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Lições de vida e de luta

por Walter Sorrentino*

É muito difícil falar de grandes personagens marcantes da história. Para além da visão romântica ou idealizada que em geral se faz deles, exacerbando aspectos negativos ou positivos, o fato é que sempre se desdobram aspectos multifacéticos e contraditórios, dificultando a apreensão do todo, contextualizada no seu tempo. No caso de João Amazonas, cuja vida e luta mergulhou a fundo nos grandes confrontos políticos e ideológicos que marcaram o século XX, isso é tarefa para muitos e muito tempo.

Há um ano de sua morte, a construção do legado da luta de Amazonas continua. Não julgo supérfluo o depoimento dos que com ele conviveram, como parte do esforço de apreensão de seu caráter e de seu papel como construtor e dirigente de uma corrente que marca nossa vida política nacional. Permito-me então resgatar um momento de minha convivência pessoal de trabalho com Amazonas, que marcou indelevelmente meu destino no PCdoB e legaram-me lições duradouras. Faço-o em homenagem singela à sua memória.

Conheci-o pessoalmente apenas em 1982, não obstante ser responsável pela infraestrutura clandestina de impressão de A CLASSE OPERÁRIA desde 1978 e, depois, de apoio às reuniões do CC, das quais ele participava. As condições de estrita compartimentação e clandestinidade impediam que nos conhecêssemos. Tendo ingressado no secretariado do Comitê Estadual de São Paulo, comecei a partilhar do aprendizado que ele nos propiciava. Impressionava-me, particularmente, com que amplitude e habilidade ele lidava com a questão dos quadros partidários e a defesa da unidade do Partido.

O mais marcante foram os acontecimentos relativos aos descaminhos do Partido em São Paulo, em 1986. Tal como agora, havia se iniciado uma nova fase na vida partidária com a conquista da legalidade em 1985. Também em São Paulo, como de resto em todo o país, um impulso percorria a vida partidária. Por estas plagas, a direção regional encaminhou-se num sentido voluntarista e inconseqüente nas eleições de novembro de 1986. O pano de fundo, que só vim a compreender duramente, era um quadro de disputa entre a direção regional e nacional. Alertas de Amazonas não faltaram, mas estávamos cegos e surdos a elas, em nome de impulsionar vitórias do Partido.

Com a grave derrota sofrida, que retardou o desenvolvimento do Partido em São Paulo naquela fase, a direção nacional convocou uma Conferência Extraordinária para dezembro, realizada em quinze dias de aflito debate, que afinal levou à reorganização da direção, com a saída do antigo núcleo dirigente. Eu estava entre eles, ou pelo menos deveria estar. Desde a madrugada de 15 de novembro, quando apurávamos a eleição, estava claro o desastre. Amazonas, friamente, me confrontou com os fatos. Eu era um dos responsáveis por aqueles rumos, e mesmo não alcançando na totalidade a compreensão do que se passava, não me furtava a um exame crítico.

No processo da conferência, certamente o mais difícil em minha vida no Partido, em diversas rodadas de debate pude sentir a firmeza cortante de Amazonas na crítica, ao mesmo tempo sua visão mais larga, profunda e mesmo generosa, de salvaguardar os que pudessem compreender os erros cometidos contra a unidade do Partido. Em meio a processo tormentoso, deu a cada qual do núcleo dirigente um tratamento desigual, não sem oposições - que se manifestaram na própria Conferência. Disso resultou minha permanência na direção do Partido em São Paulo.

A personalidade, a acuidade de visão e o espírito de Partido de Amazonas esteve no centro dessa experiência. Foi para mim um rito de passagem, que soldou uma confiança ainda maior na capacidade que devemos ter de ajuizar com parcimônia e responsabilidade o papel de cada um de nós, no melhor interesse da luta revolucionária. Também por isso, seu papel de educador é parte marcante de minha experiência pessoal. A ele devo lições de vida e de luta em defesa do Partido e de sua unidade, lições que espero não esquecer jamais. Como muitos outros comunistas, digo que não seria o mesmo sem a convivência com o inesquecível camarada Amazonas.

*Walter Sorrentino, médico, é
Secretário Nacional de Organização do
Comitê Central do PCdoB


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