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Um partido
comunista contemporâneo - 19
A singularidade atual da construção
partidária
André Bezerra*
O Partido Comunista do Brasil vem, desde
1997, perseguindo com mais determinação a
necessária tradução da linha política da
construção partidária para os nossos dias.
Desde o início conformou-se a visão de que
precisamos entendê-la como parte de um
sistema que se compõe de aspectos políticos,
ideológicos e orgânicos. Assim, não podemos
simplesmente ver a construção partidária
como algo meramente vinculado à organização,
stricto sensu.
A construção partidária é permanente e
deve ter suas peculiaridades afirmadas para
um determinado tempo político e serem
interpretadas através do que chamamos de
estruturação partidária. Nela incorporamos
as necessárias mudanças e imposições da
situação política temporal e da luta de
idéias em nosso país, que se consubstanciam
em planos de estruturação e podem
possibilitar ao PCdoB ser capaz de enfrentar
novos dilemas e desafios em todas as frentes
de atuação partidária, consolidando práticas
anteriores e alcançando novas formas de
abordagem e inserção. Já se vão dez anos
desde os primeiros passos dados com esta
fundamentação e que já foi motivo de vários
artigos e documentos partidários.
A partir da vitória de 2002, com Lula na
presidência da República, entramos em um
novo ciclo político no país e uma nova fase
histórica da vida partidária se iniciava,
qual seja, construir o partido num ambiente
politicamente mais propício e avançado do
ponto de vista democrático e, por isso
mesmo, também mais carregado de necessárias
ousadias no âmbito da estruturação
partidária.
Sabemos que as concepções e práticas de
partido são determinadas pelo nosso projeto
político estratégico – o socialismo – e
pelas características da formação social de
nossa sociedade. As linhas de acumulação
estratégica de forças precisam ser
desenvolvidas com base na nossa visão tática
e estratégica, de que o momento é de
resistência e acumulação revolucionária de
forças. Fazer isto reafirmando nossos
princípios e identidade socialista para
enfrentar este inverno ideológico, período
histórico de defensiva estratégica. Isto
determina quais características são
necessárias à construção partidária atual.
A forma contemporânea de estruturar o
partido revolucionário renovado para seu
maior crescimento é encarar as
responsabilidades e desafios políticos da
atualidade enfrentando pressões contrárias a
seu caráter, o que nos impõe a necessidade
de dispor de um número cada vez maior de
quadros dirigentes partidários com fortes
convicções ideológicas e capacitados
politicamente. No 11º Congresso
compreendemos que “a chave para os futuros
desafios do partido é, agora, formar larga
estrutura de quadros, de nível superior,
intermediário e mesmo de base, assentada
numa profunda compreensão da exigência de
unidade de ação de todo o Partido”. Esta é a
maior singularidade e desafio que se
apresenta no momento para a estruturação
partidária posicionar o partido numa época
de maior ousadia política, de grande
destaque da participação na frente
institucional, de alargamento de sua
militância, de interiorização das estruturas
dirigentes para mais de dois mil municípios
brasileiros e que pode ter como risco
principal o burocratismo e pragmatismo.
Frentes política, social e de idéias
As linhas de acumulação estratégica de
forças devem envolver de forma dialética, a
necessária construção e participação dos
comunistas na luta política, na luta social,
e na luta de idéias. Não podemos absolutizar
nossa intervenção em nenhuma delas e nem
concebê-las separadamente. Cada uma tem suas
peculiaridades e contribui estreitamente
para nosso crescimento e estruturação
partidária. Na luta política contemporânea
precisamos nos integrar, também, plenamente,
à luta eleitoral como forma de se apresentar
como alternativa para o conjunto da
população e não apenas para um estrato
delas, como acontece nas eleições de
candidatos proporcionais. Na luta social,
reforçar os nossos laços e instrumentos de
participação nas lutas dos movimentos
sociais, com os diversos lutadores das
causas maiores e cotidianas dos
trabalhadores e do povo brasileiro. Na luta
de idéias, contribuir para elaboração e
reforço de um projeto nacional de
desenvolvimento com valorização do trabalho,
democrático, com soberania e justiça social,
assim como participar dos grandes temas e
polêmicas políticas e ideológicas de nossa
época.
Porém, ao adentrarmos neste mar revolto e
nunca d´antes navegado pelos comunistas
nesta dimensão, é importante perceber que
estamos sujeitos às pressões tendentes a
descaracterizar o papel estratégico do PCdoB
através de visões deturpadas da necessária
acumulação de forças da atualidade. Combater
estas distorções não é tarefa menor e exige
firmeza ideológica e ousadia política e
orgânica, diferenciando-se de outras forças
progressistas, e sempre buscando, neste novo
ambiente, como melhor perseguir nossos
objetivos estratégicos.
Nesta situação de defensiva estratégica,
de resistência e acumulação de forças
prolongada e onde “a discussão e a luta pelo
rumo do país tornam-se ainda mais acirradas
e candentes” como diz o presidente do
partido, Renato Rabelo, é que devemos
compreender uma das importantes conclusões
de nosso 11º Congresso quando afirma que “o
Partido precisa ser massivo em sua força
orgânica – com uma militância ampla,
extensa, estruturada, apoiada em quadros
avançados – para ser capaz de responder às
novas tarefas assumidas”. É tempo de
trabalhar para fazer com que a força
partidária militante corresponda ao exigido
pela correlação de forças necessária à luta
política atual.
A este esforço quantitativo, a vida impõe
consolidar a visão de, com uma política
justa, consolidar princípios, reforçar
quadros dirigentes comunistas e estruturar o
partido mantendo como resultante a afirmação
do seu caráter revolucionário.
Maior vínculo com o povo
Na disputa pela hegemonia da sociedade, é
fundamental estar vinculado, estreitamente,
a parcelas cada vez mais crescentes do povo,
dos trabalhadores, da juventude e da
intelectualidade progressista. Sempre
apoiados nos diversos meios políticos de
influência e inserção na sociedade, de forma
plena, como fator preponderante para
conquistar maior protagonismo político,
vincar uma identidade e projeto político
próprios, e manter acesa a perspectiva
socialista. Assim, devemos combinar de forma
conseqüente e justa as linhas de acumulação
estratégica de forças, participando cada vez
mais tanto das lutas políticas quanto da
luta de idéia e da luta social, sem que haja
contraposições entre elas.
No continente sul-americano, a atual
situação política conforma um movimento
democrático e de esquerda crescente devido
aos resultados eleitorais em vários países e
que, aliados à reeleição de Lula, nos trazem
melhores condições políticas para sermos
mais ousados na tática partidária das
diversas frentes políticas de atuação.
Portanto, o momento político nos impõe
traduzir em partido o que uma militância
estruturada e numerosa tem de crescente
ligação e enraizamento social, sendo sempre
solidários com seus problemas, parceiros na
construção coletiva de suas soluções, e
primando pela elevação de sua consciência
política. Hoje isto quer dizer “estruturar
mais e melhor o partido, superando
defasagens existentes”. Esta “é a palavra de
ordem do atual estágio de desenvolvimento
partidário”.
O que nos possibilita sermos grandes
organicamente é se os militantes e futuros
filiados estiverem vinculados a alguma
estrutura partidária, concebida atualmente
pelo nosso Estatuto, de forma ampla e
diversificada, o que ainda não ocorre. Esta
defasagem entre o número de membros e seu
contingente organizado é um dos principais
gargalos da estruturação a serem enfrentados
pelas direções intermediárias. Esforço
conseqüente é necessário para se aplicar,
desenvolver e consolidar na prática a linha
política de estruturação partidária aprovada
pelo 1º Encontro sobre Questões de Partido
como veremos nos próximos artigos.
Com esta visão, e os embates políticos do
início do ano, as duas resoluções do Comitê
Central, de março deste ano (veja aqui),
direcionam nossos esforços para levar o
PCdoB a ter papel político mais afirmativo,
tática audaciosa, e sua conseqüente
determinação e tradução na estruturação
partidária. É um momento singular que
possibilita uma tática mais ousada. A
situação exige certa demarcação política
frente à tendência pragmática e centrista
que no PT passa a ter predominância.
Impõe-se, neste momento, o “fortalecimento
do Bloco de esquerda e aproximação com
setores democráticos conseqüentes do próprio
PT, do PMDB e demais partidos afinados com a
política desenvolvimentista voltada para o
avanço democrático e soberano do país”.
Embate 2008
É importante na preparação para as eleições
2008 construir, desde já, candidaturas
comunistas para cargos majoritários, com
possíveis aliados, bem como chapas de
vereadores como resposta ao maior reforço
dos vínculos com os movimentos sociais e
para construirmos maior visibilidade
política, vincando maior identidade
eleitoral. Entre os trabalhadores temos que
falar para maiores contingentes do povo
criando canais mais diretos de influência e
propiciando dar visibilidade às propostas
dos comunistas nas lutas das diversas
categorias, sem tergiversar frente aos seus
direitos e conquistas históricas. Nesse
sentido faz-se necessário atuar numa central
classista, democrática e ampla, onde os
comunistas não fiquem represados, e se
realize esforço de aglutinar o pensamento
avançado do movimento sindical em torno de
um projeto de país e da organização
sindical.
Nestes dois grandes movimentos que os
comunistas participam, constata-se que é
preciso avançar na superação da defasagem
central da atual estruturação partidária que
é a necessidade da existência de um maior
número de quadros comunistas, atuando em
favor deste reposicionamento político e no
enfrentamento de concepções pragmáticas
internas no desenvolvimento das exigências
políticas atuais e de uma grande
incorporação entre a nossa militância e nos
órgãos dirigentes de lideranças já formadas
anteriormente.
É com estas preocupações e discernimento
político e ideológico que, em sua reunião de
julho, o CC formou uma comissão para
elaborar documento de diretrizes para uma
política nacional de quadros que dê conta de
ampliar nossa visão sobre os atuais quadros,
responder a existência de falta de formação
marxista e ter critérios mais assertivos de
conhecimento, promoção, alocação e controle
dos mesmos. Este esforço de elaboração
poderá terminar com a realização de um
Encontro Nacional no início de 2008.
*André Bezerra, membro do Comitê Central
do PCdoB e de sua Comissão Nacional de
Organização
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