A
Comissão
Política
Nacional
do PCdoB realizada
em
Brasília na
semana
passada
(dias
2 e 3),
além
de
deliberar
sobre
a
ação
para
barrar
a
ofensiva
eleitoreira
oposicionista,
aprovou
um
documento
sobre
a
luta
anti-racista no Brasil. Veja
abaixo
o
seu
texto
integral.
"A
luta
contra
o
racismo
é
parte
integrante
do
projeto
de
emancipação
nacional
e
social"
"O combate ao racismo é parte integrante
do projeto de emancipação nacional e
social que fundamenta a própria existência
do Partido Comunista do Brasil. Por isto
mesmo, trata-se de uma luta que envolve
todo o coletivo partidário, e não apenas
os militantes que atuam na frente
específica de combate às manifestações de
racismo contra os negros brasileiros. É
uma luta dos trabalhadores e de todo o
nosso povo. Além disso, é uma luta
libertadora de toda a humanidade, de todos
os povos, é ao mesmo tempo uma causa
internacionalista.
A plataforma política e de ação dos
comunistas na luta contra o racismo no
Brasil vincula-se às formulações
programáticas e táticas do Partido. Estas
atualmente afirmam a centralidade da
questão nacional na luta para derrotar a
agenda neoliberal e imperialista. O
enquadramento político do combate ao
racismo, portanto, deve situar essa luta
nas singularidades que marcam a formação
social do Brasil, contribuindo para a
construção, consolidação e triunfo de uma
agenda nacional de superação do
neoliberalismo, e que abra a perspectiva
de luta pelo socialismo renovado e de
feição brasileira.
Apreender a singularidade de uma formação
social concreta exige, na melhor tradição
do pensamento marxista, o exame das
mediações que se estabelecem entre o
complexo de modos de produção e reprodução
da vida material em determinada sociedade
e a subjetividade social que se torna
dominante no seu interior. Tal
subjetividade inclui valores,
manifestações culturais, formas de
relacionamento interpessoal, psicologia
social e individual etc.
A singularidade da formação social
brasileira é resultado das próprias
particularidades que marcaram a
colonização portuguesa na América. Entre
estas, se destaca o dilema da ocupação e
colonização de terras gigantescas ? e da
sua incorporação aos novos circuitos
globais de comércio ? a partir de uma base
populacional extremamente reduzida na
metrópole. Decorre disto o formato de
poligamia patriarcal opressora assumido
pela colonização escravocrata como prática
de ocupação e dominação. O domínio de
classe confundiu-se, durante todo o
período escravista de nossa história, com
a opressão racista que subordinou
indígenas e africanos escravizados ao
colonizador europeu. O racismo é um
aspecto fundamental do domínio de classes,
sendo a faceta cruel da opressão social
que complementa e reforça o domínio
classista.
Estas marcas de nascença deixaram um
legado contraditório na sociedade
brasileira. O Brasil é uma Nação forjada
pelo nosso povo com muitas lutas e
sacrifícios. Sobre as bases da
embrutecedora violência escravocrata,
difundiu-se forçadamente a miscigenação e
formou-se uma subjetividade própria que
fundiu elementos da cultura indígena e
africana aos da cultura portuguesa
dominante (ela mesma fruto de uma singular
fusão de elementos europeus e norte
africanos na península ibérica).
Estes traços nacionais originais
sobreviveram à própria ordem escravocrata
e foram enriquecidos (mas não decompostos
ou suplantados) pelas levas de imigração
(européia, árabe e asiática) que
acompanharam, em seguida, a gênese do
capitalismo no país.
Esse processo que foi criando o povo
brasileiro, através dos séculos, ainda
está em curso. Porém, mesmo ainda em
formação, nosso povo possui uma identidade
nacional e cultural, somos um povo-nação.
Conforme assinala o documento “500 anos de
luta”, do Comitê Central do PCdoB, o
“processo histórico desta formação foi
doloroso, brutal, marcado pela escravidão
e pela violência, condicionado pelos
interesses de uma elite colonizada”.
Todavia, o resultado é “um povo novo, uno,
com um modo original de afirmar sua
identidade”.
A mestiçagem, fenômeno objetivo e
cultural, é um dos elementos fundamentais
do processo que nos tornou brasileiros.
Independente das aparências físicas
diferenciadas, nas quais sobrevivem as
ancestralidades de nossas matrizes, não há
grupos étnico-nacionais que disputam
autonomia frente ao Estado brasileiro,
como é comum em vários países.
No entanto, essa situação singular do
Brasil não configurou uma “democracia
racial”. A origem escravista de nosso país
deixou, igualmente, um duplo e perverso
legado racista. O primeiro, fruto do
projeto das classes dominantes desde a
escravidão, é um racismo estrutural que
preserva ampla predominância de negros nas
camadas mais pobres e oprimidas da
população (ou seja, mesmo com a
miscigenação, o capitalismo brasileiro
manteve e realimentou o recorte racista da
nossa estrutura de classes).
O segundo é um racismo de caráter
ideológico explícito (embora, em geral,
não assumido) que, apesar da decisiva
contribuição dos africanos para a nossa
identidade nacional, intenta legitimar-se
associando a imagem do negro a condições
de inferioridade, a manifestações
irracionalistas ou a comportamentos
anti-sociais.
O duplo legado racista na sociedade
brasileira, e a nossa singularidade
nacional, impõem aos comunistas uma
política original e propriamente
brasileira de combate ao racismo, que
articule políticas públicas universais e
específicas. É necessário defender e
implementar políticas universais de cunho
social, isto é, de redistribuição de
riqueza e renda, e de garantia de serviços
públicos e direitos sociais.
Considerando a existência das
desigualdades sociais descritas acima, e o
entrelaçamento da opressão de classe,
racista e de gênero na nossa sociedade, as
políticas públicas específicas de combate
ao racismo são imprescindíveis. Para o
avanço da luta pela igualdade social entre
todos os brasileiros, é preciso inclusive
propor o tratamento desigual e favorável
daqueles que estão em situação desigual.
Entretanto, do ponto de vista político,
uma política nacional de combate ao
racismo deve unir o povo contra os
mecanismos capitalistas que estruturam e
reproduzem a marginalização de grande
parte dos negros brasileiros,
historicamente vitimados pela desigualdade
social. Desse modo, essa política deve
buscar a ampliação da consciência dos
trabalhadores sobre a opressão de classe e
o entrelaçamento desta com a opressão
racista, estimulando o reforço da
solidariedade entre os trabalhadores e
evitando a exacerbação de tensões
particularistas no seio de nosso povo que
impeçam a construção de um projeto
nacional contra-hegemônico.
É preciso defender a implementação de
políticas que, para além de combater
manifestações racistas explícitas ou
veladas em todas as dimensões da vida,
promovam ativamente uma imagem positiva
dos negros no imaginário social,
destacando tanto a sua participação
decisiva na construção da nacionalidade
quanto a sua presença na sociedade atual.
O resgate simbólico e material do
componente negro da nossa formação social
parte da valorização da natureza mestiça
da sociedade e do povo brasileiros. Essa
condição original do Brasil nos fornece
uma base mais sólida para a superação do
racismo, a democratização das relações
sociais e a promoção de valores humanistas
em nosso país, ao contrário do
essencialismo multiculturalista de fundo
racial difundido entre nós pelos aparelhos
ideológicos do imperialismo.
Tal concepção multiculturalista absolutiza
as diferenças culturais, tornando-as
antagônicas, promovendo a fragmentação e
legitimando o conceito de políticas
focalizadas e compensatórias, dentro da
perspectiva neoliberal de Estado. O
imperialismo investe na segmentação da
sociedade brasileira, é a velha política
imperial de dividir para reinar.
A mais ampla e sólida unidade popular e
patriótica é imprescindível para
avançarmos na luta antiimperialista e pelo
socialismo renovado no Brasil. Os
comunistas brasileiros compreendem a luta
anti-racista como elemento intrínseco da
sua luta libertadora, herdeira do brado de
Palmares."
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• Secretária dos
Movimentos Sociais
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