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Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo - Vladimir Lênin
Augusto Buonicore
O Contexto
Lênin escreveu este livro entre abril e maio de 1920 às vésperas da
realização do 2º Congresso da Internacional Comunista (julho-agosto). A obra
serviu como principal instrumento da luta teórica e ideológica contra os
desvios esquerdistas que ganhavam corpo no jovem movimento comunista
internacional
Depois de demarcar o campo com o reformismo da 2ª Internacional no
pós-1914, vencer o esquerdismo passava a ser uma condição essencial para
construção de partidos comunistas com ampla influência de massa e capazes de,
efetivamente, se constituírem enquanto vanguardas do processo revolucionário
que fora aberto com a grande revolução de outubro de 1917.
Afirma Lênin: "Se a primeira tarefa histórica (...) não podia ser
cumprida sem uma vitória ideológica e política completa sobre o oportunismo e
o social-chovinismo, a segunda tarefa, que é (...) atrair as massas para essa
nova posição (...) não pode ser cumprida sem liquidar o doutrinarismo de
esquerda, sem corrigir completamente seus erros, sem desembaraçar-se
deles".
A obra de Lênin cumpriu plenamente o seu papel e ajudou os jovens partidos
comunistas a derrotarem o esquerdismo em suas fileiras e se forjarem enquanto
partidos verdadeiramente revolucionários, capazes de articular os princípios
do marxismo e uma prática política ampla e flexível.
Esta obra é um verdadeiro compêndio da estratégia e da tática leninistas,
é a consolidação das experiências dos operários e bolcheviques no processo
revolucionário russo iniciado nos primeiros anos deste século.
A Obra
Esta obra de Lênin se divide em dez capítulos. Nos quatro primeiros
capítulos o autor aborda o significado internacional da Revolução Russa,
apresenta as condições fundamentais do êxito dos bolcheviques, as principais
etapas da história do bolchevismo e fornece um quadro das principais correntes
que tiveram que enfrentar para se fortalecerem e poderem se colocar na
condição de vanguarda revolucionária de todo o povo russo.
No quinto capítulo, critica duramente os comunistas "de esquerda"
da Alemanha que procuravam cavar um fosso entre os chefes (revolucionários) e
massa, contrapondo a ditadura das massas à uma suposta ditadura dos chefes.
Alguns esquerdistas alemães, radicalizando suas teses, chegaram a falsas
conclusões sobre a inutilidade dos partidos políticos. Lênin reage
violentamente: "Negar a necessidade do Partido e da disciplina partidária
(...) eqüivale a desarmar completamente o proletariado, em proveito da
burguesia".
Nos capítulos de VI a VIII trata da necessidade dos Partidos Comunistas
atuarem nos sindicatos reacionários (no qual se encontravam as massas
atrasadas) e nos parlamentos burgueses. Lênin advoga também a necessidade de
se estabelecer acordos e compromissos na luta política revolucionária. (O
conteúdo desses três capítulos serão discutidos mais à frente)
No capítulo IX critica duramente as teses defendidas por grupos esquerdistas
ingleses que tentavam construir um partido comunista unificado. Lênin se batia
principalmente contra a sua política deliberada de recusar-se a estabelecer
compromissos com o Partido Trabalhista, reformista, mas que ainda congregava a
maior parte da classe operária inglesa. No capítulo X apresenta algumas
conclusões que também serão apresentadas mais à frente.
O Texto
Alguns destaques dos capítulos previamente selecionados:(VI,VII,VIII,X)
Capítulo VI - Os revolucionários devem atuar nos sindicatos
reacionários?
•
Os esquerdistas alemães advogavam a tese de que os
comunistas não deveriam atuar em sindicatos reacionários, e nesta
qualificação incluíam os sindicatos dirigidos pela social-democracia alemã.
•
Lênin nega o caráter revolucionário da tática
esquerdista. Ela seria profundamente errônea e colaboraria para manutenção da
influência burguesa sobre os operários.
•
Um exemplo: Os bolcheviques demonstraram, ainda em
1905, a utilidade desta tática atuando clandestinamente em um dos sindicatos
mais reacionários da Europa: o sindicato organizado por Subatov, agente da
polícia tzarista. A ação bolchevique foi tão eficiente que em pouco tempo
retirou os operários da influência reacionária da direção policial e
colocou-os sob a direção dos elementos mais revolucionários.
•
Afirma Lênin: "Não atuar dentro dos sindicatos
reacionários significa abandonar as massas operárias insuficientemente
desenvolvidas ou atrasadas à influência dos líderes reacionários, dos
agentes da burguesia, dos operários aristocratas ou 'operários
aburguesados'".
•
Continua o autor: "deve-se trabalhar
obrigatoriamente onde estejam as massas (...) e os sindicatos e cooperativas
operários (estas pelo menos em alguns casos) são precisamente as
organizações onde estão as massas"
•
Para Refletir: No movimento sindical brasileiro,
especialmente no final da década de 70, este debate esteve bastante aceso:
atuar ou não na estrutura sindical oficial? Alguns setores defenderam que os
operários mais avançados deveriam formar organizações livres à margem da
estrutura sindical oficial. Ainda hoje estas posições esquerdistas encontram
guarita no seio de algumas correntes que se recusam a atuar onde não tenham
hegemonia e buscam construir organizações paralelas supostamente puras,
adotando posições divisionistas. Busque localizar traços destas concepções
na prática política das correntes que atuam no movimento de massas no Brasil.
•
Ao defender a participação nos sindicatos
reacionários ele não traça nenhuma equivalência entre a organização
sindical e a organização partidária. O partido era uma forma superior de
organização dos operários.
•
"Os sindicatos representam um progresso gigantesco
da classe operária nos primeiros tempos do desenvolvimento do capitalismo (...)
significam a passagem da dispersão (...) aos rudimentos da união da
classe".
•
Mas, continua o autor, "quando começou a
desenvolver-se a forma superior de união de classe dos proletários, o partido
revolucionário do proletariado, (...) os sindicatos começaram a manifestar
inevitavelmente certos aspectos reacionários, certa estreiteza grupal, certas
tendências para o apoliticismo, certo espírito de rotina, etc."
•
Era preciso que os revolucionários tivessem
consciência disso e assumissem o seu papel de vanguarda no processo educativo
desta massa de homens e mulheres formadas pelo capitalismo. Era com estes homens
e mulheres que seria feita a revolução e construídas as primeiras etapas do
socialismo. Afirma Lênin: "adiar a ditadura do proletariado até que não
reste nenhum operário de estreito espírito profissional, nenhum operário com
preconceitos tradeunionistas e corporativistas, seria um erro ainda mais
grave".
•
Mesmo na ditadura do proletariado é "inevitável
a existência de certo 'espírito reacionário' nos sindicatos".
•
Importante: Então para Lênin o sindicato tem um duplo
caráter: de um lado é uma escola do comunismo e de outro uma organização
limitada, quando comparada ao partido revolucionário. O sindicato une parte da
classe (uma categoria, os sindicalizados) na luta econômica de classes. O
partido representa os interesses histórico-universais do proletariado em seu
conjunto. À vezes ocorrem contradições entre os objetivos mais limitados
(corporativos) dos sindicatos e os interesses gerais da classe que em tese devem
estar representados no partido. Nisto reside a persistência de certo
"espírito reacionário" nos sindicatos durante a ditadura do
proletariado.
Capítulo VII - Deve-se participar nos parlamentos burgueses?
•
Os comunistas "de esquerda" da Alemanha
afirmavam que era preciso "rejeitar de modo categórico todo retorno aos
métodos parlamentares de luta, que já caducara histórica e
politicamente".
•
Para Lênin, também, o parlamentarismo caducou
historicamente, ou seja, caducou do ponto de vista histórico-universal, como
caducou o capitalismo enquanto regime social. Mas ele não caducou do ponto de
vista político-prático na maioria dos países.
•
"Na história universal, afirma Lênin, o tempo é
contado por décadas. Neste terreno dez ou vinte anos a mais ou a menos não
têm importância (...) Por isso, utilizar-se do critério da história
universal para uma questão de política prática constitui o mais gritante erro
teórico". Não devemos julgar que "o caduco para nós tenha caducado
para a classe ou para massa".
•
O autor crítica os esquerdistas da Alemanha por
confundirem os seus desejos com a realidade objetiva. Este seria "o mais
perigoso dos erros para os revolucionários".
•
Contra os esquerdistas Lênin alerta para necessidade
de mesmo nos períodos de ascenso revolucionário saber "combinar a ação
de massas fora do parlamento reacionário com um oposição simpatizante da
revolução (...) dentro desse parlamento"
•
Um exemplo: Uma demonstração da justeza da tática
bolchevique foi a sua participação nas eleições da Assembléia Constituinte
de 1917 e depois a defesa de sua dissolução A dissolução só ocorreu quando
estava claro para as massas operárias do caráter reacionário daquele
parlamento e a superioridade dos sovietes. Ou seja, mesmo imediatamente após a
tomada do poder pelos bolcheviques o parlamentarismo burguês não estava caduco
para amplas massas do povo que ainda deveria de passar, por algum tempo, pela
experiência de um duplo poder.
•
Portanto a verdadeira crítica deveria ser endereçada
"não contra o parlamentarismo ou a ação parlamentar, mas sim contra os
chefes que não sabem utilizar as eleições e a tribuna parlamentares de modo
revolucionário, comunista."
•
Lênin, ao defender a importância da luta parlamentar,
não a absolutiza e afirma que "a ação das massas (...) é sempre mais
importante que a ação parlamentar, e não só durante a revolução ou numa
situação revolucionária". A ação parlamentar se subordina à
revolução das massas e não ao contrário.
•
Para refletir: A história política recente colocou a
esquerda brasileira diante de um dilema: participar ou não do colégio
eleitoral. Algumas correntes afirmavam que os deputados de oposição não
deveriam participar do colégio eleitoral por ser um órgão reacionário,
ilegítimo, criado pela ditadura. Mesmo que essa não participação pudesse
significar a vitória do representante desta mesma ditadura: Paulo Maluf. Os
comunistas brasileiros defenderam atuar no parlamento reacionário e travar a
batalha dentro daquele colégio eleitoral. A ditadura militar foi derrotada no
terreno que ela mesmo havia preparado para se perpetuar. Qual teria sido o
futuro da "transição democrática" com a vitória do malufismo?
Capítulo VIII - Nenhum compromisso?
•
Respondendo aos blanquistas, afirma Engels: "Os
comunistas alemães são comunistas porque, através de todas as etapas
intermediárias e de todos os compromissos criados não por eles, mas pela
marcha da evolução histórica, vêem com clareza e perseguem constantemente
seu objetivo final.". Estes imaginam que "basta o seu desejo de saltar
etapas intermediárias e os compromissos para que a coisa esteja feita (...) Que
pueril ingenuidade a de apresentar a própria impaciência como argumento
teórico!".
•
Existem compromissos e compromissos. "Todo
proletariado conhece greves, conhece "compromissos" com os odiados
opressores e exploradores, depois dos quais os operários tiveram de voltar ao
trabalho sem haver conseguido nada ou contentando-se com a satisfação parcial
de suas reivindicações. Todo operário (...) percebe a diferença existente
entre um compromisso imposto por condições objetivas (...) que nada diminui
(...) a disposição de continuar a luta dos operários que o assumiram - e um
compromisso de traidores ...".
•
Na política, onde as coisas são mais complexas, nem
sempre é fácil estabelecer quais são os compromissos justos e necessários e
quais são os compromissos que acarretam prejuízos para o desenvolvimento do
processo revolucionário.
•
Por isso é necessário a existência de uma
organização partidária com quadros experimentados que "além dos
conhecimentos e da experiência", tenham "sagacidade para resolver bem
e rapidamente as questões políticas complexas".
•
Ao contrário do que imaginam os esquerdistas "a
história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia
de casos de manobras, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive
os partidos burgueses."
•
A conclusão a que chega Lênin é de que não se deve
"renunciar de antemão a qualquer manobra, explorar os antagonismo de
interesses (...) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos
com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes,
condicionais)". Esta foi a lição ensinada pela revolução russa e
sistematizada pela 3ª Internacional sob a direção de Lênin.
•
Para refletir: No Brasil estas lições extraídas da
revolução russa permitiram aos comunistas estabelecerem alianças, ainda que
provisórias, com setores da burguesia durante o movimento de oposição a
ditadura militar até 1985. Foi graças a existência deste ampla frente
democrática, apoiada por uma amplo movimento de massas, que se conseguiu
derrotar a ditadura militar no colégio eleitoral. A existência desta frente
possibilitou a realização da grande campanha das diretas já! Quais outros
exemplos de políticas amplas de alianças na história recente do país?
Capítulo X - Algumas conclusões
•
Nesta obra Lênin nos apresenta os princípios gerais
para a construção de uma tática revolucionária. Mas só os princípios
gerais e não um modelo completo a ser aplicado em todas as realidades
nacionais.
•
Afirma Lênin: "Enquanto subsistirem diferenças
nacionais e estatais entre os povos e os países (...) a unidade da tática
internacional do movimento operário comunista de todos os países exigirá,
não a supressão da variedade, não a supressão das particularidades nacionais
(...) mas sim uma tal aplicação dos princípios fundamentais do comunismo
(...) que modifique acertadamente esses princípios em seus detalhes, que os
adapte, que os aplique acertadamente às particularidades nacionais e
nacional-estatais."
•
Lênin defende que os comunista devam estar preparados
para utilizar todas as formas de lutas, as legais e as ilegais. "Em
política é ainda menos fácil saber de antemão que método de luta será
aplicável e vantajoso para nós, nessas ou naquelas circunstâncias futuras.
Sem dominar todos os meios de luta poderemos correr o risco de sofrer uma
derrota fragorosa (...) Se dominamos todos os meios de luta, nossa vitória
estará garantida".
•
Continua o autor: "Os revolucionários
inexperientes imaginam freqüentemente que os meios legais de luta são
oportunistas (...) e que os processos ilegais são revolucionários. Mas isso
não é justo (...) os revolucionários que não sabem combinar as formas
ilegais de luta com todas as formas legais são péssimos revolucionários"
Não deixe de ler
DIMITROV, G. - A Unidade Operária Contra o Fascismo
LENIN, V. I. - Cartas Sobre Tática
---------- - Duas Táticas da Social Democracia na Revolução Democrática
---------- - Teses de Abril
MARX, Karl - A Burguesia e a Contra Revolução
STALIN - A Estratégia e a Tática dos Comunistas
--------- - Fundamentos do Leninismo
O Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo - Vladimir Lênin
Renato Rabelo
O Tempo, a Finalidade e o Alcance Desta Obra de Lênin
"A Doença Infantil do Esquerdismo no Comunismo" foi escrita por
Lênin em abril de 1920. É o último escrito longo deste eminente
revolucionário comunista. O Partido Bolchevique foi o único a estar à altura
de Marx, graças a Lênin, que não se limitou a sistematizar e divulgar o
marxismo, mas soube empenhar-se para desenvolvê-lo de modo original. Poucos
meses antes da convocação do II Congresso da Internacional Comunista (I.C.),
1920, Lênin se dedicara a escrever seu principal trabalho contra os desvios de
"esquerda" e as posições sectárias. Entretanto, essa obra se
tornará decisiva adiante, no III Congresso da I.C. (1921). Em seguida, as
idéias expostas neste livro vão orientar a reflexão que leva à definição
da tática de frente única da classe operária, que será proposta pelo IV
Congresso (1922) da I.C.
No Esquerdismo, Lênin traz à tona com uma densidade e uma lucidez
excepcionais a variada e intensa vivência da luta revolucionária da corrente
mais avançada do movimento operário mundial, refletindo "uma história
prática de quinze anos (1903-1917) sem paralelo no mundo, em virtude de sua
riqueza de experiências " e dos ensinamentos, prenhes de lições, do
exercício do poder recém conquistado.
Neste texto estão presentes as lições da luta contra o extremismo no seio
do movimento operário. Lênin compreende a prioridade de construir a vanguarda
comunista - primeira tarefa - com base nos princípios revolucionários
marxistas, sem vacilações, na luta contra a corrente oportunista,
social-democrata, que prevaleceu na II Internacional. Essa tarefa ocupou uma
centralidade até o II Congresso da Internacional Comunista. A partir de então,
os partidos comunistas já estavam essencialmente definidos, após o rompimento
com a social-democracia.
Mas, como afirmava Lênin, a vanguarda sozinha está impossibilitada de levar
a revolução à vitória. A fim de tornar as novas vanguardas comunistas
forças políticas reais, passava à ordem do dia a luta contra o isolacionismo
sectário, as impaciências esquerdistas, os principismos doutrinários.
Portanto, uma segunda tarefa ocupou a centralidade desde o III Congresso da
I.C., foi se impondo aos novos partidos comunistas: a conquista da maioria do
proletariado. Em resposta às exigências desta tarefa, Lênin, em seu livro,
procura fundamentar a real dimensão política do papel dos partidos comunistas.
Ele demonstra, baseado em variada experiência dos bolcheviques na Revolução
Russa, o contraste entre dois procedimentos a seguir - doutrinar sobre o
comunismo, fixando-se nos marcos de uma seita; ou lutar para conquistar as
grandes massas, transformando-se em um grande partido proletário de ação
política.
Na sua exposição, o autor imprime às lições extraídas da prática
revolucionária russa grande força de argumentação, comparando-a com a ação
dos partidos que integravam a Internacional Comunista, revelando o infantilismo
político dessas novas direções comunistas na Europa.
O Esquerdismo, por sua dimensão teórica e riqueza histórica de seus
ensinamentos, alcançou o lugar de uma enciclopédia da tática e da estratégia
revolucionárias do proletariado. É hoje parte constitutiva da base teórica
dos partidos comunistas e referência maior acerca do modo pelo qual se trava a
luta política contra a classe dominante capitalista.
O Tema Central e o Fundamento dos Ensinamentos
A concepção leninistas expressa no Esquerdismo não separa as duas tarefas
fundamentais da construção partidária e da direção revolucionária -
formação da vanguarda da classe operária e conquista das amplas massas
proletárias e não proletárias - mas, ao contrário relaciona-as
dialeticamente. É falsa a alternativa partido ou massas, líderes ou massas. O
Partido e suas direções se forjam precisamente ligados de forma estreita às
grandes massas, intervindo nos grandes acontecimentos políticos. Por um lado, a
comprovação prática da justeza de uma política só pode ser concretizada na
relação com os grandes movimentos de massa. Por outro, o conceito de
disciplina partidária - cimento da organização revolucionária e garantia da
existência de núcleos dirigentes relativamente estáveis - tem seu fundamento
na política e, por conseguinte, na teoria revolucionária. A criação das
condições dessa disciplina - segundo Lênin - "é facilitada por uma
justa teoria revolucionária, a qual, por sua vez, não é um dogma, por que se
constitui de modo definitivo somente em estreita conexão com a prática de um
movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário."
Na concepção marxista, muito bem definida por Lênin, se afirma que a
teoria sem a práxis se fossiliza e o partido afastado do movimento real de
massas e revolucionário encerra-se num gueto político, não estando assim à
altura de cumprir sua missão emancipadora da classe operária. Deve-se
"trabalhar obrigatoriamente onde estejam as massas"..., "mesmo
nos Sindicatos ou organizações reacionárias". Em suma, o Partido e as
massas podem ser comparados como uma mesma moeda de duas faces: não se concebe
uma firme disciplina revolucionária sem a vigência de uma política justa,
comprovada no amplo movimento de massas, dirigido pela vanguarda, marxista -
leninistas; não se concebe um partido capaz de cumprir sua missão
revolucionária - superar o capitalismo e construir o socialismo - , sem uma
firme disciplina.
Dessa maneira, em o Esquerdismo Lênin consegue culminar a síntese marxista
da relação entre partido e massas, sendo este o tema central dessa obra.
Na áspera crítica às posições esquerdistas, Lênin se vale
principalmente da exposição das lições concretas e precisas que advêm do
curso vitorioso da Revolução Russa. A natureza dos ensinamentos consiste não
nas formas institucionais assumidas pelo processo revolucionário, mas nos seus
conteúdos, no exemplo dos fatos. Na sua exposição, compreendendo todo texto,
transparece o modo pelo qual se travou a luta, a essência da tática
empreendida e a maneira de fazer política, distinta das procedidas pelo
oportunistas de todos os matizes.
Há um rigor em diferenciar os processos revolucionários em cada período
histórico, circunstância e lugar determinado, sublinhando a sua originalidade,
considerando suas mediações particulares. Referindo-se ao alcance
internacional da experiência dos bolcheviques, admite que é preciso
"reconhecer um tal significado para algumas características fundamentais
de nossa revolução". Mas, adverte: "seria um gravíssimo erro querer
exagerar essa verdade, estendê-la a mais do que alguns traços fundamentais da
nossa revolução."
Os preceitos táticos e estratégicos que afloram da discussão travada por
Lênin com o extremismo de esquerda assumem um valor teórico inestimável. São
orientações sempre atuais para a prática política. É uma obra que orienta
os partidos comunistas em sua gigantesca tarefa transformadora, revolucionária,
elevando-os à condição de destacamentos políticos avançados, tendo em vista
a conquista da hegemonia política no decurso da complexa luta de classes contra
a burguesia e o imperialismo, e no seio do movimento operário ante os
oportunismos de direita e de esquerda.
A Relação Entre Tática e Estratégia
A experiência sistematizada por Lênin no Esquerdismo demonstra que a
definição da tática emana da correlação de forças - essência da tática -
em cada momento da luta política em desenvolvimento. Por sua vez, a essência
da estratégia revolucionária consiste na conquista da hegemonia política pelo
partido do proletariado, durante um longo período de muitos embates, contra os
setores dominantes da classe burguesa. Esse êxito estratégico - alcance da
hegemonia - é produto das várias vitorias táticas, em vários momentos e,
sobretudo, em um momento que pode ser o decisivo. Essa é a lógica estratégica
da luta entre uma força estruturalmente débil e pequena contra uma força
dominante e poderosa. A primeira tem potencial para acumular grandes forças em
uma luta de larga duração e colocar-se assim, depois de certo tempo, à altura
de derrotar a segunda.
Neste livro, o grande dirigente revolucionário russo, apoiado numa "tal
riqueza de formas, de matizes, de métodos de luta de todas as classes sociais
contemporâneas", desenvolve, em nível mais elevado que nas suas obras
precedentes, um conjunto de conceitos fundamentais da relação entre a
estratégia e a tática e da tática revolucionária mais particularizadamente.
Na concepção leninistas, a tática, sempre articulada à estratégia
revolucionária, é definida substancialmente por sua "amplitude" de
formas e a sua "máxima flexibilidade". O conceito de tática tem seus
fundamentos na realidade objetiva e subjetiva específica de cada processo
político. Em conseqüência, cada formulação tática assenta-se no seguinte:
1) na peculiaridade histórica, política, econômica e social de cada luta
revolucionária, considerando-se seu definido estágio de evolução; 2) no
nível de desenvolvimento do movimento real - atitude das massas, grau de
contradição no seio do inimigo, e deste, em relação às demais classes e
camadas sociais.
Dessa maneira, o primeiro aspecto decorre da compreensão de que os processos
sociais são complexos, não idênticos, existindo assim diferentes modos de
formação das classes sociais. Por conseguinte, não existe o capitalismo em
estado "puro". As realidades sócio-econômicas são diferenciadas em
cada país, gerando partidos com características diferentes. A classe burguesa
não é homogênea, há nela diversa estratificação, formação de grupos, com
conseqüente formas de conflitos que podem ser aproveitados pelo partido
comunista.
O segundo aspecto é que essa situação objetiva se reflete no plano da
realidade política em seu conjunto, através de uma determinada condição das
massas, do seu nível de consciência e de organização, do papel e dimensão
das forças sociais intermediárias e, finalmente, do grau de coesão do bloco
inimigo.
Desse modo, pode-se levar em conta todos os aspectos da situação concreta,
determinando o ponto de partida da ação política, o nível da batalha que
possa permitir uma participação em maior escala das massas, sem renunciar à
própria tarefa de vanguarda. Mais precisamente a questão se resume em: a
vanguarda não deve considerar o que está nítido ou superado para ela como
estando compreendido ou assimilado pela classe proletária e as massas em geral.
Não se pode pretender transferir mecanicamente em ação política imediata a
consciência da vanguarda para as grandes massas. Exemplo clássico disso se
relaciona à atitude tática diante das instituições políticas burguesas.
Estas, do ponto de vista marxista, revolucionário, podem ser negadas
historicamente. Mas, passando-se da avaliação histórica geral para a prática
de cada situação nacional, essas instituições "não estão
politicamente superadas" e podem constituir-se ainda em importantes meios
de relacionamento com as massas, visando a elevação do seu nível de
consciência.
A Tática Política
A definição da correlação de forças políticas em determinado momento do
curso da luta de classes é a condição indispensável para estabelecer o
nível da batalha em andamento. Essa situação concreta explicitada é que
permite a configuração da tática política (política imediata).
A elaboração dessa tática compreende o emprego de um conjunto de recursos,
tais como: os compromissos e acordos necessários, as alianças possíveis,
mesmo que temporárias, as formas concretas de luta e de organização, a
dinâmica de avanços e recuos, tudo objetivando sempre a acumulação de
forças e a procura do meio mais eficaz de isolar e golpear o inimigo principal,
circunstância imprescindível para fortalecer e crescer as forças do
proletariado.
O extremismo esquerdista, em reação às capitulações social-democratas,
rejeitava quaisquer compromissos: "uma tese pueril, que é inclusive
difícil de levar a sério". Acrescenta ainda Lênin: "...toda
história do bolchevismo, tanto antes quanto depois da Revolução de Outubro,
está repleta de manobras, de acordos e de compromissos com outros partidos, sem
excluir os burgueses". "Há compromissos e compromissos". Na
realidade é preciso distinguir entre o compromisso que é capitulação diante
da hegemonia do adversário, renúncia da própria autonomia política, e o
compromisso que se tornou indispensável em função do nível das forças em
luta, a fim de preservar as próprias fileiras e conseguir avançar, apoiando-se
nas forças possíveis de serem unidas.
Para o êxito da luta revolucionária é imperativo a celebração das
alianças. Há uma grande estratificação das classes na sociedade capitalista,
as quais assumem características diferenciadas, conforme cada país. Existem os
conflitos internos no seio da classe dominante burguesa que devem ser
explorados. Por conseguinte, afirma Lênin, a aliança é "extremamente
preciosa" por mais "precária" que seja. É importante salientar
ainda que na sua visão é substituído o desejo de alianças "ideais"
pela verificação objetiva das diversas forças sociais e políticas,
levando-se em conta a avaliação do percurso que é possível caminhar com
elas. O que interessa é a força efetiva do aliado, não tanto sua
estabilidade, podendo, mesmo, em cada situação, ser um "aliado de massas,
temporário, vacilante, instável, pouco seguro, condicional". O que conta
é a influência que ele tenha sobre um setor determinado da sociedade, ou
melhor: o seu peso quanto à possibilidade de desequilibrar a correlação de
forças existente.
As alianças devem se desdobrar na política de frente única. Esta,
preservando a independência do partido comunista, define o conteúdo da unidade
de ação com as forças mais amplas e intermediárias. A conquista para os
objetivos revolucionários da maioria proletária e não proletária se faz
através de uma justa política de frente única, que defina como ligar-se às
correntes que estejam organizadas entre os trabalhadores. Assim também às
outras tendências pelas quais seja possível um contato mais amplo com as
camadas médias da sociedade, tendo em vista finalidades políticas comuns. Esse
é o caminho inevitável paras levar a orientação da vanguarda comunista até
o seio do proletariado e das massas ao geral, a fim de que eles possam tomar
consciência da diversidade das "duas linhas" e perceber que, ao
propor os objetivos de frente única, os comunistas são os mais conseqüentes
lutadores das necessidades reais da classe operária.
As Formas de Luta e de Organização
No contexto da tática leninistas, as formas de luta e de organização
decidem qual o nível do embate que o partido de vanguarda pode empreender. As
formas concretas de organização do proletariado não se inventam, mas resultam
do movimento real, da experiência da luta, na qual se revela o grau efetivo a
que chegou a consciência das massas. Não existem fórmulas predefinidas quanto
aos meios de luta e de organização a serem adotadas nos diversos processos
políticos. "A história em geral, e das revoluções em particular, é
sempre mais rica de conteúdo, mais variada de formas e aspectos, mais viva e
mais 'astuta' do que imaginaram os melhores partidos". Por isso, a classe
revolucionária para realizar sua missão deve "dominar todos os meios de
luta". É preciso estar preparada para "substituir uma forma por outra
do modo mais rápido e inesperado", para não correr o risco de sofrer uma
derrota fragorosa - às vezes decisiva.
Também "não se pode saber de antemão quando eclodirá em algum lugar
a verdadeira revolução proletária e qual será o motivo principal que
despertará, inflamará e lançará à luta as grandes massas, hoje ainda
adormecidas". Temos que realizar todo o trabalho preparatório, de
acumulação de forças, bem assentado na realidade em desenvolvimento. Uma
realidade que apresente vários elementos de uma crise multilateral - política,
econômica e social - em andamento pode estar sujeita a uma reviravolta
política provocada apenas por uma fortuito acontecimento da vida nacional.
Ademais, para que haja uma mudança revolucionária é preciso a existência
de uma conjunto de fatores objetivos e subjetivos, dentro e fora do país.
Em o Esquerdismo a definição de crise revolucionária se reveste de
rigorosa conceituação marxista, além de ser sobejamente explicitada por
Lênin em todos os seus aspectos, demonstrando seu nítido conteúdo
antivanguardista, antivoluntarista e antiespontaneísta. A situação
revolucionária é caracterizada pela concomitância da crise das forças
políticas predominantes e do Estado, com o poderoso ascenso da rebelião das
grandes massas dirigidas por uma vanguarda influente e experimentada. A
revolução é assim impossível sem uma crise de toda nação (ou seja, que
envolva explorados e exploradores), sem uma rápida e imensa ampliação da
atividade política, em meio a uma conjuntura mundial de mudanças ou fortes
desequilíbrios.
Uma Conclusão Relevante
No capítulo X do Esquerdismo, Lênin delineia "algumas
conclusões", as quais colocam-se como a parte mais alta e concentrada da
sistematização da experiência dos bolcheviques no curso da Revolução Russa.
Entretanto, uma das conclusões assume importante relevo. É quando Lênin
procura magistralmente situar as causas dos doutrinarismos de direita e de
esquerda. Assim, descreve de forma sintética, o grande dirigente comunista:
"O doutrinarismo de direita obstinou-se em não admitir senão as formas
antigas e fracassou do modo mais completo por não ter percebido o novo
conteúdo" que surgia da nova época da luta revolucionária;
"O doutrinarismo de esquerda obstina-se em repelir incondicionalmente
certas formas antigas, sem ver que o novo conteúdo abre seu caminho através de
todas as espécies de formas e que nosso dever de comunistas consiste em
dominá-las todas, em aprender a completar umas com as outras e a substituir
umas por outras com a máxima rapidez, em adaptar a nossa tática a qualquer
modificação dessa natureza, causada por uma classe que não seja a nossa ou
por esforços que não os nossos".
Em última instância, os dois desvios de doutrinarismo de direita ou de
esquerda, que podem se tornar em oportunismos político-ideológicos, decorrem
do "afastamento na prática da dialética marxista".
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MANIFESTO
DO PARTIDO COMUNISTA |
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DO
SOCIALISMO UTÓPICO AO SOCIALISMO CIENTÍFICO |
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DIALÉTICA
DA NATUREZA |
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INTRODUÇÃO
À CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA |
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SALÁRIO,
PREÇO E LUCRO |
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IMPERIALISMO,
FASE SUPERIOR DO CAPITALISMO |
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O
ESTADO E A REVOLUÇÃO |
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A
DOENÇA INFANTIL DO COMUNISMO NO ESQUERDISMO|
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QUE
FAZER?|
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