I - Crise ambiente1. O
meio ambiente tem sofrido as
conseqüências da produção
capitalista, acentuadamente na forma
atual em que a desregulamentação, a
predominância das regras do
“mercado” (isto é, do capital) e a
globalização neoliberal são
hegemônicas, trazendo uma série de
conseqüências danosas à natureza,
entre as quais, o agravamento do
efeito estufa. Este ocasiona o
aquecimento da Terra com a
conseqüente alteração das correntes
marítimas e de ar, conduzindo a
sérias alterações climáticas. Tal
fenômeno decorre da emissão de gases
poluentes, como o gás carbônico e
coloca em risco o futuro da
humanidade.
2. O relatório do Painel
Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC) divulgado
recentemente chegou a sérias
conclusões. Diz o relatório
“Concentrações de dióxido de carbono
(CO2), metano e óxido nitroso
aumentaram notavelmente como
resultado das atividades humanas
desde 1750”, afirmando ainda que “os
aumentos globais na concentração de
dióxido de carbono se devem,
sobretudo, ao uso de combustíveis
fósseis e mudanças no manejo da
terra, enquanto o aumento do metano
e óxido nitroso se deve
primordialmente à agricultura”. É
interessante notar que o relatório
do Painel ao destacar o ano de 1750
como marco da aceleração do efeito
estufa pontuou a responsabilidade
dos países que iniciaram o processo
da Revolução Industrial neste
processo.
3. Como conseqüência da emissão
desses gases poluentes prevê-se um
aquecimento da Terra, o chamado
efeito estufa, da ordem de 1,8o.C
até 4o.C., durante este século. A
conseqüência deste fenômeno será o
derretimento de partes das calotas
polares e da neve de regiões
montanhosas com a conseqüente
elevação do nível dos oceanos entre
18 até 58 cm. Isto trará graves
conseqüências. Inúmeras cidades
costeiras e ilhas poderão ser
submersas.
4. Segundo o relatório até 2020, se
não forem tomadas medidas para
conter a emissão de gases poluentes,
250 milhões de habitantes da África
subsaariana enfrentarão escassez de
água e em alguns países a produção
de alimentos poderá ser reduzida
pela metade.
5. É importante destacar que existem
visões discordantes em relação às
conclusões do Relatório do IPCC.
Todavia há um ponto de vista
predominante sobre o aquecimento
global. As divergências fundamentais
se situam na responsabilidade por
tal situação e nos caminhos para
superar o problema.
6. Em fevereiro de 2005 entrou em
vigor o Tratado de Kioto com
objetivo de reduzir a emissão de
gases poluentes. Ele estabeleceu
“responsabilidades comuns, mas
diferenciadas” entre os países em
relação ao efeito estufa. Isto
fundamenta a posição daqueles que
defendem que o combate à poluição
tem que ser realizado levando em
conta o processo histórico – isto é,
aqueles que poluem mais e há mais
tempo, como os países ricos, cuja
industrialização já dura dois
séculos, precisam arcar com uma
parcela maior desse custo do que os
países em desenvolvimento, que lutam
contra a pobreza e pela elevação da
qualidade de vida de seus povos. Com
isto colocou a principal
responsabilidade nos países
desenvolvidos que emitem, há muitos
anos, os gases que provocam o efeito
estufa. Em decorrência disto o
Protocolo estabeleceu metas de
redução da emissão de gases
poluentes para 38 países
industrializados. Eles deverão
reduzir, em média, 5,2% de suas
emissões entre 2008 e 2012, tomando
por base as emissões de 1990. Porém,
o maior poluidor, os Estados Unidos,
responsáveis pela emissão de 36%
desses gases, se nega a assinar o
referido Tratado.
7. Já os países em desenvolvimento
são estimulados a adotarem políticas
de desenvolvimento limpo. Para isto
criou-se os chamados “créditos de
carbono”, mecanismo através do qual
os países desenvolvidos podem
comprar títulos para abater suas
metas de emissão de gases poluentes.
Na realidade, “compram”o direito de
continuarem poluindo. Os países em
desenvolvimento ao adotarem
mecanismos de desenvolvimento limpo,
reduzindo a emissão de gases
poluentes, ficam com créditos de
carbono e podem vender seus títulos.
8. A adoção de uma matriz
energética, que não se baseie no
consumo de materiais fósseis, mas
sim na biomassa (etanol e biodiesel),
na energia eólica, solar e outras
fontes de energia não poluentes é um
importante passo no combate ao
efeito estufa. Neste sentido o
Brasil se coloca em posição de
destaque no mundo pelo seu programa
de álcool (etanol) e agora o
programa do biodiesel. Todavia
torna-se importante desenvolver uma
luta em defesa de um zoneamento
econômico-ecológico para impedir que
a produção de cana de açúcar venha a
substituir a produção de alimentos e
degradar o meio ambiente. Torna-se
necessário, também, medidas
restritivas à compra de terras por
estrangeiros com o objetivo de
produzir o etanol.
9. O desmatamento continua acelerado
e ininterrupto. O mundo já perdeu
metade de suas florestas originais.
Na zona tropical a perda anual soma
130 mil km2. Este problema tem como
causa principal o modelo agrícola
capitalista baseado em grandes
propriedades e na monocultura.
10. Outra questão importante diz
respeito à água. Do total da água
disponível no planeta 97,2% são
águas salgadas, 2,4% são águas
congeladas ou salobras. Menos de 1%
do total das águas é representado
por água doce e o grave é que o
consumo da água tem tido um
crescimento alarmante. A partir de
1950 o consumo da água em todo mundo
triplicou. Mais de 26 países do
mundo já sofrem de escassez de água,
sendo que alguns países árabes
importam água potável a preços
superiores ao preço do petróleo que
exportam. O banco suíço Pictey prevê
que em 2015 as empresas privadas
fornecerão água potável para cerca
de 1,75 bilhões de pessoas. Os
maiores fornecedores são a Nestlé e
a Danone, entrando mais recentemente
no mercado a Coca-Cola e a
Pepsi-Cola. O fato é que a questão
da água está se tornando um problema
extremamente grave e razão de
conflitos e guerras. Mesmo diante
deste quadro a água é usada de forma
indevida e com grandes desperdícios.
11. No Brasil, as conseqüências da
política neoliberal também
aprofundaram a crise social e a
degradação ambiental. Com governo
Lula foi possível reverter, mesmo
que ainda de forma limitada, o
processo de concentração da renda e
a degradação ambiental.
12. O desmatamento da Amazônia
brasileira tem sido objeto de grande
preocupação. Em 2004 foram
desmatados 26,1 mil km2. Todavia
fruto de uma nova política ambiental
do governo Lula, com a participação
ativa do estado na gestão ambiental,
o desmatamento na Amazônia caiu pela
primeira vez em nove anos. Segundo
dados do INPE houve uma redução de
59% nos desmatamentos em nove
estados da região amazônica, entre
2004 a 2007. Caiu de 27.397km2 para
11.224km2 ao ano, o nível mais baixo
desde quando as medições começaram a
ser feitas por satélite, em 1988. A
Operação Curupira, de 2005,
desmantelou quadrilhas de grilagem
de terras e de extração ilegal de
madeiras na Amazônia.
13. Em três anos foram criadas 39
novas unidades de conservação
abrangendo uma área de 15,5 milhões
de hectares, ampliando em 30% o
total da área protegida até 2002. O
Programa Nacional de Florestas
ampliou o plantio florestal de 280
mil hectares em 2002 para 530 mil em
2005.
14. A Amazônia está sob os holofotes
internacionais quando se trata da
questão ambiental. Naquela região, é
preciso fortalecer a presença do
Estado para combater os crimes
ambientais, que decorrem da ausência
da ação pública no combate aos
especuladores, grileiros e
exploradores das florestas e das
populações ribeirinhas. A exploração
predatória dos recursos da floresta,
desde madeiras até elementos da
biodiversidade, é conseqüência da
fragilidade da ação do Estado na
região.
15. Uma das dimensões da luta pela
posse da terra, na Amazônia, envolve
também o respeito às populações
locais e aos ribeirinhos, cujas
condições de vida precisam ser
garantidas e preservadas.
16. Foi aprovada pelo Congresso
Nacional e sancionada pelo
Presidente da República a Lei de
Gestão das Florestas Públicas. Este
dispositivo legal estabelece três
formas de gestão das florestas
públicas: 1) criação de unidades de
conservação de uso sustentável; 2)
reservas extrativistas e áreas
quilombolas; 3) contratos de
concessão em processo de licitação,
com pagamento pela exploração.
Certos setores ambientalistas
criticam esta lei dizendo que ela
abrirá caminho para uma maior
devastação da Amazônia. Aziz
Ab’Saber, presidente de honra da
SBPC, critica as concessões de
florestas públicas afirmando que “é
uma ação anti-brasileira em relação
à biodiversidade”. O Ministério do
Meio Ambiente, ao contrário, afirma
ser uma alternativa de manter o
controle sobre a mata amazônica.
17. O processo de desmatamento está
relacionado com a abertura de novas
fronteiras para a pecuária e a
agricultura, principalmente para a
produção de soja. A produção
agrícola capitalista, em geral, não
respeita os 20% de reservas legais e
as áreas de preservação permanente
(matas ciliares, encostas de
morros). O desmatamento é o maior
responsável pela emissão de gás
carbônico no Brasil.
18. A questão do meio ambiente
urbano passa a ter cada vez maior
importância em nosso país. Entre
1950 e 2000 a população urbana, que
era 36%, atingiu 81,25% e a
população rural decresceu para
18,75%. Tal deslocamento
populacional tem trazido graves
conseqüências ambientais para os
centros urbanos. As cidades , em
geral, não têm uma infraestrutura e
serviços capazes de atender o
conjunto de suas populações. Elas
são atingidas pela poluição do ar,
pela poluição sonora, visual e pela
poluição dos rios que as atravessam.
A falta de habitações para as
famílias pobres termina levando-as a
construir casas em áreas de risco e
de proteção ambiental. A
impermeabilização do solo nas
cidades juntamente com a erosão e a
disposição inadequada do lixo são
responsáveis pelas enchentes
ocorridas em grandes centros
urbanos.
19. Outra questão ambiental séria
nos centros urbanos é a dos resíduos
sólidos. Montanhas de lixo são
produzidas, criando sérios problemas
nas cidades em função do consumo
elevado e do desperdício das camadas
mais ricas da sociedade. Segundo
Pesquisa Nacional de Saneamento
Básico, produzida pelo IBGE em 2000,
apenas 33% dos municípios
brasileiros coletam 100% dos
resíduos domiciliares produzidos em
suas zonas urbanas e territórios,
sendo que do total dos resíduos
urbanos coletados, 20% é disposto de
maneira inadequada, em vazadores a
céu aberto.
20. O Brasil detém 12% das reservas
mundiais de água doce,
particularmente na Amazônia. Mesmo
assim enfrentamos problemas com sua
má distribuição, particularmente no
Nordeste surgindo conflitos como o
relacionado com a transposição das
águas do rio São Francisco. O
processo de desmatamento, o uso de
agrotóxicos, os efluentes jogados
nos rios tem levado a uma degradação
de nossos recursos hídricos
reduzindo o volume e a qualidade de
nossas águas. Dados recentes indicam
que há uma perda de 45% da água
captada para o consumo humano.
21. O governo federal elaborou,
através de amplas discussões
nacionais, um Plano Nacional de
Recursos Hídricos visando assegurar
as disponibilidades hídricas em
quantidade e qualidade para seu uso
sustentável. Entre 2003 e 2005 foram
aprovadas legislações para a criação
e funcionamento dos Comitês de
Bacia, a cobrança do uso da água e a
garantia de que os recursos
arrecadados dos usuários de água não
sejam contingenciados.
22. O Brasil detém 20% da
biodiversidade mundial - a maior
biodiversidade do mundo. Estima-se
que o País tenha entre 1,4 e 2,4
milhões de espécies de plantas,
animais e microorganismos. Todavia,
segundo a Avaliação do Estado do
Conhecimento da Biodiversidade
Brasileira, realizado pela UNICAMP,
apenas 200 mil são conhecidas pela
ciência. O que é grave é que se
estima que 75% dos principais
acervos biológicos da biodiversidade
brasileira estejam depositados fora
do Brasil. E isto está relacionado
com denúncias reiteradas da
biopirataria praticada no País.
23. O Tráfico de Animais Silvestres
é bastante amplo sendo, a nível
mundial o terceiro comércio ilegal
mais rentável, vindo atrás somente
do tráfico de armas e de drogas. O
Brasil tem papel destacado neste
comércio causando graves prejuízos
para nossa fauna.
24. É preciso mencionar, ainda, a
questão da biossegurança, que é
ligada aos temas da defesa ambiental
e da qualidade de vida. A aprovação
pelo Congresso Nacional da lei
11.105, de março de 2005 – a chamada
Lei de Biossegurança – resultou de
ampla negociação e dotou o Brasil de
um instrumento legal para
regulamentar a pesquisa dos chamados
transgênicos e o uso de seus
produtos que resultam delas.
Prevalece a posição cautelosa de
estudar caso a caso cada um desses
produtos e seus efeitos sobre os
seres humanos e o meio ambiente.
25. A controvérsia sobre os
transgênicos envolve duas dimensões
que precisam ser levadas em
consideração: uma científica e outra
econômica.
26. A pesquisa científica envolve a
investigação de modificações
genéticas e a ampliação do
conhecimento humano e, nesse sentido
precisa ser apoiada e fomentada.
27. A econômica, por sua vez,
envolve o uso comercial dos
resultados da pesquisa científica e
sua monopolização por grandes
empresas. Ela pode ser nociva para
os seres humanos e para os
produtores rurais. Um exemplo dessa
monopolização é o desenvolvimento de
sementes geneticamente modificadas
por multinacionais gigantes, como a
Monsanto e a Cargill, que buscam o
controle total sobre as sementes e a
produção de alimentos. O combate a
esta dimensão econômica monopolista
precisa fazer parte ativa de
qualquer agenda que trate desta
questão.
II - Marxismo e meio ambiente
28. A questão ambiental se
transformou num sério problema para
a humanidade e o tema passou a se
colocar no centro dos grandes
debates políticos. Por isso, seu
debate requer também o exame do
pensamento dos clássicos sobre o
assunto. Os marxistas colocam como
centro de sua ação política a luta
de classes pela construção de uma
sociedade socialista. E têm, nesse
sentido, incorporado as novas lutas
que vão ganhado espaço na sociedade
tais como a luta pela igualdade de
gênero, a luta contra o racismo, a
luta em defesa do meio ambiente e
contra qualquer tipo de
discriminação.
29. Os clássicos do marxismo já se
preocupavam com as conseqüências do
sistema de exploração capitalista
não somente sobre a vida do
trabalhador como, também, sobre a
natureza.
30. Marx em O Capital, afirmou:
“todo o progresso da agricultura
capitalista não é somente um
progresso na arte de esgotar o
operário, senão por sua vez na arte
de esgotar o solo (...). A produção
capitalista, conseqüentemente, não
desenvolve a técnica e a combinação
do processo social de produção senão
solapando, ao mesmo tempo, os
mananciais de toda riqueza: a terra
e o trabalhador”.
31. Isto porque o capitalismo tem
como objetivo central o lucro
máximo, baseado na propriedade
privada. Para isto adota um sistema
de produção e consumo que conduz à
exploração da força de trabalho, ao
desperdício dos recursos naturais e
a degradação do meio ambiente.
32. Uma preocupação presente entre
os defensores do meio ambiente é
atender “as necessidades do presente
sem comprometer as possibilidades de
as gerações futuras atenderem às
suas próprias necessidades”. Marx em
O Capital já revelava tal
preocupação ao afirmar: “Do ponto de
vista de uma formação econômica
superior, a propriedade privada de
certos indivíduos sobre o globo
terrestre parecerá tão absurda
quanto a propriedade privada sobre
outro indivíduo. Mesmo uma sociedade
inteira, uma nação, mesmo todas as
sociedades coesas em conjunto não
são proprietárias da Terra. São
apenas possuidoras, usufrutuárias
dela, e como boni patres familias
devem legá-la melhorada às gerações
posteriores”. Com o capitalismo
ocorre exatamente o contrário. As
gerações presentes deixam para o
futuro uma natureza gravemente
deteriorada.
33. Descrevendo as conseqüências da
agressão perpetrada contra a
natureza Engels, em seu livro
Dialética da Natureza, afirma: “Não
devemos, sem dúvida, nos vangloriar
de nossas vitórias humanas sobre a
natureza. Esta se vinga de nós por
cada uma das derrotas que lhe
infringimos”.
34. A visão marxista compreende que
há um metabolismo entre o homem, a
sociedade e o ambiente. E que o modo
de produção capitalista, na busca
desenfreada pelo lucro, rompe este
metabolismo. A busca do lucro
impulsiona o capitalismo a impor
crescentemente necessidades novas,
derivadas não das exigências da
manutenção e reprodução da vida
humana, mas da necessidade de
reprodução do capital e da
otimização dos custos, na tentativa
de fugir à tendência à queda da taxa
de lucros. Assim, o capitalismo e as
necessidades da acumulação e
reprodução do capital são os
principais fatores de agravamento do
desequilíbrio ambiental, com
resultados cada vez mais
catastróficos e irresponsáveis. Como
forma de ampliar a produção, o
sistema capitalista criou a chamada
“sociedade de consumo”, e seu estilo
de vida baseado no consumo de bens
exagerado e perdulário. Os meios de
comunicação cumprem, nela, o papel
de propagar a necessidade
consumista, induzindo a população à
compra de bens desnecessários. O
resultado é o crescimento cada vez
maior da produção e consumo de bens
supérfluos para a vida, gerando
montanhas de lixo, abatendo
florestas, devastando rios e
oceanos, poluindo o ar.
35. As formas e a intensidade da
exploração capitalista sobre os
trabalhadores e o grau de agressão à
natureza estão ligados ao nível de
consciência e organização dos
trabalhadores em defesa dos seus
direitos e da luta em defesa do meio
ambiente.
36. As experiências de construção do
socialismo no século XX, marcadas
pela necessidade de superação do
atraso e da pobreza em países como a
URSS e, atualmente, a China, foram
marcadas por um viés produtivista
que minimizou os problemas
ambientais e geraram problemas que
não podem deixar de serem levados em
conta. Atualmente, a China é um dos
maiores emissores de CO2. A
elaboração de uma proposta de modelo
de desenvolvimento adequado para as
urgências contemporâneas e que
combine a necessidade de criação de
riquezas mantendo uma relação
equilibrada com a natureza e com os
recursos naturais precisa partir de
uma avaliação crítica destas
experiências.
37. É importante ressaltar que o 17º
Congresso do Partido Comunista da
China destacou a importância da
defesa do meio ambiente,
estabelecendo diretrizes nesse
sentido, inclusive a destinação de
vultosos recursos. Só esse ano,
foram 10 bilhões de dólares em
energias renováveis, volume superado
apelas pela Alemanha. Além disso, a
China é líder mundial no uso das
energias solar e eólica, e o governo
do país se comprometeu a reduzir em
20% o consumo de energia por unidade
do PIB nos próximos cinco anos.
38. A luta de classes dos
trabalhadores obrigou o sistema
capitalista a fazer concessões. Isto
ocorreu com a vitória da revolução
socialista na União Soviética e com
a crise do capitalismo, obrigando
este sistema de produção a adotar a
chamada social–democracia, como
forma abrandada do sistema, onde
eram assegurados certos direitos aos
trabalhadores.
39. A crise do capitalismo na década
de 70 e a derrocada do campo
socialista colocou na ordem do dia o
neoliberalismo, ou seja, um retorno
às regras do “livre mercado” com a
redução do papel do Estado nas
relações econômicas e sociais.
40. A chamada globalização
neoliberal deixou o mercado livre
para aprofundar o processo de
exploração dos trabalhadores, das
nações e a degradação ambiental.
41. Certos ambientalistas, que têm a
matriz de sua formulação nos países
ricos descrevem os problemas
ambientais acriticamente – e
ahistoricamente – como problemas de
todos, que afetam a todos e que são,
portanto, responsabilidade de todos.
O custo de sua resolução, portanto,
deste ponto de vista, deve ser
partilhado por todos os povos, mesmo
que isso signifique a contenção do
desenvolvimento em níveis
ambientalmente seguros. Assim,
trata-se de uma ideologia que
legitima – em nome de uma ameaça que
afeta a todos – a dominação
imperialista e sua perpetuação. Esta
foi a posição defendida pelo
imperialismo norte-americano na
recente conferência da ONU sobre o
clima, realizada em Bali
(Indonésia). Lá, os EUA defenderam a
tese de que não aceitariam o
estabelecimento de metas para os
países desenvolvidos sem que
simultaneamente se estabelecessem
metas para os países em
desenvolvimento, numa manipulação
ideológica que visa tratar de forma
igual aos desiguais. E só depois de
duas semanas de duro enfrentamento
concordaram em abrir a perspectiva
de aprofundar as negociações nos
próximos dois anos.
42. Por isto mesmo a defesa do meio
ambiente, combinada com a luta pelo
desenvolvimento e justiça social, é
um elemento estruturante da agenda
socialista e antiimperialista do
século XXI.
III - Meio ambiente e
desenvolvimento
43. O Partido Comunista do Brasil
se posicionou de forma clara e
contundente sobre o tema ao
incorporar à sua Resolução Política
do XI Congresso a bandeira da luta
em defesa do meio ambiente.
44. Ressaltado os problemas causados
pelo sistema capitalista a Resolução
afirma que “este quadro no seu
conjunto mais, a destruição da
natureza decorrente de sua
exploração desordenada e não
sustentável, colocam em risco o
futuro ecológico do planeta. O
desenvolvimento atual, sem levar em
contra a preservação ambiental, vem
provocando o esquentamento da Terra,
através do efeito estufa, que tem
trazido sérias alterações climáticas
e graves problemas para o futuro da
humanidade”. Em outra parte a
Resolução afirma “A questão da
preservação ambiental é também parte
destacada de um projeto nacional
avançado. Não se trata, pois de
insistir no trato dado ao problema
em tempos passados, mas de buscar
uma nova relação entre
desenvolvimento e meio ambiente”.
45. Os problemas ambientais são
reais, como os especialistas têm
enfatizado. E precisam ser
enfrentados. Entretanto, eles têm
sido objeto, também, de uma
verdadeira ideologia ambientalista
voltada para a legitimação do status
quo mundial, mantendo a divisão do
trabalho entre as nações e as
relações de poder assimétricas que
predominam. Nesse sentido, a
bandeira ambiental é explorada pelos
países capitalistas centrais como
justificativa de ações restritivas
ao desenvolvimento dos países
dependentes, congelando ou até
agravando a concentração de riqueza
e poder no sistema internacional.
46. É em torno desta ideologia
ambientalista que proliferam muitas
organizações ambientalistas nos
países em desenvolvimento, onde
acabam se tornando em instrumentos e
correias de transmissão de
interesses imperialistas nessa
questão. Nela, é preciso distinguir
aquilo que se pode caracterizar como
ecologia de mercado, dominada pela
lógica capitalista. Contra esta
lógica, é preciso se aliar a todos
os setores que combatem a
privatização dos bens da natureza,
defendem sua distribuição mais
igualitária e eqüitativa, e
reconhecem a existência de um corte
de classe na questão ambiental uma
vez que a poluição não afeta a
todos, pobres e ricos, na mesma
forma pois o modelo atual privilegia
a poucos e tem forte impacto
negativo sobre as populações mais
pobres. Segundo o Relatório do
Desenvolvimento Humano do PNUD,
referente a 2007-2008, o clima afeta
78 vezes mais os países pobres do
que os ricos. De cada 19 moradores
de países em desenvolvimento, um foi
vítima de tragédias como seca,
tsunamis e furacões, entre 2000 e
2004. Nos países desenvolvidos, a
relação é de um para cada 1.500. As
populações mais pobres estão
intrinsecamente vulneráveis aos
desastres naturais porque têm menos
recursos para enfrentá-los.
47. Este é o grande debate que se
coloca na questão ambiental, e que
se desdobra na necessidade de
combinar o desenvolvimento com a
preservação do meio ambiente. Para
responder a esta questão surge o
conceito de desenvolvimento
sustentável. Todavia este conceito
permite uma pluralidade de leituras
que conduzem à formação de correntes
de opinião em torno da questão
ambiental.
48. Dentre estas correntes
destaca-se a modernização ecológica.
Ela procura demonstrar a
compatibilidade entre
desenvolvimento e proteção ambiental
nos marcos do sistema capitalista.
Defende o predomínio da esfera do
mercado na condução da
sustentabilidade em detrimento da
sociedade civil e do estado. Procura
negar ou minimizar os chamados
instrumentos de comando e controle
ambiental, ou seja, o papel do
estado na aplicação da legislação
ambiental através de medidas
punitivas pelo não cumprimento
destas normas legais.
49. Tal posição é hoje hegemônica a
nível mundial e é a expressão da
política neoliberal neste terreno.
Ela defende a tese de que o mercado
é capaz de liderar o processo de
transição para o desenvolvimento
sustentável, através da introdução
de “tecnologias mais limpas”, da
contenção do crescimento
populacional e do incentivo a
processos de produção e consumo
ecologicamente orientados. A
argumentação econômica e
técnico-científica ocupa uma posição
privilegiada nessa corrente de
pensamento.
50. A segunda posição, a
sustentabilidade democrática,
defende a tese de que o
desenvolvimento sustentável só é
possível com alterações no modelo de
produção e consumo da sociedade. Tal
posição não rompe com o capitalismo,
mas propõe medidas que aprofundem o
processo democrático, assegurando a
defesa do meio ambiente e a melhoria
das condições de vida do povo.
51. Com relação ao papel do estado
essa matriz se subdivide em duas
tendências: uma tem restrições à
ação política estatal e defende o
papel central da sociedade civil na
defesa do meio ambiente. A outra
defende a intervenção estatal como o
melhor caminho para assegurar um
desenvolvimento sustentável. Esta
posição parte da constatação de que
a sociedade civil isolada não é
capaz de se contrapor às forças do
mercado e que, por isto, é
indispensável a ação normativa e
política do estado. No entanto,
defende a democratização do estado e
sua articulação com a sociedade
civil. Esta corrente defende que o
desenvolvimento sustentável deve
incorporar a luta contra as
desigualdades sociais e políticas e
a defesa da diversidade cultural.
Esta concepção de desenvolvimento
sustentável critica o capitalismo,
sem, no entanto propor sua
superação.
52. Uma terceira posição é a dos
ecologistas radicais que diante da
crise ambiental provocada pelo
desenvolvimento capitalista advogam
uma “volta ao passado”. Trata-se da
defesa romântica da vida rural em
pequenas unidades de produção
auto-sustentáveis. Esta posição,
mesmo criticando o capitalismo não
propõe uma alternativa efetiva ao
sistema de produção vigente. A
defesa radical da preservação
ambiental termina por se transformar
num empecilho ao desenvolvimento do
País.
53. A quarta posição é a marxista,
que considera que a solução efetiva
dos problemas ambientais só será
possível com a adoção de um modo de
produção que não esteja voltado para
o lucro, mas sim para o bem estar da
sociedade. Onde a propriedade não
seja privada, mas sim propriedade
social. Esta alternativa coloca o
modo capitalista de produção como
causador dos atuais níveis de
degradação ambiental e propõe a
construção de uma nova sociedade,
uma sociedade socialista, um
socialismo renovado incorporando a
questão ambiental como questão
relevante a ser resolvida.
Entretanto, a implantação do
socialismo, por si só, não resolve a
questão ambiental, sendo necessário
que ela esteja desde já presente na
agenda da construção socialista e
durante a construção do socialismo.
54. Todavia a visão marxista leva em
conta a correlação de forças para
apresentar suas propostas de luta
política a cada momento. A conquista
do socialismo, com avanços mais
profundos na questão ambiental, não
está colocada no horizonte imediato.
O aprofundamento da democracia é, no
dizer de Lênin, o caminho mais curto
para avançarmos rumo ao socialismo.
55. Assim sendo, do ponto de vista
da luta imediata, a luta em defesa
do meio ambiente, nos dias atuais,
se identifica com a sustentabilidade
democrática, com a participação do
Estado e da sociedade civil, na luta
em defesa do meio ambiente. A
posição marxista adota esta posição
no rumo do processo de acumulação de
forças visando a construção da
sociedade socialista.
IV - Meio ambiente e projeto
nacional de desenvolvimento
56. A questão ambiental adquire
importância cada vez maior na pauta
dos grandes debates sobre o presente
e o futuro da humanidade. O quarto
relatório do Painel
Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC em inglês) da
Organização das Nações Unidas
divulgado recentemente, em Bruxelas,
foi fruto de discussões e pesquisas
de 2500 cientistas, tendo sua versão
final aprovada em reunião onde
participaram alguns deles e
representantes de 130 governos. Nele
são abordadas as graves
conseqüências que advirão em
decorrência do aquecimento da Terra
se não forem tomadas medidas para
reduzir a emissão de gases que
provocam o efeito estufa. Diante da
gravidade do problema os governos,
os partidos políticos e a sociedade
civil se movimentam no sentido de
dar uma resposta à questão.
57. Nas condições atuais do Brasil,
como compatibilizar melhor o
desenvolvimento com a preservação do
meio ambiente?
58. O Brasil necessita se
desenvolver, gerar riquezas, emprego
para enfrentar os problemas sociais
existentes em nossa sociedade.
Todavia o desenvolvimento a qualquer
preço, sob a alegação de que o País
necessita crescer, não conta com o
respaldo do PCdoB. Também não conta
com o nosso apoio uma defesa do meio
ambiente que seja entrave ao
desenvolvimento do país.
59. Para o PCdoB a solução
estrutural deste problema só virá
com a adoção de um novo sistema
social, o socialismo renovado.
Todavia temos que dar passos para
chegar lá. Assim o nosso caminho
imediato é o da sustentabilidade
democrática, visando aprofundar o
processo de mudanças que está em
curso no País e o Projeto Nacional
de Desenvolvimento que gere emprego,
valorize o trabalho, a nossa cultura
e preserve o meio ambiente. Para
isto torna-se necessário que a
questão ambiental seja incorporada
ao Projeto Nacional de
Desenvolvimento como uma vertente
verdadeiramente importante.
60. A luta em defesa do meio
ambiente encontra uma forte
resistência dos grupos econômicos
que só visam o lucro máximo. Por
isto mesmo a questão ambiental
necessita contar com um amplo
processo de mobilização política
para que ela seja incorporada, com
destaque, nos debates e programas
sobre o presente e o futuro do País.
Ela exige uma plataforma avançada,
capaz de unificar amplos setores da
sociedade.
V - Plataforma ambiental
61. Defesa do princípio das
“responsabilidades comuns mas
diferenciadas “entre os países
responsáveis pela emissão de gases
de efeito estufa. Não aceitação da
imposição dos países altamente
desenvolvidos em relação aos países
em desenvolvimento, em relação ao
meio ambiente.
62. Desenvolvimento com defesa do
meio ambiente. Projeto nacional de
desenvolvimento com distribuição de
renda, valorização do trabalho,
democracia, soberania nacional,
defesa da cultura e defesa do meio
ambiente.
63. Defesa do papel do estado no
exercício dos mecanismos de “comando
e controle”, ou seja, na aplicação
da legislação ambiental.
64. Defesa da Amazônia, política de
desenvolvimento sustentável para a
região.
65. Zoneamento econômico-ecológico
com a definição pelo Estado das
regiões aptas ao plantio da
cana-de-açúcar e outros produtos e
as áreas de preservação ambiental.
66. Emenda constitucional
incorporado o Cerrado e a Caatinga
como patrimônios nacionais como já
ocorre com a Floresta Amazônica
brasileira, a Mata Atlântica, a
Serra do Mar, o Pantanal
Mato-Grossense e a Zona Costeira.
67. Defesa do etanol, do biodiesel e
da energia nuclear como alternativas
de matriz energética mais limpa.
68. Adoção de novos métodos da
produção agrícola que reduzam o
impacto ambiental.
69. Criação de novas unidades de
conservação.
70. Controle efetivo das áreas de
Reservas Legais e áreas de
Preservação Permanente ( APPs).
71. Rígido controle do desmatamento.
72. Políticas de florestamento das
nascentes dos rios e de
reflorestamento, sobretudo nas
margens dos rios.
73. Combate à biopirataria.
74. Combate ao tráfico de animais
silvestres.
75. Políticas de tratamento adequado
dos resíduos sólidos e coleta
seletiva do lixo.
76. Criação de mecanismos de gestão
ambiental como o ICMS ecológico.
VI - Tarefas partidárias
77. Definir responsáveis, nos
comitês estaduais e municipais, pela
frente da luta ambiental.
78. Diagnóstico da situação
ambiental do estado e municípios e
fixação de plataformas de luta do
estado e de cada município.
79. Criar organismo dos camaradas
que participam da luta ambiental nos
comitês estaduais e municipais.
80. Nos locais onde não exista,
criar organização ambientalista em
torno da qual se possa aglutinar
amigos do partido e lutadores da
causa ambiental.
81. O debate ambiental deve ser
transversal, envolver todas as áreas
do partido – juventude, mulheres,
sindicalistas, movimento negro,
movimento comunitário.
82. Fomentar o debate sobre a
questão ambiental no partido.
83. Estimular políticas públicas de
educação ambiental nas escolas e
também em outras entidades públicas,
despertando e fortalecendo a
consciência da necessidade de
combater as agressões ambientais e
lutar por um modelo de
desenvolvimento ambientalmente
responsável e sustentável.