Partes referente ao
Quadro Internacional:
2) Deterioração da situação econômica do
sistema capitalista
3) A resistência dos povos e nações e as
contradições geopolíticas
2 – Deterioração da situação econômica do
sistema capitalista
As alterações no quadro político mundial
e os conflitos a elas imanentes estão
diretamente relacionados com a propensão à
crise sistêmica e crônica do capitalismo.
Nas últimas décadas do século XX,
produziram-se importantes mudanças causadas
principalmente pelas crises dos anos 1970.
Estas mudanças acarretaram um conjunto de
fenômenos recentes: novo patamar de
internacionalização produtiva;
reestruturação, com novas tecnologias e
novas formas de gestão do trabalho;
direcionamento do investimento externo
direto em grandes volumes, configurando as
corporações transnacionais globais; expansão
de empresas de segmentação e subcontratação
da produção; alianças tecnológicas
delimitadas entre empresas; consolidação da
forma de grupo empresarial com forte
presença internacional; nova expansão da
atividade financeira propriamente dita das
empresas produtivas, com o surgimento de
nova institucionalidade entre produção e
finança e a predominância do capital
financeiro; maior descolamento relativo
entre as esferas da produção e da finança. E
ampliaram-se as trocas internacionais,
sobretudo nos marcos do comércio intrafirmas,
que já atingiram cerca de 40% do comércio
global. Entretanto, a taxa de crescimento
dos mercados financeiros é muito superior a
essa expansão comercial e ainda mais do que
o incremento do setor produtivo.
A predominância do capital financeiro
ganha corpo com a desregulamentação e a
liberalização, em progressiva interligação
entre os diversos mercados financeiros e
entre as esferas financeiras nacionais. A
liberalização dos fluxos de capitais
internacionalmente, a volatilidade das taxas
de câmbio, as taxas reais de juros
oscilantes e tendencialmente elevadas são
fatores de especulação e rentismo da
oligarquia financeira, inclusive
constrangendo a autonomia das políticas
econômicas das nações em desenvolvimento.
Para se ter uma noção da envergadura do
fenômeno, mencione-se o dado de que o
estoque de ativos financeiros no mundo
cresceu de 12 trilhões de dólares em 1980
para 118 trilhões de dólares em 2003, o que
representa o triplo do PIB mundial.
a) tendência à estagnação e à
instabilidade sistêmicas
O cenário econômico atual visto de uma
perspectiva geral aponta a acentuação dos
desequilíbrios, dos fatores de instabilidade
e dos elementos de crise. Este panorama
torna difíceis as previsões quanto ao
futuro, mesmo de curto prazo. A dura e crua
realidade da economia capitalista sugere
incertezas e não poucas angústias para a
imensa maioria das populações. Tornou-se um
lugar comum, uma opinião e um comportamento
vulgares vaticinar progresso e a abertura de
novo ciclo desenvolvimentista da economia
capitalista. Ao menor sinal de ultrapassagem
da recessão, de crescimento ainda que
medíocre das economias centrais ou
periféricas, os apologistas - que pensam ser
também os salvadores do capitalismo - entram
em cena para comemorar que os governos e os
monopólios capitalistas dispõem de
mecanismos de monitoramento e controle
capazes de impedir que as crises periódicas
se transformem em catástrofes semelhantes à
de 1929. Passados os momentos de susto e de
sobressalto, propalam estar em curso uma
gradual e longa transição para a economia e
a sociedade da informação e do conhecimento,
a chamada nova economia, capaz de
auto-regenerar-se.
As transformações do capitalismo no
quadro do neoliberalismo assumem as
seguintes características essenciais:
necessidade de aprofundamento da extração da
mais-valia relativa a partir das novas
tecnologias, ao lado da retomada do recurso
à mais-valia absoluta, com elevadas jornadas
de trabalho, precarização e informalidade;
expansão das transnacionais, mantendo a
centralização da direção nas matrizes;
concentração e centralização de capitais e
da produção coexistindo com o acirramento da
competição global; desmonte da regulação
anticíclica econômica nacional do setor
produtivo estatal e dos serviços sociais do
Estado nacional, principalmente nos países
em desenvolvimento; formação de blocos
regionais, sobretudo a partir dos Estados
centrais. Sob essas novas condições, o mundo
está submetido à instabilidade sistêmica,
que se expressa tanto no plano econômico
como no político. São cada vez menores as
possibilidades do capitalismo, na presente
época do imperialismo, mesmo sob as novas
condições, de promover o desenvolvimento
econômico com soberania nacional e bem-estar
social. E é cada vez mais difícil a
instauração de um novo ciclo de elevado
crescimento econômico global, como ocorreu
excepcionalmente entre o pós-Segunda Guerra
e o início dos anos 1970.
Tudo isso está relacionado com os
desequilíbrios estruturais da economia
norte-americana, que se caracterizam por
gigantescos déficits externos e déficit
fiscal; sobrevalorização dos ativos
imobiliários; elevadíssimo endividamento;
tensões sobre o valor do dólar; pressões
conflitantes sobre o nível da taxa de juros;
crescente dependência de imensos volumes de
importações baratas e carências energéticas.
São graves desequilíbrios, que obviamente
não se transformaram em crise aberta ou em
colapso. Os EUA ainda mantêm a supremacia
tecnológica, econômica e financeira, mas são
claros os sinais da tendência ao seu
declínio. A superpotência norte-americana
perde cada vez mais sua proeminência
produtiva no decorrer de uma longa
trajetória em face de seus concorrentes
globais, inclusive a China. Os
desequilíbrios estruturais dos EUA se
traduzem em grave piora das condições de
vida de importante parcela de sua população.
Comparativamente à Europa e ao Japão, sua
concentração de renda alcançou uma grande
piora desde os anos 1970, com terríveis
mazelas em disseminação para os
desempregados, subempregados e jovens.
Certamente, o capitalismo contemporâneo,
mesmo num quadro de desequilíbrios
estruturais, promove o crescimento da
produção de bens materiais, cria novas
capacidades produtivas, abre fronteiras e
percorre novos caminhos proporcionados pelo
desenvolvimento tecnológico e científico.
Mas é certo também que, com a redução da
capacidade aquisitiva das populações, a
feroz concorrência intermonopolista e o
adensamento da composição orgânica do
capital, se manifestam com força os fatores
que podem resultar em crises de
superprodução relativa. Ou, por outra,
agrava-se uma situação potencial de
superprodução. Ademais, como fenômeno
contemporâneo, o setor financeiro sofre
desmesurada hipertrofia, o endividamento se
generaliza, não mais como chaga econômica
apenas dos países subdesenvolvidos, mas como
fator de crise dos próprios países
imperialistas.
Com o contínuo avanço da produtividade
social do trabalho, agrava-se a contradição
entre o crescimento das forças produtivas e
as relações de produção capitalistas, que
acaba por se constituir em empecilho ao
desenvolvimento ulterior das forças
produtivas. Em nossa época, tal contradição
se torna cada vez mais aguda e se traduz em
dois fenômenos muito presentes: a elevação
dos níveis de desemprego e a progressiva
redução das taxas de crescimento econômico
nos países capitalistas, indicando estar em
movimento uma tendência à estagnação,
estreitamente ligada à decomposição do
padrão dólar - fator tendencial de natureza
histórica, cujo desenlace não se pode
momentaneamente prever. Nas duas primeiras
décadas que se seguiram à Segunda Grande
Guerra, o sistema capitalista viveu um breve
período de prosperidade, no qual os dilemas
dos depressivos anos 1930 pareciam
definitivamente superados nos marcos de um
capitalismo monopolista de Estado que
lograra incorporar, em notáveis concessões
ao movimento operário, muitas conquistas
sociais, plasmando assim o Estado de
bem-estar.
A prosperidade foi efêmera e as ilusões se
esfumaram. Já nos anos 1970, os países
capitalistas ingressaram numa fase
descendente, que perdura até hoje. A taxa
média de crescimento das economias mais
ricas, superior a 5% na década de 1960,
sofreu um progressivo declínio e acabou
inaugurando o século XXI num patamar
medíocre, em torno de 2%. No mesmo período,
o índice médio de desemprego aumentou na
Europa Ocidental de insignificante 1,5% para
cerca de 10% da população economicamente
ativa. Os países da periferia do sistema têm
sido duramente atingidos pela crise,
sobretudo na América Latina e na África,
cabendo destacar que na Ásia, por motivos
diversos, a situação é mais amena.
Movido pelo interesse de maximizar as taxas
de lucros e, em certa medida, pela
concorrência, o capitalismo tende a
estimular o crescimento incessante da
produtividade social do trabalho,
notadamente através da introdução de novas
tecnologias no processo produtivo e de novas
formas de organização do trabalho. Mas este
processo, contraditoriamente, tem levado ao
agravamento da crise, pois ao mesmo tempo
revoluciona a composição orgânica do
capital, contribuindo para o crescimento do
desemprego e acentuando a tendência de queda
da taxa média de lucros. Assim, enquanto
avançam a ciência - que se firma como força
produtiva direta - e a técnica, bem como a
capacidade de produzir riquezas em volumes
cada vez maiores, agrava-se a crise social,
aprofunda-se o fosso entre ricos e pobres,
crescem a miséria e a marginalização de
amplos contingentes de trabalhadores, a
criminalidade e a violência. Alarga-se o
hiato entre a produção e o consumo em escala
social - que acaba por se revelar um
obstáculo ao desenvolvimento econômico, de
forma que embora a produtividade cresça a
produção em escala social não cresce no
mesmo ritmo, as crises cíclicas tornam-se
mais agudas e as taxas de crescimento
declinam. Ainda soam atuais as palavras de
Marx: "A razão última de toda verdadeira
crise permanece sendo sempre a pobreza e a
limitação do consumo das massas, em face da
tendência da produção capitalista a
desenvolver as forças produtivas como se
estas não tivessem por limite a capacidade
de consumo absoluta da sociedade". (O
Capital, tomo 3).
A segunda metade do ano 2000 assistiu ao
início de um período recessivo, agravado
pelo cenário de instabilidade criado pelos
acontecimentos de setembro de 2001 nos
Estados Unidos. Essa crise estendeu-se, nos
EUA, até 2001 e, em outros países,
desenvolvidos até 2003. Em seu transcurso,
esboroaram-se as ilusões sobre as
excelências da "nova economia". Além disso,
desde 1994 ocorrem sucessivas crises na
periferia do sistema.
O motor principal do sistema capitalista, na
sua fase imperialista, continua sendo a
busca do lucro máximo - através do
agigantamento dos monopólios e da acentuação
da concentração e da centralização do
capital -, pela eliminação dos concorrentes,
fusões e diferentes formas de participação
no capital e o aumento brutal da exploração
do trabalho. Em toda a sua história, esta é
a fase mais destrutiva e regressiva do
capitalismo no que se refere ao trabalho. Na
periferia do sistema, o desemprego, a
informalidade, o trabalho precário, o ataque
aos direitos trabalhistas e previdenciários
e a corrosão dos salários atingem marcas
assustadoras. Somando o desemprego aberto e
o subemprego, as taxas atingem quase um
terço da força de trabalho - segundo a
Organização Internacional do Trabalho (OIT),
já há mais de 1,2 bilhão de desempregados e
subempregados no planeta.
A regressão atinge também o coração do
sistema capitalista. Os EUA são hoje o país
da desregulamentação, com corte de vários
direitos e a violenta instabilidade no
trabalho. Na Europa, antigos direitos são
suprimidos ou reduzidos, com aumento do
número de trabalhadores "hifenizados"
(trabalho-temporário, trabalho-provisório,
trabalho-doméstico). A jornada de trabalho
voltou a ser ampliada na França, na Alemanha
e mesmo nos países escandinavos, sob a
ameaça de transferência das unidades de
produção para países com custos mais baixos.
Todos esses fenômenos descritos
correspondem a um processo objetivo e
rigorosamente não são novos. Novas são a
envergadura, a rapidez e a progressão que
adquiriram - cujo efeito é a crescente
internacionalização, ou a
transnacionalização do sistema capitalista,
fase em que se produziram novas formas de
intervenção na economia com a criação de
instrumentos e estruturas supranacionais,
mas sob controle dos centros imperialistas,
como o Banco Mundial, o Fundo Monetário
Internacional (FMI), a Organização Mundial
do Comércio (OMC) etc, com a precípua função
de elaborar e pôr em prática, em nível
mundial, geralmente de forma impositiva,
políticas econômicas e financeiras lesivas
aos interesses das massas trabalhadoras, dos
povos e nações. São as políticas neoliberais
que constituíram, para sair da crise, a
receita capitalista, hoje bastante
desacreditada por acrescentar novos
ingredientes de crise e agravar in extremis
os problemas pré-existentes, criar outros e
gerar uma situação econômica e social
insustentável.
Sistematicamente ao longo dos últimos anos
essas políticas se transformaram em dogma e
em toda parte, resguardadas as diferentes
realidades nacionais e o processo de
resistência em curso, tiveram lugar as
privatizações, a abertura dos mercados, a
liberação desenfreada da circulação de
capitais, a "desregulamentação" das
economias para favorecer os investimentos
das empresas transnacionais, a drenagem das
riquezas nacionais através do mecanismo
espoliador da cobrança das dívidas, a
aplicação dos lucros na esfera financeira
transformada em atividade especulativa. A
essas políticas corresponde a ofensiva
contra os Estados nacionais, procurando
limitá-los a meros garantidores dos
superlucros do capital imperialista e a
ofensiva anti-social manifestada na
superexploração do trabalho, na privatização
dos serviços públicos, na liquidação de
direitos trabalhistas e dos sistemas de
seguridade social. O resultado flagrante é o
agravamento das contradições econômicas e
sociais, mormente entre os trabalhadores e a
grande burguesia, entre os países
dependentes e espoliados e os países
imperialistas.
b) parasitismo dos EUA e desenvolvimento
desigual
Ontem, como hoje, o parasitismo
econômico, decorrente da exportação de
capitais e da internacionalização da
exploração capitalista-imperialista, costuma
afetar principalmente a potência hegemônica
e conduzir inexoravelmente, ao longo do
tempo, à perda da competitividade de sua
indústria e à decomposição de sua liderança
econômica. O desenvolvimento desigual
provoca a emergência de novas potências no
plano econômico, altera o equilíbrio de
forças que atuam no mundo, influenciando a
geopolítica mundial, acirrando a
concorrência por mercados, ensejando
ambições pela redistribuição de áreas de
influência e desdobrando-se em conflitos
econômicos e/ou guerras. São dois fenômenos
que marcham lado a lado na história e são
muitos os pontos em que se entrelaçam. É
patente a manifestação, em nossos dias, do
parasitismo e do desenvolvimento desigual.
O parasitismo é muito evidente hoje nos
Estados Unidos e sua manifestação
encontra-se na raiz dos atuais fatores de
crise do sistema capitalista-imperialista.
Evidencia-se através do consumismo
exacerbado da sociedade estadunidense e tem
sua mais perfeita tradução no déficit
comercial. Em larga medida os EUA vivem hoje
à custa alheia - muito além dos meios que
produzem -, absorvendo do exterior cerca de
2 bilhões de dólares por dia ou algo em
torno de 80% do capital disponível para
investimento no mundo, ou seja, 80% da
poupança mundial. O consumismo exacerbado da
potência hegemônica, refletido no saldo
negativo entre exportações e importações,
está também associado ao déficit público,
que vem sendo financiado basicamente pelos
investidores estrangeiros, transformando-se
em passivo externo e dívida externa.
Em 2004 o déficit comercial - hoje já de
mais de 600 bilhões de dólares - e o público
- os chamados déficits gêmeos - bateram
novos recordes e a tendência dominante é de
que continuem em alta.
A recorrência e o acúmulo do déficit
comercial provocaram um crescente rombo das
contas correntes do balanço de pagamentos
estadunidense e transformaram os EUA de país
credor - até meados dos anos 1980 - no maior
devedor líquido do mundo. Situação que
enfraquece e corrói em médio prazo a
supremacia do dólar. Ao excesso de consumo
corresponde uma taxa de poupança interna
chocantemente baixa e em declínio. O hiato
entre poupança e investimentos nos EUA é
estimado em 6% do PIB, o maior do mundo, e
equivale aproximadamente ao déficit em conta
corrente. Para fechar o balanço de
pagamentos, refinanciar seu passivo e saldar
o déficit externo, os Estados Unidos
precisam atrair cerca de 2 bilhões de
dólares por dia.
O parasitismo traduzido por essa necessidade
crescente de financiamento externo,
associado ao fracasso da "nova economia" e à
recessão de 2001, precipitou uma nova crise
do padrão dólar - acentuando a tendência à
instabilidade da ordem monetária
internacional fundada em 1944 -, que em 1971
já sofrera seu primeiro abalo com a
desvalorização do dólar em 10% e o fim do
lastro do dólar em ouro. O inevitável ajuste
do dólar poderá causar prejuízos
consideráveis às economias dos países em
desenvolvimento e não será feito sem
provocar grandes abalos na economia mundial.
A pressão dos EUA sobre os fluxos de
capitais internacionais tem sido a fonte
primordial das turbulências financeiras que
vêm ocorrendo no mundo ao longo dos últimos
anos, inclusive da crise da dívida externa
na América Latina e das crises financeiras
ocorridas em final da década de 1990. Para
evitar uma desvalorização maior do dólar e a
pressão inflacionária decorrente, as
autoridades econômicas dos EUA são induzidas
a manter suas taxas de juros em patamares
superiores aos da Europa e do Japão. Os
Estados Unidos continuam sendo um importante
destinatário de investimentos externos
diretos e para captar mais continuam
elevando sua taxa de juros. Mas a cota de
investimentos externos diretos, destinada
aos Estados Unidos, cai ano a ano - além
disso, aparece a distorção de que esses
investimentos são cada vez mais em títulos.
Para se ter uma noção comparativa, no ano
passado os investimentos externos nos EUA
foram de 40 bilhões de dólares, contra 61
bilhões endereçados à China. Observe-se que
em 2002 os investimentos externos diretos
nos EUA eram de 72 bilhões de dólares e em
2001 de 167 bilhões de dólares.
Crescentemente, essas evidências do
declínio relativo da economia
norte-americana e da precariedade de sua
hegemonia obtêm reações de natureza
extra-econômica, que se expressam em
agressividade, militarismo e na estratégia
da "guerra infinita". Aliás, ganha força nos
EUA a tese do "keynesianismo de guerra",
pelo que se pretende relançar a economia
norte-americana através do aumento das
despesas militares que já atingem 465,7
bilhões de dólares, projetando-se para 2011
um incremento para a astronômica cifra de 1
trilhão e 300 bilhões de dólares! Ao
"negócio" da militarização e da guerra se
associa o da "reconstrução", como sucede no
Afeganistão e no Iraque, beneficiando
diretamente empresas monopolistas
estadunidenses ligadas pessoalmente a altas
autoridades da administração Bush.
Atualmente, presencia-se uma nova prova
desse fenômeno, com o recente aumento das
taxas de juros nos EUA para 3% ao ano. O
próprio FMI reconhece que a correção dos
desequilíbrios externos da economia
norte-americana exige um forte e depressivo
ajuste, com a redução do consumo a fim de
reverter os déficits comercial e público. Um
remédio amargo que o atual governo não
parece nem um pouco disposto a aplicar.
Ao lado do parasitismo, e com ele
entrelaçado, o desenvolvimento desigual das
nações também vai determinando mudanças nas
relações entre as potências e, por
conseguinte, no cenário internacional. Em
passado recente, o Japão e a Alemanha
acumularam taxas de crescimento econômico
bem superiores às dos Estados Unidos, assim
como superávits crescentes no comércio
exterior e em conta corrente,
transformando-se em grandes potências
econômicas, rivalizando com os EUA tanto no
plano comercial quanto, principalmente, como
fonte de exportação de capitais. A Alemanha
alçou-se à posição de carro-chefe da União
Européia. A Ásia, por razões diversas, é
hoje a região onde se observam expansão e
maior dinamismo econômico, o que representa
um dos principais fatores para o crescimento
da economia mundial em 2003 e 2004 com os
índices de 4% e 5,1%, respectivamente. O
desenvolvimento desigual, associado ao
parasitismo e à perda de competitividade
industrial norte-americana, é que explica a
força que cobram atualmente as moedas
concorrentes do dólar - o euro e o iene.
Mais recentemente, é a China socialista que
se vem beneficiando do desenvolvimento
desigual e do déficit comercial dos EUA.
Hoje em dia, o mundo vem sendo surpreendido
pela ascensão vertiginosa da China
socialista à condição de potência econômica,
com caráter acentuadamente distinto das
potências econômicas imperialistas. Trata-se
de um dos acontecimentos mais relevantes da
presente época, que certamente implicará, em
médio e longo prazos, importantes mudanças
geopolíticas.
A China socialista já é a terceira maior
potência comercial do mundo, tendo
ultrapassado o Japão e ficando atrás apenas
dos EUA e da Alemanha - sendo que a posição
comercial norte-americana deve-se tão
somente à sua voracidade importadora, dado
que os EUA foram ultrapassados pela Alemanha
como maiores exportadores mundiais, segundo
as mais recentes informações da OMC. Se o
Produto Interno Bruto (PIB) da China for
medido pelo critério da paridade de poder de
compra, mais realista do que o da taxa de
câmbio, já se revela o segundo maior do
mundo, inferior apenas ao dos EUA. A China
dispõe de reservas em torno de 600 bilhões
de dólares, o que a transforma em fonte de
investimentos externos na Ásia, sendo
relevante notar ser crescente a participação
chinesa nos investimentos externos diretos
realizados pelo mundo. Esse fabuloso
crescimento chinês, a taxas expressivamente
maiores que as verificadas nas potências
capitalistas - em torno de 9% ao ano nas
duas últimas décadas -, é que está
produzindo essa situação nova. Este notável
desenvolvimento das forças produtivas não
teria sido possível sem a profunda revolução
agrária e nacional dirigida pelo Partido
Comunista da China.
A audaciosa iniciativa de estimular a
produção para o mercado e a expansão do
setor capitalista sob o controle do poder
socialista reforçaram esse processo,
conferindo-lhe um dinamismo que contrasta
com a quase estagnação das economias
imperialistas.
Compõe o quadro de desequilíbrio
estrutural da economia mundial a crise
energética. O atual patamar da produção
mundial de petróleo constitui um problema de
gestão de riscos sem precedentes para os EUA
e para todo o mundo. À medida que o consumo
aumenta, os preços dos combustíveis líquidos
se elevam dramaticamente e, sem que se tomem
medidas atenuantes em tempo hábil, os custos
econômicos, sociais, políticos e ambientais
serão terríveis. Em 2003, o consumo mundial
de petróleo rondou os 80 milhões de barris
por dia (Mb/d). O consumo dos EUA foi de
quase 20 Mb/d - dois terços dos quais no
setor de transportes. O vertiginoso
crescimento econômico chinês também é
responsável por grande parte do consumo de
combustíveis. Os Estados Unidos estão em 3º
lugar entre os maiores produtores de
petróleo, mas a enorme demanda força a
importação de metade do que é consumido. São
também os maiores produtores de
eletricidade, mas precisam comprar
excedentes do México e do Canadá. Ainda
assim, não conseguem evitar vexames como na
Califórnia, o estado mais abastado do país
mais rico do mundo, que sofre apagões. A
geração de energia alternativa, como a
eólica, a geotérmica, a solar direta e a de
biomassa, apenas engatinha.
Este quadro no seu conjunto mais a
destruição da natureza decorrente de sua
exploração desordenada e não sustentável
colocam em risco o futuro ecológico do
planeta, do que são chocantes exemplos as
devastações provocadas pelos furacões
Katrina e Rita. O desenvolvimento
capitalista atual, sem levar em conta a
preservação ambiental, vem provocando o
aquecimento da Terra, através do efeito
estufa, que tem trazido sérias alterações
climáticas e graves problemas para o futuro
da humanidade. O Tratado de Kyoto, visando à
redução da emissão de gases poluentes,
principalmente gás carbônico, entrou em
vigor este ano, sem contar, porém, com a
assinatura dos EUA, responsáveis por 36% da
emissão de gases poluentes. Outro grave
problema é a diminuição do volume de água
doce do planeta.
c) contradições em agravamento
Em suma, pode-se afirmar que o sistema
capitalista-imperialista vive período de
aprofundamento de sua crise crônica e
sistêmica. Sem cair em visão fatalista e na
atitude ingênua de prever a débâcle
automática de tal sistema, pode-se asseverar
que as contradições fundamentais do
capitalismo estão em agravamento, mormente a
contradição entre o caráter social da
produção e a apropriação privada dos seus
produtos. É cada vez mais forte a exigência
histórica de fazer corresponder novas
relações de produção ao grau alcançado pelo
desenvolvimento das forças produtivas. Essas
relações não podem ser outras senão aquelas
que sejam capazes de libertar o potencial
criativo e transformador do trabalho e do
pensamento humanos, de colocá-los a serviço
da coletividade e assim enfrentar os
angustiantes problemas que a afligem e a
empurram para o estágio de barbárie,
ameaçando a destruição do planeta.
Encontra-se também em rápido agravamento
a contradição entre os povos e o
imperialismo, destacando-se em seu
desenvolvimento a tendência ao reagrupamento
dos grandes países em desenvolvimento, entre
os quais se perfila o Brasil, que se
esforçam por afirmarem-se como nova força
competidora no mundo contemporâneo. A luta
pelo desenvolvimento, por um comércio
eqüitativo, contra o protecionismo dos
países ricos, contra as tenazes das dívidas,
contra a espoliação das riquezas, contra as
políticas neoliberais, que muitas vezes se
desenrolam dentro dos próprios organismos
internacionais criados pelo imperialismo,
como no caso da OMC, constitui aspecto
saliente nos esforços dessas nações pela
reconfiguração da ordem internacional,
merecedor da atenção e da intervenção das
forças progressistas e revolucionárias.
Igualmente, desenvolvem-se as contradições
econômicas interimperialistas, aumentando a
rivalidade entre a União Européia e os
Estados Unidos. Essas contradições foram
alçadas a novo patamar, mormente após a
formação da União Européia e o surgimento do
euro. Têm incidência direta no quadro
latino-americano e no Brasil, alvos de
disputas por influência econômica e
política. Como contradições entre potências
não devem ser subestimadas, mas consideradas
força de reserva estratégica. Não podem,
contudo, ser absolutizadas, porquanto
comportam também a possibilidade de acordos
entre essas potências, em detrimento dos
povos e da soberania das nações.
3 – A resistência dos povos e nações e
as contradições geopolíticas
O aumento da exploração capitalista sobre
os trabalhadores, a intensificação da
espoliação sobre os povos e países e a
ofensiva política e militar do imperialismo
norte-americano não poderiam resultar senão
no incremento da resistência e da luta dos
povos. Ainda que em um quadro de defensiva
estratégica e sob a ameaça de uma
superpotência imperialista que adota como
política de governo a "guerra preventiva" e
"por todos os meios", os povos do mundo
resistem e lutam pela paz, pela
independência nacional, contra a espoliação
e a exploração. Permeando essas lutas e essa
resistência, com diferentes graus de
consistência e clareza, persiste nos setores
conscientes das massas trabalhadoras a idéia
de que os embates nacionais e os de classe
podem e devem ser levados ao surgimento de
uma forma nova de organização social, sob o
primado dos trabalhadores, que é o
socialismo.
No Iraque, não há como negar que a
estratégia imperialista de ocupação vem
sofrendo sucessivos reveses com o despertar
da resistência iraquiana. A concentração de
tropas, o emprego maciço da aviação e de
armas as mais modernas foram suficientes
para derrubar o regime de Saddam Hussein e
ocupar o país. Mas as forças militares e os
arranjos institucionais evidentemente
artificiais têm sido incapazes de
estabilizar o regime de ocupação, mesmo
contando hoje com o respaldo de uma abstrusa
resolução do Conselho de Segurança das
Nações Unidas que reconhece as tropas
agressoras como "força multinacional" e
estabelece normas para a institucionalização
do regime fantoche. A resistência se impôs.
Os EUA contabilizam cerca de dois mil mortos
e milhares de feridos em suas fileiras.
Desde 9 de abril de 2003, quando caiu a
última fortaleza de Saddam, e 1º de maio
daquele mesmo ano - quando Bush, numa
proclamação que mais se assemelhava a uma
ária de ópera-bufa, anunciou o "fim da
guerra" -, não passou um dia sequer sem que
os comandos e as tropas estadunidenses
fossem atacados e sem que os
colaboracionistas pagassem o preço da
traição à pátria. O incremento da
resistência levou as forças de ocupação a
cometerem atos ainda mais criminosos, como o
sítio e o bombardeio de Falluja, um
genocídio que nada fica a dever às ações dos
exércitos fascistas na segunda grande guerra
e a violarem a convenção de Genebra com a
abominável prática de torturas e de sevícias
contra prisioneiros de guerra.
É justa a luta do povo iraquiano contra a
ocupação do seu país, pela reconquista da
independência e soberania e pela
reconstrução nacional de acordo com os
critérios da autodeterminação. Qualquer
solução política passa necessariamente pelo
fim da ocupação. Não poderá haver governo
democrático e legítimo sob a tutela de
tropas estrangeiras.
Na Palestina, após a morte de Yasser
Arafat, o imperialismo norte-americano busca
isolar a Organização pela Libertação da
Palestina (OLP) e a Autoridade Nacional
Palestina das demais forças patrióticas e
revolucionárias. Com o apoio irrestrito dos
EUA, o governo de Israel insiste em não
cumprir as resoluções da ONU que determinam
o direito de retorno dos refugiados, a
desocupação de todos os territórios
palestinos e o desmantelamento das colônias
judaicas na Cisjordânia. O Estado de Israel,
em sua prática discriminadora, prossegue na
construção de um muro, conhecido como o Muro
do Apartheid, já condenado pela Corte
Internacional de Justiça de Haia. A luta, no
entanto, prossegue, pela criação do Estado
Palestino, soberano, independente, única
alternativa capaz de viabilizar a paz
duradoura na região.
Na América Latina, após duas décadas de
aplicação selvagem do neoliberalismo, nos
últimos anos observaram-se diferentes
tentativas de encontrar saídas e
alternativas à grave crise econômica e
social instalada em decorrência das
políticas neoliberais. Assim, este é um
continente em busca de um novo destino, onde
se produziram sucessivas irrupções e
importantes mudanças políticas, com a
conquista de governos por forças que, num ou
noutro grau, se opõem ou se diferenciam do
neoliberalismo e das políticas imperialistas
para a região.
No Brasil, com a eleição de Lula em 2002,
abriu-se novo ciclo político, em que o maior
país da América do Sul inaugura uma nova
etapa de sua inserção no mundo, demarcando
posições com o imperialismo norte-americano
e incorporando-se à luta por uma nova ordem
econômica e política internacional.
Na Venezuela, a partir do triunfo
eleitoral de Chávez em 1998, teve início a
Revolução Bolivariana de caráter patriótico,
democrático e popular. Destacam-se como
importantes avanços do período a ampla
reforma constitucional que propiciou o
aprofundamento da democracia participativa;
a lei de terras que abriu caminhos para a
reforma agrária; as missões que
possibilitaram o acesso do povo à saúde e à
educação.
Na Argentina, o governo de Kirchner -
embora oriundo de setores das classes
dominantes e voltado para o objetivo de
estabilizar o país após o rotundo fracasso
do neoliberalismo e do governo centrista de
Fernando de la Rúa - move certa resistência
à engrenagem financeira comandada pelo FMI e
tenta escapar à camisa-de-força da dívida
externa.
No Uruguai, uma ampla coalizão de forças de
esquerda e de centro, encabeçada pelo líder
socialista Tabaré Vázquez, venceu as
eleições, despertando a mobilização popular
pela realização de transformações de fundo
no país.
A região andina vive situação de
permanente conflagração e ingovernabilidade.
Sucedem-se insurreições e revoltas
populares, camponesas e indígenas na
Bolívia, no Peru e no Equador. Na Colômbia,
prossegue o conflito armado, ao passo que
cresce o movimento democrático de amplas
forças políticas contra o regime fascista de
Álvaro Uribe.
No México, abrem-se novas perspectivas
para o embate eleitoral de 2006 e nos países
centro-americanos que viveram lutas
revolucionárias nos anos 1980 as antigas
forças guerrilheiras - como a Frente
Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na
Nicarágua e a Frente Farabundo Marti de
Libertação Nacional (FMLN) em El Salvador -
se consolidaram como forças políticas
capazes de se constituir como pólo
alternativo nos embates eleitorais. Também a
União Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG),
da Guatemala, dá passos em sua estruturação
como força política enraizada nas massas.
O Haiti é um dos maiores focos de
instabilidade na América Latina. País
depauperado por oligarquias tirânicas e
corruptas e vítima do intervencionismo
norte-americano vive situação caótica
caracterizada pela generalizada falência de
suas instituições. Os comunistas brasileiros
são solidários com o povo irmão haitiano. A
situação sanitária, alimentar e de segurança
beiram a catástrofe. Sua solução requer
assistência internacional, para a qual é
necessário um engajamento ativo da ONU. Em
matéria de solução para os problemas de
segurança, é preciso prosseguir nos esforços
para organizar forças judiciárias e
policiais capazes de promover o desarmamento
dos bandos e implantar a paz. No plano
político, urge encontrar soluções eficazes e
democráticas para a longa e crônica crise
institucional do país. A ajuda
internacional, porém, não se deve traduzir
por tutela nem intervenção militar. É
necessário viabilizar as condições para a
realização de eleições democráticas que
permitam retirar as forças militares da
Missão das Nações Unidas para a
Estabilização do Haiti (Minustah), criada
para atender uma emergência.
Nesse novo ambiente político, repõe-se em
novos termos a luta pela integração
latino-americana por variados caminhos ainda
por consolidar, como o Mercosul, a
Comunidade Sul-Americana de Nações e a Alba
- ressaltando-se nesse processo a vitória
parcial dos povos latino-americanos que
constituiu a paralisação e a suspensão da
Alca, plano colonialista e anexionista do
imperialismo norte-americano.
O imperialismo norte-americano vem
colecionando uma sucessão de derrotas na
América Latina. Fracassaram suas tentativas
de esmagar a Revolução Cubana que, pouco a
pouco, supera dificuldades e abre novos
caminhos. Esboroaram-se as intentonas
golpistas contra o presidente venezuelano
Hugo Chávez. O Plano Colômbia e todas as
políticas arbitrárias e antidemocráticas de
Álvaro Uribe fracassaram no intento de
esmagar as guerrilhas. Até mesmo no terreno
diplomático, em reduto que parecia
inexpugnável - como a Organização dos
Estados Americanos (OEA), anacrônico
remanescente da guerra-fria e instrumento de
provocação do imperialismo norte-americano
contra forças progressistas e
revolucionárias na América Latina -, o
governo de Bush sofreu derrotas com a
rejeição dos seus candidatos ao cargo de
secretário-geral.
O cenário político efervescente na
América Latina é um dos novos elementos da
conjuntura internacional, a apontar que há
mudanças importantes em curso, uma sucessão
de vitórias parciais dos povos, com
repercussão positiva na acumulação de forças
da luta antiimperialista.
Também na Europa há fortes sinais de
desenvolvimento da luta de classes, de
mobilização dos trabalhadores e de amplas
camadas sociais contra as políticas
neoliberais dos governos de turno, os cortes
de direitos sociais, as revisões regressivas
das legislações trabalhistas,
previdenciárias, migratórias e educacionais.
Espraia-se na Europa o descontentamento com
as posturas anti-republicanas das elites
dirigentes. Não raro, esse descontentamento
se expressa através de greves gerais,
manifestações públicas maciças e em
contundentes manifestações e pronunciamentos
políticos. A eleição de José Luís Rodrigues
Zapatero na Espanha, a derrota da direita em
Portugal e a rejeição ao governo direitista
de Sílvio Berlusconi pelo povo italiano são
disso salientes e significativos exemplos.
O fato mais marcante, indicador de que
gradualmente estão sendo processadas
modificações importantes nas condições de
luta e no estado de espírito das massas, foi
o rotundo NÃO na França e na Holanda contra
o Tratado Constitucional da União Européia
que consagrava uma Europa sem direitos
sociais, a Europa dos monopólios, dos
poderes supranacionais e do militarismo. A
atitude do povo francês e holandês, sem
sombra de dúvida protagonizada pelos
trabalhadores e as forças de esquerda, põe
em xeque a continuidade das políticas que
mantêm e agravam as mazelas sociais.
Tal pronunciamento inequívoco, que nada
tem a ver com posições chauvinistas ou
visões ahistóricas, repõe a luta por
conquistas sociais no tabuleiro político
mundial. É fato alvissareiro a ser
valorizado em alta conta, pois dele emanarão
conseqüências políticas com efeitos de longo
prazo. Trata-se de mais uma mudança a pesar
positivamente no balanço de forças em
evolução.
É fato saliente da atual conjuntura
internacional o isolamento das posições
norte-americanas e a derrota de sua política
em várias esferas. Nunca o imperialismo
norte-americano sofreu tamanho isolamento
diplomático e político. Deixou profundas
marcas nas relações entre as potências a
recusa da Alemanha, da Rússia, da França e
da China a apoiarem a decisão
norte-americana de guerrear no Iraque. Essas
derrotas e esse isolamento, que produzem
parciais alterações na correlação de forças
entre as grandes potências, fizeram com que
no começo do seu segundo mandato Bush
retomasse a iniciativa e buscasse
repactuações nas suas relações com a Europa
e a Rússia, sinalizando com certas
concessões e até mesmo recuos táticos, para
assegurar o fundamental de sua estratégia.
Mas como as contradições geopolíticas são
objetivas e correspondem a processos
históricos, a situação conjuntural continua
sujeita a abalos.
O fato mais promissor da luta dos povos
nos últimos anos foi a emergência de um
extenso, amplo e maciço movimento de luta
pela paz. Jornadas de luta pela paz,
coordenadas mundialmente, puseram de pé
multidões em centenas de cidades de dezenas
de países contra a guerra de Bush ao Iraque.
Embora sujeito às leis objetivas do fluxo e
refluxo, o movimento de luta pela paz não
cessou e tornou-se uma frente primordial de
combate, o ponto de convergência da luta
antiimperialista, indissoluvelmente ligada à
luta pelo desenvolvimento, pela democracia e
pelo progresso social.
No terreno da luta pela paz, assim como
de outros aspectos da luta política e social
de massas, ganha força o movimento que ficou
conhecido como "antiglobalização", composto
por diversos segmentos e orientado segundo
variados matizes políticos e ideológicos e
que se expressa através do Fórum Social
Mundial (FSM), cujas cinco edições o
credenciaram como escoadouro em escala
internacional de importantes reivindicações
dos movimentos sociais. Valorizando o FSM e
todas as campanhas e redes correlatas como
âmbito necessário de atuação dos comunistas,
observam-se, não obstante, os limites desse
processo. A existência do cenário global não
anula o desenvolvimento das lutas nos marcos
nacionais, com orientações que só cabem às
forças nacionais. A amplitude e a
diversidade, assim como a autonomia dos
movimentos sociais, necessárias para a
construção de uma nova unidade desses
movimentos, não são incompatíveis com a
atuação independente dos partidos comunistas
e demais forças revolucionárias, sendo
necessário rechaçar quaisquer tentativas de
marginalização e exclusão dessas forças nas
aludidas redes, campanhas e no FSM. Fator
positivo no desenvolvimento da luta de
massas tem sido a emergência e o
protagonismo de entidades e articulações
como o Conselho Mundial da Paz, a Aliança
Social Continental, a Federação Mundial das
Juventudes Democráticas, a Organização
Continental Latino-Americana e Caribenha de
Estudantes, a Federação Democrática
Internacional das Mulheres, a Rede do
Sindicalismo Classista da América Latina, a
Federação Sindical Mundial, a Via Campesina,
a Frente Continental de Organizações
Comunitárias, entre outras.
No quadro geral da luta dos povos,
desempenha influência positiva a existência
de países socialistas que, com
potencialidades, graus de dificuldades,
conteúdos, formas e ritmos diferenciados,
constroem o socialismo nos marcos de
condições nacionais muito peculiares. Num
mundo fortemente marcado pelas derrotas
infligidas ao socialismo no final do século
XX, o desenvolvimento político e econômico
de países dirigidos por forças
revolucionárias e que buscam novos caminhos
de edificação da nova sociedade constitui um
fator progressivo em termos conjunturais e
de perspectiva. Exaurido o ciclo das
experiências socialistas que surgiu a partir
de 1917 e em torno da antiga União
Soviética, o sistema
capitalista-imperialista mundial tudo fez
para extirpar da face do planeta todo e
qualquer vestígio de experiência prática
socialista. Mas não conseguiu.
A bandeira do socialismo, sustentada por
partidos comunistas que defendem e se
orientam pelo marxismo-leninismo, permanece
hasteada em recantos diversificados do
planeta, na China, no Vietnã, na República
Popular Democrática da Coréia, em Cuba e no
Laos. O socialismo, por conseguinte, não é
uma idéia que desapareceu das práticas
concretas dos países. Pelo contrário, vive,
e sob sua égide, movimenta-se um quarto da
humanidade.
Não tendo conseguido extirpar, na prática, o
socialismo da face da Terra, o sistema
capitalista-imperialista e seus ideólogos de
plantão foram surpreendidos por um amplo
movimento de adequação das experiências
socialistas, quando desapareceu o antigo
campo socialista e quando o desenvolvimento
das forças produtivas, especialmente da
ciência e tecnologia, inter-relacionou em
nível maior as economias dos diferentes
países, acabando com as economias
autárquicas. Os partidos comunistas
dirigentes das experiências citadas foram se
dando conta - uns mais outros menos - de que
no quadro estratégico defensivo em que se
encontravam nos países economicamente
atrasados onde estavam, o socialismo, de um
lado, não poderia se fechar e, de outro,
teria de percorrer etapas. Os ritmos de
construção do socialismo variam de acordo
com as peculiaridades de cada país. E assim,
na China, no Vietnã, na República Popular
Democrática da Coréia, em Cuba e no Laos,
com diferentes conotações, o socialismo não
ficou petrificado em formas de décadas
atrás, o que seria caminho certo para a
derrota. Nesses países o socialismo
reciclou-se, adaptou-se ao tempo presente,
adotando formas e conteúdos desconhecidos no
passado, o que lhes possibilitou sobrevive
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