José Reinaldo Carvalho*
No transcurso do terceiro aniversário da
agressão norte-americana no Iraque, o mundo
se encontra à beira de nova crise política e
de nova guerra da superpotência contra um
país soberano. Manifestam-se de maneira
concentrada, principalmente no Oriente Médio
e na América Latina, lancinantes
contradições econômicas, políticas e
sociais. Exibe-se com nitidez e cores fortes
um quadro de degradação e crise, em tudo
distinto da rósea realidade vista pelas
lentes da social-democracia reformista. Esta
continua sonhando com a estabilidade que
resultaria supostamente da capacidade de
regeneração da hegemonia econômica
norte-americana e contando com o surgimento
de novos equilíbrios, uma espécie de
“multilateralismo assertivo” que mitigaria
os efeitos devastadores para a ordem mundial
emanados do unilateralismo de Bush e de sua
política de guerras preventivas. São
hipóteses irrealizáveis, ilusões de
intelectuais desligados da realidade em
alguns casos e em outros, propaganda
interessada a serviço do imperialismo, uma
nova espécie de cavalo de tróia ideológico
nas fileiras da esquerda.
Coube ao próprio governo de Bush repor os
termos da questão, na teoria e na prática.
Os dias que antecederam o terceiro
aniversário da guerra de ocupação foram de
horror para a população da cidade iraquiana
de Samarra, com o que as forças de ocupação
pretenderam demonstrar capacidade de
controlar a situação e avançar no seu
objetivo de manter o Iraque sob domínio.
Perpetraram novos crimes de lesa-humanidade,
como já tinham feito quando do genocídio de
Falluja e inúmeros bombardeios sob os quais
foram massacradas populações civis
iraquianas. Um dia serão julgados e
condenados como os maiores terroristas, sem
registro semelhante na história.
Durante aqueles dias foi lançado em
Washington o documento “Estratégia de
Segurança Nacional dos Estados Unidos”.
Trata-se de uma atualização, rigorosamente
uma reiteração, da mesma estratégia já
lançada em 2002, poucos meses antes do
desencadeamento da ofensiva contra o Iraque
e que infatigavelmente os comunistas e
revolucionários têm denunciado como uma
estratégia de domínio do mundo através de
guerras de agressão, que põem em risco a
democracia, a independência nacional dos
povos, a segurança, a paz e a própria
sobrevivência da humanidade. O documento
lançado agora em março de 2006 reafirma que
a missão do governo de Bush é “derrotar o
terrorismo e as tiranias”, através da
“guerra infinita” e das “guerras
preventivas”. O documento começa com a
afirmação de que “A América está em guerra.
Esta é a estratégia de segurança nacional em
tempos de guerra, exigida pelos graves
desafios que enfrentamos”, numa clara
demonstração da opção militarista e
belicista feita pelo imperialismo
estadunidense. Não é uma figura de
linguagem, nem uma deriva sectária, ou um
nonsense dogmático a assertiva de que as
relações internacionais e a diplomacia
modernas inauguradas com a ordem da Paz de
Westphália no século 17, teve seu ocaso na
era Bush. O dobre de finados das Nações
Unidas e do “multilateralismo” soou quando o
ex-secretário de Estado dos Estados Unidos
caracterizou-as, dedo em riste, como
organização “irrelevante”, pois “faltava às
suas responsabilidades” ao não autorizar o
ataque ao Iraque. O epílogo foi o convescote
dos Açores, contando com a cumplicidade do
governo direitista então vigente em
Portugal. A partir de então, ficou de todo
evidente o caráter farsesco da chamada Pax
Americana e do multilateralismo das
potências imperialistas como método para
manter o equilíbrio mundial na época da
globalização.
O imperialismo norte-americano se tornou uma
formidável máquina de guerra. O orçamento
militar da superpotência beira os 500
bilhões de dólares. As suas tropas e bases
militares estão espalhadas em todos os
pontos do globo. São mais de meio milhão de
soldados, técnicos e instrutores
estadunidenses fora das fronteiras nacionais
em 725 bases e missões militares
oficialmente reconhecidas em 38 países.
Normalmente, quando se trata de fazer essa
máquina entrar em ação, vêm à tona as
teorizações sobre guerra humanitária, luta
antiterrorista, remoção de tiranias,
multilateralismo assertivo, equilíbrio de
poder etc. Mas o que conta para todos os
efeitos práticos, é o uso da força.
É tosca ilusão, ou novamente propaganda
interessada, a crença de que é possível
construir uma ordem global baseada em regras
transparentes, em cooperação global, em
governança progressista, em organismos
multilaterais atuantes e eficazes, em
instituições jurídicas sólidas e aplicáveis,
em mecanismos políticos e econômicos
auto-reguláveis. É um mundo que não existe e
não existirá, a não ser com a ruptura
revolucionária do ordenamento atual. Outra
coisa é a emergência objetiva de novos pólos
econômicos e políticos nacionais e regionais
seja no campo oposto ao imperialismo, seja
no quadro de contradições interimperialistas.
A existência desses pólos não significa a
manifestação do multilateralismo, antes
indica a criação de novos cenários de
conflitos e desequilíbrios internacionais.
Em linguagem leninista, a incidência de
contradições interimperialistas. Ou,
dependendo da situação política e do caráter
dos regimes dos países em contenda,
contradições entre sistemas sociais e
políticos antagônicos.
O lançamento da nova estratégia de segurança
nacional dos Estados Unidos demonstra que
três anos depois da ocupação iraquiana, o
mundo não é mais seguro, porquanto estamos
no prelúdio de nova crise mundial. “Não
enfrentamos maior desafio que o Irã, país
que patrocina o terrorismo, ameaça Israel, a
paz no Oriente Médio e provoca a ruptura do
processo democrático no Iraque”, diz o
documento da Casa Branca. Neste momento
Washington prepara o ambiente para primeiro
isolar e em seguida atacar o Irã. Invoca a
“ameaça nuclear” supostamente proveniente
daquele país, forceja a aprovação de
resolução antiiraniana no Conselho de
Segurança da ONU, mobiliza aliados e vincula
a administração da crise iraquiana ao
objetivo de atacar o Irã. Outros
acontecimentos da política internacional
também protagonizados pelos Estados Unidos
desmascaram a hipocrisia do discurso sobre a
ameaça nuclear, como o acordo recentemente
assinado com o governo indiano, no quadro da
realização de esforços para conquistar
aliados estratégicos, tendo em vista os
objetivos permanentes na Ásia. A preparação
do ambiente para agredir o Irã tem como pano
de fundo aquele que é o aspecto central da
política externa do segundo mandato de Bush,
proclamado quando da convenção eleitoral do
Partido Republicano e na posse presidencial:
o plano de reestruturação do Oriente Médio,
com claro sentido neocolonialista.
Washington necessita de governos totalmente
submissos ou da intervenção direta na
região. É o que explica também as ameaças à
Síria, o apoio incondicional a Israel e a
sabotagem à nova equipe à frente da
Autoridade Nacional Palestina. O governo
Bush nada acrescenta de novo. Reitera uma
retórica e um comportamento prenhes de
perigos para os países e povos da região do
Oriente Médio, alimentando um clima de
guerra.
Nenhum desses fatos era imprevisível. Tais
planos já estavam esboçados anteriormente e
é em seu escopo que se compreendiam as
guerras preventivas contra o Afeganistão e o
Iraque, a “guerra ao terrorismo” e outras
demarches da Administração Bush. O documento
recentemente lançado volta a dizer que
“vencer a guerra contra o terrorismo implica
vencer as batalhas do Afeganistão e do
Iraque”. Os atuais episódios envolvendo o
Irã e outras ameaças de intervenção
demonstram a existência de uma escalada e de
uma persistente política de guerra.
O que há de novo e era imprevisto, pelo
menos para os estrategistas da Casa Branca,
é que tais planos estão fracassando. A
Administração de Bush entrará para a
história não só como a mais agressiva, mas
também como a maior colecionadora de
derrotas. O governo Bush vendeu a idéia de
que seria pequeno o custo da guerra ao
Iraque em face dos fins visados: a derrubada
de um tirano e a eliminação das armas de
destruição maciça. As suas tropas seriam
recebidas como libertadoras do país e
salvadoras da humanidade. Cabe ao povo
estadunidense cobrar no momento oportuno.
Três anos depois de deflagrada a guerra
iraquiana de Bush, sua derrota é um fato
consumado. Instalou-se no país uma
multifacética resistência armada, uma
prolongada guerra das forças nacionais e
populares, que vão infligindo derrota após
derrota ao exército invasor. Os meios de
comunicação a serviço do invasor difundem a
idéia de que se defrontam contra grupos
terroristas e religiosos inimigos do
Ocidente. Hoje já não há como encobrir que é
o povo, através de uma miríade de
organizações políticas e militares, que está
a mover uma encarniçada resistência e a
derrotar os planos norte-americanos. O
Iraque, tal como a Palestina já o havia
feito, está demonstrando que não há futuro
para uma política neocolonialista através de
ocupação militar. O século XX, com sua
experiência de revoluções e lutas de
libertação, deixou esse grande legado para
os povos – a consciência de que é imperativo
defender revolucionariamente a causa
nacional. E de que esta tarefa corresponde
às forças sociais mais avançadas, as classes
trabalhadoras e os seus aliados
fundamentais, cuja representação política
são as correntes políticas
antiimperialistas, revolucionárias,
anticapitalistas que se batem pelo objetivo
estratégico do socialismo.
É a percepção da derrota anunciada que leva
setores da própria direita norte-americana a
exigir que se acabe de imediato a “loucura
do Iraque”.Ao fracasso no Iraque soma-se o
malogro dos planos do governo Bush para a
questão palestina. O “Mapa do Caminho”, que
já houvera sido borrado pela intransigência
israelense e a persistência dos sionistas
numa política repressiva e expansionista,
malogrou por completo, como malogrará
qualquer plano de paz que não leve em
consideração como questão fundamental a
devolução dos territórios ocupados e a
criação de um Estado palestino independente.
A Estratégia de Segurança Nacional lançada
pela Casa Branca insiste no conceito de “países-bandidos”,
no alvo da ação agressiva norte-americana.
Além dos já referidos Irã e Síria, o governo
norte-americano volta as suas baterias para
a Coréia do Norte, “que segue desafiando a
região e a comunidade internacional”, o
Zimbabwe, a Bielorrúsia e Mianmar, onde
promete depor os “governos despóticos”, e
faz referências desairosas à Rússia e à
China, acusando a grande nação socialista
asiática de praticar a “economia fechada”,
“violar os direitos humanos” e “desenvolver”
programas militares sem transparência.
A América Latina está na alça de mira da
ofensiva norte-americana. Particularmente em
relação a Cuba socialista e à Venezuela
revolucionária e bolivariana a retórica e os
gestos do governo Bush são ameaçadores.
Sobre Cuba, diz o documento que “um ditador
continua a oprimir seu povo”, num
indisfarçável recalque ao constatar que mais
de 40 anos de bloqueio e tantas tentativas
de desestabilização e magnicídio não foram
capazes de prostrar a Revolução, que revela
saúde política e ideológica e capacidade de
contornar as dificuldades econômicas.
A Venezuela constitui hoje uma preocupação
especial da Casa Branca: “Um demagogo cheio
de dinheiro do petróleo ameaça a
instabilidade regional”, diz o documento.
Poucas semanas antes a srta. Condoleezza
Rice exortou os países da região a atuar
contra a Venezuela e fez declarações
risíveis negando o caráter democrático das
eleições venezuelanas, sucessivamente
realizadas e que resultaram em incontestes
vitórias de Chavez e das forças políticas da
Revolução Bolivariana.
O quadro político em desenvolvimento na
América Latina é um sinal eloqüente das
derrotas do imperialismo norte-americano.
Além da consolidação da Revolução Cubana e
do triunfo da Revolução Bolivariana, têm se
constituído como aspecto progressivo e de
promissores resultados políticos as vitórias
eleitorais de forças democráticas,
patrióticas e populares em diversos países
do continente, cujo mais destacado exemplo
recente foi a conquista do governo pelo
líder indígena boliviano Evo Morales. Não se
pode nem se deve fazer uma leitura unívoca
dos processos políticos em curso na América
Latina, pois pesam enormemente as
peculiaridades nacionais, muito diversas
entre realidades tão díspares como a
venezuelana, a brasileira, a boliviana, a
argentina, a uruguaia etc. Mas não cabem
dúvidas de que o sentido geral do que está
acontecendo na região é progressista e tem
caráter antiimperialista. Por isso é
grosseiro equívoco contrapor esses processos
e supostamente apoiar um e condenar outro.
Qualquer vitória da direita, mormente se
ocorrer num país da importância do Brasil,
terá sério efeito negativo sobre o conjunto
do movimento antiimperialista no continente.
Percebendo o fenômeno com acuidade, o
presidente Chavez fez importante reflexão
perante os movimentos sociais reunidos em
Caracas durante o FSM policêntrico realizado
em janeiro último, sobre o caráter
progressista dos movimentos em curso não
somente na Venezuela, mas também no Brasil
de Lula, no Uruguai de Tabaré Vasquez, na
Argentina de Kirchner, entre outros, ainda
que sejam notórias as limitações objetivas e
subjetivas dos processos em curso no Cone
Sul.
É significativo e tem extraordinário sentido
histórico que o imperialismo estadunidense
esteja sendo contestado de modo tão
contundente na região que sempre considerou
o seu quintal e que foi apresentada nos tão
recentes anos 90 do século 20 como símbolo
de um “novo renascimento”, na expressão de
um dos mais pró-americanos e entreguistas
estadistas daquele tempo, o ex-presidente
brasileiro FHC. Como é significativo também
que o plano meganeocolonialista da ALCA
tenha sido até aqui derrotado, mercê da luta
dos povos, da resistência antineoliberal dos
movimentos sociais, da firmeza da Venezuela
chavista, que disse não à ALCA desde o
primeiro momento, e da habilidade da
diplomacia política e comercial do governo
Lula, que desmontou com maestria uma das
mais perversas heranças que recebeu – as
negociações da ALCA. Por isso a “cumbre dos
povos” de Mar Del Plata, que se caracterizou
como o “enterro da ALCA” entra para a
história como um grande acontecimento, ao
assinalar uma contundente derrota dos planos
norte-americanos. É ao mesmo tempo uma
importante experiência da qual extrair
lições. Se os povos logram a mesma vitória
sobre as disposições neoliberais da OMC
cristalizadas nas propostas dos grandes
potentados econômicos na chamada Rodada Doha,
a globalização neoliberal será atingida
naquilo que tem de mais caro: o “livre
comércio” e a “desregulamentação”.
A evolução dos acontecimentos no Oriente
Médio e na América Latina, com as derrotas
do imperialismo estadunidense e o
crescimento da resistência dos povos, são
evidências de que há alternativa e o
imperialismo não é invencível. Durante
década e meia (os anos 90 e a primeira
metade da década em curso), o movimento
popular foi doutrinado pelas forças
hegemônicas da centro-esquerda com a tese da
inexpugnabilidade do imperialismo e do
neoliberalismo, devido ao seu poder de
destruição e ao controle da economia mundial
pelo capital financeiro. Difundiu-se o mito
da inexistência de alternativa, justificação
“taticista” para encobrir uma postura
ideológica de adaptação e no fundo de
capitulação. Os fatos das últimas semanas na
França (que devem merecer análise à parte,
no espaço de outro artigo) constituem um
exemplo a mais de que existem caminhos
possíveis a trilhar para resistir, combater
e derrotar as políticas da direita
neoliberal.
A três anos do desencadeamento das guerras
“preventivas” do Afeganistão e do Iraque, o
mundo está mais inseguro e o imperialismo
mais ameaçador. Do outro lado, os povos
estão mais experientes e dispostos a lutar.
A luta antiimperialista, tônica dos tempos
atuais, será uma luta de longo fôlego.
Acumulará forças se fizer seu percurso com
radicalidade e amplitude, levantando
bandeiras capazes de mobilizar as energias
criadoras dos povos, como a da paz, contra a
guerra imperialista, dos direitos sociais e
políticos, contra a ofensiva anti-social e
antidemocrática do neoliberalismo, pelo
desenvolvimento e a soberania nacional,
contra o neocolonialismo e a dominação
imperialista.
(*) Jornalista. Secretário de Relações
Internacionais do Partido Comunista do
Brasil, Diretor do Cebrapaz – Centro
Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta
pela Paz, membro do Tribunal de Bruxelas
contra crimes de guerra.
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