Consolidar a democracia
interna
Walter Sorrentino*
Estão abertos os
trabalhos do 11º Congresso e, neles, devemos nos dispor a
um esforço de aprimorar a democracia interna do Partido. O
novo Estatuto apresentado ao debate contém formulações
inovadoras em numerosos aspectos, que estarão em debate
desde já. Mas é particularmente necessário focar, já no
curso das assembléias e conferências do 11º Congresso, os
processos eleitorais internos e consolidar práticas
indispensáveis a uma efetiva democracia.
Pode-se dizer que deriva de
nossa concepção partidária uma democracia de sentido mais
profundo e abrangente. Entretanto, isso precisa ser
demonstrado na prática, o que implica em fundamentá-la bem
perante os amplos contingentes militantes, e realizá-la
segundo mecanismos que de fato assegurem esse caráter. Mais
que isso, é preciso unificar procedimentos de alto a baixo
no Partido, para evitar casuísmos ou maus encaminhamentos.
Na prática, se tais mecanismos e procedimentos não são
eficientes, pode-se comprometer o próprio princípio.
Quando dizemos que a
democracia partidária tem sentido mais profundo e
abrangente nos remetemos ao centralismo democrático. No
novo Estatuto proposto ao debate do 11º Congresso,
desenvolve-se criativamente a noção do centralismo
democrático, mantendo a concepção do Partido como um todo
uno, com uma única base teórico-ideológica,
marxista-leninista. A concepção de unidade é
materializada na ação política sob uma única
orientação e um único centro dirigente. O centralismo
democrático é tratado como fator ativo de promoção da
consciência revolucionária dos membros do Partido, e não
como verdugo dos que divergem. A democracia interna fica
assentada na liberdade de opinião pessoal, indispensável
ao fazer permanente da vida partidária. Está, ao mesmo
tempo, subordinada a uma disciplina consciente e livremente
assumida, que implica na obrigação de cumprir a vontade da
maioria, fixada em debate democrático e organizado nas
fileiras partidárias, e portanto em defender e difundir as
orientações adotadas. A instituição do voto secreto nas
eleições internas - essa a tese oferecida ao debate -
será fator de aprimoramento democrático e valorização da
confiança entre iguais no Partido.
A unidade é um bem
fundamental da vida partidária. Deriva da consciência de
que o proletariado, em sua luta revolucionária, não tem
outra arma senão seu partido de vanguarda, e sua unidade,
para enfrentar os confrontos políticos de classe. Dividido,
o Partido se fragiliza perante tais confrontos. Sendo
expressão de uma única base teórica e ideológica, no
Partido Comunista não há lugar para tendências e
frações, organizadas à margem da vontade geral do
Partido, vontade democraticamente fixada segundo uma
institucionalidade regida pelo Estatuto, nossa lei maior.
Eleger direções
partidárias submete essa concepção ao seu teste mais
elevado e exige conferir-lhe máxima expressão. Trata-se
de, nesses momentos, construir coletiva e democraticamente a
proposta unitária que melhor responda pelos interesses do
Partido, na dada circunstância de cada situação. Esse é
o traço distintivo de nosso processo democrático
eleitoral, com respeito a outras tradições partidárias.
Nossa democracia, por ser mais profunda, é mais complexa na
sua realização, e não mais simples. A realização desse
pressuposto no processo concreto de cada eleição interna
está sujeita a múltiplos níveis e múltiplas mediações,
feitos de modo coletivo e transparente. As mediações fazem
a ponte entre os princípios e as exigências da realidade
concreta. Princípios, concebidos fora de sua aplicação
política em cada situação, podem resultar em
doutrinarismo vazio. A tentação de transformar
procedimentos em princípios inamovíveis enrijece a vida
partidária. E mediações sem as balizas dos princípios
podem resultar em pragmatismo.
Dizemos, em síntese, que
eleger direções é um processo essencialmente
democrático, sob direção consciente e coletiva. Daí a
necessidade de regras bem definidas, comuns a todos, de
forma a fazer valer a soberania militante sobre a condução
do Partido, a torná-lo mais bem apetrechado para cumprir a
orientação definida pelo voto da maioria. As normas
congressuais apresentadas procuram sistematizar as
principais etapas desse processo, e com isso visa a
uniformizar procedimentos ágeis e transparentes.
O processo coletivo parte da noção de que o plenário da
conferência ou congresso é soberano para eleger aqueles
que, em nome de todos, irão governar o processo eleitoral
interno - o que cabe à Comissão Eleitoral ou Mesa
Diretora. A primeira proposta de integrantes do novo comitê
partidário parte da direção cessante, acompanhada de
informação quanto aos critérios para sua elaboração, de
perfil de cada indicado(a) e justificativa, para melhor
atender aos propósitos da orientação do Partido em cada
situação.
A soberania militante se expressa ainda em três outros
níveis e momentos de mediação, organizadamente. Em
primeiro, todo militante pode fazer indicações à proposta
apresentada, suprimindo nomes, apresentando outros, fazendo
ponderações e exigindo esclarecimentos sobre qualquer
nome. Isso pode ser melhor realizado mediante cédula, sem
excluir a observação verbal dirigida diretamente à
Comissão Eleitoral ou Mesa Diretora. Em segundo, há um
tempo próprio para debate em plenário sobre o balanço do
trabalho de direção e eleição do novo Comitê, quando
os(as) militantes intervêm sobre a proposta apresentada
pela Comissão Eleitoral, quanto ao número e composição
dos Comitês. Em terceiro, argüindo sobre o parecer final
da Comissão Eleitoral quanto à proposta unitária, o
número de membros e composição, podendo propor
deliberações sobre inclusão de outros nomes segundo
critérios a serem estabelecidos por consulta ao plenário.
Segue-se a isso o processo mais intrinsecamente soberano: o
do voto livre de cada militante, único, pessoal e
intransferível, garantido o quorum para deliberações,
sendo considerados(as) eleitos(as) os(as) mais votados(as)
em ordem decrescente e até o preenchimento do número de
vagas previamente definidas, assegurada em cada caso a
maioria simples dos votantes. O novo Estatuto aprimorará
esse momento, instituindo o voto secreto, expressão da
confiança no coletivo. Para este Congresso, entretanto,
vale a lei do atual Estatuto, que proclama um voto aberto,
ou seja, identificado. De todo modo, cabe aqui também
aprimoramentos processuais, porquanto em plenárias extensas
a votação em cédula é mais factível.
Depreende-se que eleger direções partidárias é um
processo complexo, onde discrepâncias e ausência de
unanimidade são naturais. O que se deve cuidar é de
estimular a visão de responsabilidade de todos e de cada
um(a) sobre a proposta de conjunto que melhor atenda aos
propósitos da orientação partidária. Aí é que reside o
conteúdo da democracia, pois significa uma opção
consciente em construir coletivamente e eleger a melhor
composição que atenda à condução do Partido. Isso
supera os limites meramente personalistas ou a visão de que
eleger alguém é prêmio, quando na verdade é tarefa de
maior responsabilidade. Tampouco se justifica a idéia de
que deixar de eleger alguém é anátema, o que na prática
pode inviabilizar o esforço renovador do Partido, quando se
verifica grande expansão das fileiras partidárias. Por
isso, também, não se compreende práticas de cabalar
votos, fora do esforço de convencimento perante o
plenário, que deve ser devidamente assegurado pelos
procedimentos.
O PCdoB este ano realizará cerca de quatro mil eventos
entre assembléias de base, conferências intermediárias
municipais e estaduais e a plenária final do Congresso. Em
todas estará posta a questão da eleição dos órgãos
dirigentes, desde o nível primário - secretariado de
Organizações de Base - até o próprio Comitê Central. O
Partido se abriu mais amplamente à sociedade, numerosos
contingentes adentram ao Partido, trazendo consigo
concepções baseadas no senso comum. Compreende-se então a
importância de assimilar em maior profundidade os elementos
da concepção democrática partidária, uniformizar sua
aplicação em todos os níveis e aprimorar os procedimentos
necessários à sua boa realização.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de
Organização do Comitê Central do PCdoB
waltersorrentino@pcdob.org.br
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