Walter
Sorrentino*(1)
Que fazer? de Lênin, do
início do século passado, é antes de
mais nada um livro sobre a
estratégia a ser adotada pelos
grupos revolucionários da velha
Rússia. Compreende-se que, naqueles
marcos, a questão de construir um
partido político independente do
proletariado surgia como o fator
decisivo. Vai dar ensejo à
formulação de partidos
revolucionários de novo tipo,
face às novas realidades advindas do
desenvolvimento do capitalismo e da
luta de classes do tempo.
Lênin fundamenta a noção do
partido de vanguarda,
elaborador-portador da teoria
revolucionária, a qual não surge
espontânea e diretamente do
confronto econômico entre operários
e patrões. A consciência vem “de
fora” dessa relação imediata.
Sabe-se que Lênin partiu de
formulação de Kaustky, bastante
mecanicista a esse respeito.
Entretanto, o próprio Lênin, durante
esses anos (reconhecendo-o em 1912)
se negara a tratar Que fazer?
fora do âmbito do debate então
travado: tratava ele de corrigir a
“curvatura do bastão” dos
economicistas, em suas próprias
palavras.
Que fazer? faz a crítica da
visão evolucionista e do seguidismo
que caracterizavam a corrente
economicista, predominante na
interpretação da 2ª. Internacional.
Lênin faz a apologia do partido
político em oposição à perspectiva
estreita daquela corrente. Marcante
nesse sentido é o recorrente apelo
de Lênin, no livro, para que se
observe “todos os aspectos da vida
social”, “todos os aspectos da vida
política”, voltar a atividade do
partido a “todo o povo”, “todas as
classes da população”, observando a
relação entre “todas as classes”,
explicar a “todos” o significado
histórico mundial da luta
emancipadora do proletariado
(Burgio). Portanto, é central a luta
contra a concepção corporativa da
própria identidade e função do
partido. Isso é um aspecto central e
mais que nunca atual para o
pensamento de partido. Com o Partido
Comunista se define teórica e
politicamente “a autonomia da classe
operária, como expressão da sua
capacidade de se fazer intérprete e
protagonista do processo político
que envolve toda a sociedade”
(Gruppi). Portanto, quando ele diz
que a consciência vem “de fora”,
indica que ela não provém da
experiência imediata da relação de
exploração, mas da visão crítica
global da sociedade. Ela vem da
parte do partido, que observa
o campo das relações recíprocas
entre todas as classes. O Partido é
assim a fusão do elemento consciente
com o elemento espontâneo.
Ao mesmo tempo, Lênin demarca com o
determinismo mecânico e o
positivismo. Movendo-se no campo do
determinismo materialista (que nega
o fatalismo e, ao contrário,
fortalece o próprio terreno para uma
ação racional), Lênin “correlaciona
partido e movimento real, iniciativa
revolucionária e situação objetiva,
sujeito e objeto, com forte destaque
ao sujeito revolucionário” (Gruppi).
Formas de determinismo estrito e
mecânico nesse terreno são fatais
para a ação revolucionária. Nessa
armadilha envolveram-se muitos,
entre os quais o próprio Stalin.
Conduzem o partido a uma formação
monolítica e monocéfala, de “homens
e mulheres de aço”, exigindo não
raro mediações de ordem moral,
beirando a religião, para definir a
militância. A experiência soviética,
no limite, demonstrou onde pode
levar tal caminho, ossificando a
forma-partido, impondo a obediência
a-crítica e desarmando
ideologicamente o proletariado em
sua luta. O mais certo é que não se
deveria derivar diretamente de
Que fazer? uma filosofia sobre a
origem da consciência
revolucionária, que não foi esse o
escopo da obra.
Tampouco se poderia derivar da
formulação leninista naquela obra um
determinado modelo de forma
organizativa qual seja, a de um
partido fechado, de quadros, de
predominante atividade ilegal ou
clandestina, do doutrinarismo de um
partido de puros, “poucos mas bons”.
Ou seja, de um leninismo
doutrinário. No fundo, a demarcação
é política no sentido de não
conceber a organização como fim em
si mesma e não fazer a apologia da
passividade, do sectarismo, da
relação mecânica entre condições
objetivas e subjetivas. O próprio
Lênin flexibilizaria suas
formulações já no auge da revolução
de 1905 (Sobre a reorganização do
partido) e também posteriormente
(Novas tarefas, novas forças).
É notória, e deveria ser mais
valorizada, a flexibilidade e
sensibilidade de Lênin para adaptar
o partido às condições e exigências
dos diversos momentos da luta de
classes. Nessa armadilha
envolveram-se muitas organizações,
presas do sectarismo e dogmatismo,
pela “esquerda”, bem como outras,
que diluíram seu caráter
revolucionário sob a bandeira da
renovação, pela “direita”. Pense-se
no ex-PCI eurocomunista ou mesmo na
experiência brasileira do atual PPS.
Em suma, o partido não pode ser
concebido como uma organização
apartada do movimento real. Na
relação espontâneo-consciente em
Lênin, o espontâneo é uma forma
embrionária do consciente. O partido
é a predominância do fator
consciente, mas se alimenta
permanentemente do fator espontâneo
da luta dos trabalhadores,
generaliza-a e dá-lhe uma
perspectiva política de ruptura. Não
se deve contrapor mecanicamente uma
“espontaneidade privada de
consciência a uma consciência
estranha ao movimento espontâneo” (Gerratana).
De essencial, não confundir
espontaneidade – que não cessa de se
repor na luta real - e espontaneísmo,
que é sua apologia.
A consciência está em primeiro plano
para o partido revolucionário. As
bases fundantes do Partido estão,
como já se disse, em primeiro lugar,
na teoria. O marxismo é teoria e
ideologia do proletariado
revolucionário. Mas, ao mesmo tempo,
as condições nas quais se forma essa
consciência se alteram
historicamente.
Tais polêmicas não cessam de se
repor ao movimento e devem ser
confrontadas, como exigência para o
avanço do pensamento marxista e
leninista. Por ora, centremos a
atenção no essencial: o componente
ideológico, ou seja, a concepção de
mundo emanada da teoria marxista,
classista e revolucionária, é
central à retomada da perspectiva
transformadora. Dela derivam os
valores da tenacidade, dedicação e
heroísmo na luta revolucionária.
Materializa-se em homens e mulheres
militantes, conscientes, que adotam
uma perspectiva de ruptura com a
ordem atual, dedicam energias ao
movimento transformador, organizados
em seu partido de classe. Sem homens
e mulheres assim não há partido de
ação revolucionária. Como o fazem e
em que condições – e como se formam
tais homens e mulheres -, não está
escrito nas estrelas. Exigem ser
enfocadas nas condições do tempo
contemporâneo e da perspectiva
estratégica. Daí a noção de
universalidade e historicidade de
Que fazer?

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário
Nacional de Organização do PCdoB.
waltersorrentino@pcdob.org.br