Walter
Sorrentino*(1)
Ao completar o primeiro ponto da
parte I de nosso tema, é hora de
concluir com um alerta. Tratamos das
questões consideradas essenciais da
teoria leninista de partido
revolucionário do proletariado. O
alerta é que quando se fala em
leninismo, sempre se deve frisar o
caráter dialético dessa concepção,
rigorosamente presa à análise
concreta da situação concreta.
Esta é a homenagem mais correta que
podemos fazer a esse teórico que é
um dos fundadores de nosso
pensamento. Ela leva a formulações
que estão em movimento, e não
paradas, fixas, porque devem
corresponder ao movimento real da
política e da luta de classes. Por
isso, não se deve perder de vista
que se aborda o tema Partido em
função da estratégia dada, portanto
em situação historicamente
determinada.
Em texto anterior (“Universalidade e
historicidade de Que fazer?”) viu-se
que o Partido criado por Lênin
estava em função daquela época: um
tempo de ofensiva estratégica, nas
novas condições do capitalismo em
seu tempo, dando base a novos
desenvolvimentos estratégicos. No
livro ’’Imperialismo, etapa superior
do capitalismo” Lênin fundamentou a
idéia de que a revolução entrava na
’’ordem do dia’’, se estava na
ante-sala da revolução proletária.
Isso naturalmente atuou em
determinação de tipo novo, vista a
superação dos antigos Partidos
Operários Social-Democratas da 2ª.
Internacional, que capitularam
frente às tarefas postas pela
realidade da 1ª. Guerra Mundial.
As famosas máximas da tendência
“espontânea” do proletariado ao
projeto do Partido Comunista, as
correias de transmissão entre o
Partido e as organizações de massa,
os quadros dedicados profissional e
integralmente ao trabalho
partidário, os pequenos parafusos da
máquina partidária, entre outras,
foram metáforas próprias de uma
época. Algumas mantêm atualidade,
mas é inegável que o seu contexto é
datado; algumas outras, como
correias de transmissão, estão
ultrapassadas. Outras metáforas
serão constituídas, com base na
experiência atual.
Pode-se referir Gramsci como
exemplo de leninismo em país de
maior desenvolvimento
democrático-burguês que a antiga
Rússia: nos marcos da mesma teoria e
da mesma época, mas de outros
desenvolvimentos estratégicos.
Gramsci promoveu as reflexões
afamadas sobre a “guerra de
posições”, sobre a necessidade de
uma longa luta para conquistar as
trincheiras da sociedade civil.
Obteve novo alcance a idéia
leninista da luta pela hegemonia, em
determinação do tipo de Partido
necessário, que deu ensejo à noção
de Partido Comunista de massas
enquanto características específicas
de estruturação.
Também se pôs a necessidade de
aplicação ampliada da concepção
leninista do centralismo democrático
para esse tipo de partido de
vanguarda como formação organizativa
extensa e não apenas partido de
quadros ou partido de atuação
predominantemente ilegal ou de
pequenos círculos. Na bibliografia
complementar pode-se discutir mais
extensamente a questão da hegemonia
enquanto conceito leninista e o
problema das experiências negativas
de Partido Comunista de massas, como
saída pela direita,
descaracterizadoras do caráter de
classe do Partido. Neste particular,
é necessário resgatar Gramsci das
leituras reformistas, que o
transformaram injustamente num ícone
de paralisia e acomodação.
Pode-se referir também os
caminhos originais de Ho Chi Minh no
Vietnã e Mao Tse Tung na China:
sempre a estratégia geral norteando
o modelo de Partido, nos marcos de
uma mesma teoria e mesma época
geral. Ou ainda, o que é muito
importante, diversas experiências
revolucionárias que se constituíram
inicialmente como movimentos ou
frentes revolucionárias, sem Partido
Comunista, e vieram a constituir
depois importantes experiências
socialistas, como é o caso de Cuba.
É a “árvore verde da vida” a sacudir
o cinzento das fórmulas
pré-estabelecidas.
Então podemos concluir o primeiro
ponto, com quatro assertivas
centrais.
1- Nunca perder de vista que a
consciência (a teoria)
revolucionária é o vetor
determinante para a missão e o
sucesso estratégico do Partido
Comunista. Cuidar das vias e meios
pelas quais ela pode surgir e
amadurecer é a questão central,
desenvolvida na forma de um projeto
político de poder próprio dos
trabalhadores e exeqüível, atuando
intensamente na realidade política
concreta, na luta de idéias nas
diversas formas de produção e
manifestação de consciência, e na
luta social.
2- O Partido é instrumento para
constituir a consciência de classe
do proletariado como sujeito
político central do processo
transformador, classe fundamental
para a luta revolucionária, no nosso
caso em aliança estratégica com a
intelectualidade avançada e a
juventude, as extensas camadas
populares hoje deserdadas, vivendo
em grandes aglomerações urbanas em
nosso país. Ele cristaliza essa
consciência avançada e dá-lhe uma
forma orgânica.
3- Há um princípio diretor – o
centralismo democrático –, mas não
um modelo único organizativo de
Partido, rígido e independente da
experiência concreta da luta de
classes. Leninismo não deve ser
tomado como um modelo organizativo
único da experiência bolchevista
(forma historicamente determinada,
em função da época e da estratégia),
codificado pela 3ª. Internacional.
Leninistas, sim, mas construindo
modelo organizativo adaptado às
circunstâncias de nosso país, nosso
tempo e nossa gente.
4- Portanto, teoria e prática de
partido são históricas – precisam
ser desenvolvidas. E nesse percurso,
buscar as singularidades do tempo,
dos desenvolvimentos estratégicos
que se impõem, das originalidades de
caminhos de cada país, como
determinantes dos papéis, funções,
identidade e perfil do Partido em
cada situação nacional. Caso
contrário, os Partidos Comunistas
podem tornar-se disfuncionais à
consecução de seu projeto político
ou não ter um projeto exeqüível de
transição para o socialismo.
Antes de dar seqüência ao
encadeamento do tema, vamos publicar
na próxima coluna o Informe
apresentado ao 11º Congresso sobre o
tema do novo Estatuto como expressão
aplicada desses preceitos.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br