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Brasil, quinta-feira, 28 de agosto de 2008
A atuação dos comunistas no movimento popular comunitário em um novo ciclo político brasileiro


A Comissão Nacional de Movimentos Sociais Populares do Comitê Central debateu e aprovou este texto que versa sobre a atuação do PCdoB no movimento comunitário. Nosso objetivo é aprofundar o debate iniciado no Encontro Partido e Movimentos Sociais, realizado em Dezembro de 2004, agora especificamente do movimento comunitário.

Breve histórico

O movimento comunitário teve origem na década de 30 em processos organizados pelas camadas médias e pelas elites brasileiras como um movimento de lazer, convívio de moradores de bairros centrais e espaços coletivos de confraternização. Ainda hoje muitas associações de moradores e sociedades amigos de bairro limitam-se a esse papel.

Com o desenvolvimento industrial do País, a concentração do proletariado em cidades que se tornaram pólos industriais e o grande êxodo rural -- que gerou o adensamento urbano dessas cidades transformando-as em grandes e médias -- iniciou-se um processo de organização de entidades comunitárias em locais desprovidos de serviços públicos, onde esse proletariado passava a residir.

Com a ditadura militar, a partir de 1964 militantes sindicais e partidários que tinham direitos políticos cerceados começaram a jogar importante papel na luta popular de bairros, contribuindo assim para politizar e fortalecer o espírito combativo do movimento. Lutas históricas como a luta contra a carestia, contra a panela vazia e outras contribuíram no fortalecimento da luta que enfraqueceu e depois derrotou a ditadura.

A Confederação Nacional de Associação de Moradores, CONAM, foi fundada em 1982, fruto desse rico período de mobilização popular no período da redemocratização do País. Desde sua fundação, a entidade teve a participação de várias correntes políticas e ideológicas que representam o que é a realidade política da base do movimento.

O PCdoB esteve presente com suas lideranças populares no congresso de fundação da entidade no Estádio do Pacaembu em SP. O Partido participou da primeira diretoria da entidade através de camaradas como Inácio Arruda (na época da Federação de Bairros e Favelas de Fortaleza) e João Bosco (São José dos Campos).

No inicio da década de 80 surgiu um grande movimento, dirigido por setores da Igreja Católica e do recém fundado PT, no sentido de fundar a ANAMPOS (Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindicais), que congregou, em caráter suprapartidário no seu início, militantes e entidades da cidade e do campo. Por falta de unidade e em decorrência de uma postura sectária, as entidades sindicais fundaram na época duas centrais sindicais -- CUT e CGT -- e o movimento popular urbano se dividiu em setores – PT -- que continuaram na ANAMPOS e depois na Comissão Pró-Central de Movimentos Populares, e outros setores -- PCdoB, PMDB, PSB e PCB -- que dois anos depois fundaram a CONAM.

A acertada política de alianças, a nossa unidade de ação e uma atuação enraizada dos militantes do Partido no movimento permitiu o crescimento de nossa influencia e participação, o que resultou em sucessivas vitórias em federações estaduais, uniões municipais e em várias entidades na base do movimento. Isso refletiu em nossa atuação no âmbito nacional permitindo que no ano de 1986 o Partido fosse vitorioso no Congresso da CONAM elegendo vários diretores e a presidência da entidade que passou a ser exercida pelo camarada João Bosco de 86 a 89.

Nesse período o Governo Sarney implementou o programa de tíquete de leite para famílias carentes que recebiam 30 tíquetes de leite mensais. Esses tíquetes eram distribuídos por entidades comunitárias. O programa por um lado fortaleceu entidades, e por outro incentivou a criação de entidades cartoriais que cumpriam esse único objetivo.

O crescente trabalho partidário nessa frente contribuiu para que sucessivamente as propostas, plataformas e chapas apresentadas e defendidas pelo Partido fossem vitoriosas nos congressos de 89 e 92, elegendo chapas encabeçadas pelo camarada Vladimir Dantas; nos congressos de 95 e 99 elegendo o camarada Edmundo Fontes; e no congresso de 2002 elegendo a chapa presidida por Wander Geraldo com mandato até maio de 2005.

O inicio dos anos 90 foi marcado pelo grande abaixo-assinado que reuniu mais de 1 milhão de assinaturas de eleitores (no abaixo assinado era obrigatório constar o nº do titulo de eleitor), dando origem ao primeiro Projeto de Lei de Iniciativa Popular (PL 2710/92). A CONAM, a Central de Movimentos Populares, o Movimento Nacional de Luta pela Moradia e a União Nacional de Moradia Popular, setores da igreja católica e partidos políticos foram principais responsáveis por essa ação. Doze anos depois (2004) essas forças políticas foram novamente responsáveis por um processo de mobilização que levou a aprovação do projeto na Câmara dos Deputados, e este vai agora para o Senado Federal.

No período final da década de 90, outra vitória importante foi a aprovação do Estatuto das Cidades, que além das inúmeras mobilizações contou com uma grande articulação com a Câmara dos Deputados, tendo o ex-diretor da CONAM, hoje Deputado Federal Inácio Arruda jogado papel importante na época em que presidiu a Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara.

Em 1995 o PCdoB realizou um debate mais aprofundado sobre os rumos da atuação da CONAM em tempos de neoliberalismo e de governo FHC, e passou a haver desde então um maior acompanhamento do trabalho de nossa militância nessa frente.

A nova realidade do movimento comunitário

Identificamos três períodos de ascensão das lutas no movimento popular comunitário. O primeiro compreendeu a fase de luta contra a ditadura, a fundação da CONAM, a campanha pelas diretas já, a Constituinte e a luta pelo impeachment de Collor, até o inicio dos anos 90. Foram momentos de grandes mobilizações populares em que a CONAM participou ativamente e cresceu muito nesse processo. Seus congressos massivos eram grandes eventos políticos não só do movimento comunitário, pois também atraíam lideranças políticas, sindicais, etc.

O segundo período se dá com a ascensão do projeto neoliberal, a eleição de Collor e os dois mandatos de FHC, período esse que foi de retrocesso na luta política, na mobilização de massas e nas conquistas do nosso povo. Nesse período a marca principal das lutas no País foi a resistência ao neoliberalismo e a oposição ao Governo FHC. Apesar das dificuldades e de alguns reveses, a parcela politizada do movimento se articulou no Fórum Nacional de Lutas. Nesse período em nível nacional a CONAM participou da coordenação do FNL, e articulou e mobilizou sua base na luta contra o governo de FHC, em especial na Marcha dos 100 mil a Brasília.

Com a implementação da política neoliberal em nosso País acentuou-se a crise econômica e social em nosso País. Hoje mais de 80% da população vive em áreas urbanas cada vez menos atendidas por direitos sociais básicos para uma qualidade de vida digna. Aumento do desemprego, crescimento do déficit habitacional, sucateamento dos serviços públicos de saúde e educação, entre tantas outras mazelas, foram fermento para um grande conjunto de novas organizações, movimentos específicos e de luta para a população que enfrenta essa dura realidade.

Hoje são inúmeras as mobilizações da população nas lutas pelo direito à moradia que de forma mais ampla é a luta pela Reforma Urbana (envolve as lutas por saneamento básico e ambiental, e por transporte público com qualidade e a preço acessível). Em segundo lugar está a luta em defesa da saúde publica e do SUS, e em menor grau de articulação as lutas pelo acesso a cultura e ao esporte.

A CONAM na década de 90 realizou quatro congressos (92, 95, 99 e 2002) e em seu 7º Congresso realizado em 95 aprovou a ampliação de suas formas de representação incorporando aos seus quadros de entidades filiadas movimentos que lutam por esses direitos e não somente as associações de moradores e sociedades amigos de bairros, muitas vezes engessadas e burocratizadas em estruturas dirigidas por setores conservadores. Com isso foi possível articular novos setores populares e formar um conjunto de novas lideranças em todo o País.

O conjunto do movimento comunitário enfrenta hoje uma série de dificuldades: o desemprego em massa; o aumento da miséria; o descrédito nas organizações políticas e sociais; o estimulo às práticas e ao espírito individualista disseminado pelo neoliberalismo; o crescimento do crime organizado que exerce influência direta na vida da população em bairros e favelas; a ação direta de algumas ONG’s que buscam substituir não só o estado, mas também as lideranças populares, com discurso e prática de luta por conquistas específicas sem vínculos com partidos e lutas políticas mais gerais; a crescente influência das seitas evangélicas que distanciam a população da luta pela vida na Terra; e tantas outras conseqüências têm dificultado cada vez mais as ações de milhares de lideranças populares comunitárias que lutam por melhoria na qualidade de vida do povo e pelos seus direitos.

A eleição de Lula – novo período de lutas

Nesse sentido consideramos que a eleição de Lula abre a perspectiva de um terceiro período nas lutas do movimento comunitário em nosso País, em meio a um novo ciclo político. A construção de um novo rumo de desenvolvimento econômico e social com soberania e participação democrática somente será vitorioso com um amplo processo de politização, mobilização e organização do povo brasileiro, em especial os trabalhadores. Nesse processo os comunistas e seus aliados jogarão papéis fundamentais.

Torna-se desafio de maior grandeza politizar a luta dos movimentos populares comunitários em todo o País, exercer um papel de mobilizar massivamente homens e mulheres na luta pelos seus direitos, buscando vincular a luta específica com o nosso projeto político mais geral. Formar consciência crítica junto ao povo e formar um grande contingente de novas lideranças comunitárias politizadas e combativas serão ações importantes para que o movimento comunitário, em conjunto com outros setores organizados da sociedade, possa de forma ampla e unificada travar novas e grandes batalhas políticas.

A ampliação e o fortalecimento da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), que articula, unifica e mobiliza entidades e movimentos sindicais, de trabalhadores sem-terra, estudantis, da luta comunitária, de mulheres, negros e tantos outros, será fundamental nesse sentido.

A atuação da CONAM hoje
Como já foi dito, a CONAM tem como principal bandeira mobilizadora a luta pelo direito à moradia, vinculando-a ao conceito mais amplo de luta pela Reforma Urbana, que envolve a luta pelo transporte e pelo saneamento básico e ambiental. Nesse ponto vale ressaltar a campanha pela aprovação do PL 2710/92, que cria o Fundo e o Conselho Nacional de Moradia de Interesse Social, hoje em tramitação no Senado Federal, e que irá garantir uma agenda de mobilizações. Também tem prioridade nas ações da entidade a luta em defesa do SUS e da saúde pública de qualidade. Além dessas, porém em menor grau de mobilização, a entidade tem inserção nas lutas por cultura, esporte, e ainda participa da luta por emprego. Impulsiona também a participação popular na elaboração de políticas públicas em todos os níveis.

Atualmente, a CONAM tem associadas a ela 22 federações estaduais que congregam mais de 550 uniões municipais de associações de moradores. Esse universo representa algo em torno de 20.000 entidades locais. Dessas, 10.000 se cadastraram e participaram do ultimo Congresso da CONAM realizado em junho de 2002.

Nas lutas políticas unificadas a CONAM integra a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) em nível nacional e em vários Estados participa da coordenação. A entidade participou das 5 edições do Fórum Social Mundial, fazendo parte do Comitê Organizador Brasileiro na 5 ª edição, e do Fórum Social Brasileiro.

No âmbito das lutas sociais específicas a entidade participa do Fórum Nacional de Reforma Urbana e do Fórum Brasileiro de Orçamento, tem assento no Conselho Nacional de Saúde com 1 titular e 2 suplentes e no Conselho Nacional das Cidades com 5 titulares e 5 suplentes.
Os desafios da nossa atuação no movimento comunitário
Torna-se necessário construir um movimento comunitário forte e politizado capaz de aglutinar e articular os movimentos e as lutas específicas ligando-as à luta política mais geral expressa hoje na união do povo em defesa de um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho, que passa por bandeiras políticas importantes como: a soberania nacional; a luta contra a ALCA, pela integração da América Latina; contra os acordos lesivos com o FMI; pelo aumento real do poder de compra dos salários; não à autonomia do Banco Central e pela baixa dos juros que afetam diretamente o setor produtivo da economia e o bolso dos trabalhadores; pela redução do superávit primário e ampliação dos investimentos públicos em setores estratégicos ao desenvolvimento como infra-estrutura, habitação, saneamento e transportes, que diretamente influenciam na geração de emprego; e pela universalização dos direitos sociais como saúde e educação.
Considerando a realidade política que vive o Brasil, em especial após a eleição e posse de Lula na Presidência da República, a polarização de projetos políticos para o País e a correta análise de que as mudanças de rumo que o Brasil tanto necessita somente acontecerão se ocorrer uma ampla mobilização popular, é fundamental que as instâncias de direção partidária debatam a nossa intervenção política nos movimentos populares com o objetivo de o PC do B jogar um maior papel de protagonismo político no movimento de massas.

Mais do que debater a participação do PCdoB no processo do 9º Congresso da CONAM, que será realizado no período de 15 de fevereiro a 8 de maio (etapa municipal) e de 26 a 29 de maio de 2005 (plenária final) e terá como Lema: Em defesa do Brasil, da reforma Urbana e dos Direitos Sociais; consideramos necessário que o coletivo partidário participe na elaboração dos objetivos políticos do movimento comunitário, da plataforma e das bandeiras e formas de luta, na formação política de milhares de lideranças que participarão do processo congressual desde a base até a plenária final, na articulação de milhares de militantes do PCdoB que atuam de forma espontânea no movimento, na filiação e incorporação de várias lideranças comunitárias ao Partido e conseqüentemente na ampliação política e organizativa da nossa intervenção nessa frente de luta.

A CONAM, as entidades estaduais, municipais e locais do movimento comunitário em que temos influência e lideranças devem ser propulsoras de um movimento em defesa dos interesses mais legítimos do nosso povo e na luta por um novo projeto nacional de desenvolvimento. O movimento comunitário em nosso País deve se transformar em escola de luta política do nosso povo e esse processo só pode ter sucesso se dirigido por uma força política coesa, coerente e revolucionária como a nossa.
Isso significa uma elevação no nível de elaboração, de atuação e direção do movimento por parte de todos (as) os (as) comunistas. Temos que melhorar nosso nível de articulação e buscar conduzir um amplo processo que politize as entidades em que atuamos na direção, que envolva um maior número de lideranças comunitárias no debate sobre essa nova realidade política e com isso fortaleçam essa discussão e essa luta envolvendo os homens e mulheres que vivem nos bairros e favelas de nossas cidades.

Partido para a luta e na luta estruturar o Partido

Como apontam as resoluções do 1º Encontro nacional sobre Questões de Partido, realizado de 5 a 7 de Março de 2004 em Brasília, além da contribuição política no sentido de elevar o nível de politização e mobilização do movimento comunitário, é também nosso objetivo no bojo desse processo fortalecer a construção partidária, filiando e organizando um grande número de lideranças no Partido antes e durante o processo de realização do 11º Congresso do PCdoB.

Devemos participar das plenárias que vão eleger delegados(as) ao 9º Congresso da CONAM com fisionomia própria do Partido, divulgando A Classe Operária e nossos jornais, em especial o jornal nacional específico para as lideranças e ativistas do movimento comunitário.

Ainda antes do 11º Congresso do Partido, e durante o processo congressual da CONAM, precisamos convidar milhares de lideranças que circulam em nosso raio de influência a filiarem-se e organizarem-se no Partido. Levando em conta o fato de já serem lideranças de massa, é necessário dar atenção à efetiva incorporação dos novos filiados às Organizações de Base, para que estas planejem e executem ações que contribuam na construção do Partido e no fortalecimento das lutas populares. Temos colhido alguns frutos nesse sentido em determinados Estados no último período, porém ainda há muito por fazer.

Algumas medidas para alcançarmos os objetivos propostos nesse documento:

• Realizar Encontros Estaduais com o objetivo de debater a atuação do Partido junto ao movimento popular comunitário e o plano estadual de participação no 9º Congresso da CONAM nos meses de março e abril.

• Elaborar uma plataforma política de ação que oriente o conjunto numeroso de militantes do Partido que atua no movimento comunitário e, desde já, contribua com propostas ao 9º Congresso da CONAM. Construir alianças políticas em torno dessa plataforma e de uma agenda de mobilizações com o conjunto de forças políticas populares e democráticas que atuam na CONAM e na base do movimento.

• Articular as lutas específicas do movimento comunitário com a mobilização política em torno das mudanças de rumo do País, contra o imperialismo e em defesa de um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho, contra o modelo neoliberal, a partir principalmente da agenda da CONAM e da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS).

• Fortalecer, democratizar e renovar as linhas de atuação nas entidades em que atuamos (nos níveis nacional, estadual, municipal e de base do movimento). Elevar o nível de consciência política de um maior número de lideranças populares nessa frente, formando e renovando as lideranças.

• Realizar através das entidades associadas à CONAM o mais diverso e amplo processo de aglutinação, envolvimento, mobilização e politização dos trabalhadores e do povo que vive nos mais diversos bairros do nosso País, através de plenárias, festas, e outros meios.

• Participar das plenárias de eleição dos delegados (as) ao 9º Congresso da CONAM com fisionomia própria, divulgando os materiais do Partido, em especial o jornal específico para a filiação de milhares de lideranças e ativistas do movimento comunitário ao PCdoB. Organizar os atuais e novos filiados no processo de debate do 11° Congresso do Partido.

• Valorizar a atuação da militância comunista que atua na frente, visando superar uma certa subestimação sobre o papel desse movimento na luta política em nosso País.

• Fortalecer o debate político e a atividade das Frações de comunistas que atuam nas entidades comunitárias, em conjunto com os respectivos Comitês partidários.

• Mapear a realidade do movimento comunitário e de nossa presença nesse movimento, em nível nacional e nos Estados, fazendo a reconstituição histórica da nossa atuação nessa frente.

Comissão Nacional de Movimentos Sociais Populares

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Secretária dos Movimentos Sociais

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