Um partido
comunista contemporâneo - 8
As polêmicas atuais sobre a questão partido
–
a crise “orgânica”
Walter
Sorrentino* (1)
Inicia-se aqui o segundo ponto da parte I
do tema que nos propusemos. Outro modo de
desenvolver a teoria de Partido, além de sua
teoria, é enfrentar as polêmicas atuais
sobre a questão. Polêmicas que invocam
também reflexões sociológicas sobre a
realidade das classes sociais, suas
vivências, relações e lutas.
O movimento da esquerda em geral vive sob a
injunção de uma crise e isso afeta as
convicções ideológicas e as motivações
militantes. Marta Harnecker a sistematiza
como uma crise programática e uma crise
orgânica, tendo por base uma crise teórica.
São formulações que estimulam o debate,
embora ela conclua pela ausência de
centralidade do proletariado como sujeito
central do processo transformador do tempo
presente.
Nas elaborações do PCdoB, a matriz é a crise
da teoria revolucionária, que precisa se
desenvolver para dar conta dos novos
fenômenos contemporâneos e repensar sua
própria experiência.
Nessa perspectiva, a ’’crise orgânica’’ tem
a ver com dois aspectos centrais:
1)
A negação do que é
entendido como paradigma da revolução social
das primeiras experiências socialistas:
partidos comunistas como monopólio da
representação dos trabalhadores,
organizações sociais como correias de
transmissão, caminho revolucionário tendo
por centro as crises revolucionárias
(condições objetivas sempre maduras como
pano de fundo), mudanças reais só a partir
da tomada do poder político, partidos
centralizados, ditos autoritários. O que foi
resposta genial de Lênin ao tempo próprio,
estaria engessado hoje, sob forma de rústico
messianismo;
2)
A realidade econômica,
política e social contemporânea, e seu
impacto na consciência, relações e
identidades sociais de classes. Por um lado,
a reestruturação produtiva do capitalismo e
seu impacto no chamado mundo do trabalho,
a complexificação e heterogeneidade das
estruturas e relações sociais, onde a
polarização social assume forma bastante
heterogênea, afetando as identidades de
classe. Por outro lado, a hegemonia da
democracia liberal, a “mercantilização” da
política,o império do mundo das finanças e o
monopólio dos grandes meios de comunicação
ditando rumos políticos, como aparelhos
privados de hegemonia, de grande alcance.
Não se pretende aqui uma explanação
extensiva do tema, ainda pouco desenvolvido
pelos comunistas, mas tão somente indicar a
necessidade também de estudos sociológicos
acurados para captar essa realidade.
Produz-se uma crise da representação
política e esvaziamento da participação
política. Desdobra-se num questionamento dos
partidos políticos enquanto instrumento de
mediação entre os interesses em conflito, da
articulação de um projeto avançado de
mudança social, e a questão do poder
político. Agregado à crise do socialismo, é
particularmente referido como crise do
movimento comunista.
Evidentemente isso impacta as motivações
militantes. Tome-se como parâmetro indireto
disso alguns fenômenos, apenas como
exemplos. Durante a década de 90
registrou-se no país enorme ascensão dos
cultos religiosos evangélicos,
particularmente entre as camadas mais
populares. A mudança de paisagem que isso
constituiu, particularmente nas periferias
dos grandes centros foi inequívoca, com
templos substituindo edificações que outrora
foram fábricas e cinemas. Isso é expressão
de outros tipos de sociabilidade e, por
outro lado, de afastamento da política – e
portanto de eventual militância política de
qualquer tipo. Em São Paulo, uma pesquisa
nesses anos mostrava inversão estatística
entre pessoas que referiam pelo menos um
membro da família com filiação partidária –
que despencou fortemente – e com filiação e
culto religioso, que cresceu.
Outro indicador indireto é o crescimento do
chamado terceiro setor. Alegando a
lógica “nem estado, nem mercado”, trata-se
de entidades voltadas fortemente para o
combate à exclusão social. Denominação
genérica e sem consenso, abarca desde
administrações de hospitais e universidades
até ONGs que defendem direitos de todo tipo,
associações religiosas que cuidam de
crianças, entidades que preservam orquídeas
e até grupos de fãs de artistas.
Pesquisa do IPEA e IBGE (publicada na FSP, 6
de dezembro de 2005) mostrou que a evolução
do terceiro setor no Brasil, de 1996
a 2002, foi de 136,2% no total de entidades,
alcançando 275.895. As de maior incremento
foram as de proteção do meio ambiente e da
vida animal (309%), bem como de
desenvolvimento e defesa de direitos (302%).
Embora a maioria seja de pequeno porte,
empregam 1,5 milhão de assalariados no
total, sendo que 7% do total têm dez ou mais
empregados. O prêmio Empreendedor Social
2005 registrou o Brasil como o segundo
colocado em número de inscrições e
selecionou oito finalistas cujos projetos
beneficiaram mais de 800 mil pessoas em todo
o pais, como exemplo de “dedicação e
desprendimento”. É inegável que tal forma de
participação representou novos modos de
militância – não política, mas algumas
de caráter bastante progressista e humanista
– particularmente nos segmentos de meio
ambiente e defesa de direitos, combinando
formas assalariadas com voluntariado.
Por outro lado, há uma curiosa inversão
aparente de papéis. Movimentos sociais
assumem funções de partido político – mesmo
negando-os em palavras –, com projeto e
ideologia menos ou mais desenvolvida, normas
organizativas e místicas próprias. Enquanto
isso, muitos partidos pretendem esconder seu
papel, assumindo formas de movimentos,
inclusive nos nomes, como o “PODEMOS”, ou
“Primeiro Justiça”, como que querendo
contornar seu caráter de partido político.
Entretanto, não se está falando aqui de
política e partidos políticos em geral, mas
de partidos de caráter transformador e
classista, revolucionários, marxistas.
Construir uma força assim é ainda mais
difícil. Envolve não apenas uma teoria
avançada, linhas políticas ajustadas, como
também convicções ideológicas, motivações
militantes, de servir aos trabalhadores, ao
povo e à pátria. Enfim, um caráter
militante, empenho de energias de homens e
mulheres convictos da exigência de
dedicar-se à luta política e social como
meio de mudar a sociedade, o que invoca
considerar a Política como forma elevada da
consciência social. Pode-se dizer que essa é
uma das tarefas mais complexas de nosso
horizonte histórico, indispensável para
abrir caminho a uma nova sociedade.
Na práxis real de nosso tempo isso tem
assumido formas concretas muito variadas.
Partidos Comunistas, num tempo de defensiva
estratégica, procuram resistir, persistir em
sua identidade, acumulando forças,
respondendo de forma mais ou menos ativa às
novas condições estratégicas da luta que
travam. De outra parte, muitas forças
políticas revolucionárias adotam a forma de
frentes políticas, com os comunistas atuando
no seio de amplas coalizões eleitorais –
como no caso da Frente Ampla no Uruguai –
que muitas vezes assumem governos, ou mesmo
em frentes de caráter estratégico, como a
Frente Farabundo Marti em El Salvador.
Frentes que na década de 70-80 assumiram a
forma de movimentos armados na América
Latina, hoje buscam pela via eleitoral a
expressão principal e têm aberto caminho por
essa via a novo processo de atuação
política. Isso põe em questão a necessidade
de se integrar de forma plena à luta
política, que assumiu forma concentrada da
disputa política via eleitoral. Enfim, águas
represadas buscam formas de dar vazão ao
processo de acumulação de forças nas novas
condições estratégicas. Evidentemente, isso
impacta a forma-partido, seu papel,
caráter, funções e formas organizativas,
Por isso o tema Partido deve ser alvo de
exame mais sistemático, em seu
desenvolvimento teórico, de ação política,
de massas, e mesmo em sua dimensão
organizativa. Tudo isso deve estar
devidamente amparado em estudos sociológicos
sobre as características das relações e
lutas sociais de nosso tempo e,
fundamentalmente, dos caminhos estratégicos
da luta, porque em última instância, Partido
revolucionário responde à estratégia. Esse o
sentido mais profundo da idéia de que
organização serve à política. Um pensamento
de modelo único, dogmático ou rígido nesse
terreno responderá de forma disfuncional às
exigências e, por outro lado, retroceder de
fundamentos, perder a identidade comunista,
levará o partido comunista a se perder no
pragmatismo. É importante chamar a atenção
para isto: pela “esquerda” ou pela
“direita”, ambas as respostas representam
tendência oportunista.
Para os fins do debate do segundo ponto do
nosso tema, que é o das polêmicas atuais
sobre a questão de Partido, deve-se
ressaltar uma vez mais que isso representa a
eterna reposição do tema da consciência
revolucionária, do sujeito histórico social
central, e do tipo de partido político
necessário para a luta revolucionária. Mas
deve-se ser capaz de fazer a análise crítica
da crise do socialismo, que representou um
poderoso laboratório de acertos e erros.
Porque daí partiu o aprofundamento da crise
de perspectivas, da qual a crise orgânica é
uma de suas manifestações. O tema da próxima
coluna é precisamente o da degenerescência
dos Partidos Comunistas como fator da crise
do socialismo.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br
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