Um partido
comunista contemporâneo - 9
As polêmicas atuais sobre a questão partido
– a degenerescência dos partidos comunistas
Walter
Sorrentino* (1)
Nas polêmicas atuais sobre a questão de
Partido, a crise da experiência socialista e
a derrota estratégica que isso significou
para a luta dos comunistas, é central. Isso
obriga a examinar em profundidade tal crise,
também sob a perspectiva das questões de
Partido.
O PCdoB faz esforço, desde o 8º Congresso
em 1992, para extrair conseqüências da crise
do socialismo e da nova situação estratégica
no plano mundial para a luta pelo
socialismo. Nesse histórico Congresso, João
Amazonas conclamava a superar a crise do
marxismo e do socialismo como uma tarefa
notável, maior desafio do tempo
contemporâneo para os comunistas. São, desde
então, anos de intensa reflexão e elaboração
sobre o tema. O sentido que Amazonas
atribuiu à questão era o de uma crise do
desenvolvimento da teoria revolucionária.
Não era a primeira vez que se apresentava:
ele nos reportava à crise da 2ª.
Internacional, da qual Lênin emergiu como
homem extraordinário de pensamento e ação
revolucionária, desenvolvendo o marxismo
para as condições de seu tempo e, em
particular, a teoria de partido, da qual nos
ocupamos.
Para Amazonas, o tema Partido mais uma
vez era central no exame crítico da crise,
como também para a retomada do movimento
transformador. Em artigo de 1996 – Força
decisiva da revolução e da construção do
socialismo, ele indica a necessidade de
dar maior atenção aos desvios de concepção
de Partido, como fator da crise. O PCUS
degenerou e daí teve início a derrota do
socialismo. Já no período sob direção de
Stalin, burocratizou-se, desligou-se da
massa, caiu na rotina, endeusando dirigentes
e o carreirismo. Abriu terreno à capitulação
no campo socialista e nos partidos
comunistas, desarmando ideologicamente o
proletariado.
A degenerescência se dera também em
outros períodos, como no da 2ª.
Internacional. Ocorrera tanto antes como
após a revolução. Por quê? Ele buscou
generalizar uma resposta. Afirmou que em
última instância o fracasso se dá pela
conciliação de classes. O Partido Comunista
é o partido da luta de classes, exigindo
sempre situar-se no campo do proletariado.
Apontou as distorções na aplicação do
conceito de partido de vanguarda na
experiência oriunda do PCUS. A derrota
sofrida na URSS significou a vitória do
liberalismo, como tendência burguesa no
interior do movimento comunista. Tratava-se,
para Amazonas, de fenômeno que começa nas
direções, frente ao qual se exige educação
permanente das bases, incluindo a
preocupação com a composição orgânica do PC,
onde os operários são os mais conseqüentes.
Essas formulações se deram no interior de
um esforço sistemático de exame crítico da
crise do socialismo, multilateral, realizada
por Amazonas desde 1992 e até o fim de sua
vida. Uma resenha dessas reflexões pode ser
encontrada em artigo da revista
Princípios, em sua edição nº 85
(clique
aqui para ler).
Para os propósitos da coluna, retenha-se
que Amazonas centrou a necessidade de se
manter os fundamentos de um partido
comunista, classista e revolucionário: a
noção da luta de classes, o caráter de
classe da luta pelo socialismo, a exigência
de ruptura para um novo poder político de
Estado, o Partido Comunista como direção
estratégica dessa luta, a característica
central da unidade ideológica marxista e
revolucionária como fator fundante do
partido. Deixou patente o componente de
permanência na concepção e prática do
PCdoB, a exigência de manter a identidade e
princípios do Partido, de não retroceder dos
fundamentos.
Essas reflexões se somaram a outros
importantes esforços anti-dogmáticos, ainda
em curso, que redundam na renovação
de concepções e práticas, à base de recusa
de um modelo único organizativo de
partido, apreendendo mais e melhor as
originalidades da feições, formas e funções
do PCdoB em funcionalidade com seu projeto
político estratégico. Deram ensejo ao novo
Estatuto partidário aprovado no 11º
Congresso. Em última instância,
permanência e renovação são os temas de
fundo da própria coluna.
(1) Com a colaboração de José Carlos Ruy e
Oswaldo Napoleão.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br
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