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Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels
Nereide Saviani
Os Autores
1. Karl MARX (1818-1883). Família abastada.
Estudos universitários em direito, história e filosofia. Hegeliano de
esquerda, socialista desde sua estada em Paris, 1843. Alvo da censura
reacionária e sempre em emigração, por causa da radicalidade de seus escritos
e da militância em organizações e movimentos revolucionários. Em 1844
conhece pessoalmente Engels, com quem passa a escrever e atuar politicamente.
Autor da obra que revolucionou a Economia Política - O Capital.
2. Friedrich ENGELS (1820-1895). Filho de
industrial. Hegeliano de esquerda, socialista desde sua estada em Manchester,
1844, quando atuou com militantes do movimento operário inglês. Militante,
como Marx, da Liga dos Comunistas e da Associação Internacional dos
Trabalhadores, a célebre I Internacional.
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mais sobre a vida e a obra dos autores: Obras Escolhidas de LENIN, vol.1. Ou na
brochura As três Fontes e as Três partes constitutivas do Marxismo, Lênin,
Global Editora.
Texto & Contexto
No Congresso da Liga dos Comunistas, Marx e
Engels foram encarregados de redigir um programa teórico e prático do Partido.
Escrito em dez/1847 e jan/1848. Publicado pela primeira vez em Londres,
fev/1848. A Europa vivia intensa onda revolucionária, com manifestações
operárias por toda parte. Rondava o fantasma do comunismo.
èAnote mais sobre o contexto: Prefácios
(várias publicações); História da Luta pelo Socialismo (A Classe Operária,
números 161 e 162).
O texto
Estruturado em 4 Capítulos
Alguns destaques, a partir dos Capítulos I e
II
I - O Capitalismo não é Eterno
· A burguesia teve papel revolucionário na
luta contra o regime feudal:
- desatou laços pretensamente "naturais" que prendiam servos a
senhores, rompeu com crenças, impulsionou a ciência e a tecnologia, instituiu
novos costumes e idéias;
- submeteu o campo à cidade, a agricultura à indústria, revolucionou os
instrumentos de produção, as relações de produção e demais relações
sociais;
- invadiu o globo, na busca de mercados;
- criou uma organização social e política correspondente à livre
concorrência;
- mas, com o tempo, as relações burguesas de produção e de troca passaram a
ameaçar a existência da própria sociedade burguesa, com repetidas crises
comerciais e destruição de produtos e de forças produtivas
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outras realizações da burguesia em ascensão, exemplos de seu domínio e
ameaças à sua sobrevivência - Capítulo I.
· A burguesia criou também seu próprio
coveiro - o proletariado:
- o aumento do capital depende do proletariado, que só pode viver se consegue
trabalho;
- a concentração do capital transforma em proletários os integrantes das
camadas inferiores da classe média;
- o desenvolvimento da maquinaria e as mudanças na divisão do trabalho reúnem
em grandes fábricas massas enormes de proletários;
- intensifica-se a exploração do trabalho, aumentam os choques entre burgueses
e proletários, cresce a força dos operários e a consciência dessa força.
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as fases e características da luta do proletariado contra a burguesia-Capítulo
I
II - O comunismo é expressão geral das
condições reais da luta de classes
· Os comunistas são parte do proletariado:
- buscam prevalecer seus interesses comuns, combinando a luta nacional com a
internacional;
- seu objetivo imediato é a constituição dos proletários em classe, para a
conquista do poder político, derrubando a supremacia da burguesia;
· fim último dos comunistas é a abolição da propriedade privada:
- não a propriedade pessoal, fruto do próprio trabalho, mas a propriedade
burguesa, fruto da exploração do trabalho alheio;
- somente com a socialização da propriedade o trabalho pode propiciar a
melhoria da existência material e espiritual dos trabalhadores;
- a supressão da exploração do homem pelo homem acabará com os antagonismos
de classes e a hostilidade entre as nações e permitirá o rompimento com
idéias, costumes e formas de organização tradicionais.
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as diferenças entre capitalismo e comunismo e as respostas dos comunistas às
acusações dos burgueses - Capítulo II.
Atenção!
•
Manifesto do Partido Comunista é um documento de valor
histórico. Deve ser estudado, tal como elaborado, e entendido no seu contexto.
• Manifesto
do Partido Comunista não é receita.
Como salienta Engels, no Prefácio à edição alemã de 1872, "a
aplicação desses princípios dependerá, sempre e em toda parte, das
circunstâncias históricas existentes".
• Os princípios gerais do Manifesto do Partido Comunista
mantêm atualidade e consistência teórica. Como os destacados por Engels, no
Prefácio à edição alemã de 1883:
- em cada época histórica, a produção econômica e a
estrutura social dela decorrente constituem a base da história política e
intelectual dessa época;
- desde o fim da propriedade comum da terra (comunismo
primitivo) - a história da sociedade é a história das lutas de classes;
- com o desenvolvimento do capitalismo, essa luta atinge um
estágio tal que a classe explorada e oprimida (proletariado) não pode
libertar-se da exploradora e opressora (burguesia) sem libertar, ao mesmo tempo,
todas as classes;
Reflita e discuta
1. O que se entende por burguesia e
proletariado?
2. Por que a classe operária é a única verdadeiramente revolucionária?
3. O que os comunistas entendem por abolição da propriedade?
4. Em que consiste a atualidade do Manifesto do Partido Comunista?
Não deixe de ler
•
Um Manifesto assombra o mundo - Carlos Pompe - A Classe
Operária n.º 151.
• Manifesto
do Partido Comunista 150 anos depois - Loreta Valadares - Princípios nº 47.
• Caminhos
novos à luta emancipadora - João Amazonas - Princípios n.º 48.
•
Manifesto do Partido Comunista - 150 anos: anotações
sobre os primeiros anos no Brasil - Loreta Valadares - Princípios n.º 49.
O Manifesto do Partido Comunista
Bernardo Joffily
O Manifesto do Partido Comunista é o texto
fundador da teoria marxista e o programa básico do proletariado face à
escravidão capitalista. Escrito em 1848, por Karl Marx e Friedrich Engels (ver,
ao lado, a coluna História da luta pelo socialismo), completou 150 anos em
fevereiro de 1998, após incontáveis edições e reedições. O debate
desenvolvido por ocasião deste sesquicentenário, em todo o planeta e nas mais
diferentes línguas, dá uma idéia da dimensão e atualidade deste pequeno
grande livro. Sua leitura e estudo são uma fonte permanente de ensinamentos
para todos os militantes comunistas, todos os trabalhadores esclarecidos, todos
os homens e mulheres que se interrogam sobre os destinos da humanidade nesta
virada de milênio.
As edições atuais do Manifesto costumam
incluir os vários prefácios assinados por seus autores. Também eles são
muito instrutivos. Ajudam a situar a obra no seu contexto histórico e teórico.
Mostram como Marx e Engels tiravam a cada momento novas lições da experiência
prática.
No entanto, o leitor iniciante sairá ganhando
se saltar os prefácios em um primeiro momento, mergulhando diretamente no texto
principal. Ali ele encontrará um estilo simples, fácil e belo, que fala
diretamente ao pensamento e ao sentimento dos trabalhadores, um texto engajado e
militante, mas, sobretudo, um conteúdo sólido, científico, que parece ganhar
atualidade à medida que o tempo passa.
O Manifesto divide-se em quatro capítulos. Um
breve exame de cada um deles fornece um bom guia para o estudo da obra em nossos
dias.
"Burgueses e proletários"
Marx e Engels proclamam, logo na primeira
frase, que a história da civilização humana "tem sido até hoje a
história da luta de classes". Acompanham esta luta e descrevem a ascensão
da burguesia, até sua vitória em escala mundial, como classe que domina a vida
econômica, social, política e ideológica da sociedade moderna.
O Manifesto não esconde o papel
revolucionário que a burguesia teve no passado. Pelo contrário, evidencia que
ela "criou maravilhas maiores que as pirâmides do Egito". Faz uma
atualíssima descrição da modernidade burguesa, em incessante transformação,
onde "tudo que é sólido desmancha no ar". Mostra como a
mundialização burguesa "destrói todas as muralhas da China".
No entanto, este mesmo dinamismo sem freios e
em escala mundial volta-se contra a burguesia que o gerou. "O sistema
burguês tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu
seio". E o mais importante, ele criou também a força social que há de
destruí-lo, a classe dos trabalhadores assalariados modernos, o proletariado.
"A burguesia - diz o Manifesto - produz, antes de mais nada, os seus
próprios coveiros. Sua queda e o triunfo do proletariado são igualmente
inevitáveis".
"Proletários e comunistas"
O texto situa os comunistas como uma parte do
proletariado: na esfera prática, a parte mais resoluta; do ponto de vista
teórico, a que possui uma compreensão nítida das condições, da marcha e dos
fins gerais do movimento. O objetivo imediato é a constituição dos
proletários em classe, a derrubada da supremacia burguesa, a conquista do poder
político pelo proletariado. O objetivo final, a abolição da propriedade
privada burguesa.
Ao fim do capítulo o texto cita, a título de
exemplo, algumas medidas imediatas de uma revolução proletária. A primeira é
a reforma agrária. A última, o ensino público e gratuito…
A parte sobre "Literatura socialista e
comunista" é talvez a que mais sofreu os efeitos do tempo, mas serve como
exemplo de delimitação teórica de campos com outras correntes atuantes no
movimento operário da época. Já o capítulo final analisa o quadro político
da época em cada país. Toma posição, com flexibilidade e amplitude. Destaca
que "os comunistas combatem pelos interesses e objetivos imediatos da
classe operária, mas, ao mesmo tempo, defendem e representam, no movimento
atual, o futuro".
E ao final, a conclamação que correu o mundo
nestes 150 anos: "Os comunistas proclamam abertamente que seus objetivos
só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social
existente. Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução
comunista. Os proletários nada têm a perder exceto seus grilhões. Têm um
mundo a ganhar. Proletários de todos os países, uni-vos!"
Retificações e Atualidade de um Manifesto de
150 anos
Augusto César Buonicore
As experiências das lutas operárias que
sucederam a redação do Manifesto do Partido Comunista fizeram com que Marx e
Engels desenvolvessem, ou mesmo retificassem, algumas teses daquele importante
documento.
A primeira retificação, feita no prefácio de
1872, é relacionada com a teoria de Estado socialista: não bastava ao
proletariado tomar a máquina do Estado burguês, era preciso destruí-la e
substituí-la por outra. A partir daí, desenvolvem o conceito de "ditadura
do proletariado".
Em 1848, Marx e Engels ainda consideravam que a
revolução só poderia triunfar se ocorresse simultaneamente em uma série de
países capitalistas desenvolvidos (não necessariamente no mais desenvolvido).
Neste ponto Lênin faria outra atualização.
Analisando o desenvolvimento do capitalismo nos últimos anos do século
passado, e nos primeiros anos deste século, concluiu que o capitalismo havia
chegado a uma nova etapa: a do imperialismo. Nesta nova fase a ruptura
revolucionária deveria se dar nos elos mais fracos da cadeia imperialista. As
revoluções populares e socialistas do século XX confirmaram as teses de
Lênin.
Outra tese do Manifesto que seria retificada
era sobre a tendência de pauperização absoluta do proletariado sob o
capitalismo. Uma tendência à redução constante dos salários até o limite
da mera sobrevivência do operário e o aumento da jornada de trabalho. Em obras
posteriores o próprio Marx chegaria à conclusão de que a tendência do
capitalismo era a pauperização relativa do proletariado assentada na
extração da mais-valia relativa.
A particularidade do documento, um programa
para uma organização internacional, levou Marx a utilizar como referência o
que seria o modo de produção capitalista na sua forma mais pura, ou seja, a
Inglaterra de seu tempo. O desenvolvimento capitalista na Inglaterra havia
praticamente eliminado os camponeses e criado uma classe operária numerosa e
concentrada em grandes fábricas. A simplificação da estrutura e da luta de
classes, com o crescimento da polarização entre proletariado e burguesia, era
evidente no caso inglês.
No entanto, as formações sociais dos outros
países capitalistas eram muito mais complexas. Era preciso ter em conta o
conjunto de outras forças sociais que atuavam naquelas sociedades: os
camponeses, os latifundiários, a pequena burguesia urbana e as diversas
frações da burguesia (industrial, financeira, comercial) e, dentro de cada uma
dessas frações, a divisão entre a grande e a média burguesia. Na quase
totalidade desses países a classe operária moderna ainda constituía minoria
da população.
Marx e Engels levaram isto em conta quando da
redação do seu capítulo IV do Manifesto, no qual indicam táticas e
estratégias diferentes para cada país europeu onde atuavam as forças
socialistas.
Uma das partes mais criticadas do Manifesto é
aquela em que os autores expõem a sua noção sobre o que seja o Estado
burguês: "O Estado moderno é o comitê para gerir os negócios comuns de
toda a classe burguesa". Os sociais-democratas afirmam que esta noção é
limitada e não capta a complexidade do Estado democrático moderno, que estaria
aberto para a participação dos trabalhadores organizados.
Este enunciado sintético traduz o que é
essencial para a construção de uma teoria do Estado em geral e do Estado
capitalista em particular. O conceito geral permite que captemos a essência de
todo e qualquer tipo de Estado (escravista, feudal, capitalista e socialista),
mas ele não pode explicar por si só nenhum Estado determinado. É preciso, em
todos os casos, ter em conta as leis específicas que regem a construção e
manutenção de cada Estado em particular. Todo Estado é um instrumento de
dominação de uma classe sobre outra, mas nem todos exercem este poder da mesma
forma.
Atualmente, os teóricos da pós-modernidade
afirmam que o Manifesto perdeu a atualidade porque o trabalho deixou de ser uma
categoria central para compreensão da sociedade capitalista e por conseguinte o
proletariado teria perdido o seu papel estratégico no processo de
transformação social. A principal prova seria a redução tendencial do
número de operários fabris, fenômeno ocasionado pelas mudanças radicais
ocorridas no mundo da produção.
O papel revolucionário da classe operária
está ligado ao seu insubstituível papel no mundo da produção capitalista de
valorização do capital graças ao espaço especial que ocupa no processo
produtivo.
Para Marx, a dimensão de uma classe não era
uma condição necessária para que ela pudesse assumir um papel
revolucionário. A burguesia era uma classe composta por uma minoria
desprezível da população quando realizou as suas revoluções nos séculos
XVIII e XIX. A própria classe operária constituía a minoria da população da
Rússia em outubro de 1917 quando da realização da primeira revolução
proletária vitoriosa.
Mesmo reconhecendo que houve uma redução
percentual dos operários fabris tradicionais nos países capitalistas centrais,
nada nos leva a crer que a classe operária tradicional esteja em fase de
desaparecimento. As estatísticas disponíveis ainda apontam para o crescimento
do número de operários fabris, graças à rápida industrialização de alguns
países asiáticos. O aumento do número de operários nesta região, até hoje,
tem compensado amplamente a sua redução na Europa e EUA.
Ainda mais: Se concordarmos com a definição
ampliada de proletariado, exposta em uma nota de Engels ao Manifesto, na qual
afirma que proletariado seria "a classe de trabalhadores assalariados
modernos que, não tendo meios próprios de produção, são obrigados a vender
sua força de trabalho para sobreviverem", chegaremos a conclusão que as
tendências do mundo atual apontam no sentido oposto ao indicado pelos teóricos
pós-modernos: vivemos ainda um processo de ampla proletarização do mundo.
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na íntegra o Manifesto Comunista
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