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PCdoB - Partido Comunista do Brasil
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A esquerda bem informada

6 de agosto de 2007

 COLUNAS


Um partido comunista contemporâneo - 19


A singularidade atual da construção partidária


André Bezerra*

O Partido Comunista do Brasil vem, desde 1997, perseguindo com mais determinação a necessária tradução da linha política da construção partidária para os nossos dias. Desde o início conformou-se a visão de que precisamos entendê-la como parte de um sistema que se compõe de aspectos políticos, ideológicos e orgânicos. Assim, não podemos simplesmente ver a construção partidária como algo meramente vinculado à organização, stricto sensu.

A construção partidária é permanente e deve ter suas peculiaridades afirmadas para um determinado tempo político e serem interpretadas através do que chamamos de estruturação partidária. Nela incorporamos as necessárias mudanças e imposições da situação política temporal e da luta de idéias em nosso país, que se consubstanciam em planos de estruturação e podem possibilitar ao PCdoB ser capaz de enfrentar novos dilemas e desafios em todas as frentes de atuação partidária, consolidando práticas anteriores e alcançando novas formas de abordagem e inserção. Já se vão dez anos desde os primeiros passos dados com esta fundamentação e que já foi motivo de vários artigos e documentos partidários.

A partir da vitória de 2002, com Lula na presidência da República, entramos em um novo ciclo político no país e uma nova fase histórica da vida partidária se iniciava, qual seja, construir o partido num ambiente politicamente mais propício e avançado do ponto de vista democrático e, por isso mesmo, também mais carregado de necessárias ousadias no âmbito da estruturação partidária.

Sabemos que as concepções e práticas de partido são determinadas pelo nosso projeto político estratégico – o socialismo – e pelas características da formação social de nossa sociedade. As linhas de acumulação estratégica de forças precisam ser desenvolvidas com base na nossa visão tática e estratégica, de que o momento é de resistência e acumulação revolucionária de forças. Fazer isto reafirmando nossos princípios e identidade socialista para enfrentar este inverno ideológico, período histórico de defensiva estratégica. Isto determina quais características são necessárias à construção partidária atual.

A forma contemporânea de estruturar o partido revolucionário renovado para seu maior crescimento é encarar as responsabilidades e desafios políticos da atualidade enfrentando pressões contrárias a seu caráter, o que nos impõe a necessidade de dispor de um número cada vez maior de quadros dirigentes partidários com fortes convicções ideológicas e capacitados politicamente. No 11º Congresso compreendemos que “a chave para os futuros desafios do partido é, agora, formar larga estrutura de quadros, de nível superior, intermediário e mesmo de base, assentada numa profunda compreensão da exigência de unidade de ação de todo o Partido”. Esta é a maior singularidade e desafio que se apresenta no momento para a estruturação partidária posicionar o partido numa época de maior ousadia política, de grande destaque da participação na frente institucional, de alargamento de sua militância, de interiorização das estruturas dirigentes para mais de dois mil municípios brasileiros e que pode ter como risco principal o burocratismo e pragmatismo.

Frentes política, social e de idéias
As linhas de acumulação estratégica de forças devem envolver de forma dialética, a necessária construção e participação dos comunistas na luta política, na luta social, e na luta de idéias. Não podemos absolutizar nossa intervenção em nenhuma delas e nem concebê-las separadamente. Cada uma tem suas peculiaridades e contribui estreitamente para nosso crescimento e estruturação partidária. Na luta política contemporânea precisamos nos integrar, também, plenamente, à luta eleitoral como forma de se apresentar como alternativa para o conjunto da população e não apenas para um estrato delas, como acontece nas eleições de candidatos proporcionais. Na luta social, reforçar os nossos laços e instrumentos de participação nas lutas dos movimentos sociais, com os diversos lutadores das causas maiores e cotidianas dos trabalhadores e do povo brasileiro. Na luta de idéias, contribuir para elaboração e reforço de um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho, democrático, com soberania e justiça social, assim como participar dos grandes temas e polêmicas políticas e ideológicas de nossa época.

Porém, ao adentrarmos neste mar revolto e nunca d´antes navegado pelos comunistas nesta dimensão, é importante perceber que estamos sujeitos às pressões tendentes a descaracterizar o papel estratégico do PCdoB através de visões deturpadas da necessária acumulação de forças da atualidade. Combater estas distorções não é tarefa menor e exige firmeza ideológica e ousadia política e orgânica, diferenciando-se de outras forças progressistas, e sempre buscando, neste novo ambiente, como melhor perseguir nossos objetivos estratégicos.

Nesta situação de defensiva estratégica, de resistência e acumulação de forças prolongada e onde “a discussão e a luta pelo rumo do país tornam-se ainda mais acirradas e candentes” como diz o presidente do partido, Renato Rabelo, é que devemos compreender uma das importantes conclusões de nosso 11º Congresso quando afirma que “o Partido precisa ser massivo em sua força orgânica – com uma militância ampla, extensa, estruturada, apoiada em quadros avançados – para ser capaz de responder às novas tarefas assumidas”. É tempo de trabalhar para fazer com que a força partidária militante corresponda ao exigido pela correlação de forças necessária à luta política atual.

A este esforço quantitativo, a vida impõe consolidar a visão de, com uma política justa, consolidar princípios, reforçar quadros dirigentes comunistas e estruturar o partido mantendo como resultante a afirmação do seu caráter revolucionário.

Maior vínculo com o povo
Na disputa pela hegemonia da sociedade, é fundamental estar vinculado, estreitamente, a parcelas cada vez mais crescentes do povo, dos trabalhadores, da juventude e da intelectualidade progressista. Sempre apoiados nos diversos meios políticos de influência e inserção na sociedade, de forma plena, como fator preponderante para conquistar maior protagonismo político, vincar uma identidade e projeto político próprios, e manter acesa a perspectiva socialista. Assim, devemos combinar de forma conseqüente e justa as linhas de acumulação estratégica de forças, participando cada vez mais tanto das lutas políticas quanto da luta de idéia e da luta social, sem que haja contraposições entre elas.

No continente sul-americano, a atual situação política conforma um movimento democrático e de esquerda crescente devido aos resultados eleitorais em vários países e que, aliados à reeleição de Lula, nos trazem melhores condições políticas para sermos mais ousados na tática partidária das diversas frentes políticas de atuação.

Portanto, o momento político nos impõe traduzir em partido o que uma militância estruturada e numerosa tem de crescente ligação e enraizamento social, sendo sempre solidários com seus problemas, parceiros na construção coletiva de suas soluções, e primando pela elevação de sua consciência política. Hoje isto quer dizer “estruturar mais e melhor o partido, superando defasagens existentes”. Esta “é a palavra de ordem do atual estágio de desenvolvimento partidário”.

O que nos possibilita sermos grandes organicamente é se os militantes e futuros filiados estiverem vinculados a alguma estrutura partidária, concebida atualmente pelo nosso Estatuto, de forma ampla e diversificada, o que ainda não ocorre. Esta defasagem entre o número de membros e seu contingente organizado é um dos principais gargalos da estruturação a serem enfrentados pelas direções intermediárias. Esforço conseqüente é necessário para se aplicar, desenvolver e consolidar na prática a linha política de estruturação partidária aprovada pelo 1º Encontro sobre Questões de Partido como veremos nos próximos artigos.

Com esta visão, e os embates políticos do início do ano, as duas resoluções do Comitê Central, de março deste ano (veja aqui), direcionam nossos esforços para levar o PCdoB a ter papel político mais afirmativo, tática audaciosa, e sua conseqüente determinação e tradução na estruturação partidária. É um momento singular que possibilita uma tática mais ousada. A situação exige certa demarcação política frente à tendência pragmática e centrista que no PT passa a ter predominância. Impõe-se, neste momento, o “fortalecimento do Bloco de esquerda e aproximação com setores democráticos conseqüentes do próprio PT, do PMDB e demais partidos afinados com a política desenvolvimentista voltada para o avanço democrático e soberano do país”.

Embate 2008
É importante na preparação para as eleições 2008 construir, desde já, candidaturas comunistas para cargos majoritários, com possíveis aliados, bem como chapas de vereadores como resposta ao maior reforço dos vínculos com os movimentos sociais e para construirmos maior visibilidade política, vincando maior identidade eleitoral. Entre os trabalhadores temos que falar para maiores contingentes do povo criando canais mais diretos de influência e propiciando dar visibilidade às propostas dos comunistas nas lutas das diversas categorias, sem tergiversar frente aos seus direitos e conquistas históricas. Nesse sentido faz-se necessário atuar numa central classista, democrática e ampla, onde os comunistas não fiquem represados, e se realize esforço de aglutinar o pensamento avançado do movimento sindical em torno de um projeto de país e da organização sindical.

Nestes dois grandes movimentos que os comunistas participam, constata-se que é preciso avançar na superação da defasagem central da atual estruturação partidária que é a necessidade da existência de um maior número de quadros comunistas, atuando em favor deste reposicionamento político e no enfrentamento de concepções pragmáticas internas no desenvolvimento das exigências políticas atuais e de uma grande incorporação entre a nossa militância e nos órgãos dirigentes de lideranças já formadas anteriormente.

É com estas preocupações e discernimento político e ideológico que, em sua reunião de julho, o CC formou uma comissão para elaborar documento de diretrizes para uma política nacional de quadros que dê conta de ampliar nossa visão sobre os atuais quadros, responder a existência de falta de formação marxista e ter critérios mais assertivos de conhecimento, promoção, alocação e controle dos mesmos. Este esforço de elaboração poderá terminar com a realização de um Encontro Nacional no início de 2008.


 

*André Bezerra, membro do Comitê Central do PCdoB e de sua Comissão Nacional de Organização


 

*Walter Sorrentino
Série Um partido comunista contemporâneo

Artigos de autoria de Walter Sorrentino

16/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 1
19/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 2: Primado da consciência revolucionária - partido de vanguarda
23/01/2007- Um partido comunista contemporâneo - 3: Historicidade e universalidade de Que fazer?
26/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 4: Proletariado - sujeito histórico central da transformação social
30/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 5: Centralismo democrático – princípio diretor da organização
02/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 6: Leninismo, nas condições de nosso tempo e nosso país
06/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 7: Informe ao 11º Congresso sobre o projeto de estatutos
09/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 8: As polêmicas atuais sobre a questão partido – a crise “orgânica"
13/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 9: As polêmicas atuais sobre a questão partido – a crise “orgânica"
23/01/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 10: A relação partido-movimentos "
13/03/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 15:  Partido para dar conseqüência ao pensamento estratégico
20/03/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 16:  Partido para dar conseqüência ao pensamento estratégico - 2
03/04/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 17:  Partido para dar conseqüência ao pensamento estratégico - 3
09/10/2007 - Aprimorar o sistema de direção

Artigos desta série, de autoria de Olívia Rangel

27/02/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 11: Valores militantes – um começo de conversa - (1ª parte)
01/03/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 12:Valores militantes – um começo de conversa - (2ª parte)


Artigos desta série, de autoria de José Carlos Ruy

06/03/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 13: Uma crítica às formas não-leninistas de organização: para que serve o partido do proletariado? (1ª parte)
09/03/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 14: Uma crítica às formas não-leninistas de organização: para que serve o partido do proletariado? (2ª parte)

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19/07/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 18:  A linha de estruturação do partido - uma trajetória de 10 anos

22/09/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 20: Estatuto, renovação de concepções e práticas


Artigos desta série, de autoria de André Bezerra


06/08/2007 - Um partido comunista contemporâneo - 19: A singularidade atual da construção partidária
 

 Artigos anteriores:

Para ver textos antigos de Walter Sorrentino, clique aqui

 

 

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