Renato Gomes dos Reis,
Comitê Municipal de Birigui/SP
A doutrina materialista sobre a mudança das contingências
e da educação se esquece de que tais contingências são mudadas pelos homens e
que o próprio educador deve ser educado.
Karl Marx – Teses Contra Feuerbach
O período hodierno é concomitantemente bom e ruim no mundo da política
educacional, raras vezes em nossa história a educação ocupou um lugar tão
central, tanto em debates públicos, como na mídia, como também no próprio bojo
das Universidades brasileiras.
Contrariamente a esse crescimento do debate, cresce na razão inversa as
propostas ideológicas e políticas, predominam apenas o imediatismo e as
discussões em que se elidem fatos científicos.
O pragmatismo nas políticas educacionais sempre permeou a burguesia
brasileira, tanto na formação de pesquisadores, quanto na de docentes, fazemos
aqui alusão à reforma universitária de 68, promulgada pela ditadura militar a
qual vamos elidir comentários por não se tratar de tema central de nosso
artigo.
Políticas conservadoras impõem a educação mudanças, pois esta não mais
atende às necessidades do sistema capitalista de produção brasileiro voltado
aos processos de produção mais voltados para a geração de mais-valia relativa.
Em decorrência da abertura do mercado brasileiro em meados da década de
noventa, o que tornou o país ainda mais vulnerável e dependente, inclusive sem
liberdade para definir os seus rumos nas políticas educacionais.
A Mercadização da Educação
Partindo da ótica do materialismo histórico-dialético faremos uma abordagem
da mercadização da educação nacional e a sua relação com os processos de
evolução do capitalismo brasileiro.
Ao falarmos do mercado e de sua lógica já experimentada em escala
macro-econômica pelo Brasil desde os anos noventa, falamos também no modelo
democrático burguês de acordo com o receituário internacional que iria
garantir liberdade, inclusive de escolha individual.
Esse modelo democrático burguês sobreveio uma tentativa de equilíbrio, ao
menos nos pontos tocantes à educação com a propalada Lei 9394/96, não obstante
a orientação macro-econômica mantinha-se alhures ao Estado do Bem-Estar Social
dos anos oitenta. Naturalmente, encontramos na ordenação jurídica nacional que
educação é um dever do Estado, é claro que o novo modelo estatal monarquista
se utiliza desse princípio, não obstante, voltado para fortalecer a sua
hegemonia.
Como dissemos as mudanças fizeram com que a burguesia brasileira adotasse
outros parâmetros em relação a todas as esferas da vida pública, com a
educação não foi diferente, as escolas estatais sofreram modificações
profundas, exacerbou-se o tecnicismo educacional, em nome da eficiência
exigida pelo mercado.
Com as Universidades não foi diferente, deveriam as mesmas seguir a lógica
de mercado para se adaptarem ao novo modelo de Estado monarquista.
Dentro dos preceitos neoliberais o que importa são os processos de
mercadização, especulação financeira, entre outros meios, em dados momentos a
burguesia revolucionou os meios de produção, mas no período atual é mais
conveniente utilizar o Princípio de Maupertui (Princípio de Ação-Mínima)
convenientemente utilizado às questões econômicas.
Poder-se-ia contra-argumentar dizendo que os processos de produção atuais
envolvem a micro-eletrônica e processos advindos da mecânica quântica e da
física das partículas elementares, não obstante, tecnologias demasiadamente
caras e nem todos os países podem ter acesso as mesmas, o que aumenta ainda
mais a concentração de riquezas, uma vez que o objetivo sempre são econômicos.
Em suma atualmente procuram-se processos que aumentem a mais-valia relativa.
A grande burguesia monopolista brasileira observa os movimentos do mercado
financeiro e percebem tendências de crescimento do mercado educacional, uma
vez que os estabelecimentos oficiais foram sucateados pelo governo neoliberal.
Investem então pesadas somas de dinheiro, na edificação de Universidades e
centros de pesquisa, muitas vezes voltados apenas ao estrito sentido
mercadológico.
Por que investem tanto em educação? A resposta é relativamente simples ao
menos a definição, não o entendimento desta: investimentos relativamente
baixos e altos lucros (Princípio de Ação-Mínima).
A burguesia se educa em colégios adequados aos altos níveis exigidos nos
vestibulares das grandes Universidades públicas, estas entidades procuram
ainda que com muita dificuldade manter a educação e pesquisa como políticas
prioritárias para reverter dividendos ao Estado.
Ao proletariado como classe resta em casos excepcionais a Universidade
particular, que muitas vezes não possui compromisso com a qualidade, mas tão
somente com o lucro capitalista, o proletariado mais uma vez é excluído de um
direito garantido pelo próprio Estado capitalista que mantém.
O que está por trás de tais fatos? Podemos partir do princípio seguinte, se
a educação passa por um processo de mercadização deve então possuir uma
axiologia, a pergunta então mais adequada seria: Qual?
Volvendo a Marx, no Capital, encontramos que a mercadoria tem um valor
duplo, a saber, valor-de-uso e valor-de-troca, a mercadoria é então definida
de forma abstrata.
O que queremos discorrer é que a educação ou em outros termos a venda de
conhecimento deva produzir riqueza ou o capitalista não iria se ocupar dela.
Países com capitalismo altamente desenvolvido a saber Estados Unidos, por
exemplo, entenderam, talvez de maneira até empírica esse processo, uma vez que
investem massiçamente em educação, naturalmente voltada aos interesses de seu
sistema de produção capitalista.
Ao comercializar-se o conhecimento, o mesmo assume sua natureza
mercadológica, mesmo que não possa em princípio ser mensurado diretamente de
forma chamemos concreta, pode transubstanciar-se em outras mercadorias que
possuem valor-de-troca bem definido.
Isso também se processa no que diz respeito ao processo de alienação, uma
vez que a burguesia detém todos os conhecimentos e mecanismos do mercado.
Encontramos no Capital:
“Só o trabalhador que é produtivo, produz a mais-valia para o capitalista
(...). Esteja a escolher um exemplo fora da esfera da produção material, um
mestre-escola é assim um trabalhador produtivo se não só trabalha para
desenvolver o intelecto das crianças, mas também para o enriquecimento do
empresário. Aquele que empregue seu capital em uma fábrica de ensinar, em vez
de em uma fábrica de lingüiça, nada altera à relação. O conceito de
trabalhador produtivo encerra então não somente uma relação entre atividade e
eficiência, entre os trabalhadores e o trabalho-produto, mas também um
especificamente social, historicamente a origem da relação de produção que
liga o trabalhador ao método de utilização imediata do capital.”
Desse ponto de vista, o capitalista acaba por incluir em seu arcabouço
econômico a propriedade intelectual e os saberes, que segundo os preceitos do
Estado monarquista devam ser universalizados.