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O colunista retorna em maio. Por ora,
acompanhe abaixo a mais recente coluna de
Walter Sorrentino, da série "Um partido
comunista contemporâneo".
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Um partido
comunista contemporâneo - 17
Partido para dar conseqüência ao pensamento
estratégico - 3
Walter
Sorrentino* (1)
O
painel oferecido foi bastante amplo e
genérico. Mas é possível e necessário
extrair algumas reflexões sobre o tema
Partido na atualidade, partindo das
premissas do pensamento estratégico.
Como afirma Renato Rabelo, presidente
nacional do PCdoB, em perspectiva a reação
ao estado de coisas do mundo hoje vai dar
ensejo a uma nova onda de luta pelo ideal
socialista. As premissas de uma
re-elaboração estratégica surgem da
realidade atual. Porque a situação,
objetivamente, gera seu oposto, sob formas
variadas de contra-tendências de caráter
anti-imperialista e conflitos
inter-imperialistas. Elas se baseiam na
tendência objetiva de desenvolvimento dessa
situação. Na retomada, os ideais não vão ser
iguais aos do início do século XX, porque as
condições objetivas são distintas. A
resposta subjetiva também o será, porque o
ideal se regula pela realidade social. A
consciência se altera perante as novas
realidades sociais, a própria teoria, as
concepções e conceitos precisam evoluir para
dar conta da nova realidade, amparadas no
aumento incomensurável do manancial do
conhecimento humano nas últimas décadas.
Torna-se premente, mais que antes, um
partido comunista de princípios, que resista
a essa ideologização regressiva; capaz dessa
re-elaboração programática e estratégica;
atuando no seio do movimento real, fazendo
frente às pressões pragmáticas e
liberalizantes, ao oportunismo de direita ou
de esquerda; partido de ampla ação política
de massas, de sólida formação teórica e
convicções ideológicas, e extensas fileiras
de quadros e militantes.
Nessa direção, nossas reflexões
estratégicas no Brasil nos levaram a superar
muitos esquemas de pensamento, num sentido
mais realista e concreto. Sem ser extensivo,
podemos citar:
Não existe modelo único de socialismo nem
caminho único para o socialismo. O centro é
a análise concreta da realidade concreta,
levando em conta as premissas da sociedade
atual, a partir das quais vai se formando o
modelo para tal ou qual país. A luta pelo
socialismo é internacionalista, mas se
desenvolve estrategicamente nos marcos
nacionais, no terreno de cada nação tomada
em sua especificidade, em ligação com a luta
anti-imperialista em escala mundial.
Alcançamos uma visão mais dialética no
sentido de que não se passa diretamente do
capitalismo ao socialismo, sem um conjunto
de transições, fases e etapas. Transição ao
socialismo é assunto de largo prazo, de vias
complexas e tortuosas. Demanda o poder
político por forças renovadoras sob
hegemonia dos trabalhadores, equacionar
acertadamente o desenvolvimento das forças
produtivas a partir do que se herda, a
afirmação nacional, uma ampla elevação dos
padrões de vida material e espiritual de
todo o povo, e padrões de liberdade e
solidariedade, com mecanismos de gestão
democrática da sociedade mais complexos e
mediados que o atual padrão liberal-burguês.
Derrubamos desde 1995 o princípio tácito
de que no caso brasileiro haveria duas
etapas programáticas distintas. Em nossa
experiência no Brasil, em função da sua
realidade estrutural, definimos que a
“transição preliminar do capitalismo ao
socialismo” é o objetivo central
programático a ser alcançado, não se
tratando, portanto, da socialização plena.
Para se aproximar deste objetivo estratégico
de uma transição ao socialismo, nas
condições do Brasil atual, é imprescindível
o êxito da luta pela superação do projeto
neoliberal, cuja estratégia geral foi fixada
no 11º Congresso, e que envolve
simultaneamente as lutas de idéias (para
desmascarar os interesses de classes ocultos
pelo pensamento neoliberal), social (para
organizar os trabalhadores e o povo – a
força motriz fundamental – e dar uma base
concreta para um novo ideário, mais
democrático e avançado) e política (com o
objetivo de alcançar instrumentos para
implantar um novo projeto para o país).
Questão objetivamente central para a
perspectiva socialista hoje, nas condições
de nosso país, para a superação do padrão
neoliberal, é o do desenvolvimento econômico
acelerado, democrático, com soberania
nacional. Os processos transformadores,
revolucionários, dependem da deflagração de
profundas mudanças e de grandes
acontecimentos em escala mundial, mas o
curso revolucionário se dará nos marcos das
realidades específicas, peculiares, de cada
país. O desenvolvimento soberano, com
distribuição de renda e valorização do
trabalho, é a grande bandeira política para
atender aos reclamos dos povos e nações, e
exige ruptura com a ordem financeira
predominante.
Dominamos melhor a dialética sobre a
necessidade de uma política justa, síntese
de nossos ideais e objetivos, fruto da
análise concreta da realidade concreta, e de
que a tática é justa quando não se desliga
da estratégia, está em relação com nossos
objetivos programáticos. Sem uma política
justa não há fortalecimento nem unidade do
Partido.
Atuamos hoje em fase de acumulação
estratégica de forças, e precisamos saber
lidar com todas as formas intermediárias,
transitórias, de aproximação dos objetivos
estratégicos. Há portanto forte componente
processual na estratégia, sem desconhecer
rupturas em graus variáveis e progressivos
(ou regressivos). Portanto, é indispensável
uma política flexível e uma forte ação
política de massas junto às forças sociais
motrizes, como instrumentos para construir a
hegemonia de forças avançadas, inclusive no
plano das convicções. Combinando
ajustadamente a ação política de massas com
a atuação em amplas frentes políticas,
dentro e fora de governos, tendo por base
idéias avançadas de um novo projeto para o
país.
Buscamos compreender as mudanças na
classe dos trabalhadores, em perfil,
tamanho, composição e identidade. Ela vai se
engrossando hoje, ao mesmo tempo em que se
torna mais heterogênea e até fragmentada em
sua identidade. Ela abarca um contingente
crescente de assalariados, inclusive dos
setores médios que vão se proletarizando,
muitos técnicos, engenheiros, pesquisadores,
na produção material e de bens imateriais.
Mas ela encarna o trabalho como o agente
central da produção de mais-valia e de
reprodução do capital. Essa posição não
muda. A nova situação aponta para uma
mudança do paradigma da aliança
operário-camponesa, para uma ampla frente da
classe operária com os trabalhadores em
geral, na cidade e no campo, mais os
pequenos e médios camponeses, a
intelectualidade e a juventude, outros
setores intermediários até segmentos
empresariais interessados num projeto
nacional de desenvolvimento. Essas são as
forças motrizes da estratégia.
Vamos compreendo melhor que a luta
eleitoral se põe na atualidade como
expressão concentrada da luta política e da
disputa de projetos políticos na sociedade,
meio pelo qual se vem abrindo caminho a
governos democráticos, progressistas e mesmo
de caráter revolucionário na América Latina.
Ao lado disso, com a conquista de governos
se alcançam meios avançados e concretos para
falar e promover políticas voltadas às
grandes camadas populares, gerando
identidade política e eleitoral com uma base
social determinada. Por isso, a frente de
luta na esfera eleitoral-institucional é
irrecusável e precisa ser enfrentada com
determinação para lutar pela hegemonia nas
difíceis correlações de forças existentes
para os comunistas. De onde se põe a
singularidade política de se integrar de
forma plena a essa esfera de luta e não
tangenciá-la.
Pensando a partir dessa perspectiva
estratégica, parece claro que a organização
política vai assumir feições próprias para
lutar pelo projeto em cada realidade
nacional. O tema Partido precisa ser pensado
na resposta a essa situação. Que podemos
extrair, em aproximações para sucessivas
concretizações?
Primeiro, o Partido Comunista deve ser a
consciência avançada de nosso tempo.
Partindo dos fundamentos do
marxismo-leninismo, desenvolver a teoria
revolucionária, inclusive a teoria de
partido. Sua estrutura e ação precisa
incorporar modos de desenvolver a luta de
idéias, inclusive no seu interior, como
também em relação com os pólos avançados do
saber fora do Partido.
Segundo, o PC deve ser o instrumento que
organize a luta pelo projeto político
estratégico do Partido. Esse projeto deve
ser tornar mais tangível e ser infundido,
perseverantemente, a todos os aspectos da
vida e luta social da qual participa. Isso
implica em ser um instrumento de ampla ação
política de massas, valorizar o pensar
político, saber atuar no curso dos
movimentos sociais, com suas
particularidades próprias muito marcantes na
história de nosso país, sem desprezar a rica
tradição de movimentismo em nossa história e
na do próprio movimento revolucionário
socialista. Portanto, estabelecendo uma rica
relação entre Partido e movimentos, além de
o Partido constituir seus próprios
movimentos de massa, e não se recusando a
atuar também nas esferas institucionais.
Terceiro, o PC está em fase estratégica
de acumulação de forças, caminho tortuoso,
que vai conhecer vaivéns, fluxos e refluxos,
atuando, na nossa circunstância, em
legalidade e eleitoralismo como forma de
luta de forte centralidade, no seio de
amplas frentes políticas onde nem sempre o
PC é força predominante. Vai precisar,
portanto, ser extenso e numeroso e adquirir
musculatura eleitoral, participando
inclusive de esferas de poder local e
nacional. Vai sofrer muitas pressões
provindas desse ambiente de liberalismo. Por
isso, precisa adotar medidas conscientes e
efetivas de contrapeso, para não se perder
no pragmatismo imediatista. A vida interna
vai ser mais conflitiva, exigindo
desenvolvimentos dos mecanismos democráticos
e institucionalidade do Partido, e dos
referenciais mais avançados de valores
militantes, políticos e normativos, para
perseverar em seu caráter.
Quarto, o PC deve saber trabalhar sua
identidade de modo contemporâneo. Um
socialismo renovado, com o jeito e a cara do
Brasil como dizem os jovens, de sentido
patriótico e antiimperialista, tendo por
base uma ampla democracia e participação
popular. Identidade que acentue aquele
aspecto da identidade partidária patriótica
ligada à questão nacional e mesmo
latino-americana, dos grandes líderes e
mártires da independência, e dos grandes
movimentos unitários do povo,
antiimperialistas.
Quinto, o PC é o instrumento essencial da
construção do sujeito político central da
revolução social, o proletariado. Isso
implica centralidade de estudos e esforços
para abordar a crua realidade da vida e luta
dos trabalhadores, infundindo-lhes
identidade e consciência de classe.
Sexto, o PC deve perseverar em seus
fundamentos de partido de compromisso
militante, de unidade ideológica e com
centralismo democrático. E deve ter
características renovadas de estruturação,
de modo a que o apelo à militância se faça
tangível para a vida dos cidadãos e cidadãs,
e para fazer aderir mais fortemente a
prática da militância à realidade social.
Isso implica em conceber mais ampla
democracia interna sob direção centralizada
e a reformulação do papel e critérios da
militância, dos quadros, das organizações
partidárias, das normas e regimentos de vida
interna. Falamos especificamente de PC de
massas como expressão da necessidade de uma
ampla e extensa formação militante,
portanto, de características de sua
estruturação. Saber ver aí não apenas os
princípios e o principismo, mas respostas
funcionais a nosso projeto político e às
tradições e características da luta do povo
brasileiro. E na essência, conforme o 11º
Congresso, assentado numa sólida estrutura
de quadros compromissados inteiramente com o
Partido, os trabalhadores e sua causa.
* Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
(1) Com a colaboração de José Carlos Ruy
e Oswaldo Napoleão.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br
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