Por Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB
Hoje o país está numa
encruzilhada. Pode seguir o caminho do desenvolvimento ou do retrocesso
neoliberal. Para alcançar o primeiro, a reeleição de Lula é uma necessidade
premente. Com uma ampla coalizão de forças formada por partidos de esquerda,
progressistas e de centro, será possível realizar um segundo mandato
sintonizado com as necessidades do povo brasileiro.
No entanto, se o país tomar o outro caminho, será a volta dos ditames
neoliberais e um retrocesso para o país. Por não ter posição nem perfil
definidos, seu candidato, Geraldo Alckmin, é uma espécie de curinga, com uma
vestimenta capaz de adaptá-lo a qualquer tipo de discurso, conforme for mais
conveniente aos caciques conservadores. Ele representa a burguesia paulistana,
que esteve à frente do projeto neoliberal intensificado a partir dos anos 90,
e o plano deste setor é a revanche. O tucanato espera voltar ao poder para dar
continuidade às reformas neoliberalizantes e neocolonialistas iniciados com
FHC e nem mesmo José Serra, que para alguns setores é uma figura
desenvolvimentista, teria um objetivo diferente porque na essência ele é
sustentado por estas mesmas forças, lideradas por PSDB e PFL.
Papel do PCdoB
O PCdoB, devido à sua política acertada em consonância com as necessidades de
nossa população, tem conseguido galgar posições importantes e ganhar o
respeito de outras forças políticas, apesar de ainda ser pequeno, do ponto de
vista eleitoral.
Tradicionalmente, o Partido entrava nas disputas eleitorais a meio palmo,
focando suas ações apenas nas disputas proporcionais, para deputados. Mas já
em 2004 disputou diversas prefeituras, e hoje está presente na administração
pública de 12 municípios. No pleito de outubro, vamos nos lançar ao desafio
das candidaturas ao governo dos estados.
A disputa majoritária também será um campo de contradições. De um lado os
comunistas vão aliar-se com forças progressistas, como tradicionalmente fazem,
com PT e PSB, no enfrentamento das forças conservadoras e fisiológicas; por
outro lado, o PCdoB poderá ter de enfrentar também obstáculos colocados por
nossos próprios aliados, que não facilitarão a inserção comunista em seu
flanco.
Condições para as mudanças
Ao defender a reeleição de Lula, o PCdoB busca a consolidação de um projeto
que realmente possibilite mudanças estruturais no país, e é Lula quem reúne as
melhores condições para sua implantação.
Quando passou a faixa presidencial para o ex-metalúrgico, Fernando Henrique
Cardoso transferiu também oito anos de sucateamento do Brasil. A nova equipe
encontrou um país à beira da insolvência. Empresas estatais estratégicas foram
privatizadas e, embora tenham sido arrecadados cerca de 100 bilhões de
dólares, não houve nenhuma contrapartida para a sociedade. Ao contrário:
entregaram o país com um déficit de 80 bilhões de dólares, e nada foi
construído.
Nem no regime militar houve tamanha farra com o dinheiro público. Daquele
período, herdamos muitas dívidas, mas também houve investimento em obras
públicas.
É preciso analisar a situação atual de maneira dialética, levando em conta
esse espólio negativo da era tucana. Lula encontrou um país falido, e
conseguiu mudar sua condução, levando o Brasil para o rumo do crescimento,
mesmo sendo um governo com uma política econômica ortodoxa, que engessa
investimentos públicos e prejudica setores produtivos. Seu governo implementou
ações sociais que atingem milhões de brasileiros que viviam na miséria.
Estima-se que haja no Brasil 72 milhões de pessoas nessa situação. Para estas
pessoas, o mais cruel é a insegurança alimentar, o que o Fome Zero e o Bolsa
Família tentam sanar. Acredito que o combate à miséria vai muito além disso;
deve-se mudar a estrutura deste país. Mas Lula tem conseguido combater a fome.
Nas camadas pobres da população, tem chegado benefícios como o crédito
consignado e a facilitação do financiamento propriedades rurais familiares.
Ações como estas têm impacto social, assim como o aumento real do salário
mínimo ocorrido em sua gestão. A renda per capita da família brasileira voltou
ao nível da década de 70, considerado um dos melhores de nossa história.
Resultados como esses são reconhecidos até mesmo por gente como Edward Amadeo,
que foi ministro durante o governo de FHC: ele afirmou recentemente que boa
parte do apoio que Lula tem na população é resultado da estabilidade e da
distribuição de renda. Isso demonstra que a política federal tem surtido
efeitos. Além disso, Lula tem relação fraterna com os movimentos sociais, dos
quais se sente parte integrante por toda sua história de luta ao lado dos
trabalhadores.
A política externa de Lula é outro ponto forte porque tem como norte um
objetivo estratégico de alta importância: a integração dos países
latino-americanos como alternativa de resistência ao imperialismo
estadunidense. Trata-se de buscar uma nova conformação das forças mundiais,
que hoje está centrada na potência norte-americana. Sinais positivos ajudam na
busca dessa nova formatação. Os Estados Unidos começam a dar sinais de
desgaste tanto na economia como na política interna e externa, que visa
subjugar povos soberanos. A formulação neoliberal e neocolonialista, o caráter
belicista e imperialista de suas ações suscitam a resistência dos povos.
Ao contrário da gestão tucana que apoiava a unipolaridade, e a política
externa norte-americana, o Itamaraty busca hoje o diálogo com nações irmãs, de
desenvolvimento semelhante, na África e Ásia, reforçando a busca pela
multipolaridade. Enquanto FHC reverenciava o norte, Lula volta-se para o sul
e, atualmente, o Brasil ganha status de liderança entre os países mais pobres.
Há um conjunto iniciativas que, obviamente, não são suficientes, mas
sinalizam que Lula caminha no sentido distinto ao de FHC. A mídia, tão pronta
a criticar duramente o presidente Lula, fecha os olhos para essas questões e
encobre os êxitos do governo.
Instabilidade política
Diante do processo histórico, o tempo de Lula na Presidência é ainda muito
pequeno, mas já mostra diferenças sensíveis com relação a governos passados.
Nestes três anos e meio seu governo viveu sob forte instabilidade política.
Isso não aconteceu por acaso. Houve erros cometidos da condução política do
governo, em especial pelo partido hegemônico, o PT. No entanto, não podemos
deixar de perceber que no fundo essa crise toda tem um só objetivo: a luta
pelo poder. Esse objetivo fica muito claro quando levamos em conta não só as
tentativas dissimuladas de golpe mas também a defesa aberta do impeachment de
Lula e as tentativas frustradas de ligar o presidente a esquemas de corrupção.
A verdade é que a elite brasileira, que tem seu braço político em setores
conservadores capitaneados por PSDB e PFL, não aceita Lula, que tem se
esforçado para dirigir suas ações em benefício de camadas sociais nas quais o
establishment não se encaixa. Então, figuras tradicionais da política
nacional, comprometidas com essa elite conservadora, agem de maneira golpista,
vestindo a fantasia de cruzados moralistas. Eles, que há anos esbulham o
dinheiro público pregam a moralidade, no melhor estilo udenista.
Cenário propício
Se internamente as eleições se darão nesse clima cruento, no cenário mundial
há fatores positivos para a vitória de Lula. A busca por um caminho soberano
de nações como Venezuela, Bolívia e Cuba e a batalha do Iraque contra a
intervenção norte-americana desencadeiam o sentimento de reação dos povos. A
resistência alimenta a consciência antineoliberal, que por sua vez é um fator
essencial para a busca de saídas avançadas. Nesta conjuntura, abre-se uma
grande porta para a integração latino-americana e para que o Brasil continue
inserido nesse processo, a reeleição de Lula é fundamental.
É preciso aproveitar essa onda de resistência e ousar mais na política
nacional. A condução de nosso país tem uma importância que transcende a sua
fronteira justamente porque o Brasil despontou como uma das lideranças dos
países emergentes.
Polarização
Com a aproximação do período eleitoral, ganham contornos mais definidos os
dois pólos que devem dividir as atenções do eleitorado. Ambos são bem
definidos. De um lado, estão as forças de esquerda, progressistas, que lutarão
pela reeleição de Lula e sustentarão sua gestão, caso consiga alcançar a
vitória. Esse lado é composto basicamente por PT, PCdoB e PSB. Partidos de
centro, como o PMDB, devem ser atraídos, para contribuir com a formação de um
governo de coalizão capaz de se dedicar a um processo de desenvolvimento
avançado.
Do lado oposto, estão as forças comprometidas com o atraso e com os ditames
neoliberais, mais notadamente PSDB e PFL, calcados em duas pilastras:
neocolonização do país e o Estado mínimo, que serve para aprofundar ainda mais
as desigualdades. Um outro pólo no centro da disputa não está no horizonte.
A orientação do PCdoB, é, portanto, continuar lutando e exigindo mudanças a
partir da reeleição de Lula. Esta é a forma mais justa de barrar o retrocesso.
Por isso, é preciso construir uma aliança forte que tenha um perfil de
centro-esquerda com um núcleo de esquerda forte e bem definido. Por fim, é
necessário elaborar um programa comum aos partidos desta coligação que
sinalize para um novo pacto nacional. Desta vez, o foco seria firmar uma
aliança social que tivesse como meta responder aos anseios dos trabalhadores e
do setor produtivo, diferentemente da Carta ao Povo Brasileiro, de 2002, que
acenou para o chamado mercado. O país tem condições de alcançar o crescimento
com distribuição de renda. É neste sentido tático que o PCdoB se orienta.
*artigo baseado no discurso proferido no Curso Nacional de Comunicação do
PCdoB, dias 26 a 28 de maio, em São Paulo