Um
partido comunista
contemporâneo - 1
Nas próximas semanas, esta coluna
publicará uma série de textos de conteúdo
teórico, político e organizativo sobre o
tema Partido Comunista na atualidade. Foram
desenvolvidos em aulas proferidas no Curso
Nacional para formadores, durante três anos
consecutivos, que permitiram um diálogo
muito frutífero e seu aprimoramento.
Esta série conta com a
colaboração de José Carlos Ruy, jornalista e
membro do Comitê Central do PCdoB, e de
Oswaldo Napoleão Alves, membro da Comissão
Nacional de Organização. O interesse
pelo tema motiva sua publicação para a todos
quantos compreendem a indispensabilidade de
um Partido Comunista como força decisiva da
transformação social.
Por Walter Sorrentino*
O debate sobre o tema Partido não tem sido,
em nosso tempo, alvo de exame sistemático do
movimento comunista. A causa principal disso
é a dispersão teórica, com seu efeito sobre
as convicções revolucionárias, e a certa
conduta inercial de fundo dogmático. Mas
também decorre da insuficiente maturação de
um pensamento estratégico revolucionário em
resposta às necessidades de nosso tempo, ao
qual se deve adequar o Partido Comunista.
Vivemos um novo tempo, distinto daquele em
que foi elaborada a teoria leninista de
Partido. Desenvolve-se outra configuração do
modo de reprodução e dominação
capitalista-imperialista, levando a outros
desenvolvimentos das classes e lutas
sociais. A derrota sofrida pela primeira
experiência socialista no século XX impôs
um tempo de defensiva estratégica, de
acumulação estratégica de forças, para
retomar um novo ciclo de lutas pelo ideal
socialista, este também renovado a partir
das lições extraídas daquela experiência.
De outra parte, atuando nessas condições, há
uma enorme pressão ideológica que se abate
sobre os Partidos de concepção e prática
revolucionárias, pressão tendente a rebaixar
o papel estratégico do Partido Comunista.
Que fazer frente a tantos elementos novos?
Sustentamos que ainda não maturou a
realidade objetiva para dar ensejo a uma
reinvenção do partido de tipo leninista. Daí
decorre a condição de apreender a teoria
leninista do Partido de modo contemporâneo,
em sua essência dialética e em sua
historicidade, ligada à construção do
pensamento estratégico do tempo presente,
não necessariamente em sua manifestação
concreta na forma do bolchevismo soviético
do século passado.
O PCdoB é tributário de um caminho de
permanência com renovação nas
concepções e práticas de Partido Comunista.
Busca realizar um aggiornamento,
sem se perder com respeito aos
fundamentos de um partido de tipo
leninista.
Permanência porque é fator decisivo para a
identidade comunista. Renovação porque é uma
exigência a desenvolver o pensamento de
partido: o apego a um modelo concebido para
uma determinada época, em função de outro
pensamento estratégico, pode se tornar
disfuncional se não reagir ao tempo. E,
ainda uma vez, permanência porque ao
responder às novas exigências o Partido pode
perder-se nas novas condições estratégicas.
Ou seja, de um lado o doutrinarismo e
esquematismo, de outro o pragmatismo e a
perda de perspectivas de rupturas políticas
transformadoras.
Desde o 8º Congresso, em 1992, o PCdoB vem
acumulando reflexão sobre o tema, chegando a
uma nova síntese no 11º Congresso, em 2005.
No fundo, a questão do Partido vai sendo
repensada em função do amadurecimento da
reflexão programática e estratégica, e
também pela sistematização de nossa
trajetória. Que percurso se fez desde então?
De onde se partiu, que polêmicas estão
postas, como se situa hoje o tema Partido? E
que conseqüências extrair para a linha de
estruturação partidária?
Abrir novos horizontes é indispensável, o
que nos leva a novas questões e novos
riscos. Esse é o tema deste conjunto de
artigos, que serão publicados nesta coluna.
Vai-se partir do abstrato ao concreto.
Partir da teoria porque nada justifica
deixar de tratar o tema Partido como tema
teórico, que não pode ser engessado em
modelos, de forma a-histórica; é tema
sujeito, portanto, a novos desenvolvimentos.
E chegar ao concreto, da construção prática
de uma força militante e transformadora,
fixando a singularidade que marca o
pensamento programático e estratégico no
atual nível de elaboração, e extrair daí as
conseqüências político-organizativas.
As aulas ministradas foram desenvolvidas em
duas partes, com seis textos de suporte e
uma bibliografia complementar. Aqui, elas
serão divididas em seções, publicando na
íntegra o conteúdo, inclusive dos textos de
suporte, duas vezes por semana, ao longo dos
próximos dois a três meses. A ordem será a
seguinte:
Na primeira parte, vai-se reconstituir o
percurso do esforço de renovação de
concepções e práticas de Partido. Serão
abordados:
1. Os pilares
essenciais da teoria leninista de partido
-
O primado da
consciência – partido de vanguarda
Texto de suporte: Universalidade e
historicidade de Que
fazer?
-
O sujeito
histórico central da transformação social
-
O
centralismo democrático como princípio
diretor da organização
-
Conclusões
2.
As polêmicas atuais sobre a questão do
partido político revolucionário do
proletariado
-
o tema da
crise “orgânica”
-
o tema da
degenerescência do Partido Comunista
-
a relação
partido-movimentos
-
Leninismo,
nas condições do tempo e do país
Texto de suporte: Uma polêmica
sobre a concepção de partido que prevalece
no PT
3. Partido
para dar conseqüência ao pensamento
estratégico de nosso tempo em nosso país
Na segunda parte, vai-se focar o debate
sobre a singularidade da construção
partidária no tempo atual:
1.
O 11º Congresso do PCdoB, a
singularidade política e as defasagens
atuais da construção partidária
2.
A linha política de
estruturação e organização partidária
3.
Valores de militância
comunista
4.
O elo central: política de
quadros atualizada e eficaz
A bibliografia sobre o tema é muito vasta.
Mais estritamente sobre os temas abordados,
muito úteis a quem for aprofundar cada um
deles, são os seguintes textos.
LÊNIN – Que Fazer?,
disponível em várias edições
GRUPPI, Luciano – O pensamento de Lênin –
o partido revolucionário, p. 19-47,
Graal, 1979
GERRATANA, Valentino – Stalin, Lênin e o
marxismo-leninismo, in História do
Marxismo, org. Eric Hobsbawm, vol. 9, p.
221-247, Paz e Terra, 1987
JOHNSTONE, Monty – Um instrumento
político de tipo novo: o partido leninista
de vanguarda, in História do Marxismo,
org. Eric Hobsbawm, vol. 9, p. 221-247, Paz
e Terra, 1987
BURGIO, Alberto – Per uma lettura del
‘Che Fare?’ oggi, in Lênin e il
novencento, org. Domenico Losurdo e Ruggero
Giacomini, p. 446-469, Istituto italiano per
gli studi filosofici, Ed. La cittá del sole,
Itália, 1997
AMAZONAS, João – Força decisiva da
revolução e da construção do socialismo, in
Os desafios do socialismo no século XXI,
p. 31 a 38, Ed Anita Garibaldi, 1999
SORRENTINO, Walter – Questões de Partido
- coletânea de artigos, Ed. Anita
Garibaldi, 2004
VALADARES, Loreta – Qual Partido? In
Princípios n.23 (nov1991-jan1992),
republicado no livro Questões de Partido,
Ed. Anita Garibaldi, 2004
RUY, José Carlos – Marx, Engels e Lênin –
um partido proletário para construir o poder
proletário, in Questões de Partido,
Ed. Anita Garibaldi, 2004
MORAES, Jô – O papel dos movimentos no
‘assalto aos céus’, in Questões de
Partido, Ed. Anita Garibaldi, 2004
BUONICORE, Augusto – Gramsci, Lênin e a
questão da hegemonia, in Questões de
Partido, Ed. Anita Garibaldi, 2004
BUONICORE, Augusto – Lênin e o partido de
vanguarda, in Princípios nº 69, Ed Anita
Garibaldi
CARVALHO, José Reinaldo – Partido e
movimento de massas, in III Seminário
Político Latino-americano e europeu, Chile,
9 jan 2004
9ª. Conferência Nacional, PCdoB, 2003
1º Encontro Nacional sobre Questões de
Partido – Um partido para o novo tempo,
PCdoB, 2004
2º Encontro Nacional sobre Questões de
Partido – Implementar a política do partido
entre os trabalhadores e trabalhadoras por
intermédio deles – fator estratégico para o
projeto do PCdoB e para o futuro do Brasil,
PCdoB 2005
Resolução política do 11º Congresso e
Estatuto do PCdoB, PCdoB, 2005

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br
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