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Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico -
Friedrich Engels
Nereide Saviani
Texto & Contexto
Em 1875, Eugênio Dühring, professor da Universidade de Berlim,
<Figura>publicou um livro que daria conta de uma teoria socialista e de um
plano de reorganização da sociedade. Uma tentativa de chamar a seu redor
setores do movimento operário para enfraquecimento do Partido Socialista da
Alemanha, que vinha se tornando uma potência. Engels escreveu uma série de
artigos com severas críticas às pretensões reacionárias desse escritor,
reunindo-os em um livro sob o título "A subversão da Ciência pelo senhor
Eugênio Dühring", publicado em 1878, que passou a ser conhecido como Anti
Dühring. Em 1880, Engels destacou três capítulos desse livro para ser
publicado em um folheto sob o título "Do Socialismo Utópico ao Socialismo
Científico".
» Anote mais
sobre o contexto: Prefácio à edição inglesa.
O Texto
Estruturado em três capítulos.
No Capítulo I, Engels assinala os méritos das teorias socialistas do
passado (principalmente as dos socialistas utópicos) e discute seus limites e
equívocos, salientando que, "para converter o socialismo em ciência era
necessário, antes de tudo, situá-lo no terreno da realidade".
No Capítulo II, sintetiza características do método dialético (em
oposição ao metafísico) e da concepção materialista (em oposição à
idealista), mostrando que é a concepção materialista de história (o
materialismo dialético-histórico) que permite a análise científica do modo
capitalista de produção, o entendimento de como se dá a exploração do
trabalho sob esse regime e a demonstração da necessidade e possibilidade de
sua superação. "Desse modo o socialismo já não aparecia como a
descoberta casual de tal ou qual intelecto genial, mas como o produto
necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente: o
proletariado e a burguesia".
No Capítulo III, analisa as contradições básicas do capitalismo (capital
x trabalho, burguesia x proletariado) e suas manifestações no conflito entre
as forças produtivas e as relações de produção: "a incompatibilidade
entre a produção social e a apropriação capitalista"; "o
antagonismo entre a organização da produção dentro de cada fábrica e a
anarquia da produção no seio de toda a sociedade". Enfatiza a revolução
proletária como ato que socializa os meios de produção, põe fim à anarquia
e inicia a superação da exploração, rumo ao "salto da humanidade do
reino da necessidade para o reino da liberdade". E situa o socialismo
científico como "expressão teórica do movimento proletário" -
capaz de infundir-lhe "a consciência das condições e da natureza de sua
própria ação".
Alguns Destaques
I - O socialismo científico tem suas raízes nos fatos materiais da
sociedade moderna e nas idéias dos grandes pensadores do século XVIII.
· Os socialistas utópicos: Socialistas, porque suas idéias - enquanto
crítica das injustiças e das condições de exploração da sociedade
capitalista - traziam, em germe, posições econômicas e políticas que
apontavam para o fim da exploração do homem pelo homem. Utópicos, no sentido
de vislumbrar uma ordem social ideal, não realizável nas condições concretas
em que viviam.
· Traço comum entre eles: não atuavam como representantes dos interesses do
proletariado - "suas teorias incipientes refletem o estado incipiente da
produção capitalista e a incipiente condição de classe" (o proletariado
ainda não despontara com ação política própria). Predominavam, em suas
teorias:
- a reiteração das idéias da revolução francesa: império da razão e da
justiça eterna - instauração de um Estado racional, capaz de ajustar a
sociedade aos ditames da razão;
- a constatação de que as instituições sociais e políticas reais não
correspondiam às idealizadas pelos revolucionários burgueses;
- a idéia de que as injustiças seriam corrigidas se aparecesse um gênio capaz
de convencer os homens sobre a verdade, enfim descoberta;
- a pretensão de tirar da cabeça a solução para os problemas sociais e
traduzi-la em experiências que pudessem servir de modelo para um sistema mais
perfeito de ordem social.
Principais idéias
a) Saint-Simon (1760-1825) - intelectual de origem nobre.
- somente os que trabalham podem usufruir dos bens da sociedade: "todos os
homens devem trabalhar";
- necessidade da luta dos "trabalhadores" (os operários assalariados,
mas também os fabricantes, comerciantes e banqueiros) contra os
"ociosos" ( a nobreza, o clero e todos os que viviam de renda, sem
atuar na produção ou no comércio);
- a Revolução Francesa como luta de classes entre a nobreza, a burguesia e os
despossuídos; segundo Engels, "uma descoberta verdadeiramente genial"
para a época;
- a política como ciência da produção - em germe, a noção da situação
econômica como base das instituições políticas e a idéia de
"abolição do Estado".
b) Fourier (1772-1837) - escritor, crítico da sociedade burguesa.
- crítica das condições sociais existentes - desmascarando a falácia do
discurso burguês;
- crítica das relações entre os sexos e da posição da mulher na sociedade -
"o grau de emancipação da mulher numa sociedade é o barômetro natural
pelo qual se mede a emancipação geral";
- análise das contradições da civilização - "a pobreza brota da
própria abundância";
- visão dialética - "toda fase histórica tem sua vertente ascensional,
mas também sua ladeira descendente".
c) Owen (1771-1858) - sócio e gerente de uma indústria têxtil.
- defesa de condições humanas de vida e educação aos operários e seus
filhos - com medidas colocadas em prática na sua empresa, uma espécie de
colônia-modelo: jardins de infância, redução da jornada de trabalho,
manutenção de emprego e salário, mesmo em ocasiões de crise;
- constatação de que a filantropia não diminuía a distância entre ricos e
pobres; daí a perspectiva comunista - idéia de reforma social que mexesse na
propriedade privada;
- participação em movimentos sociais e luta por progressos para a classe
trabalhadora: limitação do trabalho da mulher e da criança nas fábricas;
criação de cooperativas de produção e de consumo ("o comerciante e o
fabricante não são indispensáveis");
» Anote outras
idéias dos socialistas utópicos e comentários de Engels sobre seus méritos e
equívocos: Capítulo I.
II - O Socialismo Científico expressa os avanços do pensamento
filosófico, sintetizando, dialeticamente, o materialismo mecanicista francês e
a dialética idealista alemã.
· A elaboração do materialismo histórico só se tornou possível com o
desenvolvimento da filosofia, as descobertas científicas e os fatos históricos
do século XIX e como fruto de uma dupla revolução:
- na concepção da natureza - noção de que a natureza tem sua história no
tempo, com base em descobertas como as de Darwin (1809-1882), mostrando que os
mundos e as espécies orgânicas que os habitam em condições propícias
desenvolvem-se, transformam-se;
- na concepção de história - idéia de luta de classes, com base em fatos
históricos como a insurreição operária em Lyon (1831) e o movimento dos
cartistas ingleses (1838-1842), revelando que a luta entre o proletariado e a
burguesia assumia o primeiro plano da história dos países europeus (nos quais
se desenvolvia, de um lado, a grande indústria e, de outro, a dominação
política recém-conquistada da burguesia).
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Dialética e Metafísica
– métodos de investigação da realidade
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| Dialética |
Metafísica |
| - análise
de conjunto: fatos, fenômenos, processos em sua dinâmica,
substancialmente variáveis (transições,
concatenações, fluxos
e refluxos); |
- análise das
partes: fatos, fenômenos, processos estaticamente, isolados, como substâncias
fixas, (em ciclos estreitos, um após outro, como algo perene); |
| - pólos
antitéticos, mas inseparáveis – penetram-se mutuamente (algo é e
não é ao mesmo tempo). |
- sim ou
não, isto ou
aquilo, é ou não
é, positivo x negativo, causa x efeito. |
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Materialismo e
Idealismo – concepções de mundo, de homem e de sociedade
|
| Materialismo |
Idealismo |
| -
concebe as idéias como imagens mais ou menos abstratas dos objetos e fenômenos
da realidade; |
- concebe as
coisas e seu desenvolvimento como projeções realizadas da idéia, que
lhes antecede; |
| -
explica a consciência do homem por sua existência. |
- explica a existência
do homem por sua consciência. |
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Concepção de História
como movimento da sociedade – análise dialética
|
| Concepção
materialista de história: |
Concepção
idealista de história: |
| -
em cada época, as idéias,
crenças, conhecimentos e instituições jurídicas e políticas
relacionam-se reciprocamente com a base econômica (relações de produção
e de troca). |
- a
produção e todas as relações econômicas só existem como elemento
secundário dentro da “história cultural”. |
» Anote outras
características desses métodos e concepções: Capítulo II .
O desenvolvimento dos métodos de pensamento e das concepções de mundo se
deu não de forma linear e independente, mas de modo dialético, com relações
recíprocas.
a) Já na antiga filosofia grega aparece a dialética, mas ainda
rudimentar, insuficiente para permitir o conhecimento da realidade:
- a ciência progrediu, principalmente a partir do século XV, com o emprego do
método metafísico no estudo de fenômenos particulares;
- esse método, importante nas ciências naturais, foi transportado para a
filosofia, sob a forma do método metafísico de especulação (separação
corpo x espírito, coisa x idéia da coisa, matéria x consciência).
b) A moderna filosofia alemã, especialmente com Hegel (1770-1831),
recupera a dialética
na análise da natureza, da sociedade e do pensamento:
- concebendo como totalidade a natureza, a sociedade e o espírito humano, em
íntima conexão, constante movimento, transformação e desenvolvimento e
examinando a história da humanidade não como caos, mas como processo, que pode
ser acompanhado pelo pensamento, em suas leis internas, suas etapas graduais,
seus desvios;
- Hegel libertou da metafísica a concepção de história, tornando-a
dialética, mas viu-se limitado pelos próprios conhecimentos, pelos
conhecimentos e concepções de sua época e por sua concepção essencialmente
idealista.
c) A consciência da inversão em que incorria o idealismo alemão
levou ao materialismo
histórico, substancialmente dialético:
- concepção da história da humanidade como processo de desenvolvimento,
procurando descobrir suas leis dinâmicas;
- entendimento da luta de classes como fruto das relações de produção e de
troca, refutando as doutrinas burguesas da identidade entre capital e trabalho e
da harmonia universal e bem-estar geral das nações com base na livre
concorrência;
- explicação da relação entre a estrutura econômica e a superestrutura
(instituições jurídicas e políticas, idéias, conhecimentos e crenças) de
cada época histórica.
» Anote outras
características das relações entre dialética, metafísica, materialismo e
idealismo, ao longo da história: Capítulo II
| Socialismo
Utópico |
Socialismo
Científico |
| -
incompatível com a visão materialista de história (do mesmo modo que a
concepção de natureza do materialismo francês não se ajustava à dialética
e às novas ciências naturais); |
-
exposição do modo capitalista de produção em suas conexões históricas,
pondo a nu seu caráter interno, ainda oculto; |
| -
crítica ao modo capitalista de produção existente e suas conseqüências,
mas sem conseguir explicá-lo nem destruí-lo ideologicamente, e também
sem explicar claramente como nascia e em que consistia a exploração da
classe operária. |
-
descoberta da mais-valia – massa cada vez maior do capital acumulado
pelas classes que detêm os meios de produção (na compra da força de
trabalho do operário, o capitalista se apropria do trabalho não pago); |
|
-
reconhecimento do capitalismo como modo de produção necessário para uma
determinada época histórica, demonstrando também a necessidade e
possibilidade de sua superação. |
» Anote outras
características do socialismo científico: Capítulos II e III.
III- O Socialismo Científico explica o modo de produção capitalista,
examinando-o em suas condições e características concretas, captando suas
contradições e apontando para a sua superação.
•
O capitalismo nasceu e desenvolveu-se no seio das
contradições do regime feudal e buscando superar seus entraves:
- sob o regime feudal, a troca, compra e venda de mercadorias permitiam a
satisfação das necessidades dos produtores individuais, numa elementar
divisão social de trabalho, sem plano nem sistema, e a propriedade dos produtos
baseava-se no trabalho pessoal;
- a manufatura e o artesanato, que se desenvolviam sob a influência da
burguesia, chocavam-se com os entraves feudais das corporações e com os
privilégios e vínculos institucionais caraterísticos da ordem feudal;
- no regime capitalista, instituem-se a livre concorrência, a liberdade de
domicílio, a igualdade de direitos dos possuidores de mercadorias; o vapor e a
maquinaria possibilitam a transformação da manufatura em grande indústria e
acelera-se o movimento as forças produtivas; implanta-se a organização
planificada em cada fábrica, revolucionando a produção, tornando-a social -
mantendo, contudo, as formas privadas de apropriação das mercadorias.
» Faça um
quadro comparativo, anotando características do regime feudal e sua
transformação, com o advento do capitalismo. (Capítulo III).
•
Em um nível mais alto de desenvolvimento, a grande
indústria passa a encontrar entraves no modo de produção capitalista:
- o trabalho assalariado torna-se regra e forma fundamental de toda a produção
e converte-se em ocupação exclusiva do operário - expressando o divórcio
entre os proprietários dos meios de produção e os possuidores da força de
trabalho;
- a expansão dos mercados não pode desenvolver-se ao mesmo ritmo que a da
produção, levando a crises, cada vez mais freqüentes;
- aprofunda-se o conflito entre as forças produtivas e as relações de
produção: produção social versus apropriação privada; organização da
produção em cada fábrica versus anarquia da produção no seio da sociedade;
- "o socialismo moderno não é mais que o reflexo desse conflito material
na consciência, sua projeção ideal nas cabeças, a começar pelas da classe
que sofre diretamente suas conseqüências: a classe operária".
» Anote
manifestações das contradições do capitalismo e de suas crises - Capítulo
III.
•
O caráter social das forças produtivas compele à
transformação das relações de produção, que exige a socialização dos
meios de produção.
- no capitalismo avançado, os capitalistas isolados se juntam em sociedades
anônimas e trustes; o Estado - representante oficial da burguesia - toma a seu
cargo o comando direto da produção, mas as forças produtivas mantêm sua
condição de capital (fruto da exploração do trabalho); quanto mais forças
produtivas passam à propriedade do Estado capitalista tanto mais ele se
converte em "capitalista coletivo" e tanto maior quantidade de
cidadãos ele explora;
- a propriedade do Estado sobre as forças produtivas não é a solução para
as contradições do capitalismo, mas abriga já em seu seio o instrumento para
chegar à solução - que exige o reconhecimento do caráter social das forças
produtivas modernas e, conseqüentemente, a harmonização dos modos de
produção, de apropriação e de troca; para isso, só há um caminho: que a
sociedade tome posse das forças produtivas e passe a dirigi-las;
- é necessário termos consciência dessa possibilidade: as forças da
sociedade atuam, enquanto não as conhecemos, de modo cego e violento - mas, uma
vez conhecidas, logo que saibamos compreender sua ação, suas tendências e
seus efeitos, está em nossas mãos sujeitá-las e por meio delas alcançar os
fins propostos;
- o proletariado toma em suas mãos o poder do Estado e principia por converter
os meios de produção em propriedade do Estado; quando não houver mais classe
que precise ser submetida, quando o Estado se converter, finalmente, em
representante efetivo de toda a sociedade, tornar-se-á por si mesmo supérfluo;
o governo sobre as pessoas será substituído pela administração das coisas e
pela direção dos processos de produção;
- apossando-se o proletariado dos meios de produção, a anarquia da produção
social cederá lugar a uma organização planejada e consciente, criando
condições para que os homens comecem a ter plena consciência do que fazem:
donos por fim de sua existência social, tornam-se donos da natureza, senhores
de si mesmos, homens livres.
» Anote
argumentos de Engels sobre: a necessidade de superação do capitalismo; as
condições para essa superação; as tendências do desenvolvimento do Estado e
das relações sociais, sob o socialismo. (Capítulo III)
Atenção!
A afirmação de que o marxismo converteu o socialismo em ciência refere-se
ao esforço teórico para a explicação do modo de produção capitalista, na
perspectiva de sua superação: em especial, a concepção materialista de
história e a revelação do segredo da exploração capitalista através da
mais valia, que devemos a Marx. Longe de constituir-se em verdades prontas e
acabadas, trata-se de um sistema de pensamento que, como diz Engels, "nos
resta desenvolver em todos os seus detalhes e concatenações" - estudando
cada realidade, em suas transformações.
Reflita e Discuta
(retomando os Capítulos I, II e III)
1. O que Engels quer dizer com "situar o socialismo no terreno da
realidade"?
2. Como a concepção materialista de história se contrapõe à
concepção idealista?
3. Comente as seguintes afirmações de Engels: "as causas profundas
das transformações sociais e das revoluções políticas devem ser procuradas
não na filosofia, mas na economia" ; os meios para acabar com os males
sociais "não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é
que tem de descobri-los nos fatos materiais da produção, tal e qual a
realidade os oferece".
4. Qual é o conflito básico do capitalismo e quais contradições ele
expressa?
Não deixe de ler
•
As Três Fontes e as Três Partes Constitutivas do
Marxismo - Lênin - Em: Obras Escolhidas, volume 1, Ed. Alfa-Omega. Ou na
brochura de mesmo título - Ed. Global.
•
A Doutrina de Marx (O Materialismo Filosófico/A
Dialética/A Concepção Materialista de História/A Luta de Classes) - Lênin -
Idem.
•
Materialismo Mecanicista e Materialismo Dialético -
Paul Langevin - Princípios n.º 18.
•
Por que o socialismo? - Albert Einstein - Princípios
n.º 36.
…E o Socialismo Virou Ciência
Bernardo Joffily
Vários atributos contribuíram para transformar Do socialismo utópico ao
socialismo científico no segundo texto marxista mais lido e relido pelos
trabalhadores do mundo inteiro - atrás apenas do Manifesto do partido
comunista. Pesa, aí, a linguagem simples, enxuta, direta, acessível do livrete
de Friedrich Engels. Mas basta folhear esta pequena obra-prima do maior
colaborador de Marx para perceber que não é um mero texto de vulgarização.
Engels, em resumo, historia como e por que o socialismo se transformou em
ciência. Para tanto, recupera os grandes pensadores socialistas que precederam
o marxismo - Claude Henri de Saint-Simon (1760-1825), Charles Fourier
(1772-1837) e Robert Owen (1771-1858). Destaca sua contribuição à crítica do
capitalismo, mas também as limitações de suas doutrinas, que continham
intuições às vezes geniais mas careciam de alicerces sólidos.
Dois caminhos opostos
Os socialistas utópicos, como ficaram conhecidos (o nome vem da palavra
grega utopia, "lugar nenhum") dedicaram seus principais esforços a
conceber como seria uma sociedade futura, nova, avançada, próspera, fraterna,
racional, livre dos males do capitalismo. Descreveram-na minuciosamente, e tanto
Fourier como Owen chegaram a tentar levá-la à prática, em escala
experimental.
Já Marx e Engels seguiram o caminho inverso. Pouco se ocuparam em esmiuçar
a sociedade do futuro, descrevendo-a apenas em seus traços mais gerais. Todos
os seus estudos tiveram como foco a sociedade do presente. Trataram de dissecar
o capitalismo, reconstituir seu nascimento e sua trajetória, revelar suas
entranhas, expor à luz do dia os mecanismos secretos do seu funcionamento,
estudar suas contradições e as forças sociais que o protagonizam.
Os utópicos escreveram e lutaram em nome da "razão", da
"justiça" e da "verdade" abstratas e a-históricas, dentro
da melhor tradição do século 18. Marx e Engels, ao contrário, descobriram
que os homens não "vivem como pensam" mas sim "pensam como
vivem".
"Desse modo - afirma Engels - o socialismo já não aparecia como a
descoberta casual de tal ou qual intelecto genial, mas como o produto
necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente: o
proletariado e a burguesia".
Convém sublinhar aqui, entre parênteses, que isso não significa desprezar
o pensamento e a dinâmica de seu desenvolvimento. O próprio Engels, no
prefácio à edição inglesa, normalmente publicado junto com Do socialismo,
fornece um excelente exemplo de "história das mentalidades" (como os
acadêmicos de hoje costumam dizer) firmemente ancorada no método materialista
dialético.
As premissas do socialismo
Engels localiza, dentro do próprio desenvolvimento capitalista, as
contradições que abrem caminho para o socialismo. A produção é social, e
socializa-se sempre mais, enquanto a apropriação é privada, e concentra-se a
cada dia - através da concorrência - em um círculo mais reduzido de grandes
burgueses. Desta contradição básica nasce o irremediável (embora tantas
vezes negado, contestado e exconjurado) antagonismo entre as duas classes
fundamentais da sociedade moderna, o proletariado e a burguesia. E nasce também
daí uma terceira contradição, entre a organização cada vez mais expandida e
sofisticada da produção, no nível de cada empresa, e a anarquia da
produção, no nível de toda a sociedade, condenando o sistema à tortura das
crise cíclicas.
Mais de um século depois de escrita, a análise de Engels impressiona pela
atualidade. Ali está, exposta a nu, a explicação dos verdadeiros motivos
econômico-sociais do chamado desemprego tecnológico. É verdade que o ciclo
das crises já não é dez anos, como ocorria no século 19. Os mecanismos de
intervenção "anticíclica", criados no nível dos Estados burgueses
(após o crack de 1929) e de todo o mundo capitalista (ao fim da II Guerra)
quebraram essa regularidade de relógio. Mas mostram-se impotentes para evitar
ou vencer as crises, como mostra a onda recessiva de 1997-98, que já derrubou
os tigres asiáticos, o Japão, a Rússia e agora o Brasil.
Os "neo-utópicos"
No ambiente político-ideológico pós-URSS, a utopia vem sendo relançada
por certas áreas de esquerda. Os "neo-utópicos" se assumem como tal
como forma de contestarem o conformismo dos intelectuais do tipo Fernando
Henrique Cardoso, que renunciaram as transformações de fundo na sociedade,
acomodando-se à onda neoliberal. Ao mesmo tempo, não é por acaso que
ressuscitaram o nome usado pejorativamente pelos comunistas desde o Manifesto de
1848. Tratam - às vezes explícita e ativamente - de diferenciar-se do
marxismo, contestando justamente a possibilidade de uma fundamentação
científica para a luta por uma nova sociedade.
A ressurreição de um rótulo que parecia relegado ao museu das relíquias
doutrinárias é um sinal do clima ideológico deste fim-de-século de
restauração e reação. E nós marxistas temos, hoje mais do que antes, todos
os motivos para reafirmarmos e defendermos o caráter científico de nosso corpo
teórico. Nem por isso deixamos de saudar a disposição dos
"neo-utópicos" para integrar a frente-única da resistência ao
"pensamento único" neoliberal.
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MANIFESTO
DO PARTIDO COMUNISTA |
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DO
SOCIALISMO UTÓPICO AO SOCIALISMO CIENTÍFICO |
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DIALÉTICA
DA NATUREZA |
|
INTRODUÇÃO
À CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA |
|
SALÁRIO,
PREÇO E LUCRO |
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IMPERIALISMO,
FASE SUPERIOR DO CAPITALISMO |
|
O
ESTADO E A REVOLUÇÃO |
|
A
DOENÇA INFANTIL DO COMUNISMO NO ESQUERDISMO|
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QUE
FAZER?|
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