Um partido
comunista contemporâneo - 14
Uma crítica às formas não-leninistas de
organização: para que serve o partido do
proletariado? (2ª parte)
Por José Carlos Ruy *(1)
Estas opiniões estão registradas nos
principais documentos do Partido dos
Trabalhadores, desde a Carta de Princípios,
de 1o de maio de 1979, e que diz: O PT
define-se “como partido das massas
populares, unindo-se ao lado dos operários,
vanguarda de toda a população explorada,
todos os outros trabalhadores – bancários,
professores, funcionários públicos,
comerciários, bóias-frias, profissionais
liberais, estudantes etc. – que lutam por
melhores condições de vida, por efetivas
liberdades democráticas e por participação
política”, sendo um partido que, ao almejar
“uma sociedade socialista e democrática tem
de ser, ele próprio, democrático nas
relações que se estabelecem em seu interior.
Assim, o PT se constituirá respeitando o
direito das minorias de expressar seus
pontos de vista. Respeitará o direito à
fração e às tendências, ressalvando apenas
que as inscrições serão individuais”.
Esta opção foi reafirmada em outros
documentos; um exemplo é o Manifesto do
Movimento Pró-PT, aprovado em 10 de
fevereiro de 1980, no Colégio Sion (São
Paulo), que assinalou o cansaço dos
trabalhadores em “servir de massa de manobra
para os políticos e os partidos
comprometidos com a manutenção da atual
ordem econômica, social e política”, e
protestou contra os partidos “formados de
cima para baixo, do Estado para a sociedade,
dos exploradores para os explorados. Os
trabalhadores querem se organizar como força
política autônoma”, “amplo e aberto a todos
aqueles comprometidos com a causa dos
trabalhadores e com o seu programa. Em
conseqüência, queremos construir uma
estrutura interna democrática, apoiada em
decisões coletivas e cuja direção e programa
sejam decididos em suas bases”.
Essa afirmação foi reiterada dez anos
depois, no documento O socialismo petista
(parte da resolução aprovada no 7º Encontro
Nacional, ocorrido 1990, em São Paulo, e
reafirmado no 2º Congresso, realizado em
Belo Horizonte, em 1999). A vocação
democrática do PT “vai além das bandeiras
políticas que defendeu e defende. Também a
sua organização interna expressa nosso
compromisso libertário”, diz. “Refratário ao
monolitismo e verticalismo dos partidos
tradicionais – inclusive de muitas
agremiações de esquerda –, o PT esforça-se
por praticar a democracia interna como
requisito indispensável a seu comportamento
democrático na vida social e no exercício do
poder político”. Democracia interna que
inclui o pluralismo ideológico, assegura
aquele documento. “Somos, de fato, uma
síntese de culturas libertárias, unidade na
diversidade. Confluíram para a criação do
PT, como expressão de sujeitos sociais
concretos, mais ou menos
institucionalizados, diferentes correntes de
pensamento democrático e transformador: o
cristianismo social, marxismos vários,
socialismos não-marxistas, democratismos
radicais, doutrinas laicas de revolução
comportamental etc.”.
Assim, “o PT não possui filosofia
oficial. As distintas formações doutrinárias
convivem em dialética tensão, sem prejuízo
de sínteses dinâmicas no plano da elaboração
política concreta”.
Em 1990 o jornalista e dirigente
comunista Rogério Lustosa fez uma análise
aguda dessa evolução. “A new wave da
modernidade é inventar um sistema híbrido,
meio socialismo, meio capitalismo”, disposto
“a incorporar ‘outras tendências teóricas’ e
‘aberto’ às diversas correntes que se
manifestam no movimento popular. Com a
promessa de um novo modo democrático de
organização”, escreveu ele. Os teóricos
dessa inovação abrigam-se sob a bandeira do
pluralismo, e “consideram a existência de
oposição organizada à direção e à linha do
partido como prova de democracia” (Rogério
Lustosa, O canto da sereia de um partido
para “todos”, Princípios, nº 19, São Paulo,
novembro de 1990).
O abandono dos princípios leninistas é o
parâmetro de modernidade para quem pensa
daquela forma; um partido adequado à
contemporaneidade, pensam, precisa livrar-se
de princípios como o caráter de classe do
partido, que reúne a vanguarda do
proletariado, valoriza a ação socialista
consciente e não espontânea; partido que,
organizado com base no centralismo
democrático é o instrumento para a superação
revolucionária do capitalismo.
Os princípios leninistas de organização
são anátemas para estes teóricos modernos
para quem falar em papel revolucionário do
proletariado seria uma fantástica
mistificação, como diz Marcos Rolim, que foi
deputado federal pelo PT / RS (Marcos Rolim,
Teses para uma esquerda humanista e outros
textos, Porto Alegre, Sulina, 1999).
Escandalizam-se, baseados numa
compreensão empobrecida e falsificada da
tese de Lênin de que a consciência
socialista revolucionária surge de “fora” da
luta econômica, âmbito em que só pode surgir
uma consciência sindicalista. É preciso
esclarecer que a tese leninista não diz que
a consciência socialista surge fora do
proletariado, mas sim fora da luta econômica
imediata, e que a consciência socialista e
revolucionária só pode surgir na luta
política dos trabalhadores.
Os trabalhadores tiveram, ao longo da
história, diferentes expressões
organizativas, e elas dependiam dos
objetivos que buscavam alcançar. Marx e
Engels, e também Lênin, perceberam essa
variedade. Há partidos e movimentos
proletários que lutam contra limitações do
sistema capitalista, exigindo melhores
salários, melhores condições de trabalho e a
participação política dos operários nas
repúblicas burguesas.
Este é um objetivo importante, mas
limitado. Outro objetivo, maior, busca este
mesmo programa sem desligá-lo de outro, de
longo prazo: a derrota do sistema
capitalista e o início da construção de uma
nova sociedade, avançada e igualitária, a
sociedade socialista.
Os princípios leninistas de organização
partidária ligam-se a este programa mais
avançado, aquele que une – na mais legítima
tradição comunista – os objetivos imediatos
da luta dos trabalhadores com seu programa
de longo prazo. A tese leninista
desdobra-se, assim, na defesa da necessidade
de organização da vanguarda do proletariado
como destacamento avançado que se organiza
em um partido de classe, que faz parte da
classe operária, e cujo programa é
justamente - como escreveu Antônio Gramsci –
“fundar um novo Estado”, e não apenas
“corrigir” o Estado burguês.
Outro aspecto da crítica ao modelo de
partido leninista é a valorização da ação
espontânea das massas, como garantia contra
o autoritarismo da direção sobre o
movimento. O espontaneismo (autonomia dos
movimentos ou das bases), é visto como prova
da autenticidade democrática de qualquer
movimento contestatório ou reivindicativo -
esquecendo-se, como lembrava Lênin, que esta
separação é artificial, pois “o ‘elemento
espontâneo’ não é mais do que a forma
embrionária do consciente” que, sem
organizar-se numa agremiação política
avançada e socialista, dissipa-se em embates
cujo horizonte estreito são os limites do
capitalismo, sem ameaçar suas estruturas de
poder e domínio.
Forma embrionária que precisa
desenvolver-se e alcançar a “consciência da
oposição irreconciliável” entre os
interesses do movimento e “o regime político
e social existente”. Gramsci, este teórico
comunista revolucionário injustiçado pela
apropriação reformista que o transformou
supostamente num campeão do anti-leninismo,
é um continuador de Lênin neste aspecto. O
fato de que “em cada movimento espontâneo
existe um elemento primitivo de direção
consciente, de disciplina”, escreveu, é
demonstrado indiretamente pela própria
existência de “correntes e grupos que
defendem a espontaneidade como método”.
Os críticos de Lênin proclamam-se
modernos. E esta suposta modernidade
consiste na valorização do pluralismo
teórico das organizações, do espontaneismo,
da flexibilização do caráter de classe do
partido, resultando no enfraquecimento da
unidade da ação política dos trabalhadores.
E, ao contrário de fortalecer esta ação, são
formas de organização que resultam em
agremiações gelatinosas, para usar uma
expressão de Antonio Gramsci, com vértebras
frágeis, fracamente armadas para enfrentar
as investidas das classes dominantes.
São organizações que, como os partidos
convencionais, hipertrofiam sua ação
institucional e parlamentar, em detrimento
do fortalecimento da militância. Aliás, a
própria existência de tendências e das
fidelidades que decorrem disso fragilizam a
democracia partidária, ao invés de
fortalecê-la: uma tendência ou facção nem
sempre realiza congressos ou encontros
formais para tomar decisões políticas, e os
filiados que aderem a elas quase sempre
seguem decisões que seus dirigentes tomam
sem o cuidado de uma consulta ampla e
democrática.
Num partido como o PCdoB, de matriz
leninista, ocorre o contrário. As decisões
são tomadas em congressos e conferências
depois de amplo debate e deliberação com a
militância do partido, envolvendo milhares
de militantes. Como ocorreu no 11o.
Congresso, de 2005, que reuniu, em sua
preparação, cerca de 70 mil militantes para
debater as teses, que foram enriquecidas e
aperfeiçoadas com as mudanças e sugestões
deliberadas nesse processo.
Outro exemplo da debilidade de
organizações que se consideram modernas por
romper com o modelo leninista de partido
foram os acontecimentos na Argentina, em
dezembro de 2001. Naquele país configurou-se
uma situação revolucionária clássica: o povo
já não podia viver sob os governos da
burguesia, e a burguesia já não conseguia
governar como antes. Mas a dispersão, a
falta de unidade e de um programa avançado
impediram que as energias então liberadas
impelissem o país para uma situação mais
avançada. Chegou-se à beira da ruptura, mas
ela não ocorreu: faltou uma direção
unificada, com clareza de objetivos e uma
proposta de organização eficiente para a
luta dos trabalhadores. A palavra de ordem
que se vayam todos, aparentemente avançada
por recusar os governos da burguesia,
revelou-se frágil e vazia por não se
traduzir numa proposta organizativa concreta
e avançada. E eles no se fueran!
O partido de novo tipo preconizado por
este pensamento que se diz moderno recusa a
compreensão classista do partido e reforça a
visão reformista, definindo a luta do
proletariado dentro dos limites do sistema
capitalista, sem acenar para a necessidade
de sua superação, ou minimizando esta
possibilidade.
São partidos adequados aos que
abandonaram a perspectiva do socialismo,
deixando-a para um futuro tão longínquo que
se torna um "sonho", e que buscam a
acomodação ao sistema social e político da
burguesia. Não são partidos para a luta
proletária e para o enfrentamento dos
problemas que o capitalismo coloca, e
provoca.
Ao contrário, um partido capaz dessa
tarefa, escreveu Rogério Lustosa, é aquele
que tem um “programa com objetivos
definidos, estratégia e táticas adequadas
para alcançar as transformações necessárias
à classe que representa”, que “age como
vanguarda ao despertar os menos conscientes,
ao educar o conjunto dos trabalhadores,
levando-os a juntar concepções teóricas
avançadas com a experiência concreta”.
O enfrentamento das contradições da
modernidade exige um partido cujo programa
tenha respostas para os problemas
contemporâneos, e que compreenda as
condições concretas da revolução em nossos
dias, sem reduzir-se à repetição do passado,
por mais heróico que tenha sido. Exige um
partido que, mantendo os princípios
organizativos e filosóficos herdados do
passado, tenham plena vigência em nossos
dias. Este é o esforço feito neste conjunto
de textos aqui publicados sob o título geral
de Um Partido Comunista Contemporâneo.
A necessidade de unidade da ação
política, de um partido de caráter militante
com forte presença entre os trabalhadores,
iluminada por um pensamento avançado e
ligado à luta anticapitalista dos
trabalhadores, configurada em um programa
que reflita as contradições do presente –
esta é uma necessidade que continua em pé, e
cuja suposta superação precisaria ser
demonstrada prática e teoricamente.
Esta é uma polêmica de caráter
histórico-estratégico, que opõe diferentes
visões ideológicas e políticas que fazem
parte da luta dos trabalhadores. É a
história, em seu desdobramento inexorável,
que vai esclarecer esta polêmica; tudo
indica, contudo, que um partido capaz de
cumprir aquelas tarefas avançadas continua
sendo o partido de tipo leninista, e não
outro.
(1) Com a colaboração de Oswaldo Napoleão e
Walter Sorrentino

* José Carlos Ruy, Jornalista, editor
de “A Classe Operária”, é membro do Comitê
Central do PCdoB.
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