José Reinaldo
Carvalho (**)
1 – Vivemos uma
situação complexa no mundo. Inúmeros são os
fatores de incerteza quanto ao futuro da
humanidade, gravíssimas são as ameaças que
afetam a paz mundial, a segurança dos países
e povos, impedem a concretização das suas
legítimas aspirações à liberdade, à
independência e ao progresso social.
Prevalece uma ordem econômica e política
iníqua e irracional. A humanidade já
acumulou forças produtivas suficientes para
dar um salto no sentido da abundância. A
classe operária objetivamente avançou no
sentido da sua emancipação. Materialmente, o
mundo está mais próximo do socialismo.
Paradoxalmente, porém, quando a produção se
globaliza e as inter-relações entre países e
povos assumem as dimensões a que estamos
assistindo, a condição humana é degradante
para quatro quintos da população do planeta.
Uma miséria extensa contrasta com a
concentração da riqueza nos pólos mais
desenvolvidos do sistema. A globalização
capitalista, tem favorecido apenas os países
ricos e nestes as suas camadas mais
abastadas. É natural que tome lugar em todo
o mundo a luta de classes, embora nem sempre
seja essa a feição dos conflitos políticos
de nosso tempo e que em toda a parte se
manifeste de maneira aguda e por vezes até
violenta a luta entre países ricos e pobres.
2 – O debate sobre o quadro mundial faz
parte da luta política e ideológica dos
comunistas. Primeiramente, porque nunca como
na época atual os acontecimentos mundiais
incidiram tão fortemente na evolução das
lutas nacionais. No mundo interligado em que
vivemos, é enorme a influência mútua entre
as crises e conflitos locais e nacionais.
Conflitos interétnicos e religiosos nos
confins do mundo, aparentemente sem
importância alguma, muitas vezes tornam-se
agudos, generalizam-se e provocam abalos na
ordem mundial. É que os equilíbrios atuais
são precários. Nunca foi tão atual a
assertiva de Marx de que “tudo o que é
sólido desmancha no ar”. Na segunda metade
do século 20, o mundo viveu a guerra fria, a
corrida armamentista, as guerras coloniais,
a vitória de importantes revoluções, a
derrocada norte-americana no Vietnã, o fim
do campo socialista nucleado pela União
Soviética. A “ordem” mundial vigente até o
final da guerra fria ruiu. Por qual “ordem”
foi substituída é o que faz falta examinar.
O ex-presidente Bush “sênior”
pressurosamente proclamou a “nova ordem
mundial” na seqüência da derrocada dos
regimes socialistas do Leste europeu e no
momento da declaração da primeira guerra do
Golfo em 1991.
Uma década depois, Bush “júnior” anuncia
por meio de sua doutrina de segurança
nacional o que seria a “novíssima” ordem.
Logo veremos – e este é um dos escopos deste
nosso seminário – as características de que
se reveste esta “ordem” e seu grau de
estabilidade. O Brasil e o continente
latino-americano, por suas dimensões
territoriais, humanas e pelos interesses
econômicos aqui envolvidos, também podem
influenciar o conjunto da situação mundial.
Uma justa análise nos levará a acertados
posicionamentos. A capacidade de intervenção
dos comunistas será tanto maior quanto for
preciso o seu diagnóstico sobre o quadro em
evolução. A busca desse acerto de análise e
posicionamento não é isenta de conflitos
ideológicos no âmbito da esquerda tomada em
sentido lato. Nem sempre foi possível adotar
posições comuns em acontecimentos de
magnitude, como na guerra da Iugoslávia e
nas duas guerras do Golfo, por falta de
unidade de critérios. Muitas vezes os
partidos social-democratas partiam da
condenação de Milosevic e de Saddam Hussein
para somente depois se opor à guerra
imperialista. Tal visão invertida tem
enfraquecido a própria solidariedade ao povo
palestino, tamanhas são as ressalvas que se
fazem às diversas forças que compõem a
complexa resistência palestina quando se
trata de firmar declarações conjuntas de
apoio a essa resistência. Também a
solidariedade a Cuba sofre os
condicionamentos da “defesa dos direitos
humanos” a que alguns se arvoram. Nessa
ótica, agressores e vítimas passam a ocupar
o mesmo espaço político.
3 – Para onde quer que voltemos os olhos,
o panorama do mundo é de caos e de
gravíssimas ameaças guerreiras e
antidemocráticas. Diria mesmo que não sei se
em algum outro período histórico precedente
a civilização humana esteve diante de
tamanhas ameaças. Em menos de dois anos, o
imperialismo norte-americano levou a efeito
duas guerras que cobraram aos povos
agredidos altíssimo preço em sangue e
destruições materiais. Ao demais países do
mundo, tais ações trazem nefastas
conseqüências políticas e econômicas devido
à situação de conjunto que cria. E aos
próprios cidadãos estadunidenses as ações
belicistas e militaristas do governo de seu
país acarretam enormes prejuízos, o que cedo
ou tarde terá repercussões políticas
internas, mas isso é outra história...
Apesar desses custos e das crescentes
dificuldades que tem enfrentado para manter
o regime de ocupação no Iraque e estabilizar
a situação no Afeganistão, o governo de Bush
brande novas ameaças contra outros países:
Irã, Síria e Coréia do Norte permanecem no
alvo das ações provocadoras dos EUA, sob o
pretexto de evitar a posse por esses países
das armas de destruição em massa e de
afastar regimes que não se coadunam com o
ideário político e o “modo de vida
americano”. Com uma perspectiva mais
longínqua, mas não menos inquietante,
encontram-se na alça de mira das ameaças
norte-americanas a revolucionária Cuba, a
Venezuela bolivariana e a guerrilha
colombiana. Faz parte desse quadro em
agravamento o aumento das tensões próprias
ao conflito palestino-israelense.
4 - A gravidade da situação mundial e os
perigos que correm a liberdade, a
independência e a segurança dos povos emanam
das posições e políticas do imperialismo
norte-americano. Trata-se da mais brutal
ofensiva imperialista contra os povos e
nações soberanas. O perigo de novo
totalitarismo, que não é a mesma coisa do
nazifascismo mas é uma espécie de fascismo,
paira sobre o mundo. O núcleo dirigente do
governo de Bush, hegemônico no Pentágono e
no Departamento de Estado, convencido de sua
predestinação a dominar o mundo, inclusive
por desígnio divino, elaborou uma estratégia
de domínio imperial que irá marcar
doravante, por muito tempo, as relações
internacionais e acarretará na sua aplicação
efeitos terríveis para a humanidade. Pode
parecer assustador, mas estamos ainda no
começo da aplicação de tal estratégia.
Ultimamente têm sido publicados miríades de
documentos e livros consubstanciando essa
estratégia e não é desprezível o debate nos
círculos governamentais, acadêmicos e de
mídia dos Estados Unidos acerca da política
externa e de defesa, que muitos preferem
resumir como política de segurança nacional.
Nesse debate os campos se dividem entre os
defensores do “hard power” e do “soft power”,
ambos partidários do hegemonismo
norte-americano .
A diferença situa-se no maior ou menor
uso da força e na metodologia de condução da
política externa, entre unilateralistas e
“multilateralistas assertivos”, segundo a
expressão de Madeleine Albright, secretária
de Estado no governo Clinton. Tal dicotomia
nada diz de substancial para nossa análise.
Evitemos cair na armadilha dos termos
estreitos em que se coloca o debate sobre o
modo de conduzir a política externa
norte-americana, mesmo que isso não nos seja
indiferente para efeitos táticos. Consta que
na administração atual há fissuras, mormente
entre o secretário de Estado Colin Powell e
o quarteto
Rumsfeld-Condolezza-Cheney-Wolfowitz. Esse
recorrente debate na sociedade
norte-americana com reflexo nos círculos do
poder e na disputa entre grupos de
influência na política externa e de defesa
aparece intermitentemente com várias facetas
e envolve várias figuras. Recorde-se que há
quase 30 anos, no governo de Gerald Ford, o
secretário da Defesa James Schleisinger, um
“linha dura”, foi exonerado porque
discordava da política do secretário de
Estado, Henry Kissinger, que por suposto não
era “brando”, de tentar manter a détente
entre as duas superpotências. Da grande
quantidade de trabalhos sobre a política
externa e de defesa dos EUA, pelo status
oficialista que assumiram (em seu todo
formam a chamada doutrina Bush) e pelo fato
de seus autores fazerem parte do núcleo duro
da Casa Branca, destacamos os seguintes:
Defense Planning Guidance, conhecido por
Pentagon Paper, escrito por Paul Wolfowitz,
de março de 1992, Rebuilding America´s
Defense, de setembro de 2000 de autoria
coletiva: Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Paul
Wolfowitz, Jeb Bush e Lewis Libby e a
Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, de
2002, conhecida como “Doutrina Bush” .
Observa-se um salto qualitativo na
concepção hegemônica do imperialismo
norte-americano, para o qual contribuíram
alguns fatores que vêm da chamada era
Clinton, quando ocorreram a continuação da
primeira guerra do Golfo, a guerra da
Somália e as duas guerras da Iugoslávia,
revelando que o “multilateralismo assertivo”
se somou a outros fatores na criação de um
ambiente propício ao unilateralismo de
agora. Não se pode deixar de levar em conta
que a sensação de poder absoluto que se
seguiu ao desmantelamento do campo
socialista do Leste europeu foi fortemente
sentida durante os dois mandatos do
ex-presidente. O salto de que estamos
falando consiste na sistematização completa
de um corpo de idéias e na decisão de levar
adiante a luta pelo poder mundial
indivisível. É o que se encontra dito nos
citados trabalhos e se tornou evidente nas
ações que têm caracterizado a gestão Bush,
sobretudo a partir do 11 de setembro de
2001. Circunstâncias externas e internas
formam os elementos que favorecem esse
processo, entre as quais enumero quatro: a
desarticulação da URSS e do campo socialista
do Leste europeu; a perda relativa de
terreno dos EUA vista desde uma perspectiva
histórica; a tomada do poder na Casa Branca
por um grupo ultra-reacionário e o 11 de
setembro.
5 – O ponto de partida fundamental da
“doutrina Bush” é o conceito da primazia dos
interesses do imperialismo norte-americano.
Desde logo, torna-se necessário esclarecer
que não se trata dos interesses nacionais
dos Estados Unidos, os interesses do povo
estadunidense. Estamos aqui em face dos
interesses dos monopólios capitalistas que
se desdobram em interesses políticos e
militares, além dos econômicos. “Hoje os
Estados Unidos gozam de uma posição de força
militar sem paralelos e de grande influência
política e econômica”, dizem os defensores
da doutrina Bush. “Defender nossa nação
contra seus inimigos é o primeiro e
fundamental compromisso do governo federal”.
Ao agir na cena internacional com esse
conceito, o imperialismo norte-americano
impõe restrições de variada natureza à
soberania de outros países e se choca com os
interesses de todas as nações que lutem por
espaços de autodeterminação ou tenham a
aspiração de se tornar potências regionais e
globais. O citado documento de 1992 faz
explícitas referências a esse objetivo de
impedir o surgimento de tais potências. O
documento de setembro de 2000 enfatiza o
objetivo de expandir o perímetro de
segurança americano, através do
estabelecimento de bases em todos os
continentes e da realização de operações
militares onde o Pentágono considerar
conveniente.
Dessas operações não se exclui a agressão
direta a países que eventualmente contrariem
os “interesses” americanos. O pilar
fundamental em que assenta a doutrina Bush é
o combate aos chamados “novos inimigos” – o
terrorismo e os Estados nacionais que
segundo a interpretação dos órgãos de
espionagem dos Estados Unidos abrigam
terroristas ou desenvolvem as armas de
destruição em massa – denominados pela
linguagem neofascista corrente na Casa
Branca de “Estados renegados” ou “Estados
bandidos”. Primazia significa, pois,
hegemonia à outrance, a imposição de uma
ordem mundial hegemonizada pelo imperialismo
norte-americano a serviço dos monopólios do
capital financeiro, hegemonia de caráter
totalitário. O que a doutrina Bush pretende
é dar o arcabouço político-ideológico a esse
estado de dominação, mostrar ao mundo que
não haverá segurança senão pelo medo e que o
governo do mundo pela superpotência
norte-americana é uma missão civilizadora.
6– Dessa definição emanam cinco aspectos,
refletidos em atitudes concretas, que
tumultuam o quadro mundial e colocam em
risco todos os equilíbrios.
a) Guerra infinita – “A guerra contra
terroristas de alcance global é um
empreendimento global de duração
indefinida”. Podemos esperar a partir daí a
repetição de atos guerreiros e a realização
de ações de outro tipo, como espionagens,
sabotagens, golpes, assassínio de oponentes
políticos... Isso faz prever a existência de
uma fase turbulenta de longa duração ,
marcada por grave insegurança nas relações
internacionais.
b) A preempção, ou ação preventiva – “Como
uma questão de bom senso e autodefesa, os
Estados Unidos agirão contra tais ameaças
emergentes antes que estejam completamente
formadas. Não podemos defender nosso país e
nossos amigos enquanto esperamos pelo
melhor... A história julgará severamente
todos aqueles que viram esse perigo
aproximando-se mas falharam em agir”. Já
vimos o que significa a guerra preventiva,
com a guerra contra o Iraque. Caíram por
terra as alegações norte-americanas e
britânicas sobre a posse de armas de
destruição em massa pelo Iraque. Até agora a
opinião pública mundial se pergunta e não
encontra a resposta - contra o quê os EUA
estavam se prevenindo ao atacar o país
árabe? A teoria da ação preventiva subverte
as relações internacionais, derroga o
princípio da dissuasão, introduz o caos e a
desconfiança entre os países, anula a
soberania, institucionaliza o ditame militar
do mais poderoso. É o aspecto mais saliente
daquilo a que chamamos tirania global.
c) A construção de um superpoder militar
e nuclear, uma militarização sem
precedentes. A extensão do perímetro de
segurança americano se traduz em mais bases
militares e em mais tropas norte-americanas
nos territórios de países soberanos.
Traduzir-se-á necessariamente na instalação
de novos protetorados militares, novos
campos de prova de armas e exercícios
militares. É com preocupação que encaramos
as manobras militares em continente
latino-americano, assim como o Plano
Colômbia ou a Iniciativa Regional Andina,
passos de um intervencionismo
norte-americano que poderá ser maior em
nosso continente. Aspecto saliente desse
processo é a escalada no campo nuclear. A
denúncia unilateral do Tratado antimísseis
balísticos intercontinentais pelos EUA e os
novos padrões tecnológicos que estão a ser
atingidos pela superpotência colocam em
alarme todas as nações e transformam em
letra morta o Tratado de Não Proliferação de
Armas Nucleares.
d) Ao estabelecer um nexo, a seu talante,
entre o terrorismo e determinados Estados
nacionais que a administração
norte-americana considera Estados bandidos,
os EUA colocam em cheque a soberania
nacional de uma série de países.
Lembremo-nos de que no discurso que
pronunciou à nação no Congresso dos Estados
Unidos em 20 de setembro de 2001 na
seqüência dos atentados terroristas do dia
11 , Bush chegou a se referir à existência
de mais de 50 países “comprometidos com o
terror”. Em seguida, cunhou a expressão
“eixo do mal”, incluindo o Iraque, o Irã, a
Síria, a Coréia do Norte e Cuba. Prometeu
guerra: “Os Estados Unidos irão recriminar
nações que estão comprometidas com o terror,
incluindo aquelas que abrigam terroristas,
porque os aliados do terror são inimigos da
civilização”. Tais definições levaram os
Estados Unidos a criar a noção de aliança
compulsória dos países do mundo, sob sua
direção, ao proclamar que não haveria
escolha: ou ficar com os Estados Unidos ou
ficar com os terroristas.
e) O quinto aspecto é a formulação e a
colocação em prática de uma política externa
agressiva e voraz, que somente por razões
diplomáticas se pode chamar de unilateral.
Essa política externa faz tábula rasa das
normas do direito internacional, da
autodeterminação dos povos, do sistema de
segurança coletiva e das organizações
multilaterais. A doutrina Bush e duas
guerras norte-americanas deste início de
século fizeram ruir o sistema multilateral,
agravaram a instabilidade no mundo,
acarretaram novas ameaças à paz mundial e à
segurança de todas as nações soberanas. Os
Estados Unidos extinguiram a diplomacia e
feriram de morte a ONU. Depois de ser
considerada irrelevante e irresponsável
pelos Estados Unidos e de ter seus
documentos fundamentais transformados em
letra morta, a ONU nunca mais será a mesma.
Urge o resgate de seu papel,o que está
relacionado com a luta dos povos por uma
nova ordem internacional, luta de fôlego,
tema que também faz parte de nosso debate e
abordaremos oportunamente.
7 - A guerra contra o Iraque – e o
pós-guerra ainda mais, com a sucessão dos
desacertos e fracassos dos Estados Unidos,
que segundo muitos observadores “ganharam a
guerra e estão perdendo a paz” – se por um
lado evidenciou a essência agressiva e
unilateral da doutrina Bush, uma faceta do
imperialismo norte-americano que veio para
perdurar por longo período, por outro lado
está fazendo emergir um novo quadro
político. Só aparentemente a guerra do
Iraque terminou da melhor maneira para os
Estados Unidos. O número de incidentes
violentos e de mortos indica a
impossibilidade de manter um regime de
ocupação nos dias de hoje e num país como o
Iraque.Observa-se um inédito isolamento
internacional dos Estados Unidos e se
produzem importantes fraturas em seu sistema
de alianças. É um quadro em evolução, não
está ainda sedimentado. Deve ser encarado
tendencialmente, uma dentre muitas
contratendências ao poder absoluto
norte-americano. Diga-se entre parênteses
que o isolamento do imperialismo
norte-americano, visível hoje, não é um raio
em céu azul. Já era notável antes do
malsinado 11 de setembro de 2001. Faz parte
também de um processo cumulativo de desgaste
dos EUA. Recordemos a onda de críticas ao
projeto “guerra na estrelas”, à recusa
estadunidense em firmar o protocolo de Kyoto
e o tratado de Roma sobre a instauração do
Tribunal Penal Internacional. Recorde-se
ainda a maneira ruidosa com que os EUA e
Israel deixaram a Conferência de Durban
contra o racismo e a xenofobia e a onda de
recriminações que contra estes se levantou
em todo o mundo. Temporariamente tudo ficou
arquivado em decorrência dos atentados.
Aparentemente, mas só aparentemente, os EUA
lograram constituir uma “frente antiterror”.
Logo se viu que os aliados e os competidores
dos EUA tiravam proveito de uma certa
situação em função de objetivos geopolíticos
e de combate ao terrorismo em seus próprios
territórios.
Voltando aos dias que correm, a solidão com
que Washington fez a guerra no Iraque e os
impasses do regime de ocupação depois da
“vitória” militar sobre o regime de Saddam
Hussein, o golpe de força sobre a ONU, o
desdém à posição da França, da Alemanha, da
Rússia e da China, a indiferença olímpica em
relação ao clamor dos povos contra a guerra
expuseram fartamente a fragilidade
intrínseca da posição norte-americana. Este
é um dentre muitos sinais de que
paradoxalmente, no momento em que exibem
mais força, aparecem também os sinais do
declínio da liderança política dos Estados
Unidos. Vai ficando patente que o domínio
imperialista dos Estados Unidos se sustenta
cada vez mais exclusivamente na supremacia
militar. A onda de críticas na Assembléia
Geral da ONU iniciada nesta semana a partir
do discurso do presidente Lula é um exemplo
contundente desse isolamento americano, fato
marcante da atual conjuntura.
8- O fenômeno abordado no item anterior
se relaciona com um processo objetivo de
fundo, que será analisado por especialistas
em outras palestras e mesas deste seminário,
sobre o que vai dito de passagem: estamos em
face de um processo de declínio histórico do
imperialismo norte-americano que vem de pelo
menos três décadas. Um longo período de
acumulação de déficits e dívidas, de
crescimento contido, de estagnação, de
surgimento de novos competidores, de perda
de mercados. A agressividade crescente é a
reação a esse declínio e a afirmação de
poder em face dos concorrentes reais de hoje
e potenciais de amanhã. Muito embora unidas
por interesses de classe comuns, as grandes
potências capitalistas divergem entre si em
quase tudo. Europa e EUA são hoje pólos
competidores e em muitos aspectos rivais.
Sem que isso signifique que se deve apoiar
num imperialismo para combater outro, não se
pode deixar de levar em consideração a
existência dessa contradição na formulação
da estratégia e da tática das forças
progressistas, pois tem influência
ponderável na configuração do quadro
político. A disputa em curso no Iraque sobre
a duração da ocupação e os papéis que as
Nações Unidas e demais potências ali
desempenharão é um dentre muitos episódios
em que se desdobrará tal contradição.
Podemos enumerar entre os contenciosos a
política de defesa européia, que se choca
com a visão atlântica dos EUA-OTAN e as
infindáveis guerras comerciais.
9 - A luta dos países em desenvolvimento
por uma nova ordem econômica internacional é
fator importante atuando como
contratendência à hegemonia norte-americana.
A globalização capitalista, o predomínio do
capital financeiro nas relações econômicas,
os termos desiguais no comércio mundial, as
perdas internacionais, o endividamento
externo levaram muitos desses países à
exaustão e à bancarrota. A luta desses
países no âmbito da OMC, sua aliança no
chamado G-20 liderado pelo Brasil, aponta
para a formação de uma importante corrente
de nossa época. Não se trata da mera
repetição da antiga luta dos países do
terceiro mundo ou do movimento dos não
alinhados com a configuração que tinha ao
longo dos anos 60 e 70 e sob as marcas da
bipolaridade EUA versus URSS. É processo
novo, contraditório, mas tudo indica que
marcará a evolução do quadro mundial nos
próximos anos. Ligado a isso, temos outro
fenômeno objetivo, que é a luta dos países
continentais e semicontinentais,
nomeadamente Brasil, Índia e Rússia
(malgrado o caráter dos governos atuais
destes dois últimos) por sua afirmação na
comunidade internacional e em defesa de seus
próprios interesses nacionais e no âmbito
das regiões de que fazem parte. Nesse
cenário complexo das contradições
geopolíticas, não se pode perder de vista o
papel da China socialista, potência
emergente com a perspectiva de ver
fortalecido no médio prazo seu poderio
econômico e militar, credenciando-se a
desempenhar papel de peso maior na cena
mundial.
10 - Sujeito às leis próprias do fluxo e
refluxo dos movimentos de massas, fenômeno
de grande destaque dos nossos dias é o
movimento popular pela paz. As manifestações
maciças em escala planetária pela paz e
contra a guerra imperialista que tiveram por
cenário centenas de cidades em todo o mundo
nos dias 15 de fevereiro e 15 de março deste
ano, já estão inscritas na história
contemporânea como acontecimentos que se
acrescentam ao longo e gradual processo de
acumulação de forças no sentido de uma
mudança de fase na luta antiimperialista.
Não se pode dizer já esteja superada a fase
da defensiva estratégica em que o movimento
revolucionário e antiimperialista ingressou
desde que sofreu a derrota histórica nas
duas últimas décadas do século passado. Mas
o ambiente político já não é o mesmo, há
mais ânimo e disposição de luta na ampla
frente de organizações que formam hoje o
movimento de massas no mundo. O Fórum Social
Mundial tem constituído um ponto de
convergência desse movimento e é fator
propulsor para a mobilização e a organização
popular. Precisa superar preconceitos e
limitações de natureza política e
ideológica, entre estes o anticomunismo e a
ilusão de que a luta “global” substitui os
embates nos marcos nacionais. Mas
objetivamente deve ser considerado como
cenário importante da luta antiimperialista.
11– Concluo reafirmando três aspectos da
política internacional do nosso Partido: 1)
O caráter essencial de nossa luta em sua
dimensão internacional é antiimperialista.
Luta que não está separada das lutas
nacionais de nosso povo: a defesa da
soberania nacional, numa perspectiva de
emancipação nacional e social do povo
brasileiro, passo estratégico da luta pelo
socialismo; 2) O Partido é internacionalista
e está disposto a participar lado a lado com
outras forças antiimperialistas de
movimentos amplos, com bandeiras amplas,
como a luta pela paz e o desenvolvimento.
Isto implica o nosso relacionamento político
com forças progressistas e nacional –
libertadoras e a nossa participação em
amplas articulações multilaterais e
unitárias como o Fórum de São Paulo e 3) O
Partido é força atuante do movimento
comunista internacional e luta pelo seu
fortalecimento e por sua unidade. Faz isso
reforçando seu caráter de força
revolucionária que tem na identidade
comunista o seu traço distintivo essencial
que o credencia a desempenhar papel de
destaque nas lutas do povo brasileiro.
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(*) Intervenção no Seminário “A nova
realidade internacional sob o primado dos
EUA”, promovido pela Secretaria de Relações
Internacionais e Instituto Maurício Grabois.
Brasília 25 e 26/09/2003.
(**) Jornalista. Secretário de Relações
Internacionais do Partido Comunista do
Brasil, Diretor do Cebrapaz – Centro
Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta
pela Paz, membro do Tribunal de Bruxelas
contra crimes de guerra.
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