Walter
Sorrentino*(1)
Partido político, como qualquer
sistema, invoca normas
organizativas. Elas refletem de modo
explícito ou implícito a teoria e
ideologia que lhe dá conformação, no
grau de maturidade que alcançaram.
No caso dos comunistas, elas são
explícitas, e emanam da visão
materialista histórica da luta de
classes. Tal norma para o Partido
Comunista é o centralismo
democrático, princípio diretor da
organização. Este é o terceiro pilar
da concepção leninista de Partido.
O princípio do centralismo
democrático trata do problema da
unidade e disciplina no interior do
partido. Lênin entendia a promoção
da unidade e disciplina
primariamente não como questão de
métodos, mas como problema
essencialmente da linha política e
de conteúdos ideológicos ajustados.
É antológica a generalização que ele
fez da experiência bolchevique no
livro Esquerdismo, doença infantil
do comunismo. Aí ele invocava a
necessidade de assentar a unidade e
disciplina na capacidade de
interpretar adequadamente as
exigências de cada situação, o nível
de consciência, as possibilidades, e
transformá-las em iniciativas e
objetivos adequados, gerando o
consenso, à base de uma política
justa, comprovada pela realidade,
numa teoria em desenvolvimento
permanente e em valores morais
indispensáveis aos revolucionários.
A não ser assim, o estímulo ao
debate se transforma em cisões e
paralisia, de instrumento se
transforma em fim; ou a busca do
consenso gera um senso comum
acomodatício e artificial dos
conflitos. Ambos levam à perda de
objetivos unitários em torno da
linha política.
O centralismo democrático dá
conta dessa exigência de conciliar o
debate necessário das questões
postas pela realidade com a
necessidade de uma ação política
unificada em relação a elas. E o faz
como princípio ativo e normativo da
organização: sem contraposição entre
os dois termos, mas em relação
dialética. Centralismo só é possível
com uma linha democraticamente
adotada - senão degenera em culto à
personalidade e acaba por paralisar
a própria polêmica e indagação.
Democracia sem esforço unitário
constante e sem disciplina de todos,
leva a grupos organizados ou em
linha imprecisa, de compromisso,
deformada. Segundo as
circunstâncias, a maturidade da
força revolucionária e as condições
da luta de classes, pode predominar
um ou outro pólo, durante período
mais ou menos prolongado, mas há uma
relação dialética própria de um
conceito que é uno.
O centralismo democrático já foi
definido como um instrumento
unilateral da direção, confundindo
seu caráter de instrumento de
direção. Foi visto, restritivamente,
como o meio da direção impôr ao
conjunto do partido decisões e
orientações que não foram debatidas
pelo coletivo partidário. Desse
ponto de vista, a crítica feita por
Rosa Luxemburgo era correta: ele
levaria ao reforço do mando dos
organismos centrais sobre o
coletivo, e nos organismos centrais,
dos seus dirigentes principais,
culminando no mando unilateral do
principal dirigente.
Não era este o espírito da
formulação leninista, que surgiu num
partido onde existiam tendências e
era preciso encontrar um meio de, a
partir do debate coletivo, organizar
a ação unificada e reforçar a
unidade partidária. Consolidou-se em
1912 quando os bolcheviques formam
seu partido independente, mas esteve
sujeito a múltiplas flexões na
aplicação até a morte de Lênin.
Neste sentido o centralismo
democrático é um instrumento de
direção para construir a unidade de
ação de todo o Partido. Este é um
ganho da concepção leninista que não
pode ser negligenciado e que explica
a eficiência da ação comunista.
A concepção que prevaleceu desde
os anos 30 é a de unidade de
pensamento e ação. Unidade de
pensamento, representa mais
propriamente e tão somente que há
uma única base teórica-ideológica
fundante do Partido Comunista, o
marxismo-leninismo, no sentido de
não ser um partido pluri-ideológico.
Fora disso, tomada em acepção
adjetiva, é noção que restringiu o
debate interno e teve como
conseqüência o engessamento da vida
partidária. Transformou a noção de
centralismo democrático em verdugo
dos que divergem.
Somos tributários da necessária
unidade das fileiras comunistas, sob
um único centro dirigente e uma
única orientação geral, válidos para
todos, construído por todos, sob uma
institucionalidade democrática. Esta
é a alma do Estatuto do PCdoB,
renovado e aprovado no 11º
Congresso, que consagra uma vida
interna a mais rica e coesa do país,
dentre todos os partidos atuais. Só
à base de uma integral democracia
pode ser compreendida essa coesão.
Trata-se de mais uma das matérias
centrais nas polêmicas históricas
acerca de um partido de tipo
revolucionário do proletariado.
Envolve uma polêmica de caráter
político-estratégico com paradigmas
que pretendem superar tal formulação
leninista, quanto à unidade
necessária e aos modos democráticos
de construí-la. Concretamente,
nenhuma formação política prescinde
de centralismo. A questão é se ele é
constituído democraticamente, ou
burocraticamente ou via hegemonismo
de uma maioria em um partido de
tendências plurais.
A norma do centralismo
democrático inscrita no novo
Estatuto aprimorou e inovou sua
concepção e prática. Assentou-o na
liberdade de opinião e expressão
pessoal; liberdade que é estímulo ao
debate, mas que não prescinde da
obrigação de difundir e defender as
opiniões partidárias construídas
pela maioria. O Partido convive com
diferenças de opinião, mas não faz
delas o estímulo para a
fragmentação, e sim para a obrigação
de construir um único centro e uma
única orientação política, segundo
um contrato político livre e
conscientemente assumido por cada
um. Esse contrato é a alma do
centralismo democrático.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br