do trabalho e também parte do corpo modificado pelo próprio trabalho, o adjetivo “rude” revela o sofrimento do corpo do trabalhador, que no poema é atenuado e celebrado.

O “instante de compreensão” é solitário, dado de maneira individual, é a valorização do indivíduo e a não menção do coletivo. O operário adquire a “dimensão da poesia” do modo em que os versos “Cresceu em alto e profundo/Em largo e no coração”, revelam que essa “poesia” tem suas raízes no discurso emocional e é a partir desta poesia que um operário “dizia” e o outro “escutava”, aprendendo a dizer “não”. A pretensa consciência do trabalhador se dá por estas vias, ignorando as construções coletivas de luta (como os sindicatos) e utilizando um método retórico avesso ao racional.

O que faz o operário dizer “não” e “se fazer forte na sua resolução”, é notar as diferenças de posses entre “ele” e o “patrão”. Este procedimento dá-se por uma oposição entre a pobreza do operário e a riqueza do patrão: Notou que sua marmita/Era o prato do patrão/Que sua cerveja preta/Era o uísque do patrão. Este patrão é comparado mais a frente ao “demônio” tentando “Jesus”. Logo, existe um movimento de se “satanizar” a riqueza e tornar a pobreza uma “virtude”, sendo este um modo simplista de se tratar a luta de classes. Ao dizer não o “operário” sofre violência. Tem o seu rosto cuspido e o seu braço quebrado, agressões muito parecidas às sofridas por Jesus: “pois será entregue aos gentios, e escarnecido, injuriado e cuspido” Lucas capítulo 18 versículo 32. Ao redizer “não”, o patrão resolve subornar o operário, assim como Satanás tentara Jesus. Este fragmento do poema é uma paráfrase da epígafre do poema. Aí está o auge da negação, que se faz em profundo silencio, perscrutando os mortos e reacendendo a esperança. Ao dizer “não” o “operário em construção” se faz em operário construído. Assim o processo de transformação do operário se faz embora com compreensão, sem rupturas e com conformidade a ordem do trabalho. A “tarde mansa” e “voz dos irmãos” servem de consolo ao restabelecimento da ordem, cada um no seu lugar.

Vinicius de Moraes
Por este motivo, o poema de Vinícius traz uma contribuição para os estudos da representação do trabalho no Brasil. Este poema tornou-se bastante famoso longo do tempo, e a força de sua lírica pôde ser verificada quase 30 anos após sua publicação, quando em 1979 no dia 1º de maio, durante a celebração de uma missa para os metalúrgicos do ABC, Vinícius é convidado pelo então presidente do sindicato a ler o “Operário em Construção” para os trabalhadores em foto captada pelas lentes de Leon Hirszman, no documentário “Greve Geral”. O poema foi lido a pedido dos próprios trabalhadores, que o elegeram como o poema que mais representava os trabalhadores.

A eleição do poema pelos trabalhadores foi acertada, mas não pelo caráter revolucionário de seus versos. Foi acertada exatamente porque o poema traz em sua concepção a formação católica daquele movimento que o elegia, mostrando ao leitor mais atento quais as amarras que ainda precisavam ser superadas, mesmo que essa não seja a proposta do poema.
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