Democracia partidária,
unidade do Partido e mandatos
Walter Sorrentino*
Uma decisão de intenso significado foi
tomada na Conferência Municipal de São Paulo, no último dia
20 de junho. Aprovada a coligação com Marta Suplicy à
prefeitura da cidade, foi lançada chapa própria de
vereadores do PCdoB ao pleito proporcional. Isso é inédito e
pode representar grande passo na vida e presença do Partido
na cidade, porque vai exigir dialogar com setores mais
amplos da população. Vai se buscar ultrapassar por larga
margem o quociente eleitoral (que se aproxima de 110 mil
votos), já que a meta estabelecida foi de eleger 3
vereadores.
Mas o surpreendente, motivando profunda
reflexão, foi que em meio a esse enorme desafio eleitoral
não foi aprovada a candidatura do atual vereador Cláudio
Fonseca. Em seu primeiro mandato como vereador, que chega ao
final este ano, Cláudio tem grande penetração no
professorado e funcionalismo público, e ampliou sua base de
atuação para diversos setores da cidade. Sem dúvida alguma,
ele teria dezenas de milhares de votos, na eleição deste
ano.
Houve um debate maduro, que envolveu 14
conferências distritais onde se mobilizaram organizadamente
quase 4 mil militantes, e mais debates intensos na plenária
da Conferência. Mais de 90% dos quase 250 delegados votaram
negando legenda para a candidatura do vereador. Enfatizou-se
que não se tratava de sanção disciplinar nem medida
arbitrária acerca de divergências que o vereador tem com o
Partido. Aliás, o vereador acumulava já quatro sanções, por
descumprimento da norma partidária de unidade, nevrálgica
particularmente no exercício do voto como vereador de uma
bancada comunista na Câmara de Vereadores. Esgotaram-se
nesse processo as mediações sempre pacientes, que duraram 3
anos e meio, para buscar saídas políticas no interesse mútuo
do parlamentar e do Partido, tendo sofrido pesados prejuízos
a imagem de unidade do Partido devido às posições do
vereador.
Na essência, prevaleceu o entendimento de
que falta a Cláudio Fonseca a confiança política do coletivo
para exercer tal tipo de tarefa em representação do PCdoB.
Foi pois um juízo político de Partido. Toda a base do
Partido teve acesso nos debates da Conferência aos
documentos que historiaram a trajetória de desencontros
entre o vereador e as decisões emanadas do Partido.
Avaliou-se com conseqüência as divergências de Cláudio nas
matérias. Manifestou-se, com muita ênfase, a compreensão de
que ser candidato pelo PCdoB é encarado como tarefa delegada
pelo Partido, que se exerce em nome do coletivo partidário.
Portanto, o que esteve em jogo foi uma determinada concepção
sobre o partido e sua unidade, e o caráter da representação
parlamentar dos comunistas.
Surpreendente também foi a atitude do
vereador, presente como delegado à Conferência, bem como dos
que o apóiam. Sem dúvida, criou-se uma situação difícil para
ele. Atuou nos debates em defesa de sua candidatura, mas
aceitando o veredicto da maioria. Comportou-se como um
militante, que tem suas próprias idéias, assume suas
diferenças com as da direção, acatando a decisão partidária.
Há muitas lições a extrair desse episódio,
sem dúvida complexo. O tempo dirá o quanto se acertou na
decisão, e se o atual vereador recompõe as relações de
confiança política rompidas. É certo que nos meios de
comunicação e alguns meios políticos surgiram ataques ao
assim dito “enquadramento” sofrido pelo vereador. Seria
fruto de uma visão anti-democrática do PCdoB.
Mas o que sobressai é que a militância
tomou soberanamente em suas mãos a decisão, com confiança
nas normas que emanam de uma determinada concepção. A idéia
de que mandato parlamentar do PCdoB é partilhado. Representa
a base que elegeu o parlamentar, mas representa também o
Partido, suas posições públicas. Nas matérias em que o
Partido não tem posição fechada, abre-se campo para
expressão das posições pessoais. Não poucas vezes, nas
bancadas, libera-se o voto em matérias desse tipo. Pode-se
em casos determinados admitir até mesmo exceções de
consciência. Mas quem decide o voto nas matérias políticas
decisivas é o Partido, através dos instrumentos próprios
para isso – a bancada e a direção do partido. Respeitar
essas decisões e aplicá-las não deve comportar
relativizações ou tergiversações. Em nenhum partido seria
admissível um voto recorrentemente dissidente no seio da
bancada. Tampouco, e principalmente, no PCdoB.
O que está sendo dito pelas bases
partidárias é que ela não aceita ser refém de algo que na
verdade lhe pertence – o mandato conquistado nas urnas pelo
comunista. O que lhe parece ser mais sensível é que
projetos, interesses e posições representativas de
segmentos, corporações ou até mesmo pessoais não devem se
sobrepor ao projeto comum e às decisões de Partido. Podem
sim ser mediadas com o projeto partidário, se possível, mas
nunca prevalecer unilateralmente.
A vida dirá o quanto essa experiência pode
ser útil ao Partido neste momento de grande crescimento de
sua influência e de crescente complexidade de sua vida
interna. Sem dúvida, pode-se errar, de parte a parte.
Pode-se congelar relativamente a rica dialética que isso
implica entre direção e mandato. Não faltam exemplos desse
tipo em nossa trajetória, tanto pelas direções quanto pelos
detentores de mandatos. Entretanto, vai-se consolidando a
prática democrática do Partido – não há hoje no Brasil
partido de vida interna mais rica e democrática que o PCdoB!
Mandonismos e arbitrariedades não constroem práticas
frutíferas, estiolam o impulso militante – esse o duro
aprendizado que fizeram os comunistas.
A experiência que vai se consolidando
nesses casos é que sempre se deve pôr a política no comando,
perseverando em concepções de princípios, com flexibilidade
e métodos persuasivos para persegui-los, dando tempo ao
tempo para as posições se elucidarem. O PCdoB de São Paulo
fez uma experiência limite nesse rumo, que pode dar
indicações suplementares sobre as quais se deve refletir.
Entre elas a de que é sim possível persistir nessa
concepção, sem pragmatismo imediatista – não se curvar às
vantagens imediatas em detrimento dos interesses mais
permanentes do Partido. É sim possível alcançar isso sem
manifestar um comportamento mandonista – posto que a decisão
foi fruto de discussão que envolveu quase 4 mil militantes,
e foi pacientemente construída por todos estes 3 anos e
meio. É sim possível perseguir isso sem manifestar atitude
de sentido sectário – os muitos que virão ao Partido têm
assegurado seu direito de serem candidatos, sempre nos
marcos desta mesma concepção e com a garantia de que a
legalidade partidária vale para todos. É sim possível
construir um processo democrático, entre direção e mandatos,
que subordine efetivamente estes àquela. Porque a direção é
o único órgão partidário eleito por todos, para falar em
nome de todos – mesmo quando erra. Construir esse tipo de
processo de direção é responsabilidade de todos, e
particularmente dos detentores de mandato, dada sua
visibilidade pública, sua liderança, sua influência e
instrumentos disponíveis para sua ação política.
Nestes tempos em que o individualismo é
exacerbado, em que a política se transforma em negócio, em
que impera o pragmatismo político, sobretudo no sistema
eleitoral brasileiro em que se vota em personalidades, isso
pode ter alto significado. Decisões como a de SP podem
educar o Partido, forjar sua disciplina e unidade, fazem
parte da luta de idéias por um partido transformador, capaz
de inovar as práticas políticas. Porque isso é parte
indesligável da luta pela afirmação de um partido de
esquerda, coerente e avançado. Elas repõem a saudável
compreensão do papel do partido político como o articulador
de um projeto político comum a todos, aos quais se adere por
convicção, da qual emana a unidade e disciplina, e no qual
militam homens e mulheres em regras de convívio
enriquecedor. Não se suprime a individualidade, nem a
flexibilidade para dar vazão às posições próprias nas
matérias em discussão, mas se pressupõe a adesão consciente
às regras democraticamente construídas. Não se suprime
igualmente a autoridade dos órgãos eleitos democraticamente
por todos. Esta deve ser a nossa regra geral, reposta com
base em princípios, para o novo tempo.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de
Organização do Comitê Central do PCdoB
waltersorrentino@pcdob.org.br
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