Um partido
comunista contemporâneo - 7
Informe ao 11º Congresso sobre o projeto de
estatuto (1)
Walter
Sorrentino*
I –
Desde o Congresso Extraordinário de 1962,
que reorganizou o PCdoB, e desde que se
conquistou a legalidade em 1985, as atuais
gerações militantes não construíram um
Estatuto em Congresso, como o fazemos agora.
Durante 21 anos de ditadura militar,
prevaleceu o antigo Estatuto de 1962,
marcado por forte conotação de atuação
clandestina, de um Partido essencialmente de
quadros e não de extensas fileiras
militantes. Com ele resistimos na luta pela
democracia política no país, até com armas
nas mãos quando foi necessário, na Guerrilha
do Araguaia. Depois, novo Estatuto foi
aprovado no 7º Congresso em 1988, e
modificado topicamente em três ocasiões até
hoje.
Ao se completaram agora 20 anos de
atuação legal, neste que é o mais longo
período ininterrupto de legalidade,
carecia-se de recolher as experiências dessa
trajetória para um Estatuto renovado. Foram
duas décadas de rica e variada experiência
política para o povo brasileiro e para o
Partido. Foram igualmente anos de profundas
opções ideológicas, postas à prova com a
queda do Muro e a poderosa ofensiva
anticomunista, ainda remanescente no plano
das perspectivas. O PCdoB resistiu, com base
nas opções feitas desde 62 e renovadas no 8º
Congresso em 1992. Persistiu na defesa da
identidade comunista e com disposição para
um esforço anti-dogmático, refletindo as
exigências da luta política de classes nas
condições próprias do país, no contexto da
correlação de forças do mundo atual.
O fortalecimento do Partido nesses anos
foi fruto dessas opções. Firmou-se como a
legenda comunista do país. Alcançou o
patamar inédito de mais de 200 mil filiados
e 69 mil militantes organizados em todo o
país (não obstante suas dimensões ainda
pequenas perante as dimensões do país).
Cresceu 70% entre o 9º e 10º congressos, e
outros 105% nos últimos quatro anos.
Aproveitou bem as novas condições criadas no
país. A 9ª. Conferência Nacional, o 1º e 2º
Encontro sobre Questões de Partido,
reafirmaram a vocação por um partido
militante, bem estruturado e voltado
prioritariamente para a representação
política e social do proletariado
brasileiro, preparado para as novas
responsabilidades que assumiu perante a
nação.
O novo Estatuto consolida, aprimora e
inova com base na experiência percorrida.
Nele se combina o sentido de permanência de
uma corrente transformadora classista,
marxista e militante, com o sentido de
renovação, que é a chave para sinalizar a
sociedade mais amplamente sobre o projeto
político e impulsionar o fortalecimento do
PCdoB.
Permanência porque o PCdoB segue sendo
tributário da genial resposta leninista em
renovação do marxismo em seu tempo, e da
grande experiência revolucionária socialista
do século XX. Mas distinguindo leninismo de
bolchevismo enquanto uma de suas
manifestações históricas concretas na forma
de conceber o Partido, codificado pela 3ª.
Internacional. Por isso, ao mesmo tempo,
renovação, significando que se quer trilhar
caminhos originais, sem modelo organizativo
único e imutável de Partido, renovando
concepções e práticas para atender aos
problemas de nosso tempo, do povo
brasileiro, de sua cultura e tradição de
lutas. Não é tempo de re-invenção do tipo de
Partido necessário para as viragens
revolucionárias; é, entretanto, tempo de
atualizar a teoria e prática de Partido
Comunista, pois este não tem pressupostos
a-históricos, responde aos desafios
singulares da luta de classes em cada
situação, à estratégia dada do movimento
transformador.
O projeto apresentado significa uma
síntese avançada do que se alcançou enquanto
saber e labor coletivo durante todos esses
anos. Três enfoques complementares estão
presentes em seu debate.
II –
O Estatuto busca responder antes de tudo
ao projeto estratégico do Partido.
Organização serve sempre à política, e o
Partido é um instrumento, não fim em si
mesmo. Por isso deve ser funcional à
consecução do projeto estratégico do PCdoB.
O Projeto de Resolução Política invoca a
questão de um partido revolucionário para o
tempo presente, tempo de acumulação
estratégica de forças para renovar e
reconstruir a alternativa socialista. Um
Partido Comunista de reafirmação da
perspectiva revolucionária. Partido de firme
unidade de suas fileiras, tenaz no combate
às pressões tendentes a rebaixar seu papel
estratégico, notadamente as pressões
pragmáticas e liberalizantes. Ao mesmo
tempo, Partido com ousadia e abertura para
acumular forças articulando a intervenção na
luta política e eleitoral, na luta social e
na luta de idéias.
Trata-se do caminho para construir
laboriosamente a hegemonia – tema tão caro
aos marxistas-leninistas – por um novo
projeto nacional para o país e pelo
socialismo. Por isso, também, aponta para um
PCdoB de amplas fileiras, organizado com
compromissos militantes desde a base, com
influência de massas entre os trabalhadores
e o povo, e uma sólida estrutura de quadros.
Manifesta-se inteira consciência da
contradição própria de nosso tempo: conceber
um Partido Comunista para viragens
revolucionárias, num tempo onde isso não
está colocado como possibilidade imediata, o
que condiciona o processo de construção e
estruturação do Partido. Por isso a
exigência de uma sólida e extensa rede de
quadros, com convicções e compromissos,
educados no marxismo e disciplinados na
prática militante, motivados e desprendidos
para servir aos trabalhadores e ao povo. O
Estatuto dedica um capítulo inteiro e
inovador a esse tema. Sem homens e mulheres
assim, de maior compromisso, dos quais se
possa exigir o cumprimento exemplar dos
deveres militantes, não há como atravessar
tão difícil quadra da luta de classes no
Brasil e no mundo sem descaracterizar-se.
Aos que temem os desafios presentes da
construção partidária, as pressões
representadas pela filiação extensa ou pela
autonomização de grupos de interesses no
interior do Partido, se afirma: são
preocupações procedentes. Mas seu antídoto
está precisamente aqui: quadros
compromissados e firmes. Quadros de base,
intermédios e de direção, selecionados
democraticamente, com forte interação com a
base partidária e social. É antes e acima de
tudo aí que reside a garantia de não se
perder nessa caminhada longa e cheia de
vicissitudes que percorremos.
Mas não se pode recusar os desafios. É
necessário um Partido de extensas fileiras
militantes, isto é parte do processo de
acumulação de forças e da luta pela
hegemonia. Firmou-se a noção do Partido
enquanto uma comunidade de filiados,
militantes e quadros, associados em bases
conscientes e livres, concebendo o Partido
enquanto instrumento de constituição de
compromissos militantes, estruturado como um
sistema de organizações de alto a baixo.
Militância é e será cada vez mais uma marca
distintiva para os partidos conseqüentes de
esquerda e por isso queremos valorizá-la.
Isso é explicitado com a clara distinção de
responsabilidades – militar, estudar,
divulgar e contribuir, esta última
aprimorada com a instituição da Carteira do
Militante. Institui-se uma nova compreensão
dialética da relação entre filiados,
militantes e quadros, segundo direitos e
deveres diferenciados e graus crescentes de
responsabilidades, que se vão constituindo
progressivamente. Queremos assumir
especificidade própria de nossa tradição
política, que reconhece os filiados como
parte do patrimônio partidário, sem
renunciar ao critério essencial de um
partido de militância. E não se fala apenas
dos filiados de base, mas também de filiados
líderes políticos e sociais, gente de
expressão, que se juntam ao PCdoB em
condições claramente definidas no Estatuto.
Constituirão o celeiro permanente de novos
militantes, e estarão igualmente sujeitos à
disciplina partidária nos marcos dos
direitos e deveres de que usufruem. É uma
inovação importante do novo Estatuto, em
íntima ligação com as exigências de nosso
projeto político. Com isso, se busca
aproximar mais a atividade partidária das
exigências da vida real do país e do
Partido.
III –
Estatuto envolve concepção de Partido. No
caso dos comunistas essas concepções são
explícitas e não camufladas.
Concentradamente, ele é a expressão da
independência política, ideológica e
organizativa do Partido. Por isso o seu
debate tem muito a dizer sobre tema tão
momentoso para a esquerda mundial, inclusive
no tocante à noção de crise orgânica ou de
superação da forma-partido em face dos novos
movimentos sociais.
O Estatuto proposto explicita o caráter e
natureza mais essencial do PCdoB e seu
programa máximo. O saber coletivo nos
indicou o melhor caminho: fixar isso na
forma de artigo 1º do Estatuto, e não como
preâmbulo; e sintetizá-lo de modo a afirmar
o programa máximo do Partido, que é o
comunismo. O novo Estatuto é, portanto, o
documento fundamental do Partido onde se
fixa esse objetivo máximo que é o comunismo.
Segue afirmando sermos um partido do
proletariado, que luta pela representação
política e social dos trabalhadores
brasileiros, sujeito histórico insuperado da
transformação social anti-capitalista. Não
se trata de algo simbólico, mas opção
política consciente, cujo arsenal teórico e
político foi renovado no 2º Encontro
partidário sobre o proletariado brasileiro.
Reafirma-se o caráter de vanguarda da
organização política dos comunistas. O
socialismo visando o comunismo é a primeira
formação social humana construída
conscientemente, e por isso não pode
prescindir de fundamentos teóricos e
ideológicos provados para dirigir essa luta.
Esse o sentido mais essencial de vanguarda –
o de se assentar numa teoria avançada –, e
não a auto-proclamação estéril que muitas
vezes foi utilizada pelos comunistas. O
Estatuto distingue o PCdoB dos que pregam a
noção de partido de massa em oposição a
partido de vanguarda. Há aqui uma polêmica
de caráter histórico-estratégica, em curso
no mundo e notadamente no Brasil, cujo
desfecho só a práxis poderá deslindar.
Não se renuncia à função de fundir o
movimento consciente com o movimento
espontâneo. Na luta social, explicita-se que
segue sendo imprescindível um partido
político, para infundir a cada luta, a cada
movimento social, os conteúdos e valores do
projeto político transformador. Ao mesmo
tempo afirma-se que ‘a ação política de
massas, em ligação com a ação nas diversas
esferas institucionais, é o elemento central
da intervenção e estruturação do Partido’,
incluindo de modo bastante inovador normas e
preceitos para atuação entre trabalhadores,
mulheres, jovens e negros.
E, ainda no terreno das concepções, a
questão fundamental, a do centralismo
democrático. Os debates do 11º Congresso
mostram inteiro convencimento da necessária
unidade das fileiras comunistas, sob um
único centro dirigente e uma única
orientação geral, válida para todos. Este é
o maior tesouro do PCdoB, é a alma do
Estatuto, e um dos maiores feitos deste
Congresso foi ter discutido a norma do
centralismo democrático sem sequer uma
emenda apresentada! O mesmo quanto ao
capítulo da disciplina partidária. É mérito
da militância, que merece parabéns pela
consciência aguda e coesão demonstrada nessa
matéria nevrálgica para a natureza do
Partido! Mais ainda porque o país conheceu,
nos últimos meses, um claro contraste entre
as forças de esquerda. Há aqui uma polêmica
político-estratégica e o paradigma dos
comunistas se demonstra superior com
respeito à unidade necessária e aos meios
democráticos de construí-la. Dizendo-o
abertamente: o PCdoB é o partido com vida
interna mais rica e coesa do país, e o 11º
Congresso foi mais uma demonstração disso.
Só à base de uma integral democracia pode
ser compreendida essa coesão.
A norma do centralismo democrático
inscrita no novo Estatuto aprimorou e inovou
sua concepção e prática, assentando-o na
liberdade de opinião e expressão pessoal, e
não na unidade de pensamento – porque esta
compreende mais precisamente a questão de
uma única base teórico-ideológica como fator
fundante do Partido. Liberdade pessoal que é
estímulo ao debate, mas que não prescinde da
obrigação de difundir e defender as opiniões
partidárias construídas pela maioria. O
Partido convive com diferenças de opinião,
mas não faz delas o estímulo para a
fragmentação, e sim para a obrigação de
construir um único centro e uma única
orientação política, segundo um contrato
político livre e conscientemente assumido
por cada um. Esse contrato é o centralismo
democrático.
IV –
O novo Estatuto e seu debate responderam,
ainda, à polêmica política inesperada que se
instaurou no país, com a crise do governo e
seu principal partido de sustentação, o PT.
O tema, entretanto, não está presente apenas
no Brasil. Em verdade, ele diz respeito à
crise da política e dos partidos políticos.
Tem a ver, no sentido geral, com o crescente
esvaziamento da democracia representativa,
ou seja, a sua deslegitimação progressiva
perante o efetivo poder que exercem as
finanças, os monopólios, os meios de
comunicação, inteiramente infensos a
qualquer controle social democrático. No
sentido mais estrito, tem a ver com a
desmoralização da política e repulsa aos
seus modos de financiamento, notadamente num
país de tradições patrimonialistas como o
Brasil. Mas vistos de conjunto, referem-se
aos processos de burocratização que acometem
parcelas da esquerda.
Foi, por isso, um debate politizado e
pode-se dizer que os comunistas tiveram o
quê dizer a esse respeito de modo muito
saliente. Primeiro, pela orientação de
caráter transformador, que não é centrista,
do ponto de vista político, nem terceirista,
do ponto de vista ideológico. Isso já é um
poderoso antídoto à burocratização. Somam-se
a isso os valores éticos e morais ligados a
esse projeto transformador, entre os quais o
integral respeito à coisa pública. Mas
também, e de forma muito concreta, pelos
modos de financiamento da atividade política
muito transparentes, assentados nas
contribuições militantes e na influência
política de sua atuação. A isso se dedicou
um capítulo inteiramente inovador, como
instrumento para concretizar a norma
indispensável da contribuição militante e
regulamentar isso em toda a estrutura
partidária. No mesmo sentido, regulou-se o
papel dos comunistas no exercício de cargos
públicos, com obrigações diferenciadas;
adotou-se licença preventiva de militantes e
intervenção preventiva sobre organismos
partidários, quando afrontada a ética, com
repercussão negativa para o Partido, mantido
o integral respeito aos direitos de cada um;
instituiu-se a obrigatoriedade das Comissões
de Controle, com o papel de zelar pela
ética, a disciplina e a fiscalização das
contas partidárias.
O tema da burocratização é amplo e
complexo. Abarca as manifestações de
descolamento da representação dos
trabalhadores e das massas – a distorção dos
fins do Partido –, ou da autonomização que
tende a considerar o aparato de Partido como
fim em si mesmo – o triunfo da organização
sobre suas finalidades. Ambas conduzem à
separação entre as esferas dirigentes e a
massa de militantes e representados. Abarca
também os fenômenos de projetos e ambições
pessoais, ou aparatos de poder, sobrepostos
aos interesses do coletivo, ou, ainda, o
enrijecimento do pensamento que leva a
rotinas e práticas estereotipadas sobre os
problemas.
Os comunistas não consideram – como o
fazem certos ex-marxistas – que é inevitável
a degenerescência burocrática do Partido,
mas tampouco que estejam imunes aos seus
fenômenos, tão correntes hoje na esquerda.
Por isso, não subestimam a pressão
pragmática e liberalizante singular de
tempos como este na luta de classes, de
acumulação prolongada de forças no contexto
do Estado e instituições vigentes.
Essa luta vai reforçada com o novo Estatuto,
que propõe seu enfrentamento dentro de uma
mais eficiente institucionalização
democrática da vida partidária, sem
sectarismos. Ao lado de uma linha política
justa, as normas estatutárias tratam de
promover maior aderência à realidade social
e adotar um conjunto de mecanismos de
preservação do Partido, com maior estímulo à
participação e vigilância do coletivo sobre
a atividade partidária.
V –
Foram essas as múltiplas determinações que
se procurou atender ao elaborar o novo
Estatuto: o projeto estratégico do Partido,
as questões de concepção teórica e a
polêmica política sobre os partidos de
esquerda na atualidade.
Quanto à normatividade propriamente dita,
se fez a opção de que deveria expressar como
é pensada e praticada a vida interna do
Partido. Algo cuja leitura não seja árida e
cujo estudo designe com objetividade como se
estrutura e funciona o PCdoB. O Estatuto
deixa, assim, de ser peça referida
basicamente à esfera ideológica,
irredutível. Poderá ser passível de
alterações a cada Congresso, aprimorando
experiências e respondendo a novos
fenômenos.
Não se abriu mão de nenhum princípio. Não
obstante, recusa-se transformar em cláusulas
pétreas questões historicamente determinadas
na experiência do movimento comunista. Não
se encaram os princípios à margem de sua
aplicação política concreta em condições
dadas de tempo e lugar, segundo o grau de
amadurecimento da corrente comunista no
Brasil e de seu projeto político
estratégico.
Buscou-se conferir ao Partido feições
modernas, conectadas ao movimento real e
suas características contemporâneas,
particularmente nas originalidades
brasileiras, entre as quais as tradições
movimentistas e o papel saliente da
juventude brasileira, de que a UJS constitui
um dos maiores orgulhos do PCdoB.
O tema do sistema de organização e
funcionamento foi o que motivou maior debate
nas fileiras partidárias, e o maior número
de emendas. O debate avolumou-se por ocasião
das conferências estaduais e produziu quase
uma centena de emendas, das quais 39 foram
acatadas, aprimorando muito o texto final
que ora vai a votação.
O eixo geral do sistema organizativo foi
flexibilizar as formas organizativas desde a
base, em correlação com o perfil e caráter
mais largo de sua militância, segundo o que
melhor faculte sua ação e participação na
elaboração da linha partidária. Como
decorrência, o sistema foi aprimorado,
visando diversificar o repertório
organizativo para atender às características
da atividade política e social no país. O
papel das instâncias, organismos e órgãos
fica mais bem regulamentado e se inovam os
mecanismos de consulta horizontais –
Conferências, Encontros e Fóruns - que
estimulam a participação militante na
elaboração da linha partidária.
Pretendeu-se, por assim dizer, modificar
‘relações de produção’ para melhor favorecer
o desenvolvimento das ‘forças produtivas’ do
Partido.
Os três tópicos que mais motivaram
emendas foram as relativas aos comitês
distritais, aos coletivos, e ao voto
secreto.
Ampliaram-se as formas organizativas de
comitês auxiliares como instrumentos dos
Comitês Municipais, em consonância com a
multiplicidade de tipos de organizações de
base. Os Comitês auxiliares deixam de se
remeter única e exclusivamente ao critério
territorial-administrativo, que são os
Comitês Distritais, e estes passam a
conviver com outras formas. Pretendeu-se
potenciar, particularmente, o trabalho junto
ao proletariado, constituindo OBs e comitês
a partir das relações de trabalho como
critério principal. Manteve-se a
possibilidade de conferências desses comitês
auxiliares, para eleger suas direções,
entretanto não são obrigatórias em processos
de Congresso, devido a seu caráter de
comitês auxiliares.
Outra polêmica foi sobre a forma
organizativa para situações excepcionais e
temporárias, que são os coletivos. A
intenção foi a de ampliar o leque de formas
para acolher o saber e experiência de
militantes em áreas afins. Aqui houve
celeuma: o modo como estava redigido o
preceito permitiu que o debate transgredisse
da esfera estritamente organizativa a que
pertence, para a esfera ideológica, no
tocante a religiosos e empresários.
Chegou-se a nova redação do item,
mantendo a forma de coletivos sem
especificar sua tipologia. Pretendeu-se
ressaltar seu caráter excepcional como forma
organizativa. É preciso dizer que cidadãos e
cidadãs que concordem com o Programa e
Estatuto do Partido podem nele ingressar,
sem distinção de origem social, profissão,
renda, credo, cor ou raça. Há religiosos no
Partido, nenhum deles infenso ao caráter e
propósitos do PCdoB. A questão religiosa
está onde sempre esteve para o PCdoB: é
questão de foro íntimo e não se milita no
Partido em função da condição de religioso.
O Partido defende a liberdade de culto no
país e a separação entre Estado e religião.
Quanto a empresários, também os há no
Partido. O Partido defende um novo projeto
nacional de desenvolvimento com valorização
do trabalho, e isso interessa a um
contingente variado da sociedade brasileira,
onde de resto está presente uma forte
característica de empreendedorismo, grande
quantidade de empresários pequenos e médios,
autônomos, empresas familiares,
cooperativizados etc., classificados nas
estatísticas econômicas como ‘empresários’.
Eles têm lugar no Partido, sujeitos de igual
modo a seu Programa e Estatutos.
Por fim a questão do voto secreto. Foi,
sem dúvida, a maior polêmica. Todos afirmam
não se tratar de uma questão de princípio,
mas acabou mobilizando sentimentos. Das 27
Conferências Estaduais, 4 votaram contra sua
instituição, por margem reduzida de votos.
Enfim, houve polarização na matéria.
Alguns a trataram como espécie de
cláusula pétrea. Não é justo. O Estatuto de
1985 e o atual não prescrevem voto aberto
para eleição de seus órgãos. Também nos
estudos comparativos que fizemos de
Estatutos de 12 partidos comunistas, todos
adotam o voto secreto nesse quesito. Aqui se
faz presente, talvez, uma sobrevivência de
cultura política baseada em costumes, não
escrita, própria de um partido de quadros,
em condições de clandestinidade. Não é o
caso atual.
No geral, os argumentos a favor do voto
aberto partiram de sentimento sadio: a
necessidade de franqueza nas relações
militantes. Outros agregaram que o voto
secreto não permite essa sinceridade, ou
reforça o individualismo e o lobismo, ou
ainda, que organizações revolucionárias
perderam-se no caminho por adotar tal tipo
de conduta, por abrir canal ao oportunismo.
Separemos as coisas, para evitar argumentos
forçados. Não é justo dizer que voto secreto
‘relativiza’ o dever do comunista de
defender abertamente seu ponto de vista. O
processo de construção unitária dos órgãos
de direção foi aprimorado, inclusive
inscrito em norma estatutária. Ele
compreende um processo consciente e
dirigido, de consultas multilaterais, com
debates abertos em plenário. A frontalidade
e franqueza seguem asseguradas, como parte
do trabalho de construção das opções
coletivas por intermédio de discussão aberta
dentro do Partido. O voto secreto, como fase
final, não está relativizando isso, não está
anulando o fator consciente, mas o aprimora.
Porque vai exigir maior discernimento
pessoal, maior compromisso de consciência de
cada um. Permitirá maior sinalização de
questões da vida e relações internas do
Partido, e combate a manifestações de
mandonismo, tão presentes em qualquer
organização humana. É mais livre de
constrangimentos objetivos e subjetivos na
votação. Enfim, considera-se que mantido o
processo consciente de construção dos órgãos
do Partido, os militantes votam com a
própria consciência, democraticamente, com a
subjetividade que é própria a cada um. O
voto secreto aprimora isso.
O Comitê Central cessante decidiu por
unanimidade manter a proposição. Está
convencido de que se trata de um
aprimoramento democrático, que vem
fortalecer o Partido, não enfraquecê-lo. A
democracia não é valor universal, senão
histórico e relativo a interesses de classe.
Entretanto, em sua jornada de séculos,
constituiu mecanismos que foram se
aprimorando, entre eles o do voto secreto.
Não se deve temê-lo, pois está conforme à
melhor tradição democrática. Não se deve
tampouco idealizar o nível de consciência
das relações humanas nesta etapa histórica,
inclusive as relações da vida interna
partidária. O nível de consciência avança de
modo desigual, mesmo dentro do Partido,
nível que é muito diferenciado hoje. Não se
quer esconder nada com o voto secreto, mas
fazer aflorar o nível de consciência real
existente no Partido, pois conhecê-lo é
forma para a melhor educação das fileiras
comunistas. Ele mantém o sadio empenho na
explicitação das opiniões, mas dá melhor
expressão à consciência individual. O
Partido confia em sua militância! Enfim,
considerou-se que o voto secreto aprimora o
preceito do centralismo democrático, é mais
um passo no sentido de um Partido aberto,
sem preconceitos, com liberdade de opinião
individual.
* * *
Companheiras e companheiros
A construção de uma força política de
vanguarda do proletariado, independente do
ponto de vista político, ideológico e
organizativo, segue sendo a grande proeza
deste tempo histórico. Diante da barbárie
capitalista, nada de mais elevado existe
como perspectiva. Por isso, é missão das
mais complexas, porque perene, prolongada e
cheia de vicissitudes, e porque lida com as
motivações humanas, além da insubstituível
consciência teórica.
O Partido Comunista é indispensável
historicamente. O PCdoB é igualmente
indispensável no cenário político
brasileiro. Não haveremos de nos perder
nesta longa jornada. O novo Estatuto está a
serviço disso. A escravidão assalariada não
é eterna, mas sua derrocada precisa de
direção consciente e experimentada. Hoje nem
se fala mais do fim da história – ela está
aí, na mais escancarada luta de classes.
Aqui estão os comunistas, que lutam por um
mundo novo, de iguais em direitos. Esse dia
chegará, lembrarão de nós. Homenageamos os
militantes, que dedicam seu tempo à
construção do Partido. Por menos que isso
não vale a pena lutar. Ele é a prefiguração
da sociedade pela qual lutamos, como o disse
Gramsci, sem idealizações nem dogmatismo.
Homenageamos não só a lucidez da razão, mas
também as motivações e o ânimo dos
militantes comunistas.
Por isso tudo propomos a aprovação do
novo Estatuto do PCdoB.
Obrigado.
(1) O 11º Congresso do PCdoB foi
realizado em Brasília entre 21 e 23 de
outubro de 2005.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br
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