Um partido
comunista contemporâneo - 16
Partido para dar conseqüência ao pensamento
estratégico - 2
Walter
Sorrentino* (1)
Terminamos a última coluna afirmando que a
re-elaboração estratégica em curso no
Partido é a mais decisiva determinação para
a concepção e prática de partido. Como se
sabe, o 11º Congresso foi dedicado
essencialmente a isso. Desde o 8º Congresso,
em 1995, que definiu o Programa Socialista
do PCdoB esse esforço tem avançado.
Propusemos fazer um hiato na nossa coluna,
para uma digressão acerca do pensamento
estratégico a serviço do qual se põe o
Partido que precisamos construir,
correlacionando as fases do movimento
revolucionário desde Marx com as questões de
organização que lhe foram subjacentes.
Qual o nosso tempo? Como abrir caminho
para o socialismo? De que partido se
necessita?
É tempo de defensiva estratégica, período
voltado para a acumulação estratégica de
forças, para dar ensejo a uma nova onda de
luta por um novo ideal socialista. Trata-se
de uma terceira grande fase histórica de
luta pelo socialismo. Nos cursos nacionais,
o tema vem sendo abordado por outros
professores (particularmente Renato Rabelo e
Dilermando Toni), que vêm estudando essa
periodização e buscando um esforço de
síntese. O que se segue é fruto de anotações
pessoais desses cursos, o que isenta
quaisquer outros das insuficiências ou
deficiências certamente existentes,
particularmente as simplificações. A questão
é que essas reflexões são úteis para
cotejá-las com o pensamento de partido que
lhe são subjacentes.
A luta dos trabalhadores, que já é
secular, pode ser dividida em grandes fases.
A primeira vai do século XIX até início do
século XX, tendo durado décadas. Sua marca
central foi a luta teórica pelo predomínio
da concepção do socialismo científico sobre
o socialismo utópico e o
anarquismo-espontaneísmo, bem como da
formulação de um programa mais geral de
superação do capitalismo pelo socialismo, em
perspectiva histórica. O marxismo se afirma
como a ciência e doutrina revolucionária do
proletariado; o ponto alto desta fase foi a
hegemonia do marxismo no movimento do
proletariado e, politicamente, a Comuna de
Paris (1871) como último e mais elevado
rebento do ciclo das revoluções burguesas na
Europa, e que adquiria agora uma perspectiva
revolucionária proletária. Ao final do
período, dada a derrota e a reconfiguração
do capitalismo, se instalou uma crise no
marxismo.
Este primeiro período compreende uma
época histórica determinada, o fim do ciclo
vitorioso das revoluções burguesas nos EUA
(no final do século XVIII) e nos países da
Europa (1789 a 1871). A revolução da
burguesia teve um sentido progressista na
medida em que, liderando as forças sociais
em oposição à aristocracia feudal, eliminou
o feudalismo e a servidão, e abriu uma nota
etapa na história, em correlação com o
desenvolvimento das forças produtivas que
lhe era subjacente.
Com a lógica da acumulação do capital,
transformações de monta ocorrem,
constituindo o advento de uma nova etapa de
desenvolvimento do capitalismo. Foi um
processo contraditório, que exacerbou
contradições e incubou ulteriormente as duas
grandes guerras mundiais pela partilha do
mundo, levou ao nazi-fascismo e a rupturas
revolucionárias, com a posterior
constituição do campo socialista.
Nas primeiras décadas da revolução
burguesa (do final do século XVIII até
meados do século XIX), a burguesia liderou
as forças que estavam em oposição ao
feudalismo, como a plebe urbana e o
campesinato, abrindo caminho para seu
próprio domínio; depois dos vagalhões que
sacudiram a Europa em 1848 e,
particularmente, da Comuna de Paris, de
1871, abre-se uma etapa nova, a das
revoluções proletárias, alterando o padrão
de aliança de classes. Agora, a burguesia –
com seu poder já consolidado – é a campeã
das classes proprietárias, unindo-se à
aristocracia latifundiária e aos demais
segmentos das classes dominantes contra os
trabalhadores que acenam, desde então, com
um programa socialista alternativo ao
capitalismo triunfante.
Do ponto de vista da organização
política, constituem-se organizações amplas
de combate, ainda ecléticas (as
Internacionais), até a constituição dos
primeiros Partidos Operários
Social-Democratas, partidos do proletariado
de velho tipo, reféns de uma visão sindical
e parlamentar e, em muitos aspectos, ainda
movimentista. Há intenso debate
teórico-programático. Quanto ao tema
Partido, a centralidade foi ocupada pelo
combate às tendências não-proletárias e, em
particular, contra o espontaneísmo, ponto de
partida assumido por Lênin, que dará ensejo
aos partidos de novo tipo, na fase
seguinte.
A segunda grande fase histórica pode ser
vista como a resposta da burguesia e dos
demais setores das classes dominantes à
época de transição do papel progressista da
revolução burguesa à época do capital
financeiro (1871 a 1914), período que já
pode ser caracterizado como a época das
revoluções proletárias. Já consagra o
imperialismo, como outra etapa do
capitalismo, com sentido reacionário. A
revolução proletária entrava na ordem do
dia, irrompendo pelo mundo. Atuou aí a
genialidade de Lênin em teorizar sobre a
nova época, renovando a resposta estratégica
da luta de classes.
Essa fase deu ensejo a um ciclo de
experiências socialistas iniciais durante o
século XX, cuja marca mais nítida foi a
Revolução Russa de 1917, que durou até quase
o final do século, durante cerca de 60 anos.
Foram experiências práticas com base na
experiência soviética dirigida por Lênin e,
depois, por Stálin, e seu modelo foi
amplamente difundido e acatado, baseado na
possibilidade de vitória da revolução em
países com baixo nível de desenvolvimento
das forças produtivas, vistos como os elos
débeis da cadeia imperialista mundial. Toma
forte impulso o movimento revolucionário de
libertação nacional frente à política
colonial e neocolonial do imperialismo.
Aí se podem ver dois sub-períodos
distintos. Um, de ascenso, vai de 1917 ao
fim da II Guerra Mundial (1945), com a
formação do campo socialista como um sistema
de Estados. Desde o início deste período
pensou-se que o processo revolucionário que
começara na Rússia se espalharia
imediatamente para a Europa. Mas a
conjuntura revolucionária refluiu e isso não
aconteceu. Mesmo assim, com a crise
capitalista dos anos 1930, e com a grande
vitória sobre o nazifascismo, com a URSS à
frente, a onda socialista obrigou o
capitalismo a se reciclar, adotando as
políticas de crescimento econômico e bem
estar social preconizadas pelo keynesianismo,
gerando os 30 “anos de ouro” (1945-75), em
que o capitalismo foi regulado, foram
adotadas políticas de descolonização e os
países dependentes, como o Brasil,
conheceram certo grau de desenvolvimento.
O período seguinte é marcado pela crise.
Seus marcos podem ser fixados de meados da
década de 50 aos anos 1989-91. Em diversas
experiências a tentativa de fugir às
condições objetivas adotando soluções
artificiais – na URSS, com Stálin à frente,
imaginava-se já em 1939 que se vivia o
período de “construção do comunismo” –
demonstrou o insuficiente domínio teórico
sobre a realidade do desenvolvimento
socialista. As respostas produzidas conduzem
a uma tendência revisionista, esdrúxula,
proclamando mortos postulados essenciais do
marxismo. Há um estancamento do
desenvolvimento na URSS e em vários outros
países que, apesar de todos os avanços, não
conseguem ultrapassar os umbrais de um
desenvolvimento médio. O financiamento do
Estado torna-se crítico. O problema do
desenvolvimento contínuo das forças
produtivas é dos principais problemas que a
teoria não consegue resolver. São
contradições que se acentuam e resultam em
um novo período de crise do marxismo. Para
muitos é período de apostasia. Para outros,
revolucionários conseqüentes, é entendida
como crise da teoria revolucionária, de
insuficiente desenvolvimento para dar conta
dos novos fenômenos. Este período é fechado
pela crise dos países socialistas do Leste
Europeu, uma derrota de caráter estratégico,
consagrada na imagem da queda do Muro em
1991.
Do ponto de vista da organização
política, essa fase deu origem à moderna
teoria do partido revolucionário do
proletariado, partidos de novo tipo, de
unidade ideológica, centralizado e de
compromisso militante. Vale a pena registrar
que o PC bolchevique, ele mesmo, se
constituiu no seio do amplo movimento
existente na Rússia naquele tempo, numa
relação determinada entre partido e
movimento – o fator consciente procurando
ligar-se ao movimento espontâneo e
dirigi-lo.
O paradigma soviético foi tão poderoso e
ativo que se tornou o modelo único de
Partido, codificado pela 3ª. Internacional
sob o molde do Partido soviético,
bolchevique. A centralidade do debate
teórico-político quanto ao tema Partido, foi
ocupado pelo combate à social-democracia e
seus partidos de massa, eleitoreiros e com
forte aparato sindical. Muitos desses
partidos comunistas degeneraram, ao não
responderem com acerto às novas realidades,
seja onde estavam no poder, seja em países
capitalistas mais desenvolvidos da Europa,
sendo incapazes de oferecer respostas
proletárias e avançadas para a crise do
capitalismo em seus próprios países. Outros
tiraram lições da experiência e procuram
firmar-se persistindo em sua identidade
comunista e revolucionária.
Aquele foi um período de extensão da
revolução, principalmente pela Ásia, África,
e mesmo na América Latina, com o exemplo de
Cuba. Foram experiências variadas de
revoluções de libertação nacional, que
consagraram frentes revolucionárias, no seio
das quais o Partido Comunista buscava
constituir hegemonia ou alcançar o poder.
Alguns desses partidos foram verdadeiramente
de massas e com forte identidade nacional,
como ocorreu por exemplo na China, no Vietnã
ou na Indonésia. Outros foram “fermento” de
movimentos revolucionários, como em Portugal
ou África do Sul, ou se apresentavam com seu
programa próprio em eleições, nos países
mais desenvolvidos. Em outras situações, o
que é importante, fizeram-se revoluções
enquanto movimentos, como foi o caso de
Cuba, cuja direção somente após a vitória se
cristalizou em um partido comunista. Ainda
persistem inúmeros movimentos e frentes de
caráter revolucionário (apenas a título de
exemplo, sem ser extensivo, em Angola,
Moçambique, Guiné-Bissau, na Nicarágua, El
Salvador, na Palestina...), muitas vezes
movimentos libertação nacional ou
democráticos radicais, com ou sem Partido
Comunista.
Como se vê, o panorama já havia se
tornado mais variado e mesmo disperso. O
modelo estratégico de “assalto aos céus“,
insurrecional, havia dado lugar a uma
miríade de caminhos e formas do movimento
revolucionário. Com armas nas mãos ou com
projetos eleitorais, esse panorama habita
até hoje o mundo, mesmo após a imposição do
conservadorismo neoliberal como força
hegemônica no mundo pós queda do muro de
Berlim.
Os acontecimentos do final da década de
1980 e início dos anos 1990 abrem a terceira
grande fase, a atual, que já dura mais de um
quarto de século. São anos da derrota
estratégica do proletariado com a derrocada
da URSS e Leste europeu, e consequentemente
de ofensiva da contra-revolução neoliberal.
O capitalismo realmente existente é o
império das finanças globalizadas, o diktat
da unipolaridade do imperialismo
norte-americano. Período em que a derrota
estratégica dos trabalhadores permitiu que o
grande capital e o imperialismo usem em seu
benefício, todas as possibilidades que a
ciência e a tecnologia oferecem,
reestruturando a produção e a exploração dos
trabalhadores a partir do formidável
desenvolvimento das forças produtivas, com a
precarização das relações de trabalho e o
desemprego. Esta é uma época de sentido
francamente regressivo, restaurador, em
todos os aspectos da vida social e
espiritual, que ameaça a civilização, os
trabalhadores, os povos e a própria
sustentatibilidade do meio ambiente.
Sucintamente, é o neoliberalismo, o
capitalismo dos dias atuais.
Hoje, poucas décadas depois da queda do
Muro de Berlim, esse capitalismo, que havia
proclamado vitória e que a própria história
chegara ao fim, já não tem programa a
oferecer aos povos e nações, a não ser a
grosseira mistificação ideologizante, junto
ao séqüito de barbárie nas relações
econômicas e sociais. O “apogeu” neoliberal
já passou, embora suas mazelas ainda
persistam: hoje mais uma vez volta a se pôr
a busca de uma alternativa a esse estado de
coisas.
Para o movimento revolucionário é tempo
de resistência, recuos, busca de lições,
reafirmação dos princípios e ideais
socialistas. Em síntese, busca de novos
caminhos organizativos que atualizem os
princípios leninistas em consonância com as
exigências atuais; de outro patamar de luta
teórica, tanto de experiências que se
mantiveram de pé – destacadamente China,
Vietnã, Cuba, Coréia do Norte – quanto por
parte de partidos que buscam alcançar o
poder político e construir caminhos para o
socialismo. Este é um período de acumulação
de forças, no qual os instrumentos
apropriados para o enfrentamento atual com o
capitalismo ainda estão sendo gestados.
Período em que o movimento revolucionário
busca se organizar, ganhar terreno, acumular
forças a fim de superar a interrupção de sua
trajetória ascendente e voltar a pôr na
ordem do dia uma alternativa socialista.
Mais recentemente, sobretudo na América
Latina, fala-se abertamente da busca de
alternativa socialista, como no caso da
Venezuela.
Do ponto de vista da organização
política, o período iniciado na passagem dos
anos 1980 para os 1990 foi marcado pela
dispersão e tentativa de recompor as forças,
no espírito da época; o velho, do ponto de
vista organizativo do proletariado, estava
sendo superado, sem que o novo tivesse
podido afirmar-se. A ideologia capitalista
propagandeou a falência dos projetos
coletivos, da construção do socialismo,
pondo ênfase no individualismo, na
concorrência e na ganância. Propagandeou-se
também, fortemente – principalmente em
múltiplos setores ligados à luta dos
trabalhadores e dos povos – a superação do
paradigma leninista de partido,
apregoando-se sua substituição seja pelo
chamados novos movimentos, muitas vezes
específicos e carentes de um programa global
de reordenação da sociedade, seja por
organizações partidárias que, no Brasil, tem
as características do PT.
Muitos Partidos Comunistas procuram
manter sua identidade revolucionária, e
conseguem. Outros, entretanto, se perdem e
se descaracterizam. Muitos Partidos têm
escassa influência em seus países. Outros
sucumbem ao paradigma social-democrata. Se
não é o caso de retroceder aos primórdios –
ou seja, não retroceder da exigência, aliás
até aumentada, de um Partido de caráter
transformador, antagonista, para rupturas
políticas, que busque infundir consciência
ao movimento revolucionário – novas formas
de relação se põem, nas condições atuais,
entre partidos e movimentos.
Este é o desafio colocado para os
revolucionários que, em todo canto,
persistem na defesa dos princípios
leninistas de organização partidária como os
mais conseqüentes para a luta pelo
socialismo, e que precisam ser adequados às
contradições deste período de transição
entre uma época de predomínio conservador,
neoliberal, que parece encerrar-se, e uma
etapa nova da luta revolucionária, que se
abre. E que colocam uma questão importante:
qual é o partido necessário para a revolução
nas condições contemporâneas?
* Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
(1) Com a colaboração de José Carlos Ruy
e Oswaldo Napoleão.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br
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