Um partido
comunista contemporâneo - 15
Partido para dar conseqüência ao pensamento
estratégico - 1
Walter
Sorrentino* (1)
Iniciamos aqui a terceira parte da
reconstituição do percurso de atualização de
concepção e prática de Partido realizado
pelo PCdoB. Na primeira parte, abordamos a
teoria leninista de partido do proletariado,
em sua universalidade e historicidade. Na
segunda, as polêmicas atuais sobre a questão
do partido revolucionário. Agora, vamos
examinar a outra determinação fundamental
para pensar tal partido – o de servir a uma
estratégia dada.
Das duas partes anteriores, podemos
sintetizar uma reflexão central: o PCdoB é
tributário de um caminho articulado em torno
da chave de permanência e renovação na
concepção de Partido.
Permanência de um partido revolucionário
do proletariado, de compromisso militante,
unidade política e ideológica em suas
fileiras, que persevere em sua identidade e
seus princípios, não retroceda dos
fundamentos assentados pela ciência política
e a luta de classes do proletariado.
Renovação no sentido de atualizar
concepções e práticas de Partido,
tornando-as funcionais ao projeto político
do partido, nas condições de nosso país, de
nosso povo e de nosso pensamento estratégico
renovado. Daí decorre a recusa de um modelo
fixo e imutável de organização partidária. O
modelo único de partido, oriundo da 3ª.
Internacional, reflete de modo imperfeito os
conteúdos e formas das relações sociais e da
luta de classes, e mesmo das exigências da
vida interna do Partido.
No nosso caso, renovação tem a ver também
com algum retardamento no enfrentamento
desse desafio. Estamos completando 21 anos
de legalidade, tendo o 8º Congresso – o da
crise do socialismo – de permeio. Nosso
esforço foi acentuadamente gradualista. Na
última década, em especial, avançamos mais
rapidamente. O Estatuto aprovado no 11º
Congresso representa a síntese mais elevada
a que chegamos. Na verdade, iniciou-se a
partir daí uma nova luta para implementar
essa nova cultura político-organizacional.
Mas a chave permanência-renovação precisa
ser referida ao substrato que a envolve.
Nesta terceira parte devemos ressaltar que a
determinação mais importante que concorre
para a atualização de concepções e práticas
é dada pelo pensamento estratégico ao qual
deve responder o Partido. Concepção e
prática de partido, para os comunistas,
derivam de seu projeto estratégico nas
condições próprias de nossa formação
econômico-social. Em outras palavras, é
necessária uma visão desenvolvida quanto ao
programa, à estratégia e caminhos para o
socialismo para pensar o Partido e seu
papel: Partido Comunista serve à consecução
de uma estratégia revolucionária dada. Foi
nesse sentido que o tema partido foi
enfocado no 11º Congresso.
Num esforço de síntese, surge aqui uma
segunda chave essencial à reflexão – a
questão da hegemonia e de originalidade.
Hegemonia compreendida como o centro do
objetivo estratégico. Construída pelo
partido no processo da luta política,
buscando conquistar a supremacia pela força
das idéias – o consenso – e a força do poder
de Estado – a coerção. Capaz de pôr o
proletariado à direção de um bloco avançado
de forças sociais e políticas
transformadoras. Compreendendo o caráter
prolongado e multifacético da luta por abrir
caminho ao socialismo, antes, durante a após
alcançar o poder político. Luta que tem
caráter político, mas também cultural,
envolvendo valores avançados em todas as
esferas da vida social. E compreendendo que
nesse percurso se necessita de um Partido
influente em todos os aspectos da vida
política e social, e organizativamente
forte, extenso em militância e com larga
estrutura de quadros forjados nessa
perspectiva, capazes de articular todo e
qualquer tipo de ação com um projeto global
transformador da sociedade.
Originalidade como exigência de o Partido
assumir características próprias para o
tempo presente, apreendendo o leninismo em
sua essência e não em sua forma modelada por
determinado período e experiência histórica,
a saber, a do bolchevismo e sua codificação
pela 3ª. Internacional. Exigência de
desenvolver a teoria e prática de Partido
para forjar seu papel, feições e formas
organizativas em funcionalidade com o
projeto político em nosso país, com as
tradições, cultura e psicologia de nosso
povo. Porque o espaço privilegiado do pensar
estratégico ainda é o espaço nacional e
nosso país tem tradições bem demarcadas. Por
um lado, pouca tradição de partidos
políticos nacionais – o único que persistiu
por mais de oito décadas é precisamente o
Partido Comunista. Por outro lado, os
grandes momentos transformadores no país só
foram alcançados com a união de amplas
forças políticas e sociais – por vezes até
antípodas na origem -, numa forte tradição
movimentista (como de resto na América
Latina). Esse foi o caso, no Brasil, da luta
pela expulsão dos holandeses, nos movimentos
pela independência, abolição e república, na
chamada revolução de 1930 e mesmo mais
recentemente, na luta das diretas já contra
a ditadura e no impeachment de Collor. Além
de implicar componentes de pensamento tático
e estratégico, parece claro que isso
influencia em menor ou maior medida também a
forma-partido em nosso país.
Nas próximas colunas vamos fazer uma
generalização histórica das fases e
características do movimento revolucionário
socialista desde Marx em correlação com as
características organizativas assumidas
pelos partidos políticos do proletariado,
como forma de estimular a reflexão atual.
Sabidamente, vivemos um tempo muito distinto
daquele dos alvores do século XX, quando
teve lugar a grande onda revolucionária
socialista, a partir da URSS e de Lênin. O
tempo não pára, não vivemos mais aqueles
tempos. Se isso for abstraído, cai-se no
receituário de modelo de revolução e, por
extensão, no doutrinarismo em matéria de
Partido, à espera fatalista da crise final
do sistema capitalista, ou do momento
messiânico de assalto aos céus nas crises
revolucionárias. Vivemos, ao contrário, um
período de re-elaboração programática e
estratégica do movimento revolucionário
frente a características da luta de classes
muito mais complexas. Essa re-elaboração é a
mais decisiva determinação para a concepção
e prática de partido.
* Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
(1) Com a colaboração de José Carlos Ruy
e Oswaldo Napoleão.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br
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