Um partido
comunista contemporâneo - 13
Uma crítica às formas não-leninistas de
organização: para que serve o partido do
proletariado? (1ª parte)
Por José Carlos Ruy *(1)
Os críticos de Lênin proclamam-se modernos.
E esta suposta modernidade consiste na
valorização do pluralismo teórico das
organizações, do espontaneismo, da
flexibilização do caráter de classe do
partido. Afirmamos que essa modernidade
resulta no enfraquecimento da unidade da
ação política dos trabalhadores que é uma
necessidade presente para, iluminada por um
pensamento avançado e ligado à luta
anticapitalista, travar a luta conseqüente
nas transformações ao socialismo.
“O direito dos filiados organizarem-se em
tendências vigora permanentemente no
Partido, observadas as normas previstas
neste Estatuto” – esta formulação, do artigo
233 do Estatuto do Partido dos
Trabalhadores, exprime a principal diferença
organizativa entre o PT e os partidos de
tradição leninista: o reconhecimento da
existência de tendências organizadas dentro
da agremiação, que leva à rejeição do
principal princípio que estrutura uma
organização como o Partido Comunista do
Brasil, que é o centralismo democrático.
Esta concepção resulta de uma longa
história, cujos primeiros desdobramentos
ocorreram já no início do século XX, quando
Rosa Luxemburgo fez sua célebre crítica à
formulação leninista (em Que fazer?),
alertando que o centralismo democrático
poderia levar ao enrijecimento da
organização, à ditadura da direção sobre o
conjunto dos filiados e da militância e, em
conseqüência, à falência da democracia
partidária.
Mais tarde, esta crítica se fortaleceu a
partir da crise aberta com os desdobramentos
do XX Congresso do Partido Comunista da
União Soviética, em fevereiro de 1956,
quando as críticas a Stálin e ao culto à
personalidade se traduziram, nos partidos
comunistas do ocidente, em uma rejeição
generalizada das práticas que dominaram até
então. É verdade que, nas condições
históricas soviéticas, os princípios
organizativos definidos por Lênin haviam se
transformado em sua caricatura,
hipertrofiando o papel da direção e
reduzindo a democracia partidária a um
formalismo estéril.
Entretanto, ao fazer a crítica necessária
daquela distorção, muitas personalidades e
organizações do campo revolucionário
simplesmente abriram mão do princípio
organizativo capaz de manter a capacidade de
intervenção política organizada dos partidos
do proletariado.
No Brasil, os reflexos do XX Congresso do
PCUS se desdobraram em uma esquerda não
comunista, muitas vezes inspirada em
movimentos religiosos de esquerda; em
agrupamentos democráticos e nacionalistas
também à margem do movimento comunista; e no
fortalecimento de uma intelectualidade
acadêmica de esquerda, inspirada num
marxismo que fazia questão de demarcar campo
e posição com a chamada ortodoxia comunista.
Naqueles anos (décadas de 1950 e 1960), a
força hegemônica da esquerda brasileira foi
o Partido Comunista do Brasil que depois de
1961, com a mudança do estatuto e do
programa transformou-se em Partido Comunista
Brasileiro (PCB) e praticava uma política
plena de ilusões quanto ao papel
transformador de uma burguesia nacional que
seria parceira do proletariado nas mudanças
revolucionárias. Um grupo de dirigentes que
persistia na defesa do programa e do
estatuto e até do nome que fora abandonado
reorganiza o partido em 1962.
Depois do golpe militar de 1964, aquelas
ilusões se esboroaram, e o Partidão viveu
uma crise grave, sendo sucessivamente
abandonado por inúmeros militantes que
procuraram criar seus próprios partidos.
Uma característica de muitos daqueles
grupos que surgiram então foi justamente a
busca de formas novas de organização
partidária, à margem da tradição leninista,
ou contra ela. Acusando a política comunista
de vanguardista, de substituir a classe pelo
partido, de tentar impor a consciência
revolucionária a partir de fora, tudo isso
resultando no esforço de subordinar as
massas a uma política revolucionária
definida previamente, muitas daquelas
organizações definiram-se como agremiações
partidárias formadas “de baixo para cima”,
rompendo com o suposto autoritarismo da
experiência leninista.
Talvez a mais incisiva crítica do modelo
leninista tenha sido aquela feita por Carlos
Marighella, um dos principais dirigentes
comunistas desde a década de 1940 que, em
grave divergência com a direção pecebista,
foi expulso do PCB em 1967 e organizou a
Ação Libertadora Nacional (ALN). Em
entrevista à revista trotskista francesa
Front, em outubro de 1969, ele defendeu uma
concepção de partido que, recusando o
centralismo democrático (segundo o qual as
decisões são tomadas a partir do debate
coletivo e, depois de aprovadas, devem ser
seguidas por todos), aderiu à idéia de Regis
Debray, de que o partido seria desnecessário
para a revolução (Emiliano José, Carlos
Marighella, o inimigo número um da ditadura
militar, São Paulo, Editora Sol e Chuva,
1997). Tese que também consta do documento O
papel da ação revolucionária na organização,
da ALN (maio de 1969): “Eliminamos da nossa
organização o sistema complexo da direção
que abrange escalões intermediários e uma
cúpula numerosa, pesada e burocrática” (In:
Daniel Aarão Reis Filho e Jair Ferreira de
Sá (orgs.), Rio de Janeiro, Marco Zero,
1985). E, de forma mais clara, no texto
Sobre a Organização dos Revolucionários
(agosto de 1969): “A organização surge pela
base e não pela cúpula”; ou, indo direto ao
ponto, “O centralismo democrático não se
aplica a organizações revolucionárias como a
nossa”.
Teses como estas teriam, no futuro, forte
influência entre aqueles que buscavam um
partido de tipo novo, e que confluíram na
fundação do Partido dos Trabalhadores, em
1979, configurando-se na defesa de um
partido com tendências internas, ao
contrário do que é preconizado pela tradição
leninista.
Elas tiveram largo curso em setores não
comunistas da esquerda brasileira, e há uma
diversificada defesa de teses dessa natureza
ao longo da história do Partido dos
Trabalhadores.
Uma delas, notável pela autoridade de seu
defensor, destaca a novidade que o PT
representou: em 1990, num seminário
realizado em São Paulo, Perseu Abramo
assegurava que o nascimento do PT significou
uma tripla ruptura: com a ditadura militar,
com os partidos burgueses convencionais, e
com os partidos tradicionais de esquerda. “A
criação do PT é uma clara ruptura com o
Partido Comunista Brasileiro, com o Partido
Comunista do Brasil, com as organizações
trotskistas, com as demais organizações,
que, mal ou bem, na clandestinidade ou não,
estavam ainda em vigência. É uma tentativa
de procurar alguma coisa nova e diferente”,
uma “ruptura total com o que existia em
matéria de política”, disse (Perseu Abramo,
“Aliados, mas nem tanto”. In Estratégia –
uma saída para a crise. São Paulo, Brasil
Urgente, 1991. Textos apresentados em ciclo
de seminários do Instituto Cajamar, outubro
de 1990).
E esta ruptura tinha um significado
preciso: o afastamento dos princípios
organizativos leninistas, e que levaram à
face que o PT tem desde sua origem: um
partido que declara não ter uma filosofia e
aceita a convivência interna de variados
pontos de vista ideológicos ou teóricos; no
qual, dizem seus teóricos, o movimento, as
massas, precedem a direção e que, portanto,
sob o pretexto de não tutelar a luta dos
trabalhadores, foge do papel de vanguarda
que os princípios leninistas atribuem ao
partido do proletariado; onde mesmo o
caráter de classe do programa partidário é
diluído.
Esta concepção pretende construir um
partido transformador, sem uma filosofia
oficial e sem o centralismo democrático.
Declaram-se plurais, isto é, partidos do
socialismo democrático que abrigam “visões
necessariamente diferentes das diversas
camadas trabalhadoras (tomadas em seu
sentido amplo) que coexistem em uma
sociedade cada vez mais diversificada e
complexa”, como quer Tarso Genro, permitindo
a livre e pública veiculação de opiniões
“inclusive as que são minoritárias no
partido” (Tarso Genro, Utopia possível,
Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1994). Um
pluralismo que deixa em segundo plano a
unidade de ação política que a luta dos
trabalhadores exige para ter êxito.
(1) Com a colaboração de Oswaldo Napoleão e
Walter Sorrentino

* José Carlos Ruy, Jornalista, editor
de “A Classe Operária”, é membro do Comitê
Central do PCdoB.
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