Um partido
comunista contemporâneo - 10
A relação partido-movimentos
Walter
Sorrentino* (1)
Nas polêmicas atuais sobre o partido
político do proletariado sem dúvida o
aspecto mais saliente é o da relação
partido-movimentos. Aí se manifesta de forma
concentrada a exigência de uma visão
dialética entre objetividade e
subjetividade, entre espontaneidade e
consciência.
Já se disse que o enfrentamento das
polêmicas atuais sobre a questão é modo de
desenvolver a teoria de partido. Esse
desenvolvimento precisa ser permanente, na
concepção e prática, porque é a própria
realidade que está em permanente renovação.
É a condição presente para enfrentar as
pressões atuais sobre o papel dos partidos
políticos, particularmente os de sentido
classista e transformador. Isso invoca
examinar as relações e conflitos sociais da
atualidade, que dão ensejo a novos
sujeitos e novos padrões de consciência
e luta, e adequar o partido à singularidade
do tempo, em funcionalidade com seu
pensamento estratégico para o presente.
O mais saliente nesse debate tem sido a
relação partido-movimentos. É o principal
debate presente na esquerda, hoje. Numerosos
pensadores inclinam-se, em variadas medidas,
a novos sujeitos sociais e a novas apologias
de espontaneísmo. No interior do Fórum
Social Mundial se teoriza sobre o assunto,
buscando dar corpo a uma estratégia de
movimentismo. Alguns partidos comunistas
inclinam-se mais ou menos decididamente
nessa direção; outros perseveram nos
fundamentos, resistindo sobre o caráter do
Partido Comunista e suas características
fundamentais, mas sob a pressão de
permanecerem entrincheirados face à
realidade dos movimentos sociais. Outras
experiências originais – mantida a saudável
ortodoxia – vão sendo feitas por variadas
forças comunistas que resistem e buscam
retomar alternativas avançadas. Nos países
socialistas a questão não se pôs fortemente
ao nível de reflexão e elaboração.
No pensamento e prática de Lênin há uma
relação dialética, e não de pura e simples
oposição, entre movimento e partido, entre
espontaneidade e consciência. Mas é clara a
necessidade de um partido político, que
realize a síntese e mediação entre os
interesses em confronto e um projeto
político de poder para uma nova sociedade.
Nas palavras de Gramsci, retomando Lênin, um
partido assim precisa realizar a unidade
entre espontaneidade e direção consciente.
Há tons forçados no debate sobre a
relação partido-movimentos, sobretudo “do
lado de lá”, particularmente contra o que
representa o partido comunista. Há
exigência, “do lado de cá”, de um diálogo
crítico, afirmando a prevalência da
necessidade de uma consciência
revolucionária e perspectiva programática
transformadora, papel essencial dos
partidos, mas penetrando com eles no real,
relacionando-os com as formas de consciência
espontânea e semi-espontânea que vão se
repondo. O Partido não se contrapõe a
movimentos (pelo contrário se alimenta
deles); contrapõe-se, sim, a uma determinada
estratégia política, a do movimentismo, em
oposição e substituição ao papel dos
partidos políticos dos trabalhadores.
Trata-se aqui de novas formas de apologia
ao espontâneo, de negação da política como
forma elevada da consciência social e
transformadora. A forma que tem assumido,
particularmente a partir desse grande
fenômeno do tempo que é o Fórum Social
Mundial, tem sido a negação aberta da luta
pelo poder político, a emergência de novos
sujeitos sociais em lugar da centralidade do
trabalho e do proletariado, a negação dos
partidos de vanguarda do proletariado e sua
centralização organizativa. Essencialmente,
é uma tentativa de reação ao que representam
os partidos ou frentes de tipo
revolucionário. Essa estratégia movimentista
se apóia na idéia de “mudar o mundo sem
tomar o poder”, a partir de um discurso
libertário, soi disant
“pós-marxista”. Seus epígonos podem ser
encontrados no Zapatismo, na obras de Toni
Negri e Michal Hardt, John Holloway, Richard
Day, Michal Albert. Segundo um dos epígonos
do Fórum, Chico Whitaker, são necessárias
“lógica de redes, não a lógica piramidal”.
Contudo, ressalte-se, é produto de procura
de respostas frente aos novos padrões de
reprodução da exploração e dominação
capitalistas, vale dizer, padrões
modificados das relações sociais e da luta
de classes na atualidade, cuja investigação
não pode ser recusada.
Por outro lado, nesse diálogo crítico, há
que considerar a exigência de o Partido, em
sua estrutura e ação, refletir melhor os
conteúdos, formas e desenvolvimentos das
relações sociais do presente, seus sujeitos
e conflitos concretos de classes e estratos,
com vistas a dar conseqüência a seu
pensamento estratégico. Isso aponta para
novos papéis, caráter, feições e
características de estruturação do partido
dos comunistas. Entretanto, não se trata de
ficar refém da consciência espontânea, que
não abre perspectivas de uma nova sociedade,
ou permanecer no campo do doutrinarismo
sectário, sem adesão de classe por parte dos
trabalhadores.
O modelo único de Partido, oriundo do
código da 3ª. Internacional, é pouco
funcional aos dias de hoje, reflete de modo
cada vez mais imperfeito os conteúdos e
formas das relações sociais e da luta de
classes, e mesmo das exigências da vida
interna do Partido. Fala-se aqui
particularmente de noções datadas como as
das “correias de transmissão”, que punha em
questão a necessária autonomia dos
movimentos sociais, ou a noção de “assalto
aos céus” como modelo estratégico geral,
desconhecendo, na prática, a longa e
tormentosa batalha pela hegemonia das
idéias, antes, durante e após a tomada do
poder político. Fala-se também, como já foi
analisado na experiência de degenerescência
do Partido Comunista na primeira experiência
socialista a partir da URSS, da deformação
prática de um partido em substituição à
classe ou a fusão Partido-Estado.
O PT constituiu importante paradigma
diante dessas questões. Na medida em que
recusa abertamente o inventário da luta
revolucionária do século XX, com seus
êxitos, vicissitudes e derrotas, resta
relativamente desarmado para fazer frente às
intempéries da luta de classes em suas
múltiplas dimensões, como o atesta a prática
destes últimos anos. Mas isso é tema para
uma coluna específica.
Vista de conjunto, para os comunistas
essa reflexão aponta para uma atualização de
concepções e práticas de Partido, mantida a
noção central de um partido de compromisso
militante, de unidade ideológica e política
e de classe. A questão de fundo é que se
abriu terreno para examinar a questão do
partido político do proletariado em sua
autonomia relativa dentro do corpo teórico
do marxismo e do leninismo. É matéria que
exige permanente desenvolvimento da teoria e
prática, que não está codificada e confinada
a um receituário pronto e acabado. Isso é
alvissareiro: convoca a todos e todas a dar
desenvolvimento dos variados componentes da
matéria – da teoria e concepção de partido,
da ação política e de massas, das normas e
valores militantes, o mergulho na realidade
social, e a atualização de um pensamento
programático e estratégico consentâneo com
as exigências deste tempo.
Como disse um dirigente do PC (M) da
Índia, podemos pensar erguendo-nos sobre os
ombros de Lênin, para enxergar mais longe e
vastamente, mas não com sua cabeça pois ela
cessou de trabalhar e estava voltada para
seu tempo. Temos que pensar com nossas
próprias capacidades e experiências,
aproveitando o proveitoso legado que ele nos
deixou.
(1) Com a colaboração de José Carlos Ruy e
Oswaldo Napoleão.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br
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