(Notável contribuição de Lênin à
teoria revolucionária do progresso social)
Por João Amazonas
A obra de Vladimir Ilitch Lênin no campo
teórico e da política prática representa
grandioso manancial de conhecimentos
científicos sobre a revolução social e a
construção da nova sociedade.
Em “Os Fundamentos do Leninismo”, Stálin
sintetizou elementos essenciais do legado de
Lênin à luta de classe do proletariado em
seus distintos aspectos. Esse livro educou
gerações de comunistas numa elevada
compreensão do pensamento fecundo e
revolucionário do continuador de Marx e
Engels que dirigiu com sucesso a primeira
grande revolução socialista da História.
Pouco destaque, entretanto, tem-se dado à
contribuição de Lênin em questões relativas
ao período da transição para o socialismo.
Ele viveu somente seis anos após a vitória
de 1917. Um período muito difícil e
singular. Teoricamente, estavam já
resolvidos os problemas da derrocada do
capitalismo e da conquista do poder pela
classe operária e seus aliados. Contudo,
nada havia sido elaborado quanto à
construção do regime que se implantara.
Conheciam-se indicações genéricas dos
clássicos, prudentes, e com razão, em
avançar soluções de sentido abstrato.
Ademais, a revolução ocorrera num país
atrasado, onde predominavam diferentes tipos
de economia, notadamente a produção de
caráter pequeno-burguês.
Lênin elaborou toda uma teoria sobre a
transição em seus primeiros passos, de valor
universal, para a edificação da sociedade do
futuro. Essa transição obedece a leis
objetivas que se não forem compreendidas e
respeitadas podem provocar o fracasso da
revolução. Chegar ao poder, em certas
circunstâncias, não é tão difícil. Difícil
mesmo — a experiência o tem demonstrado — é
construir o novo regime, identificar e
agarrar um por um os elos de uma infinita
cadeia de complicados problemas econômicos e
sociais nos quais muitas vezes o novo
aparece mesclado com o velho.
A teoria leninista da transição envolve
questões de tempo, de métodos, de lugar, de
dinâmica revolucionária. Além do
posicionamento e ordenamento político,
ressalta o aspecto econômico, onde toma
forma marcante a reconstrução da economia
baseada na indústria pesada, em mãos do
proletariado, bem como a utilização do
capitalismo de Estado.
Neste artigo se focaliza em particular o
tema relativo ao capitalismo de Estado e,
relacionado com ele, se faz observações
sobre o significado das etapas na construção
do socialismo.
Lênin, ao reconhecer que nem tudo o que
se havia feito nos primeiros anos
pós-revolução poder-se-ia considerar
correto, afirmou categoricamente: “Nós, a
vanguarda, o destacamento avançado do
proletariado, estamos passando diretamente
ao socialismo; porém, o destacamento
avançado é só uma pequena parte de todo o
proletariado, que, por sua vez, é somente
uma diminuta parcela de toda a população. E
para que nós possamos resolver com êxito o
problema do passo imediato ao socialismo,
devemos compreender que caminhos, métodos,
recursos e instrumentos intermediários são
necessários para a passagem das relações
pré-capitalistas ao socialismo.”
Reflexão profunda como essa, firmada na
dialética materialista, levou-o à formulação
de uma concepção original referente ao
capitalismo de Estado nas condições de um
país atrasado, onde o proletariado chegara
ao poder.
Pronunciou-se mais de trinta vezes, a partir
de setembro de 1917, através de artigos,
intervenções, informes, teses, discursos,
cartas, a respeito do assunto, a última em 4
de janeiro de 1923, quando começava a cessar
a sua atividade intelectual devido ao
agravamento da enfermidade que o acometera.
Polemizou com Bukárin e Mártov, Shliapnikov
e Preobrazhenski, Sokolov e o anarquista Gue,
com os “comunistas de esquerda” e a
“oposição obreira”, também com mencheviques
e esserristas. Materialista convicto,
insistiu sempre na opinião de que a busca do
progresso exige, de certo modo, adaptação às
condições existentes, como meio de avançar
seguramente.
A idéia do capitalismo de Estado surgiu como
necessidade imperiosa para vencer o atraso
nas relações econômicas. Nos primeiros anos
da revolução, a Rússia Soviética
encontrava-se arruinada, o nível de suas
forças produtivas era muito baixo. Não havia
recursos destinados a desenvolver a
economia. A desorganização do aparelho
administrativo chegava às raias do absurdo.
Os setores sociais que assumiram o poder não
tinham experiência suficiente para fazer
funcionar a contento a máquina produtiva, os
meios de transporte e, menos ainda, o
complicado sistema monetário. E se tornava
premente introduzir o método de registro e
controle de todos os materiais,
imprescindível ao bom funcionamento das
empresas socializadas.
O socialismo é um sistema mais avançado que
o capitalismo. A Rússia deparava-se, porém,
com séria defasagem no nível de suas forças
produtivas em relação às dos países
capitalistas mais desenvolvidos. A revolução
havia assegurado o poder ao proletariado,
mas não deu, nem podia ter dado, de
imediato, os recursos, a experiência, a
técnica indispensáveis ao crescimento
econômico. Impunha-se criar condições
favoráveis ao fortalecimento da base
industrial socialista e fazer progredir o
país.
Examinando a situação, Lênin concluiu que “o
capitalismo de Estado economicamente é
incomparavelmente superior ao nosso sistema
econômico atual.” “A realidade nos ensina” —
disse ainda — “que o capitalismo de Estado
seria para nós um passo adiante.”
Precisou, então, a idéia, com a qual já
vinha trabalhando desde 1917, da utilização
adequada do capitalismo na primeira fase da
construção do socialismo num país
empobrecido. O essencial era a manutenção e
a consolidação do poder proletário, sem o
qual a expansão do capitalismo tinha sentido
reformista burguês, antioperário.
Em diferentes pronunciamentos delineou um
programa de concessões que permitia variados
tipos de investimento de capital estrangeiro
aos quais se poderia “arrendar determinadas
minas, áreas florestais, explorações
petrolíferas etc.”, bem como admitir
sociedades mistas e a instalação de empresas
capitalistas de grande porte. O pagamento
aos concessionários far-se-ia com a parte
substancial dos produtos obtidos. Era, sem
dúvida, pesado tributo que o Estado
proletário pagava à burguesia mundial. Lênin
não ocultava esse fato. “Devemos compreender
claramente que nos convém desembolsar esse
tributo para acelerar a restauração da nossa
grande indústria e melhorar essencialmente a
situação dos operários e dos camponeses.”
Nada tinha de perigoso — declarou — entregar
a concessionários certo número de fábricas,
desde que a maior parte ficasse nas mãos do
Estado socialista. “Absurdo seria entregar a
maioria das propriedades. Isso já não era
concessão, mas um retorno ao capitalismo.” E
proclamava: “Que a pequena indústria privada
se desenvolva até certo grau, e que se
desenvolva o capitalismo de Estado — o poder
soviético não deve isso temer”.
Mas o capitalismo, num país onde triunfara a
revolução, não podia operar sem nenhuma
espécie de freio e, ainda menos, em
concorrência desbragada com a economia de
caráter social. Lênin estabeleceu condições:
“Não tememos o capitalismo de Estado porque
depende de nós determinar a medida
(dimensão) em que as concessões serão
outorgadas.” Não há razão para temê-lo, “se
tivermos o controle das fábricas, dos
transportes e do comércio exterior.” E
aduzia: “O Estado proletário pode, sem mudar
sua natureza, admitir o livre comércio e o
desenvolvimento do capitalismo somente em
determinada medida e somente na condição de
que o Estado regule (vigie, controle,
determine as formas e os métodos) o comércio
e o capitalismo privado.” A condição
primordial era, incontrastavelmente, a
existência do poder nas mãos do
proletariado.
Precisamente a incompreensão do novo que
surgira — a advento do Estado socialista —
determinava a posição errônea de alguns
revolucionários. Estes apegavam-se a
fórmulas livrescas que correspondiam à época
anterior à revolução. “O capitalismo de
Estado é capitalismo” — diziam — para
contestar as idéias leninistas.
Equivocavam-se. Afinal, que espécie de
capitalismo defendia Lênin? Suas indicações
a respeito revelavam aspectos importantes de
uma nova teoria econômica. “Capitalismo de
Estado numa sociedade na qual o poder
pertence ao capital e capitalismo de Estado
num Estado proletário são dois conceitos
diferentes”, assinalava Lênin. “No Estado
capitalista, o capitalismo de Estado serve à
burguesia; no Estado socialista, ao
contrário, ajuda a classe operária a se
erguer frente à burguesia ainda poderosa e a
lutar contra ela”. Evidentemente, a
existência do poder proletário dava novo
conteúdo aos fenômenos sociais, inclusive à
luta de classes. Desconhecer a mudança
radical operada no caráter do Estado levava
ao dogmatismo.
Assim opinava Lênin sobre as concessões na
forma de capitalismo de Estado.
Do contexto leninista acerca da utilização
do capital, ressaltam certas normas que se
interligam e formam um todo único:
- É vantajoso e necessário nos países
atrasados, onde o poder está em mãos do
proletariado, utilizar o capitalismo, sempre
que possível, a fim de incrementar as forças
produtivas e acelerar o desenvolvimento do
país;
- O aproveitamento do capitalismo de estado
tem de ser regulado (vigiado) pelo poder
socialista. Deve-se permitir seu
crescimento, demarcando-se, porém, as áreas
de sua atuação a fim de evitar que extrapole
os limites admissíveis;
- Impõe-se garantir e fortalecer a economia
de cunho socialista, base insubstituível do
novo regime. Os principais meios de produção
devem pertencer à classe operária. O
capitalismo de Estado é acessório. Se não se
tem em conta a prioridade e o constante
fortalecimento da base socialista, a
expansão desregrada do capitalismo resultará
na formação de uma economia capitalista, em
detrimento do socialismo;
- A vigência das concessões tem prazos
determinados, ainda que elásticos,
dependendo do ritmo da transição. As
concessões deixam de ser necessárias, quando
a economia socialista tiver adquirido
capacidade suficiente para impulsionar, sem
ajuda exterior, o efetivo progresso
econômico;
- A luta de classes continua, sob formas
distintas. Onde houver capitalismo, de
qualquer natureza, haverá luta de classes. O
capitalismo tentará sempre, de uma ou outra
maneira, liquidar o socialismo.
As indicações de Lênin ajudam a prevenir
tanto os equívocos de esquerda (refutar a
utilização do capitalismo que facilita o
avanço das forças produtivas), quanto os
erros de direita (dar livre curso à difusão
do capitalismo, descurando a criação e o
reforçamento da economia socialista).
Na Rússia, entretanto, não foi possível pôr
amplamente em prática a política leninista
das concessões, devido a fatores
conjunturais desfavoráveis. Isso não nega,
porém, sua importância e validade.
A teoria de Lênin sobre o capitalismo de
Estado não se limita às concessões. Ganha
força e significado histórico com sua
aplicação nas áreas rurais.
Depois da revolução, a Rússia vivia um duro
período em que faltavam, literalmente, os
alimentos indispensáveis ao povo, o que
impedia o próprio funcionamento da indústria
e do comércio. A fome estendia-se por todo o
país. Tentando enfrentar a situação,
aplicou-se a política de “comunismo de
guerra” que forçava os kulaks e os
camponeses em geral a entregar ao governo, a
preço fixo, o pouco trigo produzido. Essa
política, motivada pela guerra civil, gerava
enorme descontentamento no campo, afetando
inclusive a aliança operário-camponesa.
Lênin, baseado na concepção do capitalismo
de Estado, elaborou a sua célebre Nova
Política Econômica, a NEP. Nesta,
propunha-se acabar com o sistema de
requisição forçada e implantar o imposto em
espécie. Isso significava que os camponeses,
uma vez pago o tributo (em trigo), podiam
vender livremente o que lhes restava da
produção ou trocá-la por mercadorias de
grande consumo.
Surgia, assim, o comércio capitalista, ainda
que em áreas limitadas. “Onde houver pequena
empresa e liberdade de intercâmbio,
aparecerá o capitalismo.” Mas Lênin não se
amedrontava. “Desde que o sistema de
transporte e a grande indústria continuem
com o proletariado, isso não significa em
absoluto perigo para o socialismo. Ao
contrário, o desenvolvimento do capitalismo
controlado e regulado pelo Estado proletário
(isto é, do capitalismo de “Estado” no exato
sentido da palavra) é vantajoso e necessário
(dentro de certos limites) em um país de
pequenos camponeses, extraordinariamente
arruinado e atrasado, porque pode acelerar o
restabelecimento imediato da agricultura
camponesa.”
A política da NEP foi decisiva para vencer a
crise de alimentos, dramática em 1921, e
para permitir o soerguimento da economia
bastante debilitada. A Nova Política
Econômica salvou a revolução de um possível
fracasso.
Com a NEP, melhorava sensivelmente a
situação geral do país. Mas não estava ainda
resolvido o futuro do socialismo no campo,
as formas e os métodos que tomariam a
organização dos camponeses excessivamente
dispersos como produtores individuais.
Sob orientação de Lênin, começaram a ser
criadas as explorações socialistas estatais,
os sovkhozes, aproveitando as melhores
terras. Surgiram, também, os primeiros
artéis e comunas agrícolas que eram
incentivadas pelo Estado, com subsídios e
empréstimos. Todavia, não proporcionavam,
ainda, experiência bastante para tirar
conclusões definitivas.
A conclusão vem com o estudo do
cooperativismo. Havia diferenças essenciais
entre cooperativas no sistema capitalista e
no sistema socialista. “As cooperativas no
Estado capitalista”, disse Lênin, “são
instituições capitalistas coletivas.”
Observava, porém, que “sob o nosso sistema
atual”, as cooperativas se distinguiam das
empresas privadas, porque eram empresas
coletivas. Não se diferenciavam, entretanto,
das empresas socialistas, uma vez que a
terra em que se encontravam e os meios de
produção pertenciam ao Estado, ou seja, à
classe operária.
Desse raciocínio, Lênin deduzia que, dados
os traços peculiares do regime socialista
“as cooperativas camponesas tinham
significação excepcional — coincidiam quase
sempre, plenamente com o socialismo.” E
afirmava terminantemente: “Agora temos o
direito de dizer que, para nós, o simples
desenvolvimento da cooperação (…)
identifica-se com o desenvolvimento do
socialismo.” Resolvia-se desse modo,
teoricamente, um dos mais delicados e
complexos problemas da edificação
socialista, qual seja, o da unificação das
massas camponesas dispersas, que representam
a maioria da população, e sua incorporação
ao novo sistema produtivo do socialismo.
A concretização desse objetivo reclamava
a organização de um amplo trabalho educativo
entre os camponeses, ensinar-lhes a ler e
lidar com os livros a fim de que
assimilassem melhor os objetivos e as
tarefas novas da atividade coletiva. De modo
geral, tornava-se indispensável proceder à
revolução cultural na Rússia, como
coroamento da temerária batalha de
implantação do socialismo num país
precariamente culto.
Impunha-se, igualmente, prestar apoio
econômico ao desenvolvimento das
cooperativas. Esclarecendo dúvidas a
respeito do capitalismo de Estado, Lênin
afirmou: “Há outro aspecto da questão, no
qual poderíamos necessitar o capitalismo de
Estado, ou, pelo menos, uma equiparação com
ele — trata-se das cooperativas.” Não era
tão simples construir essa variante na
economia socialista. “Todo regime social, no
se início, contou com o substancioso apoio
de determinada classe (…)”, asseverou Lênin,
citando o exemplo do próprio capitalismo. O
regime cooperativista, para alicerçar-se,
também necessitava de uma ajuda,
extraordinária, que só poderia vir da classe
operária. “É preciso”, disse Lênin,
“outorgar às cooperativa suma série de
privilégios econômicos financeiros e
bancários. Nisso consiste o apoio do Estado
socialista ao novo princípio segundo o qual
deve organizar-se a população.
Lênin revelava perspicaz visão estratégica,
com as proposições que fazia. “Se
conseguirmos atrair todos os camponeses ao
cooperativismo — manifestava ele — nos
firmaríamos com os dois pés no terreno
socialista.” Tal aconteceu, profeticamente,
no curso da década seguinte.
Não há dúvida, a concepção de Lênin quanto
ao capitalismo de Estado em suas diversas
modalidades, com o fim de levar a bom termo
a transição do capitalismo ao socialismo,
tem um valor inestimável, sobretudo para os
países atrasados. É um avanço no campo da
ciência social. Nunca antes fora tratado.
“Até agora” — reconhecia Lênin, refutando
críticas infundadas — “ninguém pôde escrever
um livro sobre o capitalismo desse tipo
porque é a primeira vez na história da
humanidade que vemos algo assim (…) nem
mesmo a Marx ocorreu escrever uma só palavra
sobre o tema, morreu sem deixar uma única
citação ou indicações definidas.” Com essa
imensa contribuição Lênin desenvolvia
criadoramente o marxismo, o pensamento
revolucionário dialético que distingue em
diferentes situações aquilo que envelheceu e
o que de novo desponta.
A teoria leninista da transição do
capitalismo ao socialismo, rica em
ensinamentos, abrange toda uma série de
questões a cerca da maneira de como conceber
corretamente essa transição. Além do poder
proletário, do capitalismo de estado, do
fortalecimento da base socialista e do novo
cooperativismo, destaca problemas
fundamentais relativos aos ritmos, aos
métodos e, particularmente, às etapas a
serem consideradas no processo de avanço
gradual das conquistas revolucionárias.
Algumas revoluções fracassaram ou se
defrontaram com imensas dificuldades e
incompreensões desse processo. Não é fácil
consolidar e fazer avançar a revolução,
particularmente nos países atrasados. Isso
exige nítida percepção dos entraves em
presença, domínio da realidade e
conhecimento das leis objetivas em curso. A
revolução não ocorre na Idade da Pedra, mas
em estágio superior do desenvolvimento da
sociedade. O capitalismo atingiu parâmetros
elevados na produção dos bens materiais. O
socialismo não pode ficar atrás. Tem de
construir algo melhor e superior ao sistema
capitalista. Contudo, não reúne inicialmente
as condições necessárias para isso. Tampouco
poderá fazê-lo arbitrariamente, fugindo às
etapas que se impõe.
Lênin identificava defeitos na orientação
predominante depois da revolução de 17:
“Levados pela onda de entusiasmo que havia
despertado o povo, primeiro o entusiasmo
político, depois o militar, acreditamos que
poderíamos cumprir, apenas por meio desse
entusiasmo, tarefas econômicas da mesma
magnitude das tarefas políticas e militares.
Considerávamos, ou talvez supúnhamos
possível, sem haver estudado o suficiente,
organizar em forma direta, pela só
existência do Estado proletário, a produção
estatal e distribuição estatal de produtos à
moda comunista, num país de pequenos
camponeses. A experiência mostrou nosso
erro, fez-nos ver que são necessários umas
série de etapas de transição.”
Detectado o erro, Lênin recomendava a
abordagem fundamental dos problemas
econômicos “tendo em conta que a etapa
imediata não podia ser o transito direto à
construção socialista.” Tinha-se que
recorrer aos métodos de rodeio, ao
capitalismo de Estado, etc. sem o que a
revolução poderia estagnar ou mesmo
sucumbir.
A questão das etapas, de enorme importância,
já havia sido tratada por Engels, em 1874.
Refutando os comuneiros blanquistas que
pensavam atingir o objetivo maior “sem
deter-se em etapas intermediárias e sem
compromissos”. Engels dizia que as etapas e
os compromissos são ditados pela marcha do
desenvolvimento histórico e que é através
desses meios que se perseguirá e alcançará o
objetivo final.
As etapas correspondem a exigências
objetivas do avanço da sociedade. Conhecer
essas exigências e atuar em concordância com
elas é fundamental. Não se pode saltar
etapas ou simplesmente desconhecê-las. O que
se pretende alcançar é fruto da acumulação
nunca resultado de atividades voluntaristas.
Tampouco se pode definir o número de etapas
que haverá no processo socialista. Em março
de 1918, no VII Congresso Extraordinário do
PC (b) R, Lênin dizia que “(…) estamos
apenas na primeira etapa da transição do
capitalismo ao socialismo.” E mais adiante:
“Somente demos os primeiros passos para
livrar-nos do capitalismo e começar a
transição ao socialismo. Não sabemos e não
podemos saber quantas etapas de transição ao
socialismo haverá.” Isso ia depender de
muitos fatores.
No socialismo as etapas diferem das do
sistema capitalista. Neste, o
desenvolvimento é espontâneo, empírico, o
prazos de cada etapa são muito longos. No
socialismo o processo é consciente. Pode-se
acelerar o desenvolvimento e obter, em
períodos menores, saltos qualitativos,
jamais, porém, violando as leis objetivas em
atuação.
Lástima que essa contribuição científica de
Lênin a respeito da transição tenha caído no
esquecimento. Trouxe prejuízos ao movimento
revolucionário. Em seu lugar predominou a
orientação rígida e esquemática adotada pela
União Soviética durante largo tempo. Ali, a
marcha do desenvolvimento da sociedade, em
todos os campos, parecia depender
principalmente da vontade dos homens, dos
dirigentes, sem considerar que esse
desenvolvimento tem raízes objetivas,
envolve estágios determinados.
***
É indispensável dar maior atenção, nas obras
de Lênin, aos ensinamentos referentes a
transição do capitalismo ao socialismo. Não
se trata de repetir mecanicamente as
opiniões de Lênin daquela época ou as
soluções então apontadas. O mundo evoluiu,
surgiram novos problemas, outras são as
exigências da realidade. O que se faz
necessário é recolher os ensinamentos,
assimilar a essência da teoria leninista da
transição, que se incorpora,
indubitavelmente, ao grande e valioso acervo
do marxismo, abrindo largas perspectivas à
edificação da sociedade avançada do futuro.
Escritos de Lênin consultados na
elaboração deste artigo
1. “A catástrofe que nos ameaça”
(setembro de 1917)
2. “Reunião do Comitê Executivo Central”
(abril/1918
3. “O Infantilismo da Esquerda” (maio/1918)
4. “Reunião dos Militantes de Moscou”
(novembro de 1920)
5. “Informe sobre as Concessões” (dezembro
de 1920)
6. “Decreto sobre as Concessões” (novembro
de 1920)
7. “Informe ao X Congresso do PC (b)R”
(março/1921)
8. “Discussão do Encerramento do X
Congresso” (março/1921)
9. “Informe sobre o Imposto em Espécie”
(abril de 1921)
10. “Plano do Folheto do Imposto em Espécie”
(abril de 1921)
11. “O Imposto em Espécie” (abril/1921)
12. “Reunião do Grupo Comunista do Conselho
Central dos Sindicatos” (abril/1921)
13. “X Conferência do PC(b)R (maio de 1921)
14. Instruções do Conselho do Trabalho e
Defesa” (maio de 1921)
15. “Carta a M.F.Sokolov”(maio/1921)
16. “Teses do Informe ao III Congresso da IC”
(junho/1921)
17. “Novos Tempos e Velhos Erros” (agosto de
1921)
18. “Carta à Redação de Ekonon. Zhizn”
(setembro de 1921)
19. “A Nova Política Econômica e as Tarefas
das Comissões de Educação Política” (outubro
de 1921)
20. “Sobre o IV Aniversário da Revolução”
(outubro/1921)
21. “Informe à VII Conferência do Partido de
Moscou” (outubro/1921)
22. “A Importância do Ouro” (novembro de
1921)
23. “Sobre o Papel e as Funções do
Sindicato” (dezembro/1921)
24. “IX Congresso dos Sovietes”
(dezembro/1921)
25. “Carta a D.I.Kurski” (fevereiro/1922)
26. “A Fraseologia Revolucionária”
27. “Informe ao XI Congresso do PC(b)R”
(março/1922)
28. “Discurso de Encerramento do XI
Congresso” (março/1922)
29. Entrevista com A.Ramsome (Manchester
Guardian)” (novembro de 1922)
30. “Informe ao IV Congresso da IC”
(novembro/1922)
31. “A Colônia Russa nos EUA.”
(novembro/1922)
32. “Discurso no Pleno do Soviet de Moscou”
(novembro/1922)
33. “Sobre o Cooperativismo”. (04.01.1923)
Artigo originalmente publicado na revista
Princípios, edição 29, 1/05/1993
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