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Brasil, sexta-feira, 10 de outubro de 2008

2 de fevereiro de 2007

 COLUNAS

Um partido comunista contemporâneo - 6

Leninismo, nas condições de nosso tempo e nosso país

 

Quando se fala em leninismo é preciso sempre frisar o caráter dialético dessa concepção, rigorosamente presa à análise concreta da situação concreta, e que leva a formulações que estão em movimento, e não paradas, fixas, porque devem corresponder ao movimento real da política e da luta de classes. Por isso, não se deve perder de vista que se aborda o tema Partido em função da estratégia dada, portanto em situação historicamente determinada.

 

Walter Sorrentino*(1)

 

Ao completar o primeiro ponto da parte I de nosso tema, é hora de concluir com um alerta. Tratamos das questões consideradas essenciais da teoria leninista de partido revolucionário do proletariado. O alerta é que quando se fala em leninismo, sempre se deve frisar o caráter dialético dessa concepção, rigorosamente presa à análise concreta da situação concreta.

Esta é a homenagem mais correta que podemos fazer a esse teórico que é um dos fundadores de nosso pensamento. Ela leva a formulações que estão em movimento, e não paradas, fixas, porque devem corresponder ao movimento real da política e da luta de classes. Por isso, não se deve perder de vista que se aborda o tema Partido em função da estratégia dada, portanto em situação historicamente determinada.


Em texto anterior (“Universalidade e historicidade de Que fazer?”) viu-se que o Partido criado por Lênin estava em função daquela época: um tempo de ofensiva estratégica, nas novas condições do capitalismo em seu tempo, dando base a novos desenvolvimentos estratégicos. No livro ’’Imperialismo, etapa superior do capitalismo” Lênin fundamentou a idéia de que a revolução entrava na ’’ordem do dia’’, se estava na ante-sala da revolução proletária. Isso naturalmente atuou em determinação de tipo novo, vista a superação dos antigos Partidos Operários Social-Democratas da 2ª. Internacional, que capitularam frente às tarefas postas pela realidade da 1ª. Guerra Mundial.


As famosas máximas da tendência “espontânea” do proletariado ao projeto do Partido Comunista, as correias de transmissão entre o Partido e as organizações de massa, os quadros dedicados profissional e integralmente ao trabalho partidário, os pequenos parafusos da máquina partidária, entre outras, foram metáforas próprias de uma época. Algumas mantêm atualidade, mas é inegável que o seu contexto é datado; algumas outras, como correias de transmissão, estão ultrapassadas. Outras metáforas serão constituídas, com base na experiência atual.

Pode-se referir Gramsci como exemplo de leninismo em país de maior desenvolvimento democrático-burguês que a antiga Rússia: nos marcos da mesma teoria e da mesma época, mas de outros desenvolvimentos estratégicos. Gramsci promoveu as reflexões afamadas sobre a “guerra de posições”, sobre a necessidade de uma longa luta para conquistar as trincheiras da sociedade civil. Obteve novo alcance a idéia leninista da luta pela hegemonia, em determinação do tipo de Partido necessário, que deu ensejo à noção de Partido Comunista de massas enquanto características específicas de estruturação.


Também se pôs a necessidade de aplicação ampliada da concepção leninista do centralismo democrático para esse tipo de partido de vanguarda como formação organizativa extensa e não apenas partido de quadros ou partido de atuação predominantemente ilegal ou de pequenos círculos. Na bibliografia complementar pode-se discutir mais extensamente a questão da hegemonia enquanto conceito leninista e o problema das experiências negativas de Partido Comunista de massas, como saída pela direita, descaracterizadoras do caráter de classe do Partido. Neste particular, é necessário resgatar Gramsci das leituras reformistas, que o transformaram injustamente num ícone de paralisia e acomodação.

Pode-se referir também os caminhos originais de Ho Chi Minh no Vietnã e Mao Tse Tung na China: sempre a estratégia geral norteando o modelo de Partido, nos marcos de uma mesma teoria e mesma época geral. Ou ainda, o que é muito importante, diversas experiências revolucionárias que se constituíram inicialmente como movimentos ou frentes revolucionárias, sem Partido Comunista, e vieram a constituir depois importantes experiências socialistas, como é o caso de Cuba. É a “árvore verde da vida” a sacudir o cinzento das fórmulas pré-estabelecidas.

Então podemos concluir o primeiro ponto, com quatro assertivas centrais.

1- Nunca perder de vista que a consciência (a teoria) revolucionária é o vetor determinante para a missão e o sucesso estratégico do Partido Comunista. Cuidar das vias e meios pelas quais ela pode surgir e amadurecer é a questão central, desenvolvida na forma de um projeto político de poder próprio dos trabalhadores e exeqüível, atuando intensamente na realidade política concreta, na luta de idéias nas diversas formas de produção e manifestação de consciência, e na luta social.

2- O Partido é instrumento para constituir a consciência de classe do proletariado como sujeito político central do processo transformador, classe fundamental para a luta revolucionária, no nosso caso em aliança estratégica com a intelectualidade avançada e a juventude, as extensas camadas populares hoje deserdadas, vivendo em grandes aglomerações urbanas em nosso país. Ele cristaliza essa consciência avançada e dá-lhe uma forma orgânica.

3- Há um princípio diretor – o centralismo democrático –, mas não um modelo único organizativo de Partido, rígido e independente da experiência concreta da luta de classes. Leninismo não deve ser tomado como um modelo organizativo único da experiência bolchevista (forma historicamente determinada, em função da época e da estratégia), codificado pela 3ª. Internacional. Leninistas, sim, mas construindo modelo organizativo adaptado às circunstâncias de nosso país, nosso tempo e nossa gente.

4- Portanto, teoria e prática de partido são históricas – precisam ser desenvolvidas. E nesse percurso, buscar as singularidades do tempo, dos desenvolvimentos estratégicos que se impõem, das originalidades de caminhos de cada país, como determinantes dos papéis, funções, identidade e perfil do Partido em cada situação nacional. Caso contrário, os Partidos Comunistas podem tornar-se disfuncionais à consecução de seu projeto político ou não ter um projeto exeqüível de transição para o socialismo.

Antes de dar seqüência ao encadeamento do tema, vamos publicar na próxima coluna o Informe apresentado ao 11º Congresso sobre o tema do novo Estatuto como expressão aplicada desses preceitos. 

 


*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br

 

*Walter Sorrentino
Série Um partido comunista contemporâneo

Artigos de autoria de Walter Sorrentino

16/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 1
19/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 2: Primado da consciência revolucionária - partido de vanguarda
23/01/2007- Um partido comunista contemporâneo - 3: Historicidade e universalidade de Que fazer?
26/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 4: Proletariado - sujeito histórico central da transformação social
30/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 5: Centralismo democrático – princípio diretor da organização
02/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 6: Leninismo, nas condições de nosso tempo e nosso país
06/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 7: Informe ao 11º Congresso sobre o projeto de estatutos
09/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 8: As polêmicas atuais sobre a questão partido – a crise “orgânica"
13/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 9: As polêmicas atuais sobre a questão partido – a crise “orgânica"
23/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 10: A relação partido-movimentos "
13/03/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 15:  Partido para dar conseqüência ao pensamento estratégico
20/03/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 16:  Partido para dar conseqüência ao pensamento estratégico - 2
03/04/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 17:  Partido para dar conseqüência ao pensamento estratégico - 3
09/10/2007 - Aprimorar o sistema de direção

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27/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 11: Valores militantes – um começo de conversa - (1ª parte)
01/03/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 12:Valores militantes – um começo de conversa - (2ª parte)


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19/07/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 18:  A linha de estruturação do partido - uma trajetória de 10 anos

22/09/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 20: Estatuto, renovação de concepções e práticas


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06/08/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 19: A singularidade atual da construção partidária
 

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Para ver textos antigos de Walter Sorrentino, clique aqui

 

 

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