Walter
Sorrentino*(1)
Outro fundamento da noção do partido
de tipo leninista é a compreensão do
proletariado como sujeito histórico
central da transformação
revolucionária. Todos os partidos
políticos têm, explícita ou
implicitamente, menos ou mais
desenvolvidos, uma base teórica, um
projeto político, valores e normas
organizativas que expressam
interesses de classes determinadas.
O Partido Comunista é o partido de
uma classe determinada, o
proletariado. Visa ser sua
representação política e social,
encarnar seus valores e aspirações,
elaborar um projeto político que
aponte para a superação da sociedade
dividida em classes, único caminho
para superar a exploração
capitalista.
O proletariado é central para a
reprodução do capital. Em função de
sua condição histórica e social, ele
tende a exercer um papel central na
política e na moderna luta de
classes. Pode alcançar seus
objetivos de forma mais rápida e
segura se for maduro para constituir
seu Partido de classe, que seja
independente do ponto de vista
político, ideológico e organizativo,
que adote o marxismo e que procure
se orientar por uma tática e
estratégia de transformações
revolucionárias na sociedade.
Desde o Manifesto do Partido
Comunista de 1848, de Marx e Engels,
retomado por Lênin nas novas
condições do imperialismo, essa
questão é central para a perspectiva
do Partido do proletariado. É uma
emanação profunda da análise
materialista histórica da sociedade
humana.
O Partido Comunista é,
conseqüentemente, o instrumento
essencial da construção do sujeito
político central da revolução
social, a classe do proletariado. O
proletariado completa sua
constituição enquanto classe
mediante a aquisição de sua
consciência de classe. Esta, por sua
vez, não se desenvolve
espontaneamente – nestas condições,
tende a ficar presa das limitações
do economicismo e do sindicalismo.
Um dos defeitos estruturais da visão
que prevaleceu no passado é o de
supor que o proletariado, justamente
por sua condição de classe, tenderia
a ter uma consciência de classe
definida a-historicamente,
automaticamente, à margem da
realidade concreta da luta política
de classes ou como expressão, de
certa forma religiosa, de sua
situação de oprimidos e explorados,
visão estranha à dialética
materialista.
Tudo isso implica centralidade de
estudos e esforços para abordar a
realidade da vida e luta dos
trabalhadores, infundindo-lhes
identidade e consciência de classe,
papel do Partido Comunista. Um
esforço dessa natureza foi feito no
2º Encontro sobre Questões de
Partido, que teve importância
estratégica na reafirmação do
partido que o PCdoB pretende ser.
O proletariado abrange os
trabalhadores e trabalhadoras
desprovidos dos meios de produção,
que são obrigados a vender sua força
de trabalho em troca de salário.
Durante a maior parte do século XX,
caracterizado pela centralidade da
grande indústria fabril e pelo
fordismo como modelo de organização
da produção, os comunistas focaram a
noção de proletariado basicamente
nos operário fabris. Tal
procedimento tinha forte
justificativa histórica, pois se
tratava do proletariado organizado
pela grande produção vinculada às
forças produtivas avançadas e
revolucionárias daquele tempo.
Todavia, ao longo do tempo
conformou-se uma visão reducionista
do proletariado, restrito à produção
direta de mercadorias e geração de
mais-valia. A respeito disso, Marx
assinalou a dupla dimensão do
trabalho produtivo no capitalismo:
uma representada pelo trabalho
responsável pela produção direta de
mais-valia e outra que, embora não a
produza diretamente, colabora de
alguma forma para a valorização do
capital. Os fundadores do marxismo
incluíam na classe do proletariado,
ao lado do operariado industrial,
comerciários, professores e outras
categorias de trabalhadores
assalariados.
Não seria sensato negligenciar o
fato de que o proletariado de nossa
época tem, em todo o mundo, uma
feição bem distinta do tempo em que
viveram Marx, Engels ou mesmo Lênin.
Uma visão mais ampla do conceito de
proletariado precisa, portanto, ser
recuperada e desenvolvida, para não
excluir da classe parcelas cada vez
mais amplas de trabalhadores e
trabalhadoras brasileiros e seus
familiares, o que acabaria por
justificar a idéia de que o
proletariado seria uma classe em
declínio ou mesmo em extinção. Tal
postura desarma a luta contra a
ofensiva do capital, que se volta
contra o conjunto da classe e seus
direitos. Não seria correto colocar
um sinal de igualdade entre
proletariado e trabalhador gerador
de mais-valia, como tampouco é justo
identificar o proletariado à
condição de assalariados em geral,
independentemente do lugar que
ocupam na produção e reprodução do
capital e de sua situação social.
Não se deve ignorar o papel
proeminente do operariado industrial
na luta de classes moderna
(sobretudo no Brasil), e não se deve
perder de vista sua centralidade no
processo de acumulação capitalista,
sobretudo o assalariado da grande
produção fabril, disciplinado pelo
capital e envolvido diretamente na
produção de trabalho excedente. É
preciso estar atento, entretanto, às
mutações e ao desenvolvimento da
classe que têm acompanhado as
alterações imprimidas pelo
capitalismo nas relações entre os
diferentes ramos e setores de
produção. As mudanças ocorridas no
chamado mundo do trabalho,
ocasionadas por inovações
tecnológicas e outros fatores,
alteraram sensivelmente o perfil do
proletariado. Ele se tornou mais
diferenciado e heterogêneo em
relação àquele que prevaleceu
durante a maior parte do século XX –
e também mais numeroso. É claro que
tudo isso influenciou negativamente
a identidade de classe, assim como
sua consciência, situação agravada
nos tempos de predomínio da
ideologia neoliberal e suas ameaças
contra todas as formas de
organização do proletariado e dos
trabalhadores e em seu esforço para
“desconstruir” a consciência de
classe duramente desenvolvida pelos
trabalhadores desde os primeiros
momentos de hegemonia do modo de
produção capitalista.
Retomar em escala ampliada o
conceito de proletariado ajuda,
assim, a repor na luta ideológica a
centralidade do trabalho na história
humana, seu papel essencial na
formação da sociedade atual e a
missão histórica dos trabalhadores e
trabalhadoras na luta por uma nova
sociedade, sem explorados nem
exploradores.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br