Nova pagina 1

 Fale conosco | Filie-se | História do PCdoB |

  9ª Conferência | Notícias

PCdoB - Partido Comunista do Brasil
Ir para a página inicial do Vermelho
A esquerda bem informada

Brasil

Brasil, sábado, 11 de outubro de 2008
 A atuação do PCdoB
nos movimentos sociais na atualidade


Encontro Nacional sobre a atuação do Partido nos movimentos sociais
10 a 12 de dezembro de 2004


O Partido Comunista do Brasil tem a convicção de que nossa atuação nos movimentos das massas populares tem caráter estratégico, é imprescindível para o alcance de nosso objetivo programático. Somente no desenvolvimento continuado dessa atividade de massas nosso Partido cumprirá seu papel histórico, pois as massas populares são verdadeiras protagonistas da luta emancipadora.

Essa ação entre os movimentos sociais é sempre política, pois somos um partido político. Daí a necessidade de desenvolvermos as especificidades de nossa linha para esses movimentos como parte fundamental de nossa política. Um esforço coletivo como esse é também teórico, exigindo uma abordagem marxista, brasileira e contemporânea.

Nossa política é uma só e, quando não incorpora ou quando subestima essa importante dimensão da ação partidária, corremos o risco de prejudicar ou até mesmo de truncar o crescimento da influência do Partido no meio do povo. O Partido só influenciará e mobilizará politicamente grandes contingentes se estiver mergulhado nos movimentos sociais.

O trabalho político do Partido nas lutas sociais está intimamente ligado à construção partidária. Comitês e Organizações de Base distantes da vida sócio-política e cultural e da luta do povo brasileiro são como peixes fora d’água.

Em 2005 alcançaremos 20 anos de legalidade do Partido Comunista do Brasil, feito histórico. Nesse período atuamos com mais liberdade, fato ainda mais acentuado no novo ciclo político aberto com o Governo Lula. Na vida política legal a força do PCdoB não é medida somente pelo desempenho eleitoral, mas também pela influência política, pela capacidade de mobilização de massas e pelo contingente militante, dentre outros fatores.

A presença na direção de entidades e movimentos também expressa nossa força, mas é um meio e não um fim. Precisamos discutir nossa política a partir da realidade do povo brasileiro e de suas lutas, movimentos, ações e campanhas, bem como da perspectiva desses. É através da luta e da própria experiência que se dá o aprendizado das massas populares e o avanço de sua consciência política.

Alguns traços dos movimentos sociais no capitalismo contemporâneo

Os movimentos populares expressam as contradições da sociedade capitalista. Essas contradições específicas estão relacionadas, de forma direta ou mediada, com as contradições de classe. A seguir tentamos fazer uma periodização da história dos movimentos sociais no último século, em cinco grandes períodos:

a) do final século 19 ao início do século 20, desde a Comuna de Paris até a Revolução de 1917;
b) a fase da experiência soviética, dos movimentos como organizações de massa de trabalhadores, jovens e mulheres, hoje tidos em geral como “tradicionais”;
c) a fase dos anos 60 e 70, quando surgem ou são relançados os “novos” movimentos sociais (culturais, feministas, pela livre orientação sexual, anti-racistas, ambientalistas e outros); nesse período exercem forte influência sobre os movimentos sociais as lutas de libertação nacional e, em particular, as revoluções chinesa e cubana;
d) os anos 80 e 90: derrota histórica com a queda da URSS e dos regimes do Leste Europeu; defensiva estratégica; impulso da concepção neoliberal de “sociedade civil” e difusão das ONGs;
e) virada do século 21, quando ganha força a resistência contra o neoliberalismo e a guerra, os chamados movimentos “antiglobalização” e o Fórum Social Mundial; no Brasil esse período é marcado pela vitória de Lula.

A periodização acima ajuda a entender que as transformações objetivas do capitalismo e as vicissitudes da luta socialista nas últimas décadas modificaram sobremaneira a realidade social e propiciaram o surgimento de novas manifestações subjetivas. Longe de tornar o marxismo e o movimento comunista irremediavelmente defasados, como querem os ideólogos do capital financeiro, esses novos fenômenos confirmam e agravam a crise civilizacional do capitalismo contemporâneo.

No âmbito dos movimentos sociais surgem e são relançados movimentos relacionados a temas como direitos humanos, cultura, orientação sexual, cidadania, etnia/raça (negros, indígenas), e o movimento feminista e de mulheres; difundem-se as ONGs, renovam-se ações sociais voluntárias, comunitárias, cooperativas e de “economia solidária”, entre outras.

Alguns apressam-se em dizer que, com tal fragmentação em novas “identidades” e com a despolitização dos movimentos, os comunistas – ao contrário do que aconteceu durante boa parte do século passado – seriam incapazes de voltar a ter grande influência nos movimentos, e em particular nos chamados “novos movimentos sociais”. O intelectual Boaventura de Souza Santos aposta que “são tão variadas as lutas e as propostas de resistência que nenhuma vanguarda as pode unificar”.

Nossa tática deve ser a unidade na diversidade, para superar a dispersão e a fragmentação dos movimentos, que são próprias de uma fase de retomada da resistência. Essa situação pode se alterar com o tempo, pois o movimento tende a se unificar e a se politizar. Isso será tanto mais verdadeiro quanto mais gozar de influência a vanguarda comunista.


Movimentos sociais e luta de idéias

A situação atual exige dos marxistas cabeça aberta para entender e atuar nesta nova realidade política e social do século 21, fazendo a análise concreta da situação contemporânea. No processo de reafirmação e atualização do marxismo é preciso ter abertura para compreender os novos fenômenos.

Tratando-se do tema movimentos sociais, é preciso reafirmar e atualizar o marxismo na polêmica com o pós-modernismo multiculturalista, corrente ideológica contemporânea cuja influência é significativa nos movimentos sociais, em termos mundiais e no Brasil. Em polêmica frontal com o marxismo, essa corrente nega as categorias principais da teoria revolucionária.

A luta de idéias hoje é intensa. As forças reacionárias buscam, através dela, neutralizar e desviar a crescente resistência. Por isso intensifica-se o debate sobre a estratégia política, o programa e a classe revolucionária, bem como sobre a necessidade (ou não) da conquista do poder político.

Desde o 8° Congresso afirmamos que a frente essencial de luta é a frente teórica, a luta para superar a crise do marxismo. Contribuir para o desenvolvimento da teoria revolucionária é tarefa importante dos comunistas brasileiros. Trata-se de um esforço de abrangência internacional, que compreenderá todo um período histórico, mas no qual é preciso trabalhar desde já.

Lênin, em “O que fazer”, já afirmava que “sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário” e que “só um partido guiado por uma teoria de vanguarda é capaz de preencher o papel de combatente de vanguarda". Lênin criticava o "culto da espontaneidade" e a subestimação do fator consciente, representado pelo Partido Comunista. Ao analisar a complexa relação entre o fator consciente e o movimento espontâneo das massas, Lênin definiu o espontâneo como a forma embrionária do consciente. Todo movimento é ao mesmo tempo espontâneo e consciente, relativamente mais ou menos consciente.

Em seu texto “A unidade do movimento comunista”, João Amazonas reforça a necessidade de fazermos “grandes esforços no campo teórico, ligado à prática revolucionária, para superar a crise do marxismo (...) A crise do marxismo favorece o culto à espontaneidade no movimento de massas (...) Precisamos usar a linguagem nova da teoria atualizada. Com as velhas fórmulas não se vai adiante”. Em outro texto, denominado “Socialismo no século 21”, afirma que as lutas espontâneas contra o neoliberalismo irão crescer. “Entretanto” – diz ele – “muitos desses movimentos sociais carecerão de perspectiva política mudancista, enquanto perdure a crise do marxismo”.

Uma importante tarefa do Partido é estudar a realidade das classes sociais, em especial o proletariado, e a situação dos movimentos populares no Brasil de hoje, as entidades, as lutas, ações e campanhas e suas perspectivas. O nosso mergulho nos movimentos sociais só terá fôlego se acompanhado de um esforço teórico coletivo.

O tema dos movimentos sociais polariza as atenções de boa parte da intelectualidade e é um dos elementos centrais do debate teórico-político atual, no Brasil, na América Latina e no mundo.


A situação internacional e os movimentos sociais

Estamos diante de uma nova situação internacional. A ofensiva imperialista em toda a linha é brutal. Ao mesmo tempo, uma nova onda de resistência com variados matizes, formas e conteúdos, contra a globalização neoliberal, acontece em várias partes do mundo, e particularmente na América Latina.

Desde as mobilizações de Seattle, nos EUA, em 1999, contra a “mercantilização do mundo” – que combateram os acordos assimétricos da Organização Mundial do Comércio, a OMC e as transnacionais – até a extraordinária e sincrônica mobilização mundial de 15 de fevereiro de 2003 – outro marco importante da luta contra a globalização neoliberal –, houve um avanço importante da consciência antiimperialista.

O 15 de fevereiro de 2003 foi a maior mobilização simultânea, com a mesma bandeira, em toda a história da humanidade. Ela reuniu milhões e millhões de pessoas em mais de 70 países. A luta anti-imperialista focalizou seu alvo no imperialismo dos EUA, mais precisamente no governo de George W. Bush, recentemente reeleito, e em sua política guerreira.

Criada em janeiro de 2003 em Porto Alegre, durante o 3º FSM, a Rede Mundial de Movimentos Sociais foi a principal organizadora da exitosa mobilização de 15 de fevereiro de 2003. A Aliança Social Continental, que coordena a campanha continental contra a ALCA e que vem realizando encontros anuais em Havana, Cuba, também faz parte da Rede.

Os encontros internacionais de movimentos sociais e o processo do Fórum Social Mundial têm sido, além de uma plataforma unitária dos que lutam contra a globalização neoliberal e imperialista, também um campo da batalha de idéias sobre a alternativa à globalização imperialista.

Em nosso continente vivemos um período de ascenso das lutas contra o neoliberalismo. Em vários países amadurecem condições objetivas que resultam em explosões populares insurrecionais. Com a derrota de alguns governos neoliberais também estamos vivendo novas experiências de governos progressistas que tentam encontrar uma alternativa à política neoliberal, passando inclusive pelo esforço de integração regional. Mesmo assim, essas lutas de resistência e essas vitórias eleitorais não reverteram o quadro geral de defensiva estratégica.

Somos internacionalistas e acreditamos que as mobilizações antiimperialistas são cada vez mais continentais e mundiais. Mas é principalmente no âmbito de cada Estado Nacional que os povos acumulam forças e avançam no rumo do socialismo renovado.


A relação partido e movimentos sociais

Movimentos sociais e mobilização política de massas são conceitos distintos. Os primeiros existem independente da atuação das forças políticas, enquanto que a mobilização política de massas depende, além das condições objetivas, da ação de partidos, de correntes políticas. A diferença fundamental é o elemento consciente, que de nossa parte representa a infusão de nosso projeto político no movimento.

As mobilizações sociais – se não contestam o poder político dos neoliberais e não interagem com os partidos e organizações políticas mediante uma estratégia política comum – na prática e objetivamente acabam sem conquistar o objetivo político maior.

Na América Latina os partidos progressistas e os movimentos sociais tiveram e têm, em geral, relação solidária, intensa e complementar na luta antiimperialista e antineoliberal, inclusive em momentos de viragem política revolucionária.

Os movimentos sociais organizam o povo para lutar pelas suas necessidades e expressam seus anseios com autonomia. Se há papéis distintos, é preciso contudo unidade na luta entre organizações políticas e movimentos sociais. Devemos conceber e praticar a necessária autonomia recíproca entre movimentos sociais e Governo-Estado, entre partidos e Governo-Estado e entre movimentos e partidos.

É necessária uma convivência frutífera entre os partidos antineoliberais e antiimperialistas e os movimentos sociais. Na América Latina as lideranças dos movimentos sociais são em grande parte militantes e dirigentes de forças políticas (de movimentos políticos e partidos).

Um dos casos mais expressivos é o do Brasil. Não por acaso nasceu aqui o Fórum Social Mundial. Partidos e movimentos também participaram unidos da construção da inédita vitória popular de 2002, quando elegemos Lula para a presidência da República.

Ideólogos de inspiração pós-moderna e neozapatista rotulam os partidos como invenções eurocentristas de séculos passados, e reduzem a "forma partido" a uma idéia alienígena imposta aos povos de nossa região.

Propõem também o afastamento das lideranças dos movimentos das “vias institucionais” da política, da luta pelo poder político, que seria inevitavelmente um instrumento de cooptação e traição das reivindicações e da luta dos movimentos. Queiram ou não, na prática aceitam que a burguesia continue no poder.

O líder zapatista Subcomandante Marcos, em entrevista a um jornal mexicano, afirmou: “O fim é diferente. O revolucionário tende a se converter em político, e o rebelde social nunca deixa de ser um rebelde social”.

Não se pode recusar a conquista do poder político para a realização das transformações revolucionárias. O poder dos imperialistas só se enfrenta com um outro poder, com Estados nacionais e com a integração continental, com o poder dos trabalhadores e do povo, e há que se ter uma estratégia nacional para isso, em cada país, ao mesmo tempo em que se deve reforçar a solidariedade e as mobilizações internacionais.

Os comunistas devem mergulhar nos movimentos populares, mas sem cair no espontaneísmo de submeter-se ao “movimento”. Tampouco podem querer submeter os movimentos populares, ferindo sua autonomia.

Em “A Miséria da Filosofia”, Marx assertou: “Não digas que o movimento social excluiu o político. Não há jamais movimento político que, ao mesmo tempo, não seja social”.

O povo brasileiro e sua formação sócio-cultural

A subjetividade do brasileiro inclui valores, manifestações culturais, formas de relacionamento interpessoal, características psicológicas sociais e individuais, etc. Nosso povo é animado por um espírito de rebeldia que pode ser flagrado, de forma límpida e cristalina, em nossa cultura popular.

O Brasil é uma nação forjada pelo povo com muitas lutas e sacrifícios. O processo histórico que foi criando o povo brasileiro, através dos séculos, ainda está em curso. Mesmo ainda em formação, nosso povo já possui uma identidade nacional. Temos uma identidade cultural, falamos a mesma língua, somos um povo-nação, “um povo novo, uno, com um modo original de afirmar sua identidade e assimilar as diferenças” (“500 anos de luta”, documento do Comitê Central do PCdoB).

A mestiçagem, um fenônemo objetivo, é o cerne do processo que nos tornou brasileiros. Independente das aparências físicas diferenciadas – nas quais sobrevivem as ancestralidades de nossas matrizes –, do racismo existente em nossa sociedade e de um variado leque de subculturas regionais, não há grupos étnico-nacionais que disputem autonomia frente à Nação brasileira, como é comum em vários países. As únicas exceções são os indígenas, cujos direitos estão previstos na Constituição.

A vertente do pós-modernismo multiculturalista difundida entre nós pela embaixada dos Estados Unidos da América, sustenta que o Brasil é um país pluriétnico e multicultural. Haveria assim várias identidades culturais e étnicas no Brasil. O imperialismo investe na fragmentação e na segmentação da sociedade brasileira. É a velha política imperial de dividir para reinar.

Remando em sentido contrário, os comunistas lutam para forjar a mais ampla e sólida unidade popular e patriótica, elemento imprescindível para avançarmos na luta antiimperialista e por um Brasil socialista.

O conceito de movimentos sociais populares

O conceito de movimentos sociais precisa ser explicitado para que não haja confusão. Quando nos referimos a movimentos sociais estamos falando de movimentos sociais populares, ou simplesmente movimentos populares, subentendida aqui a noção marxista de povo.

As categorias trabalho e progresso social são imprescindíveis para a compreensão da noção marxista de povo. Daí porque os pós-modernos trabalham com os conceitos de “cidadão” e de “multidão”, negando a teoria marxista das classes sociais.

Enquanto categoria marxista a noção de povo é historicamente concreta e diferente da de população. Na tradição marxista o povo compreende o proletariado e demais classes e camadas sociais interessadas no progresso social, em determinado país e em certo período. Sendo assim, no Brasil de hoje as massas populares são as forças do trabalho e as forças democráticas, patrióticas e progressistas.

Outro conceito muito difundido, inclusive por setores da esquerda, é o de “inclusão/exclusão social”, que por vezes também é utilizado para negar o potencial revolucionário do proletariado e para substituí-lo pelos “excluídos”, que seriam o novo sujeito revolucionário. A esquerda católica, que adota o conceito de “excluídos”, tem contribuído para reduzir a noção de povo e de movimentos populares às camadas pobres e miseráveis da população e seus movimentos.

No Brasil também é comum a mídia referir-se à “classe média”, ou “classes A, B, C, D, E”, dividindo a sociedade por faixas de renda e/ou escolaridade. Embora a renda possa ser um dos parâmetros para a definição marxista de classe social, termos como “classe média” não correspondem exatamente ao que a teoria marxista das classes define como camadas intermediárias. A dita “classe média” é composta majoritariamente por trabalhadores com um rendimento acima da média. Isso porque no Brasil os salários são muito baixos, e a renda é muito concentrada.


Um breve histórico das recentes lutas de nosso povo

Entre os últimos anos da década de 70 e o final dos anos 80 o Brasil conheceu um ascenso das lutas populares, a resistência à ditadura militar, a luta pela anistia, por liberdades democráticas e pela Constituinte, o movimento contra a carestia, as grandes greves do ABC paulista, as mobilizações pelas diretas já, a luta para garantir vários direitos democráticos e sociais novos na Constituição de 1988 e a campanha da Frente Brasil Popular.

Já nos anos 90, em geral, houve um declínio das greves e manifestações populares em relação ao período anterior, exceção feita ao movimento do Fora Collor!. Surgiram outras formas de organização popular, como os fóruns, a exemplo do Fórum Nacional pela Reforma Urbana. Os movimentos também envolveram-se mais na elaboração e na participação em políticas públicas nas esferas federal, estadual e municipal, como os conselhos e conferências – destacadamente na área de saúde.

De meados dos anos 90 até nossos dias as maiores mobilizações populares com motivações políticas foram a Marcha dos 100 mil (organizada pelo Fórum Nacional de Lutas em 1999), a campanha pelo Fora FHC!, as lutas contra as privatizações, as três edições do Fórum Social Mundial, os plebiscitos sobre a dívida externa e a ALCA.

Outras lutas específicas aconteceram, com maior ou menor sentido político, como foram as greves e lutas da CUT, as manifestações estudantis pela reforma universitária, por educação pública e passe estudantil lideradas pela UNE e pela UBES, as greves dos caminhoneiros, as jornadas de luta pela terra e pela reforma agrária (MST e Contag, principalmente), as lutas das mulheres como a Marcha das Margaridas e a conferência nacional que elaborou uma plataforma feminista para as eleições de 2002, a criação da Conen e as atividades movimento anti-racista como a comemoração dos 300 anos da luta de Zumbi dos Palmares, o Grito dos Excluídos, as lutas por moradia conduzidas pela CONAM e outras entidades, e várias outras.

Também houve grandes mobilizações de caráter cultural, como apresentações artísticas vinculadas a movimentos, manifestações religiosas e pelos direitos dos homossexuais, além do 1º de maio da CUT e da Força Sindical. Essas têm sido as maiores mobilizações dos últimos anos.

Desde o Fora Collor!, movimento que resultou no impeachment do presidente Collor de Mello, tivemos inúmeras lutas mas não tivemos mobilizações populares de mesma ou de maior importância política. Vivemos um período de relativo refluxo.

Esse refluxo deve ser avaliado em termos históricos e relativos, pois na década de 90 houve uma corajosa resistência, que realizou várias manifestações politizadas e combativas. É interessante observar a interação cooperativa que houve no Brasil nos anos 90 entre os partidos antineoliberais e os movimentos sociais populares.

No Brasil também surgem novos fenômenos na vida social. Movimentos originais despontam; outros são relançados e aparecem como novos. A realidade viva também faz nascer formas organizativas, de manifestação e de luta inéditas. Ao mesmo tempo em que novos movimentos culturais surgem entre os jovens das periferias, as escolas de samba, torcidas de futebol, igrejas e terreiros continuam a ter grande peso na vida social do brasileiro.

Os fóruns e redes se multiplicam, utilizando a internet como instrumento de articulação entre os movimentos e as ONGs. Desde os anos 80, com a redemocratização, e em especial a partir da Constituição de 1988, cresceu muito a participação popular em conselhos e conferências de políticas públicas, em especial com o Governo Lula.


Maioria do povo não participa de movimentos sociais

A maioria do povo não participa de movimentos e entidades associativas. Essa afirmação baseia-se nas pesquisas disponíveis, que revelam que a maioria dos brasileiros não tem atividade associativa permanente.

As pesquisas revelam que somente de 10% a 20% dos brasileiros participam de movimentos associativos. Entre as atividades principais estão as de caráter religioso, assistencialista e voluntário, cultural e esportivo. Sindicatos e associações profissionais, entidades comunitárias e estudantis, organizações não-governamentais (ONGs) e conselhos de políticas públicas também são destacados como espaços de participação.

As pesquisas também indicam baixo envolvimento em temas políticos. Menos de 5% participam de partidos. Em geral, o nível de cultura política e de organização da grande maioria de nosso povo é baixo, mesmo com um passado e um presente de rebeldia e lutas sociais.

A grande maioria do povo encontra-se abandonada nas periferias das cidades, sem vivência sócio-política organizada, oprimida e em grande parte marginalizada. Envolver essa massa e organizá-la na luta por reivindicações concretas é um desafio para os comunistas.

A emergência do misticismo e da prática religiosa reforça as igrejas, em especial as evangélicas. O tráfico de drogas e o crime organizado já controlam grandes áreas das periferias urbanas, cerceando violentamente a democracia nos bairros e manietando as organizações populares.

As reivindicações sociais do povo são destinadas, em geral, a governantes e parlamentares; em menor medida as pessoas buscam organizar-se em algum movimento coletivo. Está claro que os movimentos sociais precisam desenvolver a capacidade de serem canais de luta por essas reivindicações, de participação popular.


A força política dos movimentos populares brasileiros

Apesar do que foi dito acima, o Brasil é tido por muitos pesquisadores como um dos países de maior nível de atuação e de organização dos movimentos populares em nível mundial. De fato, é inegável a força, a riqueza e a complexidade dos movimentos sociais brasileiros. Nossos movimentos sociais revelaram e revelam lideranças e militantes capazes, em quantidade. Contudo, não chegam a envolver e organizar a maioria do povo. Esse é um dos temas que merece maior aprofundamento em nosso debate.

A vitória de Lula em 2002 tem muito a ver com a trajetória de lutas dos movimentos populares brasileiros, e com as grandes mobilizações políticas do povo contra o neoliberalismo e pelas mudanças.

Nos dois primeiros anos de Governo Lula, os movimentos sociais estiveram ativos. Variadas greves e jornadas de luta foram realizadas pelos movimentos organizados, com níveis diferentes de politização. Ainda assim, há muitas dificuldades e por enquanto não se acumularam as condições para grandes mobilizações unitárias de caráter político que possa impulsionar as mudanças.



Os comunistas e os movimentos sociais no governo Lula


De acordo com as resoluções da 9ª Conferência do Partido, somente com mobilização popular poderemos impulsionar o Governo Lula no sentido das mudanças. Os movimentos populares serão imprescindíveis nessa luta política contra o continuísmo. Eles podem representar as forças motrizes da mudança, ajudando na construção de uma nova correlação de forças.

Atravessamos uma transição na qual há luta política e de idéias entre as forças progressistas e os setores conservadores. Como parte dessa luta, está havendo e haverá diálogo democrático com o Governo Lula. A par dos consensos e do diálogo também há e haverá críticas e mobilizações pelas mudanças. Nesse processo é preciso evitar a cooptação, a omissão e o atrelamento, por um lado, e por outro também o voluntarismo, o infantilismo esquerdista e a prática oposicionista em relação ao Governo Lula.

Vivemos um dos momentos de maior democracia na história do Brasil. O ineditismo da situação política que vive o Brasil com o Governo Lula possibilita uma elevação do nível de consciência e organização do povo brasileiro e exige uma nova atitude, uma posição combativa e conseqüente por parte dos movimentos sociais.

Ao mesmo tempo em que devem manter com firmeza sua independência em relação ao novo governo federal – uma posição própria e autônoma, sintonizada com os interesses do povo –, os movimentos sociais devem tensionar pela implementação das mudanças e formular propostas alternativas.

O Partido vem insistindo no fato de que sem mobilização popular o Brasil não realiza o programa de mudanças. Um movimento cívico de massas é decisivo para obtermos êxito na superação do modelo neoliberal. Para a conquista de um novo modelo de desenvolvimento com soberania nacional, democratização política, valorização do trabalho, distribuição de renda e mais e melhores políticas sociais será necessária a mudança de rumo.

A realidade indica que, na fase atual, a construção de uma alternativa ao neoliberalismo compreende uma luta difícil e prolongada, que pode ir além deste mandato do Governo Lula. Temos o desafio de unir forças políticas, sociais e intelectuais de caráter democrático, patriótico e progressista para assegurar a maioria social, política e parlamentar às forças mudancistas.

Para isso precisamos encarar seriamente, com decisão política, a nossa atuação nas plataformas unitárias dos movimentos sociais, com centralidade para a Coordenação dos Movimentos Sociais – a CMS.

A situação política depois das eleições municipais de 2004 revela um equilíbrio de forças entre os conservadores e os mudancistas. Há um novo quadro político, um realinhamento de forças e antecipa-se o debate sobre as eleições de 2006. Desde a eleição de Lula – a primeira viragem que abriu um novo ciclo histórico – a luta política e ideológica é mais dura. As forças neoliberais tentam voltar em 2006 e as forças da mudança buscam ampliar sua influência, tendo como objetivo uma segunda viragem.


Nossa plataforma e nossas bandeiras

Politizar os movimentos hoje significa relacionar as lutas específicas por reivindicações parciais à luta pela independência nacional e por um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho. As bandeiras de luta atualmente são parte desse novo projeto nacional. Além das bandeiras justas e de métodos de organização e formas de luta adequados, eficientes e inovadores são necessários meios de financiamento e base material.

Nossa política para os movimentos sociais não é outra política, mas a mesma defendida pelo Partido, porém com especificidades e mediações, e resguardando a autonomia dos movimentos, para que estes expressem a vontade dos trabalhadores e do povo. Os comunistas defendem a nossa política e disputam a direção das lutas, respeitando a democracia interna do movimento.

O problema maior, para os comunistas, talvez não seja o de compreender a necessidade da autonomia dos movimentos, mas o de como adequar nossa política às especificidades do movimento social. Os movimentos e entidades populares têm autonomia, mas os comunistas que atuam nos movimentos sociais não têm “autonomia” para defender e praticar uma outra política.

Hoje passamos de uma fase de luta de resistência ativa durante os governos neoliberais para uma fase de luta pelas mudanças em um período de transição. Na atualidade, a questão nacional tem centralidade. Uma maior democratização e a ampliação das conquistas sociais somente se darão em um contexto de soberania e independência da Nação brasileira. Sem Estado Nacional não há alternativa ao neoliberalismo.

No novo momento político que vivemos, a plataforma e as bandeiras de luta mudam. Agora é preciso lutar pela implementação de bandeiras da fase anterior e formular novas propostas, articulando todas através do eixo de um projeto nacional de desenvolvimento. As formas de luta e de organização também mudam e precisam ser mais amplas e participativas.

A plataforma com temas candentes definida pelo Partido recentemente e as bandeiras atuais da Coordenação dos Movimentos Sociais são um ponto de partida que temos para definirmos melhor as bandeiras unificadoras para o presente período.


Reforçar a atuação do Partido nos movimentos sociais

É preciso conscientemente conferir maior atenção à atuação partidária nos movimentos populares. É necessário fazer um maior esforço teórico, político e organizativo nesse sentido, e investir mais quadros, meios e recursos.

Para avançarmos na construção de um grande Partido Comunista não podemos ser imediatistas. O trabalho político dos comunistas deve partir de uma visão estratégica, com horizonte histórico, e desenvolver-se pacientemente no sentido de elevar a consciência e a organização do povo.

Nosso trabalho político deve ser pensado, planejado e realizado de forma integral, levando em conta todas as frentes de intervenção política. O trabalho político de massas abrange tanto as mobilizações políticas próprias das bases militantes do Partido quanto a participação política dos militantes comunistas nas organizações e nas lutas populares.


Aumentar nossa influência e construir bases políticas de massa

O Partido ainda é pequeno em termos eleitorais. A par disso, é um dos partidos com maior presença nos principais movimentos sociais, embora ainda não possua grande capacidade de mobilização de massas.

O PCdoB precisa ampliar o raio de sua influência política, construir mais bases próprias de massa identificadas com a sua política e com sua proposta socialista. Essas bases políticas entre as massas são fundamentais, inclusive para aumentar a força eleitoral dos comunistas.

Para ampliar e consolidar essas bases políticas temos que renovar autocriticamente nossas concepções e métodos de trabalho, superando visões elitistas e sectárias, autosuficientes, e concepções espontaneístas. Como canta Milton Nascimento, é preciso ir aonde o povo está, com capacidade de expressar nossa política de forma clara e acessível, realizando um trabalho planejado, tenaz e perseverante.

Necessitamos de milhares de militantes comunistas que sejam tribunos populares, como dizia Lênin, verdadeiros líderes das lutas populares. Estamos propondo um movimento cívico nacional, e para isso precisamos ir muito além de mobilizar personalidades e pessoas de prestígio.

Sem mobilizar as amplas massas nesse sentido não teremos êxito em nosso propósito. E, no caso do Partido, o exemplo para os militantes deve partir sempre dos quadros mais destacados, que devem compreender profundamente e serem capazes de orientar na prática a nossa linha de massas.


Os comunistas e a Coordenação dos Movimentos Sociais - CMS

A história do Brasil está repleta de experiências de unidade popular:
campanhas, movimentos, frentes e fóruns que unificaram grandes massas do povo brasileiro em torno da luta pela independência nacional, pela democracia e pela igualdade social.

Durante os anos neoliberais de FHC o Fórum Nacional de Lutas por Trabalho, Terra e Cidadania (FNL) foi a plataforma que unificou os movimentos sociais mais avançados e progressistas. A situação política e a necessidade de resistência ao neoliberalismo levavam a uma grande unidade no posicionamento político.

O FNL era um fórum que claramente fazia oposição às políticas do Governo FHC. Havia diferenças, é óbvio, mas o que prevalecia era a unidade. Fruto também das lutas do FNL – entre as quais se destaca a Marcha dos 100 mil sobre Brasília – e de outras lutas históricas logramos eleger Lula presidente em 2002.

Está em curso um processo de redefinição política e de recomposição dos movimentos sociais, diante do novo ciclo político vivido pelo Brasil. Já na campanha eleitoral de 2002 começou um processo de crescente diferenciação política entre as lideranças e as forças políticas que faziam parte do FNL.

A posição em relação ao novo Governo Lula e ao caráter da transição para um novo projeto nacional de desenvolvimento dividiu as águas. Dessa diferenciação resultaram até agora basicamente três posições políticas e três campos nos movimentos sociais.

A primeira surgiu ainda na campanha eleitoral de 2004 e declara-se abertamente de oposição ao Governo Lula, não enxergando nele qualquer possibilidade de transição. No segundo turno das eleições 2004 pregou o voto “crítico” e o voto nulo e, na prática, ajudou o PSDB e as demais forças de direita. Setores trotskistas, principalmente o PSTU, adotam uma tática de divisão dos movimentos, e anunciaram sua saída da CUT e da UNE.

A segunda não vê necessidade, na prática, de mobilizações populares para impulsionar a transição e as mudanças. Acredita que o Governo Lula fará as mudanças sem precisar das lutas populares, das quais desconfia por achar que toda e qualquer luta de massas deva ter necessariamente caráter oposicionista.

A posição da qual comungam os comunistas parte da consciência de que não há mudanças mais profundas sem a mobilização popular. As lideranças que defendem essa posição apóiam o Governo Lula, lutam para impulsionar a transição para um novo modelo de desenvolvimento com valorização do trabalho, e por isso consideram imprescindível para o êxito do Governo Lula a mudança de rumo.

Dessa posição, e com o apoio dos comunistas, surgiu a Coordenação dos
Movimentos Sociais, a CMS, para unificar novamente em lutas comuns, na fase política atual, as mais importantes organizações populares brasileiras. No âmbito da CMS destacam-se a CUT, o MST e a UNE, entre dezenas de outras.

Não devemos poupar esforços para ampliar e fortalecer a CMS, envolvendo outros movimentos e organizações populares. O mesmo deve ser feito nos estados e nos municípios, onde é possível enraizar a Coordenação. Todavia, sem o concurso maior do PT, que é força hegemônica na maioria dos movimentos sociais progressistas no Brasil, a tarefa será mais difícil.

Das entidades nacionais que fazem parte da CMS, o Partido tem participação na direção nacional da CUT, UNE, UBES, CONAM, UBM, Unegro/Conen e Cebrapaz, entre outras.


Unificar o trabalho de direção partidária

A orientação política para os movimentos deve ser parte essencial da direção geral do Partido e de sua tática. Deve ser pautada e discutida nos Comitês do Partido. Entre as reuniões da direção, é importante, no que for necessário, promover a unificação do trabalho partidário de direção nos movimentos sociais, com a articulação entre a Secretaria Sindical, a Secretaria de Juventude e a Secretaria de Movimentos Sociais, em cada nível de direção.

Essas secretarias devem coordenar suas ações e as frações e áreas de trabalho de massas. As medidas concretas propostas em nível nacional, estadual e municipal são:

1. discussão nos Comitês do Partido;

2. coordenação do trabalho partidário de direção nos movimentos, envolvendo as três secretarias ligadas ao trabalho de massas – a Secretaria Sindical, a Secretaria de Juventude e a Secretaria de Movimentos Sociais Populares –, bem como suas comissões e frações;

3. controle da participação e acompanhamento da intervenção dos comunistas na Coordenação dos Movimentos Sociais e nos fóruns e campanhas unitárias, como o processo FSM e a campanha contra a ALCA.


O Partido intervém policamente hoje na luta dos trabalhadores, atuando na Corrente Sindical Classista (CSC); no movimentos estudantil e nos movimentos juvenis, através da União da Juventude Socialista (UJS); mas também atua em variados movimentos. Por isso é importante fazermos uma sistematização inicial agrupando os diversos movimentos populares brasileiros em áreas de trabalho. Entendemos aqui as entidades, campanhas, redes e organizações não-governamentais como formas organizativas, não como áreas de trabalho.

O Partido tem atuação em todas as áreas a seguir, embora com nível bastante diferenciado. As áreas são:

1. movimento sindical dos trabalhadores urbanos e rurais, do mercado de trabalho formal; associações e conselhos profissionais; entidades e movimentos de aposentados;
2. movimento de trabalhadores do mercado informal; de desempregados; de “economia solidária” e cooperativista;
3. movimentos de luta pela reforma agrária e agricultura familiar;
4. movimento estudantil universitário e secundarista;
5. demais movimentos juvenis;
6. movimento comunitário e pela reforma urbana;
7. movimento pela emancipação das mulheres;
8. movimentos pela igualdade racial (principalmente a lutas dos negros)
9. movimento pela livre orientação sexual;
10. movimentos indígenas;
11. movimentos de solidariedade internacional e luta pela paz, e contra o “livre comércio” e as dívidas;
12. educação, ciência e tecnologia;
13. movimento pela saúde pública;
14. micro e pequenos empresários urbanos;
15. esporte e lazer;
16. movimento ambientalista;
17. movimentos em defesa dos direitos da criança e do adolescente, dos idosos, dos portadores de defi