Um partido
comunista contemporâneo - 12
Valores militantes – um começo de conversa -
(2ª parte)
Por Olívia Rangel **II –
(Re) construir uma concepção marxista de
ética
O marxismo faz uma aufhebung - supera,
conservando e renovando - um conjunto de
valores, radicalizados numa perspectiva de
sociedade sem alienação, sem exploração de
classes. A época das revoluções proletárias,
com o partido leninista e seus princípios e
valores, dá ensejo a características mais
definidas quanto à força de vanguarda, o
partido comunista de novo tipo. A evolução
dessa experiência deu ensejo à modelação da
3a. internacional e um conjunto de metáforas
sobre o partido - o homem de aço, a têmpera
especial, os pequenos parafusos... com certo
caráter datado.
Em nosso Partido isso também tem reflexos.
Um partido que viveu a maior parte de sua
história na dura clandestinidade, tem uma
política de formação de quadros condicionada
pela necessidade de resistência às
adversidades e à tortura. É daí que surgem
os textos de Diógenes Arruda. Aqui é preciso
se deter melhor na análise desses
documentos, destacando os aspectos mais
duradouros dessa proposta, como a idéia de
que “ser comunista é opção cotidiana, a
preocupação de “honrar o título de membro do
partido”, mas entendendo também que ela é
adequada a uma época determinada na história
do Partido. Mas hoje necessitamos de uma
política de quadros atualizada,
contemporânea, própria para nosso tempo e
para o pensamento estratégico renovado que
estamos constituindo. Como afirma
Sorrentino, “constituímos boas metáforas
quanto ao caráter da militância e da
política de quadros”. Boa parte é válida,
como experiência e tradição. Mas elas
precisam ser renovadas, temos que criar as
novas metáforas, com base em nossa propria
experiência sistematizada, com 21 anos de
legalidade, ligada às tradições de nosso
povo, de nosso país e de nosso novo
pensamento programático-estratégico”.
Hoje, sob o império do neo-liberalismo,
da pós-modernidade, os valores predominantes
são o individualismo exacerbado, da
concorrência e competição cegas, etc. etc.,
que pressionam a perspectiva dos indivíduos,
produz certa anomia social na qual se busca
impor o multi-culturalismo, fragmentando as
experiências de vivências sociais e
políticas. Essa é a pregação atual em torno
do mercado como reitor das relações humanas,
atomizando os indivíduos. É dessa noção que
nasce a idéia do liberalismo exacerbadas
hoje com o neo-liberalismo e que afetam a
noção de militância político-social.
No esforço de permanência e renovação nas
concepções e práticas de partido, de um
partido comunista contemporâneo (que é o
tema central da aula geral no curso), que
valores inculcar na militância? Tendo visto
de onde emanam, e mantido o sentido mais
geral, seria a hora de relacioná-los com o
caráter de nossa luta atual, que é o que já
está mais ou menos explicitado em nossas
formulações atuais:
Como se afirmou no 11º Congresso:
“A construção ideológica do partido se
desenvolve tomando-se por base três aspectos
da vida interna que se inter-relacionam: a
convicção revolucionária de seus membros;
uma política transformadora que corresponda
à dinâmica em curso no país; e uma íntima
ligação com o movimento real dos
trabalhadores. Nas condições do Brasil, essa
construção se faz, também, a partir da
avaliação crítica da experiência de 15 anos
de legalidade do Partido, num ambiente de
prevalência de intensas disputas na esfera
institucional-eleitoral, onde o Partido é
pressionado constantemente pelos valores
neoliberais hegemônicos desse período, no
sentido de se adaptar às possibilidades e ao
estabelecido.Os valores ideológicos
defendidos pelo PCdoB são opostos aos da
elite brasileira. Uma elite submissa,
anacrônica e incapaz de formular e dirigir
um projeto nacional que mude a situação do
país para melhor. Os comunistas cultivam o
sentimento nacional, o orgulho de pertencer
a este povo, a cultura e a arte da terra em
suas múltiplas manifestações e a admiração
pelas lutas históricas que tantos heróis e
mártires produziram. Valorizam o trabalho
produtivo contra a exploração e as
especulação parasitária, as coisas públicas
e coletivas sobre as coisas privadas, a
solidariedade generosa contra o
individualismo mesquinho; ao mesmo tempo,
respeitam a singularidade de cada indivíduo
incentivando-o a desenvolver suas
potencialidades. Combatem a indiferença e o
sentimento de impotência - disseminados pela
burguesia -, diante da situação vigente,
procurando despertar o interesse pela vida
política e descortinando uma perspectiva
transformadora. O PCdoB estimula o combate
aos preconceitos existentes, sobretudo os
étnicos, raciais e de gênero, que foram
amplamente impregnados na sociedade
brasileira pelas classes dominantes e que
são manifestos aberta ou sutilmente. Afirma
sua luta por direitos iguais para todos,
para que as diferenças entre os indivíduos
floresçam e sejam respeitadas. A luta por
tais valores é parte integrante do combate
político por uma nova sociedade”.
Somos um partido de luta pelo socialismo,
que exige rupturas progressivas, portanto de
sentido revolucionário. Não somos um partido
democrático, popular patriótico apenas.
Portanto, militância comunista pressupõe
aquisição de conhecimentos científicos e
ampla formação cultural, de sentido
humanista. Trata-se de obter uma formação
marxista, que é a ciência e ideologia
revolucionária do proletariado. Isso não
basta: é preciso aplicar essa formação
marxista à apreensão da realidade do tempo e
do país, mergulhar na concretude do real,
não deixar de inquirir a realidade de nosso
povo e nosso país, não se bastar com
doutrinarismo. Portanto, falamos de marxismo
+ Brasil. Ainda mais: cultivar o
internacionalismo, mas também a luta
patriótica pela soberania nacional. O que
implica cultivar valores de fidelidade à
causa transformadora, ao proletariado, ao
povo e ao partido.
Como se afirmou no 11º Congresso:
“A construção ideológica do partido se
desenvolve tomando-se por base três aspectos
da vida interna que se inter-relacionam: a
convicção revolucionária de seus membros;
uma política transformadora que corresponda
à dinâmica em curso no país; e uma íntima
ligação com o movimento real dos
trabalhadores. Nas condições do Brasil, essa
construção se faz, também, a partir da
avaliação crítica da experiência de 15 anos
de legalidade do Partido, num ambiente de
prevalência de intensas disputas na esfera
institucional-eleitoral, onde o Partido é
pressionado constantemente pelos valores
neoliberais hegemônicos desse período, no
sentido de se adaptar às possibilidades e ao
estabelecido. Os valores ideológicos
defendidos pelo PCdoB são opostos aos da
elite brasileira. Uma elite submissa,
anacrônica e incapaz de formular e dirigir
um projeto nacional que mude a situação do
país para melhor. Os comunistas cultivam o
sentimento nacional, o orgulho de pertencer
a este povo, a cultura e a arte da terra em
suas múltiplas manifestações e a admiração
pelas lutas históricas que tantos heróis e
mártires produziram. Valorizam o trabalho
produtivo contra a exploração e a
especulação parasitária, as coisas públicas
e coletivas sobre as coisas privadas, a
solidariedade generosa contra o
individualismo mesquinho; ao mesmo tempo,
respeitam a singularidade de cada indivíduo
incentivando-o a desenvolver suas
potencialidades. Combatem a indiferença e o
sentimento de impotência - disseminados pela
burguesia -, diante da situação vigente,
procurando despertar o interesse pela vida
política e descortinando uma perspectiva
transformadora. O PCdoB estimula o combate
aos preconceitos existentes, sobretudo os
étnicos, raciais e de gênero,que foram
amplamente impregnados na sociedade
brasileira pelas classes dominantes e que
são manifestos aberta ou sutilmente. Afirma
sua luta por direitos iguais para todos,
para que as diferenças entre os indivíduos
floresçam e sejam respeitadas. A luta por
tais valores é parte integrante do combate
político por uma nova sociedade”.
Um Partido assim tem uma determinada
ética, de sentido republicano, de respeito à
coisa pública. Valoriza a solidariedade,
combate o individualismo. Cultiva o
sentimento de orgulho de pertencer ao povo,
valoriza a história de suas lutas, seus
heróis e mártires. Combate a indiferença e o
sentimento de impotência diante da situação
vigente de exploração. Valoriza a noção de
militância (com conceito renovado) como
empenho de energias a serviço de uma
sociedade justa e solidária. Valoriza a
abnegação nessa luta, a sinceridade no trato
com seus pares, o espírito partidista em
torno da força decisiva da transformação
social, é o partido comunista.
É na prática de um partido de tipo militante
e transformador que vamos fazendo essa
re-construção da concepção marxista de
ética. Sabendo que sustentar esses valores
hoje é não só indispensável para erigir esse
partido, como também é parte da luta
ideológica e política que se trava na
sociedade, indissociável da batalha cultural
envolvendo o proletariado e amplas massas,
implicada na luta pela hegemonia. O Partido
é o prenúncio da sociedade futura.
Referências bibliográficas
ENGELS, Friedrich. Ludwig Feuerbach e o
fim de filosofia clássica alemã. Obras
Escolhidas Marx/Engels, V. III, Alfa Ômega,
São Paulo.
ÉRNICA,Maurício; ISAAC, Alexandre e MACHADO
Ronilde Rocha - O direito de ter direitos.
http://www.educarede.org.br/educa/html/indexoassuntoe.cfm
Estatutos do PCdoB
GUASCO, Madalena. A ética marxista. In NETO,
Henrique Nielsen (org.). O ensino da
Filosofia no 2º Grau. São Paulo: Sofia
Editora, 1986.
HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. São
Paulo, Paz e Terra, 1970.
MARX, Karl E ENGELS, Friedrich. A Ideologia
Alemã. São Paulo, Martins Fontes, 1989
POMPE, Carlos. Ética, questão de classe.
Jornal a classe operária.
RANGEL, Olívia – Sobre ética e valores. In
Princípios
VAZQUES, Adolfo Sanches. Ética. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira, 1992
LÖWY, Michael e BETO, Frei. Valores de uma
nova civilização. Texto inicial apresentado
para a Conferência Princípios e Valores da
nova sociedade do FSM 2002.
Anexo
Capítulos e artigos dos Estatutos do PCdoB
que se referem a valores militantes
CAPÍTULO I – DO PARTIDO
Artigo 1º –
O Partido Comunista do Brasil luta contra a
exploração e opressão capitalista e
imperialista. Visa à conquista do poder
político pelo proletariado e seus aliados,
propugnando o socialismo científico. Tem
como objetivo superior o comunismo.
Afirmando a superioridade do socialismo
sobre o capitalismo, almeja retomar um novo
ciclo de luta pelos ideais socialistas,
renovados com os ensinamentos da experiência
socialista do século XX, e desenvolvidos
para atender à realidade do nosso tempo e às
exigências de nosso país e nossa gente. Ao
mesmo tempo, no espírito do
internacionalismo proletário, apóia a luta
antiimperialista de todos os povos por sua
emancipação nacional e social, soberania
nacional e pela paz mundial.
O Partido Comunista do Brasil é uma
organização de caráter socialista,
patriótica e antiimperialista, expressão e
continuação da elevada tradição de lutas do
povo brasileiro, de compromisso militante e
ação transformadora contemporânea ao século
XXI, inspirados pelos valores da igualdade
de direitos, liberdade e solidariedade, de
uma moral e ética proletária, humanista e
democrática.
CAPÍTULO II – DOS MEMBROS DO PARTIDO
Artigo 5º -
[...] Os(as) militantes esforçam-se
continuamente por aumentar seus vínculos com
os trabalhadores e o povo, e elevar seu
nível de cultura e consciência política.
Devem zelar pelo honroso título de militante
comunista, cultivando elevados padrões
éticos e morais, de solidariedade ao povo e
respeito à coisa pública, sendo exemplo de
luta, honradez e sinceridade com seus
companheiros e companheiras.
Artigo 6º -
Todo(a) militante do Partido tem os mesmos
direitos e deveres.
II-
e) combater todas as formas de opressão e
prestar solidariedade aos que são alvo de
quaisquer manifestações de perseguição
política ou discriminação social, de gênero,
racista ou étnica, de orientação sexual,
religião, e as relativas à condição da
criança e do adolescente, dos idosos e
portadores de necessidades especiais;
hipotecar plena solidariedade à luta dos
trabalhadores e dos povos em defesa da
soberania nacional e de sua emancipação
social, pela paz e contra o imperialismo.
CAPÍTULO III – OS QUADROS DO PARTIDO
Artigo 7º –
Os quadros são a coluna vertebral da
estrutura partidária. São os principais
responsáveis pela unidade do Partido em
torno de seus princípios e de sua
orientação, bem como pela permanente
construção política, ideológica e orgânica
do Partido. São os cumpridores exemplares
dos deveres dos militantes.
Os quadros se formam mediante processo
laborioso e prolongado, combinando o
trabalho coletivo e o esforço individual.
Sua progressiva educação comunista pressupõe
assumir e cumprir as tarefas partidárias que
lhe são delegadas, delas prestando contas,
com espírito crítico e autocrítico e zelo
pela causa partidária. Seu firme compromisso
ideológico com a causa socialista, seu
desprendimento e dedicação às tarefas que
lhe foram designadas, ligação com o povo,
firme disciplina pessoal e salvaguarda do
centralismo democrático na vida partidária
são o maior estímulo à coesão e à força do
Partido.
Artigo 8º –
A política de quadros do Partido estimula em
todos os níveis a sua formação e
acompanhamento permanente, avaliação,
promoção e distribuição, com base em
critérios que atendam aos interesses do
coletivo, de acordo com a capacidade,
potencialidade e disponibilidade de cada um,
numa soma de esforços. Define as tarefas
principais para as quais são destacados(as)
no trabalho partidário. Combate tendências
alheias à cultura política dos comunistas,
como favoritismo, carreirismo,
individualismo, burocratismo e práticas
corrompidas. Valoriza os(as) que atuam como
profissionais da atividade partidária,
promovendo sua crescente capacitação
política e técnica, cultural e ideológica,
seu papel social e político. Postula
equilíbrio entre a preservação de
experiência e a alternância das funções
desempenhadas pelos quadros na atividade
partidária, como fator de educação
continuada dos comunistas.
CAPÍTULO X – ATUAÇÃO DOS COMUNISTAS
NAS ENTIDADES E MOVIMENTOS SOCIAIS
Artigo 49 –
Os trabalhadores da cidade e do campo,
aliados às amplas massas populares, à
juventude e à intelectualidade avançada são
as forças-motrizes centrais do projeto
político do Partido. O Partido prioriza a
ação entre os trabalhadores, tendo presente
também o movimento juvenil e estudantil,
comunitário e demais movimentos das camadas
populares, entre eles os das mulheres, dos
negros, dos indígenas, movimentos culturais,
artísticos, de defesa ambiental, de
liberdade de orientação sexual, de promoção
dos direitos humanos, dos aposentados, das
crianças e adolescentes, de minorias
oprimidas e discriminadas, das causas
democráticas e progressistas em geral, pela
paz e pela solidariedade internacional entre
os povos. Combate tendências corporativistas
e articula a prática desses diversos
movimentos com a luta política, conforme a
orientação do Partido.
CAPÍTULO XI – ATUAÇÃO DOS COMUNISTAS
EM CARGOS PÚBLICOS DE REPRESENTAÇÃO DO
PARTIDO
Art. 59 -
a) zelar pelo nome do Partido, desempenhando
suas funções com probidade, respeito à causa
pública e aos direitos do povo, e delas
prestando contas regularmente ao seu
organismo;
b) empenhar-se no combate a práticas
pragmáticas e burocratizantes próprias da
atuação no seio do Estado vigente, manter
hábitos, padrão de vida e laços sociais
próprios de seu meio de origem;

** Olívia Rangel, jornalista, é membro do
Comitê Estadual de São Paulo.
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