Por Fausto Sorini - PRC
18/07/2005
Organizado por Fausto Sorini
(Fonte: Departamento Nacional do PRC -
“Pesquisa histórica e teoria política do
movimento operário”. Disponível em <www.ricercastoricateorica.org>)
Propor uma reflexão a respeito da
experiência histórica da construção do
socialismo no século XX, sobre seus êxitos,
as perspectivas presentes e futuras –este o
fio condutor de nosso estudo – é uma questão
de base da identidade dos comunistas hoje,
das razões não contingentes de sua própria
existência.
O tema é bastante complexo e controverso, e
é tratado com um espírito aberto, com plena
disponibilidade a aprendizagem recíproca.
Gostaria de propor, com esse intuito,
algumas considerações preliminares e
absolutamente provisórias para esta
pesquisa.
1) Toda a reflexão de Marx e Engels é
ligada à idéia de que o socialismo se
afirmaria sobretudo nos países capitalistas
mais desenvolvidos. Ou seja, onde haveria o
capitalismo propriamente dito, no estágio
mais avançado do seu desenvolvimento,
resolvendo problemas tais como eficácia da
produção, aumento da produtividade do
trabalho, o dinamismo induzido pela
concorrência e pelo mercado,a inovação
científica e tecnológica. Afirmando-se
nestes países, no ápice do desenvolvimento,
o socialismo teria então conduzido o resto
do mundo, as colônias, os países menos
desenvolvidos do ponto de vista do
desenvolvimento das forças produtivas. Não
apenas isso. Marx atrelava a possibilidade
do superamento do mercado (previsível em uma
fase avançada da transição para o comunismo)
não apenas à existência da propriedade
social, mas também a um elevadíssimo nível
de desenvolvimento das forças produtivas e
de automação do trabalho, em que o homem
participaria sempre cada vez menos
diretamente da produção material.
Tal idéia deveria ter como pressuposto um
desenvolvimento científico e técnico a um
nível que na verdade ainda não fora atingido
em nenhuma parte do mundo. E que certamente
não era aquele das primeiras experiências de
tipo socialista ensaiadas no século XX , nem
daquelas ainda em curso no século XXI , mas
que pertence a um futuro ainda distante.
Marx diria a esse propósito: “o
desenvolvimento das forças produtivas (nas
quais já está implícita a existência
empírica dos homens no plano da história
universal, ao invés de no plano local) é um
pressuposto prático (do socialismo –N.D.R.)
absolutamente necessário, também porque sem
ele se generalizaria apenas à miséria e
assim necessariamente recomeçaria também o
conflito pela necessidade e retornaria
obrigatoriamente toda a mesma velha merda”.
É ausente em Marx e em Engels, salvo
alguns indícios fragmentários, sem qualquer
densidade teórica geral, uma reflexão
sistemática a respeito dos aspectos de uma
transição ao socialismo que pudesse ser
iniciada nos países mais atrasados.
2) Esta abordagem se modifica em Lênin e
em todo o movimento comunista do século XX.
Com a análise sobre o imperialismo, Lênin
elabora uma nova teoria da revolução
proletária. Na fase imperialista, de fato,
as singulares economias nacionais deixaram
de ser unidades relativamente
auto-suficientes para se tornarem elos de
uma única corrente, da economia mundial: o
mercado é mundial , os conflitos e as
guerras assumem um caráter mundial. A
questão da revolução é cada vez mais
considerada, não apenas com base no
desenvolvimento econômico e político e das
relações de força existentes em cada um dos
países ou em uma série de países mais
avançados, mas também com base e em
referência a um sistema mundial.
Neste quadro, aquilo que é decisivo para
Lênin é que o sistema, considerado em sua
totalidade, é maduro para transformar-se no
sentido socialista. A revolução pode,
portanto, começar, no sistema imperialista,
não necessariamente onde a indústria é mais
desenvolvida, a ciência e a tecnologia mais
evoluídas , o proletariado mais numeroso,
etc., mas sim onde a corrente do
imperialismo se torna mais fraca, onde as
contradições se acumulam e se agravam , onde
a burguesia é então mais fraca, e o
proletariado –mesmo se menos numeroso- pode
contar com aliados como os trabalhadores
rurais e as nações oprimidas. E em
conseqüência do desenvolvimento desigual do
capitalismo, a revolução poderá não “só
vencer, mas também iniciar a construção do
socialismo em um único país ou num grupo de
países.” “A desigualdade do desenvolvimento
econômico e político é uma lei absoluta do
capitalismo- escrevera Lênin em agosto de
1915 – de modo que isto resulta em uma
possível vitória do socialismo inicial em
alguns países ou também em um único país
capitalista, em separado”. Não resta dúvida
que Lênin pensou por muito tempo na rápida
propagação da revolução na Europa mais
desenvolvida, cujo alto nível econômico e
cultural teria favorecido a mesma expansão
da revolução na Rússia em direção ao
socialismo. Mas foi o próprio Lênin –
sobretudo nos últimos anos de vida, quando
era então claro que a revolução não havia
vencido no Ocidente- a comparar-se primeiro,
no plano teórico e prático, com a
problematização inédita daquilo que Gramsci
havia definido de fato como “revolução
contra o Capital”, compreendida como uma
revolução que se afirmava em um contexto tão
diverso daquele conjeturado por Marx.
Lênin morre em 1924 e pôde somente esboçar
sua reflexão. Essa teve um significativo
ensaio na NEP, que no raciocínio de Lênin
aparece imposta não só por um contingente
estado de necessidade, mas se carrega pouco
a pouco de um significado mais estratégico e
alude a problemáticas mais gerais da
transição.
É implícita na reflexão leniniana dos
últimos anos– ás vezes abertamente
declarada- a idéia de que em um país
atrasado, ainda mais depois da derrota da
revolução no Ocidente, a transição ao
socialismo não seria um processo breve; e
que neste processo seria possível observar,
na economia, a simultaneidade entre
planejamento e mercado, entre público e
privado; de elementos do socialismo e do
capitalismo, com um inevitável conflito
social e de classe que da transição teria
derivado. E que o problema do poder político
socialista, ao utilizar os elementos do
socialismo na economia (o setor público) ,
seria o de governar a transição e dominar os
elementos de mercado e do ressurgente
capitalismo, para utilizá-los e guiá-los
(não suprimi-los voluntariosamente) em
direção a um gradual controle e posterior
reabsorção dentro das “compatibilidades” do
socialismo.
Ou seja: caberia ao poder socialista ,
levando em conta o subdesenvolvimento da
Rússia, promover e administrar alguns
fatores de desenvolvimento das forças
produtivas que nos países mais evoluídos
foram confrontados e resolvidos pelo
capitalismo; evitando ao mesmo tempo que
tais fatores pudessem se tornar
predominantes, arruinando assim o caráter e
a perspectiva socialista da revolução russa.
Lênin imaginava, para tal propósito, um
longo processo: “entre capitalismo e
comunismo há uma fase de transição que
abraça uma inteira, longuíssima e complexa
época histórica”. Na qual, no campo
econômico, convivem “elementos do socialismo
e elementos do capitalismo”. Este período
será “tão longo quanto menos desenvolvida
for esta sociedade”. Lênin adverte quanto
“as ilusões de que existam atalhos fáceis”.
“A tomada do poder é apenas o primeiro passo
de uma longa transição”. Isto é: depois da
inevitável ruptura revolucionária (não há em
Lênin, nem posteriormente em Gramsci,
nenhuma possibilidade de confusão com um
gradualismo de tipo reformista) o socialismo
vence, enfrentando uma longa competição
entre elementos do socialismo e do
capitalismo, ambos presentes durante a
transição. E o socialismo vence quando os
primeiros elementos prevalecem completamente
sobre os segundos.
A questão será depois retomada e
desenvolvida por Gramsci na sua reflexão
sobre a “revolução no Ocidente”, onde a
questão dos “longos tempos” e da
complexidade da revolução se estende a
própria fase de construção do processo
revolucionário , ou seja, de conquista da
hegemonia do proletariado - e do avançar de
trincheiras - no âmbito da própria sociedade
burguesa, onde o estado não é apenas
coerção.
3) As circunstâncias históricas
excepcionais e as escolhas que prevaleceram
entre o grupo dirigente bolchevista depois
da morte de Lênin (e depois de um duro
debate que se prolongou até 1929) – baseadas
na previsão, que se revelou historicamente
fundamentada, de que a URSS estaria dentro
em breve enfrentando um novo conflito
mundial – favoreciam a afirmação de um
modelo de industrialização acelerada e de
coletivização forçada do campo .
O custo humano foi elevadíssimo, e ainda
hoje se discute o quanto a férrea e
autoritária direção stalinista (da qual
todos reconhecem os excessos), seria em
grande parte um tributo pago pela
excepcionalidade dos tempos; e até que
ponto, ao invés, seria a expressão de
processos degenerativos não obrigatórios,
portanto, em sua maioria, evitáveis. Mas é
difícil negar (confirmando-o também
Gorbaciov em seu discurso por ocasião do 70°
aniversário da revolução de Outubro, mesmo
que em um contexto de reabilitação geral da
figura de Bucharin) que aquele crescimento
acelerado concedeu à URSS um rápido
desenvolvimento das forças produtivas e
permitiu que ela que não chegasse
despreparada ao dramático encontro da 2ª
guerra mundial.
E se não fosse assim, ou seja, se a URSS
se encontrasse em 1939 com uma indústria
pesada mais precária e obsoleta, teriam sido
muito diferentes os êxitos do conflito e os
destinos do mundo. É fato de que se
cristalizou por décadas, e manteve-se mesmo
após a morte de Stalin, um modelo de
estatização quase integral dos meios de
produção; e por muito tempo a
problematização implícita nas últimas
reflexões de Lênin a respeito da NEP foi
substancialmente removida. Ressurgiu aqui e
ali, de modo fragmentado, no debate sobre a
reforma econômica dos anos 60 (na União
Soviética , em alguns países do Leste
europeu...), mas nunca conseguiu, naquele
período, ser traduzida em um projeto
orgânico de reforma.
Ao invés disso, um certo guevarismo em
Cuba (que por outro lado simplificava o
pensamento econômico de “Che”) e o maoísmo e
a Revolução cultural na China impulsionavam
a direções opostas, ao rumo de uma
supervalorização do componente subjetivo,
voluntarista e de mobilização “ideológica”
no desenvolvimento das forças produtivas
(toda a cultura política “antieconomicista”
do ano de 68 foi impregnada por isso...)
4) Na realidade, uma reflexão de grande
importância para o movimento comunista surge
apenas depois da 2° guerra mundial , em
função das chamadas “democracias populares”
nos países do Leste europeu (deveria ser
feito um discurso à parte para a experiência
iugoslava, mas não entrarei na discussão) .
Em um longo ensaio da Rinascita
(Renascer) (revista teórica do PCI) de junho
de 1947, intitulado: “Che cosa è la
democrazia di nuovo tipo”(O que é a
democracia de novo tipo), (texto que vale a
pena ser analiticamente retomado) o
economista e revolucionário húngaro Eugenij
Varga (figura histórica da Internacional
comunista, homem de confiança de Stalin,
certamente não um “herético”…) escreve:
“O regime social destes Estados se
diferencia de todos os outros Estados
conhecidos por nós até hoje: é algo
absolutamente novo na história da
humanidade.(…) [Neles] existe o sistema da
propriedade privada dos meios de produção;
mas as grandes empresas industriais , o
transporte e o crédito estão nas mãos do
Estado e o próprio Estado e o seu aparato de
repressão não servem aos interesses da
burguesia monopolista mas aos interesses dos
trabalhadores. (…) Com a nacionalização dos
principais meios de produção e com o próprio
caráter destes Estados são lançadas as bases
para a passagem destes ao socialismo. Podem
eles, mantendo o poder estatal atual,
gradualmente passar para o socialismo,
desenvolvendo cada vez mais as organizações
de tipo socialista que já existem ao lado de
empresas mercantis (...) e (...)
capitalistas que perderam sua posição
proeminente.(…) . Assim, a estrutura social
nos Estados democráticos de novo tipo não é
a estrutura socialista, mas uma nova forma
original de transição. As contradições entre
as forças de produção e as relações de
produção se atenuam à proporção que aumenta
o peso específico do setor socialista”.
Aquilo que aqui se configura é, portanto, um
processo de transição no âmbito de uma
economia mista, com um poder político
orientado para o socialismo.
5) A mesma problematização se encontra na
elaboração do PCI daqueles anos a respeito
da “democracia progressiva” e da “via
italiana para o socialismo”. Na declaração
do programa aprovado em 1956 pelo 8°
congresso, pode-se ler : “A construção de
uma sociedade socialista deve considerar,
dada a estrutura econômica italiana, tanto a
proteção e o desenvolvimento do artesanato,
quanto a colaboração com uma pequena e média
empresa que, não tendo caráter monopolista,
pode encontrar no regime socialista
condições de prosperidade de longo prazo ,
antes de passar a formas de produção
superiores, sempre baseadas no benefício
econômico e no consentimento livre”.
Como é possível observar, não faltam
sugestões, mas também aqui, por diferentes
razões (objetivas e subjetivas) a partir do
condicionamento operado pela guerra fria e
pela rigidez política e ideológica que esta
inevitavelmente carrega, o conjunto de
idéias não se transforma em uma reflexão e
sobretudo em uma experimentação orgânica. E
também as novas instituições referentes à
transição para o socialismo nas democracias
populares acabam sendo reabsorvidas dentro
do alinhamento “de campo” ao modelo
soviético e a nova militarização das
relações internacionais, imposta pelo
imperialismo e pelas ameaças de uma nova
guerra (nuclear) contra a União Soviética e
o campo socialista.
6) A originalidade das reflexões que se
afirmam entre o Partido Comunista chinês em
1978, após a morte de Mao e da derrota do
“bando dos quatro” (e sucessivamente do
Partido comunista vietnamita) está
justamente – a meu ver – na forte
recomposição, atualização e sistematização
dos temas levantados por Lênin na NEP, até
mesmo no âmbito da reflexão que parte do
contexto sino-vietnamita, sem pretensões
generalizantes, sem a veleidade de indicar
um “modelo”. São reflexões que vêm sendo
feitas há muito tempo.
O novo grupo dirigente chinês
(posteriormente o vietnamita) reflete a
respeito da falência do "subjetivismo” e do
"voluntarismo" econômico da Revolução
cultural , mas também tem bem presente a
estagnação econômica que começa a
caracterizar o sistema soviético. Afirma-se
uma tentativa de um primeiro balanço crítico
global da experiência do socialismo real na
economia , que encontrará posterior apoio e
impulso com a falência da Perestroika de
Gorbachev, e com a consecutiva queda da
URSS.
A idéia principal é que a crise do
socialismo real é em grande parte econômica,
oriunda da dificuldade de resistir à
competição econômica e tecnológica com os
países capitalistas mais desenvolvidos.Deste
modo, se o socialismo não consegue enfrentar
tal desafio, ele está destinado a sucumbir.
E assim também é se ele não consegue reagir
ao desafio da modernização capitalista e da
competição mundial, da qual não é factual
pensar que seja possível fugir com economias
fechadas, semi-autárquicas , nem com formas
de protecionismo exasperado; ainda mais em
países ainda em via de desenvolvimento, como
a China e o Vietnã.
Assim – costuma-se dizer – as sociedades
de inspiração socialista que sobreviveram à
queda do sistema soviético devem encontrar
formas adequadas de introduzir elementos de
forte dinamização no desenvolvimento das
forças produtivas,aprendendo também através
das experiências dos países capitalistas
mais avançados. Bem mais nos países ainda em
via de desenvolvimento, como, por exemplo, a
China e o Vietnã, onde, seguindo tal
abordagem, o processo de construção do
socialismo exige um longo processo de
transição , destinado a durar por uma longa
fase histórica , antes de conquistar uma
sociedade socialista desenvolvida digna
deste nome, que possa realmente se propor a
realização completa dos objetivos e
intenções de tudo aquilo que, de Marx em
diante, chamamos de “comunismo".
Quaisquer que sejam as opiniões a
respeito do mérito do “novo curso” chinês e
vietnamita, que venham a suscitar avaliações
ainda mais cautelosas, não conclusivas e
muito diferenciadas do debate dos comunistas
na Itália e no mundo, tratam-se, todavia, de
experiências originais, inéditas, de
desenvolvimento imprevisível. Elas possuem
elementos de continuidade (principalmente no
plano político-institucional), mas também de
forte descontinuidade (sobretudo no plano
econômico e no da teoria da transição), com
a experiência do “socialismo real” do séc.
XX, e se colocam historicamente no limiar
entre o século XX e o séc. XXI. Esta mistura
de passado-presente-futuro, além do
crescente peso da China na economia mundial
e no equilíbrio internacional do séc. XXI,
fazem destas experiências um laboratório de
grande interesse, de crescimentos ainda hoje
imprevisíveis ,para qualquer um que se
dedique ao problema das perspectivas do
socialismo.
A propósito, recordo um comentário de
Sergio Garavini, então secretário do PRC,
feito durante uma viagem à China (1995): “
os chineses, diferentemente da completa
estatização do modelo soviético, estão
procurando construir uma sociedade civil
autônoma e dinâmica, em dialética com um
poder político destinado, cedo ou tarde, a
se democratizar, em relação ao crescimento
da sociedade civil. Se a experiência obtém
sucesso , as conseqüências de todo o resto
podem ser inesperadas e explosivas para o
futuro do socialismo”.
7) A história do séc. XX confirmou a
precisão da análise de Lênin a respeito do
imperialismo e da conseqüente teoria do “elo
frágil” da corrente, qualquer que seja o
juízo que se queira atribuir com relação ao
êxito conclusivo da experiência soviética (a
menos que não pense que isto estivesse
implícito em suas premissas originais, que
tudo estivesse pré-determinado já em 1917…).
E, a meu ver, confirmou também algumas
concepções fundamentais de Lênin em seus
últimos anos a respeito da transição (mas
sobre isso falaremos mais adiante).
As revoluções socialistas que se
afirmaram no transcorrer do século XX, a
partir da soviética, se referem a países
profundamente marcados pelo
subdesenvolvimento (Iugoslávia, China,
Vietnã , Coréia, Cuba…); enquanto que a
experiência que reúne os países do Leste
europeu, alguns dos quais partindo de níveis
mais elevados de desenvolvimento
(Tchecoslováquia, DDR), é fortemente
condicionada, mais que pelas respectivas
peculiaridades nacionais, pela participação
comum a um campo político-militar e a uma
área de influência dominada pela URSS, pela
“compatibilidade” da guerra fria e da
militarização das relações internacionais
que ela produziu.
Trata-se de um contexto internacional que
certamente não foi desejado pela URSS e
pelos seus aliados, pelo contrário, o
toleravam (a partir da ameaça nuclear e da
criação da NATO em 1949), mas que uma vez se
impondo, passa a condicionar profundamente
escolhas e comportamentos do campo
socialista. Esta realidade não permite a
estes países de “democracia popular”
praticar experiências de transição em maior
conformidade com as respectivas
peculiaridades nacionais e com os
respectivos níveis de desenvolvimento
econômico , político, cultural (como era
então desejado pela própria direção
soviética logo após a 2° guerra mundial e
antes de imperar a guerra fria), mas os
obriga a se uniformizar às características
fundamentais do “modelo soviético” e a uma
“disciplina militar ” dominada pela URSS e
pelas suas exigências estatais de segurança.
8) O refluxo da revolução no Ocidente faz
com que o campo socialista (compreendido
lato sensu, isto é, primeiramente
concentrado na URSS, depois no eixo URSS
-China, posteriormente marcado pela
dramática ruptura entre as duas maiores
potências socialistas) se afirme
objetivamente no decorrer de todos os
acontecimentos do séc. XX, como o
“epicentro” do processo revolucionário
mundial da luta pelo avanço em direção ao
socialismo e a libertação dos povos (será
emblemático o panorama do Vietnã). E isto
muito além das avaliações ainda muito
diversas que se manifestam na política
nacional e internacional deste ou daquele
país socialista , em distintas fases que
marcam a história do século passado, ou em
eventos isolados.
Trata-se de uma constatação histórica,
mais do que uma opinião. Também na
elaboração do PCI de Gramsci, Togliatti,
Longo, que discute o tema da peculiaridade
da revolução no Ocidente, e que se posiciona
freqüentemente de maneira crítica com
relação ao “socialismo real”, a função
internacional do campo socialista continua a
ser fundamental. E ela permanece fundamental
, em quase todas a linhas de pensamento de
inspiração comunista do séc. XX : de Mao a
Kruscev, de Togliatti a Che Guevara, embora
exista a heterogeneidade também profunda de
estratégias e de teorias que tais linhas
expressam (da diferença de opinião a
respeito da China e da URSS às polêmicas
quanto a coexistência pacífica entre os dois
sistemas e sobre a inevitabilidade de uma
terceira mundial; do confronto por meios
pacíficos ou revolucionários ao surgimento
de uma ala terceiro-mundista ou daqueles
que, ao contrário, enfatizam a função do
movimento operário da Europa Ocidental.)
Embora existam tais diferenças, bem mais
do que secundárias, nenhum dos componentes
mais expressivos do movimento comunista nega
(seja criticamente ou além das exasperações
propagandísticas da fase mais aguda da
polêmica) a função central do campo
socialista, ao menos como principal elemento
de contraposição ao imperialismo.Também no
pensamento inicial de Berlinguer e em
algumas interpretações menos extremistas da
linha “eurocomunista”, tal função acaba
sendo reconhecida.
Na fase final da direção de Breznev e
depois, sobretudo com Andropov, surgem
sinais crescentes de normalização nas
relações URSS-China, encorajados por ambas
as partes, após uma fase acutíssima e
lacerante de contraposição . E a
eventualidade, que finalmente parece
possível, de uma pacificação entre as duas
maiores potências socialistas estimula uma
retomada do compromisso em uma possível
revitalização da atuação internacional dos
países socialistas. O próprio Gorbaciov,
neste ponto em sintonia com Deng Xiaoping,
promoveu uma frente de normalização das
relações com a China. É bastante evidente
que uma nova dinamização do processo de
renovação socialista dos dois maiores países
do “socialismo real” e uma pacificação das
suas relações teria conseguido aumentar a
capacidade de atração do socialismo em
escala mundial. Mas, como se sabe, as duas
“Perestroikas” (a soviética e a chinesa)
tiveram abordagens e êxitos bens diversos.
Mas será Enrico Berlinguer, antes destes
eventos e depois da crise polonesa de 1981,
a “fazer a travessia até a outra margem” com
a famosa opinião sobre o desgaste do impulso
propulsor. Uma tese que, na sua mais
profunda (e mal interpretada) acepção – como
fica claro também através da recente
publicação do “diário secreto” de Tatò
–sustenta que uma nova fase histórica foi
iniciada , na qual não mais o campo
socialista, mas sim o movimento operário da
Europa ocidental ( no encontro entre o
“eurocomunismo” e a social-democracia)
torna-se o “”epicentro” do processo
revolucionário mundial.
Serão os acontecimentos e as décadas
posteriores (dissolução do PCI, movimento
neoliberal da social-democracia européia) a
demonstrar o caráter infundado e utópico
desta tese : não por ter apreendido a
profundidade da crise do sistema soviético
(que se desgastará dez anos depois), mas nas
conclusões que isto faria traria para o
movimento operário internacional, enquanto
que, o PCI após a morte de Berlinguer, se
encaminhará desastrosamente para sua
autodissolução.
É claro que a queda da URSS e do campo
socialista na Europa (diversamente, por
exemplo, da experiência chinesa, vietnamita,
cubana : não é possível simplificar e
registrar tudo na categoria de “ruína ou de
“falência”) obriga-nos a analisar as causas,
a tentar um balanço completo de toda uma
experiência que por décadas ocupou um papel
central na experiência do movimento operário
do século passado.Não é possível reconstruir
uma casa que desaba depois de um terremoto
se não se compreende a fundo quais foram as
razões do desabamento. Não é possível
recomeçar com credibilidade a proposta do
socialismo no século XXI se não se fizer um
profundo balanço, de modo rigoroso e não
propagandístico, de toda a experiência
global do socialismo e do movimento
comunista do séc.XX.
Sobre a experiência da construção do
socialismo no século 20
9) É possível resumir , de modo bastante
sintético e levando em consideração as
colaborações das diversas linhas de
pensamento , as causas fundamentais da crise
e depois da derrocada do “socialismo
soviético” e do campo socialista na
Europa?Trata-se, preliminarmente, de
considerar um dado estrutural, de atraso
histórico com relação ao capitalismo
desenvolvido, no qual se completa a primeira
experiência de transição ao socialismo.
A derrota da revolução no Ocidente nos anos
20 e o conseqüente isolamento e retirada ao
qual ela condenou o poder soviético,
condicionaram todo o processo de construção
do “socialismo em um único País” . Nem tudo
era inevitável , seria demasiado mecanicista
afirmá-lo, mas certamente o contexto
objetivo foi extremamente difícil. E
favoreceu não apenas os processos
degenerativos que ocorreram , mas também
principalmente a afirmação de um “modelo”
econômico (estatização integral) e
político-institucional (partido único,
partido-Estado) que então substancialmente
estendeu-se (nas suas estruturas de base e
nos limites iniciais) também ás sucessivas
experiências de transição.
As longas décadas de guerra (quente e fria)
que a URSS teve que enfrentar nos confrontos
como o mundo capitalista (cerco militar,
segunda guerra mundial, ameaça nuclear,
corrida armamentista) provocaram uma
centralização autoritária da vida econômica
e política e una “militarização” do
pensamento que, uma vez cristalizado em um
sistema de poder, sobrevive além das
circunstâncias que favoreceram a sua
afirmação.
10) Consolidou-se um modelo econômico que se
demonstrou inadequado para enfrentar a
competição com o capitalismo e com a sua
impetuosa revolução técnico-científica.
Um modelo econômico, cujas diretrizes
básicas eram:
– a estatização quase que integral da vida
econômica e social e o inexistente
reconhecimento do papel não periférico do
setor privado na transição, ainda mais nos
países ainda envolvidos com problemas
primordiais de desenvolvimento em virtude de
seu atraso.
– um planejamento rigidamente centralizado e
hierárquico e uma centralizada intervenção
comercial que substancialmente excluíram os
trabalhadores (os “produtores”) da
participação direta na gestão das unidades
de produção e elaboração democrática do
plano, determinando uma objetiva separação
dos produtores dos meios de produção
(estatização sem socialização);
– Inadequação de um sistema de incentivos
(para os indivíduos, para as empresas, para
as cooperativas comerciais) –capaz de
recompensar a quantidade, a qualidade e o
espírito de iniciativa do trabalho humano.
11) Outro limite fundamental do “socialismo
real” remete a um modelo
político-institucional autoritário que freou
o desenvolvimento de uma democracia
socialista, na acepção de um Estado de
direito, com sólidas raízes na sociedade
civil. Isto explica, entre outras coisas, a
facilidade com que – degenerado o
protetorado político-militar da URSS – os
sistemas políticos do Leste europeu ruíram:
com facilidade e rapidez nunca antes vistas
em outros sistemas políticos, também
abertamente reacionários, que se
demonstraram assim mais consolidados , mais
hegemônicos e resistentes à ação das forças
organizadas de oposição.
12) A falta de uma autêntica dialética
democrática no partido e no Estado; a
identificação do partido com o aparato
estatal; a distância entre o poder e o povo
e entre o poder e os trabalhadores; a
rigidez verticalizada do poder político e a
negação de qualquer autêntica dialética
político-cultural , mesmo interna ao
movimento dos trabalhadores e ás forças que
si colocavam em uma mesma perspectiva
socialista – são patologias que certamente
também tiveram várias intensidades nas
diferentes experiências de transição e nas
diversas fases de si mesmas – produziram ,
em muitos casos , a estagnação e a esclerose
do pensamento teórico , transformando o
marxismo em ideologia de Estado, cada vez
menos plausível aos olhos das massas. E
privaram a sociedade e o próprio partido
daqueles instrumentos críticos de
autocorreção, capazes de fazer compreender a
tempo as modificações da realidade e as
reformas que se faziam necessárias para
reforçar e reiniciar as bases do socialismo.
13) A experiência histórica tem demonstrado
a persistência de profundas diferenciações
sociais, de classe, políticas, de ideais,
nacionais, étnicas nas sociedades de
transição ; distinções que são reconhecidas,
tornadas evidentes e democraticamente
governáveis, com o consenso e a participação
, popular. Errônea se revelou a tese da
“crescente homogeneização” destas
sociedades, , de que seria possível alterar
suas contradições mesmo que profundas. Estas
diferenciações, não encontrando canais
democráticos e transparentes para se
expressarem, manifestam-se em uma espécie de
“parlamentarismo negro” no partido,
mascarado por um superficial e formal
centralismo burocrático; e favoreceram a
distorção do caráter revolucionário e de
vanguarda dos partidos comunistas no poder e
o seu distanciamento das massas, imbuindo
neles tendências e valores que nada tinham a
ver com as perspectivas e os ideais
comunistas. Uma vez aberta de modo
imprevisto e improvisado a “caixa de
Pandora” (como ocorreu na URSS com a
Perestroika de Gorbaciov),tais forças
–depois de haver buscado e obtido o apoio
decisivo do ocidente capitalista – ganharam
fôlego.
14) Na análise das razões históricas e
políticas que conduziram à queda da URSS,
considero de grande importância (ao menos
merecedora de atenção e aprofundamento) a
opinião que foi exposta em Pequim em maio de
1995, em ocasião da primeira viagem à China
de uma delegação do PRC (da qual eu fazia
parte) guiada pelo então secretário Sergio
Garavini, durante o encontro com um dos
maiores dirigentes – na época - do Partido
Comunista Chinês. Uma tese que tento assim
resumir .
Tanto a direção de Mao na China , quanto a
direção de Stalin na URSS tiveram muitos
limites, e os conteúdos daquelas políticas
são irreproduzíveis e não podem ser
repropostos no contexto histórico atual. Foi
correto seguir adiante.
Tais políticas tiveram de fato o mérito
histórico de ter estabelecido as bases
primordiais da construção do socialismo em
seus respectivos países, após a vitória da
revolução e em circunstâncias históricas
excepcionais. Em particular, a URSS foi
obrigada a sobreviver durante algumas
décadas em isolamento internacional e no
mais brutal cerco militar.
È inadequado e pouco útil enfurecer-se
contra Mao e Stalin e contra os seus erros,
os dois dirigentes não são a causa primária
dos problemas e das dificuldades que ambos
os países tiveram que enfrentar depois de
suas mortes.
A questão é que a China soube –após a morte
de Mao- fazer um balanço crítico, mas não
conclusivo, da fase precedente e das
condições de excepcionalidade que a havia
marcado; encontrou gradualmente a via de um
modelo de desenvolvimento que fosse além das
idéias de Mao, sem a necessidade de torná-lo
maligno, através de uma política de reformas
– ainda em andamento – adequadas a nova fase
histórico-política (modelo está sendo
experimentando, que não vem a ser
considerado esgotado e definitivo, que está
apto a ser corrigido com base na
experiência, mas que permitiu a China
enfrentar a crise do “socialismo real”,
evitar a queda, seguir adiante). Por outro
lado, a URSS e as direções do PCUS que
vieram após Stalin, não souberam
verdadeiramente ir “além de Stalin”; apenas
o denegriram ou remoeram a sua atuação, mas
não souberam elaborar e implantar um projeto
orgânico de reformas do sistema soviético
capaz de revitalizá-lo à nova fase
histórica; não souberam adequá-lo ao novo
contexto interno e internacional para
torná-lo capaz de resistir a competição
econômica e tecnológica com os países
capitalistas mais avançados, passando de uma
fase extensiva a uma fase intensiva do
desenvolvimento econômico, de modo que
acabaram desembocando na estagnação
burocrática e então na crise. E com a
catástrofe final da política de Gorbaciov,
conduziram a URSS não à via da reforma do
socialismo , mas à via de sua autoliquidação.
Valeria a pena, ao meu ver, retomar com
igual propósito, a análise pontual e a
discussão a respeito da figura de Andropov,
sobre seu projeto (apenas esboçado) de
reforma da sociedade soviética (como hoje
também estão fazendo, não por acaso, os
historiógrafos “não-ortodoxos” como Moshe
Lewin).
Posso estar enganado, mas muitos elementos
levam a crer que a brevíssima e controversa
direção de Andropov tenha representado o
momento propício de reforma socialista do
sistema soviético, após a morte de Stalin. E
o fato de que significativas composições
políticas e correntes de pensamento não-
nostálgicas na Rússia atual continuem a
fazer-lhe referências não me parece algo
irrelevante.
15) Por mais importante que seja a
problemática da democracia socialista e das
diferentes formas político-institucional nas
quais ela possa concretizar-se, está
superada, a meu ver, a concepção de que a
crise do socialismo soviético teria tido
substancialmente a sua origem em um déficit
da democracia política (que de fato ocorreu
e foi grave). A falência da Perestroika, de
um lado, e a revitalização de experiências
de transição como a chinesa e a vietnamita,
de outro, evidenciam, ao contrário, a
centralidade das questões estruturais, do
modelo de desenvolvimento, das formas de
propriedade e gestão dos processos
produtivos; sem que isto conduza a
eliminação de outras fatores.
16) Tais problemáticas são, em última
análise, reportáveis à grande questão da
relação entre plano e mercado, entre
economia pública e privada, com uma presença
do setor público que seja satisfatória - por
extensão, qualidade e eficiência- para
orientar as escolhas estratégicas do
desenvolvimento, sem o que faltaria os
pressupostos estruturais mínimos para a
transição voltada para o socialismo.
Trata-se, portanto de reconhecer, nesta
perspectiva, o papel dos instrumentos e
mecanismos de mercado, no plano interno e no
internacional, para uma longa fase de
transição, antes da passagem para formas
mais avançadas de socialização, hoje ainda
não concebíveis. Este é um tema que está
atualmente no centro do debate de
praticamente todos os maiores partidos
comunistas do mundo, estejam esses no poder,
em governos de coalização ou na oposição.
17) Com relação a algumas teses
conclusivas sobre a experiência histórica do
socialismo do Séc. XX , gostaria de recordar
aquilo que disse recentemente, em uma
entrevista, o presidente do PC japonês,
Tetsuzo Fuwa (que também é um crítico
ferrenho da experiência soviética, do modo
como ela foi desenvolvida após a morte de
Lênin): “ainda hoje é prematuro fazer um
balanço do século XX com relação ao
socialismo. No século XX, a URSS e os países
da Europa Oriental não foram os únicos
países a abandonar o capitalismo para se
tornarem países socialistas. Pelo contrário,
em termos de população, foi apenas uma
minoria entre aqueles países que
experimentou construir o socialismo.”
“Examinei a China e o Vietnã - escreveu Fuwa
– (...) e conforme os caminhos que eles
percorrerão no século XXI para se tornarem
países socialistas e dos resultados que
obterão, a avaliação do século XX com
relação ao socialismo será muito diferente.È
de fato prematuro fazer um balanço do século
XX, baseando-se apenas no fim da União
soviética e dos sistemas da Europa oriental”
.
O que Fuwa quer dizer?
Na citada entrevista, relembrando as mais
recentes teses congressuais do seu partido,
ele recorda inicialmente (ao mencionar a
questão de um balanço completo do séc. XX )–
que no século XX a humanidade caminhou para
a frente , não para trás , e isto, em boa
parte, graças ao papel desempenhado pelo
socialismo, pelo movimento operário e
comunista. Mais que em qualquer outro século
precedente da milenar história do homem, se
avançou tanto na liberação de milhões de
seres humanos de formas precedentes de
opressão, através da conquista de direitos
sociais, políticos (condição social,
sufrágio universal, emancipação feminina…),
da autodeterminação dos povos e da conquista
da independência nacional para a maioria
pela maioria deles, com a ruína dos velhos
impérios coloniais, com o fim de grande
parte das monarquias e dos regimes
fascistas, com a aspiração à paz difundida
na consciência dos povos. Quando se admite
que a queda da URSS é um retrocesso, um
fator negativo e uma derrota para todo o
movimento progressista (e isto é reconhecido
unanimemente entre comunistas e os
progressistas, mesmos entre as correntes de
pensamento mais críticas com relação à
experiência soviética) admite-se que a sua
própria existência era um fator positivo nas
dinâmicas internacionais, e, portanto de
contrapeso ao capitalismo e ao imperialismo.
As guerras da última década (Iugoslávia ,
Afeganistão, Iraque …) seriam inimagináveis
em um mundo no qual ainda existisse a URSS.
Mais precisamente, Fuwa destaca que , cerca
de 1 milhão e 800 mil seres humanos no
século passado haviam feito parte de
processos destinados a construção de
sociedades socialistas; um milhão e meio
ainda está experimentando tais processos, e
isso representa um quarto de toda a
humanidade.
É verdade que a experiência da URSS foi
fundamental na história do séc. XX , e o seu
resultado catastrófico não pode ser removido
ou minimizado no âmbito de uma avaliação
global. Mas o que aconteceria no mundo no
séc. XXI se - como consideram muitos
analistas , de diversas orientações- daqui a
algumas décadas a China se igualar aos
Estados Unidos em termos de potência
econômica? O que ocorreria se isso se desse
no âmbito de uma marcha em direção ao
desenvolvimento que não excluísse uma
perspectiva socialista, mesmo que a longo
prazo? Não seria talvez verdade que a China
assumiria um papel internacional não
inferior àquele que a URSS representou no
século passado? São seria verdade que ela se
tornaria (em parte já o é) um ponto de
referência cada vez mais importante para os
países em vias de desenvolvimento(que
representam 4/5 da humanidade), além de uma
significativa contraposição aos Estados
Unidos na dialética paz-guerra?
Se fosse este o cenário, provavelmente o
mundo não retornaria a lógicas bipolares e
de campo, como aquelas que o marcaram no
século passado; pelo contrário, creio que
neste panorama seria reforçada uma dimensão
multipolar.Mas os equilíbrios e as dinâmicas
internacionais seriam bastante alteradas com
relação as atuais. E neste meio tempo, o que
aconteceria na Índia, na Rússia, no Oriente
Médio, na América Latina, na África?
Temos absoluta certeza de nada disso tem a
ver com o futuro do socialismo?
Novo quadro mundial e perspectivas dos
socialismo no século 21
18) A oposição entre paz/guerra – assim
como foi no século passado – confirma-se
como fundamental também no século XX,
terreno essencial e estratégico na luta pelo
socialismo.
As duas guerras mundiais do século XX são
principalmente produto de contradições entre
imperialismos (a URSS, até os anos 40, não é
ainda reconhecida como uma ameaça global e
confrontada ao domínio capitalista no
mundo). Mas após a vitória obtida na 2°
guerra mundial, e do papel de ponta assumido
na luta antinazista - que determina a
formação de um campo socialista na Europa e
um enorme crescimento do prestígio e da
influência internacional da União Soviética
- a política de rearmamento e de ameaça
nuclear que caracteriza a guerra fria é
essencialmente direcionada contra o campo
socialista, que vem se ampliando (China,
Vietnã , Coréia, Cuba…), e representa um
reforço essencial para as lutas de
liberação, competindo pela hegemonia
mundial. Na guerra fria, as contradições
interimperialistas, que às escondidas
continuam a existir, são, porém agrupadas na
rigidez e na disciplina do campo Atlântico,
liderado pelos Estados Unidos.O confronto é
cada vez mais bipolar e em última análise
remete ao confronto capitalismo/socialismo.
A política de rearmamento coerentemente
seguida pelo campo imperialista serve também
para impedir um desenvolvimento pacífico,
democrático do socialismo e da sua
capacidade de atração, ao esgotar a economia
com despesas em armamentos .
A ruptura entre os países socialistas ,
primeiro aquela entre URSS e Iugoslávia,
depois outra - gravíssima – entre China e
URSS, enfraqueceram o campo socialista e
abalaram seu prestígio internacional. Bem
diferentes teriam sido os rumos do
socialismo, se não tivesse havido uma
ruptura tão profunda entre as duas maiores
potências socialistas, ou se isso tivesse
sido reparado há tempo (e aqui emergem
pesadas responsabilidades subjetivas de
ambas as partes). Mas tais rupturas não
modificam o contexto predominantemente
bipolar do confronto. As superpotências
globais são duas, EUA e URSS. A China, ao
contrário de hoje, não dispõe ainda de uma
força econômica e militar capaz de exercer
um papel de destaque internacional.
19)A queda da URSS modifica
qualitativamente o panorama geral. Permanece
apenas uma única superpotência; a hegemonia
das forças que se referem ao socialismo não
representa mais uma ameaça iminente,
ressurgem as contradições entre as maiores
potências imperialistas (EUA, União
Européia, Japão) e com outras potências
emergentes. O contexto geral no início do
séc. XXI é de uma competição global pela
hegemonia.
Os EUA perceberam o risco de uma queda em
sua hegemonia planetária, já que a tendência
é uma diminuição do impacto do PIB americano
sobre a economia; e de um aumento de outras
áreas econômicas, geopolíticas, monetárias.
Calcula-se que daqui a algumas décadas, a
importância econômica global de países
emergentes como China, Índia, Rússia,
Brasil, África do Sul , poderá igualar-se ou
superar aquela dos imperialistas da tríade
(EUA, UE, Japão) em uma autêntica revolução
nos equilíbrios planetários (as guerras
mundiais do séc. XX foram deflagradas por
muito menos).
Os EUA procuram enfrentar tais tendências
recorrendo a uma potencialização de sua
superioridade militar sobre o resto do mundo
e através de uma política de crescente
incentivo à guerra: para vencer a competição
global que temem perder no campo da
competição pacífica e econômica. Disto
resulta o salto de qualidade, de modo
negativo, representado pela “guerra
preventiva” de Bush.
O resto do mundo , não apenas os
progressistas, mas também as demais
potências imperialistas, reconhecem o risco
de uma ditadura planetária e de uma postura
voltada para o controle dos recursos
energéticos do planeta
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