Elias Jabbour,
membro da OB do Congresso Nacional
Opino de forma muito positiva sobre a proposta de resolução à nossa
Convenção Eleitoral. O documento caminhou muito bem nos avanços e limites do
governo Lula e a necessidade de sua reeleição, principalmente nas contradições
internas intrínsecas do governo como expressão de uma contradição que vive o
Brasil e o mundo neste início de século.
Mas o debate não pode parar, afinal como nos lembra muito bem o documento:
Brasil passa por momento decisivo na definição dos destinos para sua
construção como nação independente e democrática. E definição é sinônimo de
síntese de alguma contradição em curso.
É possível avanço sob uma orientação híbrida?
O documento lança elementos variados para análise do que é um governo
contraditório. Mais um mérito a ser exposto. Mas o documento peca ao definir a
orientação econômica como híbrida, o que subjetivamente me leva a crer que a
pesar de o governo trabalhar com uma política macroeconômica de cunho
neoliberal, potencializou aos interesses do Estado Nacional elementos típicos
de Capitalismo de Estado (empresas estatais, bancos estatais), o que
redundaria na tal orientação híbrida supracitada.
Em primeiro lugar temos de perceber quais são os elementos cruciais da
acumulação capitalista, para em seguida percebermos que tais são o câmbio, o
crédito, as finanças e as taxas de juros, que são determinadas pela orientação
macroeconômica. Como marxistas temos também de nos perguntar sobre quem
controla estes instrumentos que todos sabem ser controlados pelo Banco
Central.
É o caso de colocar que não existe reprodução de elementos como a mula, o
burro ou o tal do milho híbrido, o que colocaria em xeque a própria lógica
dialética do documento, mais precisamente na última linha do parágrafo 10 do
documento. O que é importante ressaltar, a partir de Marx, é que a anatomia do
macaco se entende pela anatomia do homem (o que está acima ilumina o que está
abaixo) e economia como ciência social aplicada deve ser entendida a partir
dos princípios da macroeconomia (é pelo controle ou não de instrumentos
macroeconômicos que se pode determinar a dominância de uma orientação
econômica) que por sua vez, ainda no nível da abstração serve para melhor
compreender o concreto e em seguida definir o conceito. Trata-se do básico em
filosofia materialista. No concreto a orientação dominante direcionou
no sentido de uma média de crescimento muito abaixo da média mundial nos três
primeiros anos do governo.
Cabe também - sendo fiel à máxima de se buscar na raiz os problemas -
ressaltar que não é a dívida pública a principal responsável pela falta de
crescimento econômico e sim a já citada orientação que por si só serve
exatamente para a reprodução do padrão financeirizado de acumulação, causador
da principal forma de estrangulamento financeiro capitaneada pelos agentes
internos (bancos) da financeirização centrada no imperialismo. Resumindo, a
dívida pública é síntese de uma orientação dominante desde a década de 1990,
que em seu turno leva nosso país à encalacrada do que se convencionou chamar
de stop and go.
Enfim, hibridismo é um conceito biológico inaplicável às ciências sociais,
justamente pela negação da reprodução, o que em ciências sociais redundaria em
negação da síntese, logo, consequentemente da superação. Em ciências sociais
trabalha-se com contradições, modos de produção fundamentais ou complexos,
estruturas econômicas mistas com predomínio de uma determinada forma de
propriedade, etc. mas sempre com um chamado elemento dominante.
Elemento que justamente em períodos de transição luta por sua sustentação, o
que é o caso do modelo neoliberal no Brasil, independente dos avanços em
várias áreas que convivem no seio desta contradição inerente à transição em
curso no âmbito do governo, porém, sem nunca me cansar de repetir: em economia
o que é dominante é a determinação direta dos já citados instrumentos a
serviço da acumulação capitalista.
A orientação econômica e a política externa
Cabe um novo “pouso no concreto” e relacionar o esforço de integração
continental com a orientação econômica “híbrida”. Das iniciativas aos gestos
concretos vai uma longa distância. Obedecendo à dialética não nego o caminho
no rumo da integração, mas a antítese, ou seja, uma futura fissão nesta
intenção está relacionada diretamente com a orientação econômica nada híbrida
do governo. Integração continental é precedida de exportações de capitais do
país-base, financiamento de déficits comerciais com os vizinhos (o que não
ocorre), construção de milhares de quilômetros de ferrovias, estradas, etc.
Enfim, de capacidade financeira de fazer valer uma integração séria da mesma
forma que Vargas e Juscelino enfrentaram o problema da integração nacional.
Seria fora de contexto citar a forma como a China, a Índia e a Rússia se
relacionam com seus vizinhos.
Ficam perguntas: é possível integração sul-americana com esta orientação
econômica? Alguém acredita em integração continental sem o dispêndio de
bilhões de dólares? Continuaremos e a nomear o governo Lula como o responsável
da inviabilização da ALCA, ao mesmo tempo em que não saímos da superfície e
não expomos que uma das condições objetivas das assinaturas dos Tratados de
Livre-Comércio (TLC`s) - por parte do imperialismo com alguns de nossos
vizinhos – está na a incapacidade financeira de o Brasil “bancar” a ênfase
dada à integração sul-americana? Ou faremos um exercício de raciocínio liberal
separando, política econômica e política social, de política econômica e
política externa, sem percebermos que um câmbio favorável tem um alcance
social milhares de vezes maior que milhares de bolsas-família e política
externa independente sem controle de capitais não passa de pura intenção ou de
busca desesperada por mercados externos para produtos primários (61% de nossas
exportações à China são de soja e minério de ferro e importamos de lá
eletroeletrônicos)? Retornando ao parágrafo anterior, cabe saber quantas
grandes empresas captaram no BNDES empréstimos acima de R$ 10.000.000,? Que
país continental sério lidera uma integração regional sem grandes empresas
privadas em condições de serem financiadas por um sistema próprio de
intermediação financeira?
Mais um lembrete
Independente de análises, o governo Lula, com suas contradições é ainda
- num olhar mais estratégico - o melhor meio de acúmulo de forças e de disputa
entre novo e o velho. Velho este que insiste ainda em demonstrar seu poder.
Por fim, último lembrete: vejamos também a mediocridade de crescimento
econômico do Brasil no 1º trimestre do ano em comparação a outros países
(3,4%, já a Polônia com uma orientação neoliberal cresceu 5,2%).
Partamos para o método da abstração e em seguida apreendamos ao que é
essencial, ao concreto e logo chegaremos ao conceito, ou em
rasas palavras, à orientação dominante.