11 de maio de 2012 - 22h53

Em sessão solene na Assembleia, Luciano destaca ação do CVV


O apoio oferecido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) às pessoas em estado de fragilidade emocional ao longo dos últimos 50 anos foi homenageado em reunião solene promovida na noite desta quarta-feira (09) pela Assembleia Legislativa de Pernambuco. A homenagem à entidade foi proposta pelo deputado Luciano Siqueira (PCdoB).




Em seu pronunciamento, Luciano destacou que, na agitação das grandes cidades, muitas vezes as pessoas se sentem sós e, no desespero, pensam em atos extremos, como o suicídio. Para o deputado, os voluntários do CVV conseguem chamar muitas pessoas de volta à vida e, por isso, merecem todo o respeito da sociedade.

A organização, fundada em São Paulo, surgiu no Recife em 1979, e atende, por mês, cerca de 1.500 pessoas com dificuldades emocionais. Um dos fatos que demonstra a relevância do trabalho realizado pelos atendentes do CVV é o índice de 20% no número de suicídios na cidade, na última década, inferior ao do País, que aumentou 35%, no mesmo período. Na capital pernambucana, o posto da entidade funciona na Avenida Manoel Borba, no bairro da Boa Vista, e é mantido pelos próprios voluntários, que totalizam 50.

Segundo o deputado Zé Maurício, do PP, que presidiu a cerimônia, milhares de vidas foram salvas com o trabalho realizado pelo Centro. A coordenadora da entidade no Recife, Karina Soares, recebeu uma placa comemorativa da Assembleia e agradeceu a iniciativa da Casa. Segundo ela, a instituição tem o trabalho de dialogar e oferecer apoio psicológico e emocional a todos que buscam ajuda.

Leia abaixo a íntegra do pronunciamento de Luciano durante a sessão solene.

“O deputado José Maurício (PP) certamente expressou de maneira concisa elementos essenciais acerca do Centro de Valorização da Vida, do seu papel, da sua importância e as razões, as múltiplas razões, que a Alepe reuniu para neste instante homenagear o CVV pela passagem do seu cinquentenário. Eu me permito aqui acrescentar à síntese apresentada pelo presidente desta sessão, algumas poucas considerações que me parece oportuno fazê-las para que nós tenhamos toda dimensão da importância, do valor, do trabalho realizado pelos voluntários do CVV, seus amigos, seus apoiadores, em todo o País.

Penso que nós temos, os brasileiros, razões de sobra para comemorar uma nova fase de crescimento econômico, de desenvolvimento que nosso País começa a viver, em particular a nossa região, e especialmente o Estado de Pernambuco, fruto de decisões políticas que alteraram por inteiro as abordagens do desafio do desenvolvimento de forma que nós temos acompanhado a multiplicação de inciativas, o alargamento das atividades econômicas, das oportunidades de trabalho, os sinais claro de progresso sobre o território brasileiro.

Há motivos de sobra para comemorarmos essas conquistas e motivos de sobra para lutarmos para que esse processo seja duradouro e se dê com distribuição de renda, com valorização do trabalho, com sustentabilidade ambiental, enfim que possa produzir felicidade humana, progresso social. Mas, é preciso também anotar, ao lado da verificação dessas conquistas, desses avanços, alguns problemas essências da condição humana que nos afligem a nós brasileiros de todas as partes, mas, sobretudo, aos habitantes das médias e grandes cidades que tem tudo a ver com a obra, a missão e o papel do CVV.

Sobretudo a partir dos anos 1930 do século passado, quando tomou corpo o processo de industrialização do Brasil, ocorreu aqui como em qualquer parte do mundo, que a indústria tinha como foco principal a cidade e como ocorreu em toda parte isso atraiu gente da zona rural para as cidades em busca de uma oportunidade de trabalho, processo esse agravado no Brasil pela a inexistência de uma reforma agrária distributiva que rompesse com o monopólio da propriedade territorial tal como aconteceu nos Estados Unidos, em uma parte importante da Europa e outras partes do mundo. Isso significou manutenção do monopólio da propriedade territorial rural, um fator a mais de transferência de brasileiros da zona rural para as cidades.

De tal maneira, que em 50 anos, um lapso de tempo recorde se comparado com o mesmo fenômeno ocorrido em outros países do mundo, se inverteu a equação entre a população urbana e a população rural. No final dos anos 1920, inicio dos anos 1930, em grosso modo, 20% da população brasileira vivia nas cidades e 80 % no campo. Cinquenta anos depois, 20% da população brasileira se mantiveram na zona rural e 80% nos aglomerados urbanos.

Os estudiosos desse fenômeno, os urbanistas em particular, costumam cunhar esse fenômeno com a expressão “explosão urbana”, que aconteceu sem que as nossas cidades estivessem preparadas para acolher tanta gente, de tal forma que, com raríssimas exceções, as cidades brasileiras sofreram uma ocupação desordenada do solo e mesmo cidades previamente planejadas como Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Goiânia (GO) e Aracaju (SE) também tiveram seus parâmetros de funcionamento, considerados razoáveis para uma boa condição de vida, atropelados pelo fenômeno do êxodo rural.

E nesse ambiente e em um Brasil extremamente urbanizado há o progresso, a conquista da melhoria das condições de vida das pessoas, mas há também o incremento da concorrência, da disputa, da competição, o sentimento de insegurança não apenas em relação a possibilidade de manter os postos de trabalho conquistados, mas também a insegurança em função da violência criminal nos ambientes urbanos. Tudo isso concorre para que no ambiente, sobretudo, das cidades grandes e médias, mas não só delas, os brasileiros se sintam constrangidos, se vejam acometidos da angústia, da ansiedade e muitas vezes da falta de perspectivas.

De tal maneira que resultante disso há um fenômeno, um sinal de infelicidade urbana com o qual todos nós convivemos, que é a solidão. A solidão não apenas daqueles que estão circunstancialmente condenados a viver sozinhos, mas a solidão que contamina a vida de milhares e milhões que estão cercados de familiares, de amigos de trabalho, escola, muitas vezes pessoas reconhecidas pela sua competência, mas que não encontram no ambiente em que vivem a condição, a confiança para dividir com aquele que está próximo suas angústias mais profundas, seus desassossegos, mas também a esperança, a expectativa.

Então, não é incomum nós termos na sala ao lado em nosso ambiente de trabalho pessoas que sofrem ou nós mesmos estarmos momentaneamente sofrendo por algo que nos inquieta, nos preocupa e que nos atinge, e ali conversarmos uns com outros, mas não há um diálogo, não há troca, não há compartilhamento de sentimentos essencial para que o indivíduo se sinta parte de um todo, tenha a sensação de pertencimento ao aglomerado humano. Certa vez, quando vice-prefeito do Recife, eu recebi em nosso gabinete um querido amigo, um excelente médico, extraordinário romancista, cronista e dramaturgo, Ronaldo Correia de Brito, autor de muitas obras celebradas, entre as quais o romance Galileia e o Baile do Menino Deus, hoje convertido no Auto de Natal, todo fim de ano, ali no Marco Zero, uma obra produzida e encenada em diversos países.

E durante meu diálogo com Ronaldo Brito, em um dado instante eu disse: “Ronaldo, eu creio que o traço mais marcante, a expressão mais precisa da condição humana, o que há de mais precioso na condição humana é a solidariedade”. Ele disse: “Eu acho que não, é algo muito maior”. E eu disse: “Como assim? Lá em casa educamos duas filhas sempre entendendo a solidariedade como um bem maior, ao ponto de que se uma dissesse para outra que não estava sendo solidária a reação seria agressiva, pois estava atingindo aquilo que lhe parecia ser a pior coisa”.

Aí Ronaldo Brito disse: “Não é a solidariedade, é a compaixão”. E eu certamente fiz uma expressão no rosto de estranheza e ele disse: “Não é compaixão no sentido vulgar da palavra, de ter compaixão de alguém, de ter pena de alguém, o sentido preciso do termo compaixão é colocar-se no lugar do outro para compreender suas circunstâncias, suas motivações, suas crenças, seus valores, e até entender porque aquele alguém pensa e age daquela forma ou experimenta sentimentos daquele tipo, quer nós concordemos ou não”.

Por acaso, tinha uma revista Carta Capital em cima do meu birô com uma matéria de capa que se referia a homens e mulheres-bomba do Oriente Médio. Então, para completar o argumento Ronaldo Brito disse: “Veja, Luciano, este caso aqui. Sei que você não faria isso, eu também não faria, mas exercitemos nesse momento a compaixão, procuremos nos colocar no lugar dessas pessoas, que pertencem a um povo ao qual estão negando um território para que eles vivam como nação e que adota uma crença religiosa segundo a qual aquele que dá a vida pelo seu povo vai ver imediatamente o seu deus, Alá. Quando essas pessoas se deixam explodir, os familiares choram a dor da perda, da saudade, mas também ficam orgulhosos, pois teve um ente querido entre seus familiares que teve a coragem de dar a vida pelo povo, pelo seu deus. Se nós exercitamos a compaixão nesse caso, mesmo discordando dessa atitude, é bem capaz de nós não as consideramos pessoas loucas, mas pessoas que foram capazes de praticar um ato extremo de amor”.

Por que eu faço esses comentários? Porque refletindo sobre o trabalho que vocês do CVV realizam, eu disse a pouco em uma entrevista para a televisão que esta Casa já homenageou personalidade, já homenageou muitas instituições privadas, públicas, de diversas naturezas, empresas, instituições de ensino, instituições de pesquisas e hoje está homenageando uma instituição cuja razão de ser se confunde com a própria condição humana.

E eu dizia então na televisão: “Penso que hoje nós aqui estamos homenageando na pessoa de 1.700 a 1.800 voluntários do CVV a capacidade de brasileiros e brasileiras de credos religiosos distintos, de diferentes compreensão política dos fenômenos do dia a dia, de diferente condições sociais, mas brasileiros que foram tocados pela função do CVV e ajudaram o CVV a cumprir sua obra.

Portanto, homens e mulheres que tem ou não plena consciência, na verdade praticam seus plantões com paixão, sem opinar, sem fazer juízo de valor e sem nenhum gesto ou palavra que signifique direcionar o raciocínio de ninguém, porém oferecendo apoio aos angustiados, aos desesperados, a muitos que às vezes na angústia, no desespero acentuado por não se sentirem encorajados a conversar sobre sua dor com os amigos, com os parentes, com aqueles que estão por perto, chegam a pensar de atentar contra a própria vida e talvez como ultima alternativa de dialogo ligam para o CVV, simplesmente para terem do outro lado da linha alguém que os escute com atenção, de maneira solidária, paciente. Isso para quem procura o CVV é algo extraordinário.

Quem não se angustiou na vida? Quem não sentiu falta às vezes de quem lhe escutasse, mesmo que não lhe compreendesse? Porque se angustiou, porque tentou dialogar e não encontrou a guarida da paciência, da compreensão, da solidariedade, repito, da compaixão. Certamente, ao comemorarmos os 50 anos existência do CVV nós aqui nesta reunião simples, mas marcada pelo carinho, eu diria até pela amizade que nos une a todos, certamente neste instante a Alepe rende homenagem à capacidade do ser humano de praticar a compaixão e de ajudar aqueles que os procuram.

Fonte: Site de Siqueira, com informações da Alepe.

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