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Brasil, sexta-feira, 21 de novembro de 2008

 COLUNAS

Passar em revista os quadros - capital mais precioso do Partido


Walter Sorrentino*


Os projetos em debate do 11º Congresso avançam com respeito à reflexão sobre concepções e práticas de Partido. Buscam reafirmar as perspectivas revolucionárias, por meio da renovação e reconstrução da alternativa socialista. Recolhendo as formulações desenvolvidas desde o 10º Congresso, o documento constrói uma nova síntese para os desafios do presente da vida do Partido. Parte-se, digamos assim, da contradição de nosso tempo histórico: a de que somos um Partido vocacionado para as viragens, as rupturas políticas, num tempo de defensiva estratégica, onde tais viragens não amadureceram no campo de forças e vontades de grandes maiorias sociais. Trata-se portanto, de um período de acumulação estratégica de forças, combinando diferentes tipos de intervenção próprias de uma situação de resistência, mais a luta por construir um projeto alternativo ao neoliberalismo. A justa combinação entre luta política - dentro e fora dos governos conquistados pelas esquerdas e forças progressistas -, com amplas frentes políticas e sociais, a luta social e a luta de idéias é a chave dessa acumulação de forças.

Período desse tipo implica que o pragmatismo é o principal risco para a força revolucionária, como pressão tendente a rebaixar o papel do Partido Comunista. Como atravessar tal tipo de situação sem se perder ou descaracterizar? Naturalmente, a resposta a tal indagação envolve numerosos e diferentes elementos, desde a visão estratégica e tática, de ação política e de massas, até os ideológicos e organizativos. A síntese em questão no documento congressual é penetrante: ao lado das exigências de uma formação partidária grande, extensa em militância e bases de massas, para um efetivo protagonismo político na cena do país - e até para isso -, é essencial uma formação de quadros avançados, ciosos do caráter do Partido Comunista, de sua unidade e princípios. É nos quadros que reside a garantia do papel do Partido.

O documento incide sobre uma defasagem muito específica em nossa trajetória, quando afirma a exigência de uma política de quadros atualizada para a contemporaneidade. O tema não é novo. Na 9ª. Conferência e nas elaborações posteriores relativos à concepção e prática de Partido, já se vinha tratando dessa renovação. Agora vai-se mais longe e avançam-se diretrizes para o desenvolvimento do tema, porque o PCdoB cresceu bastante nesse último período. Deve-se descortinar uma visão ampla da condição de quadros, de nível superior, intermediário e mesmo de base, ponderando componentes da política para sua formação e responsabilização, com base na experiência real que temos vivido. O novo Estatuto inclui um capítulo específico para a matéria, pela primeira vez em nossa tradição. Enfim, há terreno para um debate e prática mais avançados para o próximo período da atividade partidária.

Isso é uma exigência incontornável. E seu enfrentamento, a par da consciência nova propiciada pelo debate dos documentos, já deve estar em prática desde logo. Isso porque nas Normas Congressuais, se apresenta um caminho para maior conhecimento dos quadros partidários em todo o país, sem o que não se pode sequer falar de uma política de quadros. O cadastramento proposto pelas normas é trabalhoso, tem que ser persistente, mas promete ser um instrumento poderoso para iluminar questões.

O PCdoB tem hoje 27 comitês estaduais ativos, com cerca de dois mil comitês municipais em diferentes estágios de consolidação, dezenas de comitês distritais. Na atividade política, tem mais de três centenas de parlamentares e possivelmente cinco centenas de integrantes de governos em diferentes níveis. Ao lado disso, na ação de massas atuam milhares de quadros dirigentes sindicais ou do movimento juvenil, comunitário, negro, de mulheres e outros. Temos quadros destacados e respeitados nacionalmente no movimento de saúde e educação entre outros setores.
Há ainda uma infinidade não conhecida de quadros atuantes no meio científico, acadêmico, cultural. Na base, ainda um tanto anônimos, atuam incontáveis quadros operários, de numerosos setores da produção material e intelectual. Sua atividade de direção conta com centenas de quadros de comissões auxiliares de comitês, ou assessores nos parlamentos e governos.

Tudo somado, estamos a falar de, digamos, dez mil quadros. A questão é: como projetar, a partir desse amplo mosaico, a perspectiva revolucionária no rumo do projeto político do Partido? Como coesionar mais e profundamente toda essa autêntica seiva partidária?

Entre os numerosos componentes que as respostas a essas perguntas comportam, um se antepõe: é preciso conhecer essa formação! É preciso metodicamente estudá-la, cotejar sua distribuição, extração social, sexo, idade, escolaridade, formação cultural. Conhecimento, nesse campo, é arma afiada para agir, sem o que restamos cegos e inertes, ou praticando políticas espontâneas, voluntariosas, o que é ainda mais problemático quando lidamos com expectativas de homens e mulheres valorosos. Trabalho de direção hoje, sem esse nível de conhecimento sistemático, resta debilitado. Foi Stálin quem, corretamente, usou a metáfora: direção organizativa do Partido - um dos vetores indispensáveis à estruturação - é essencialmente controle da atividade e a boa alocação dos quadros; são como o holofote que ilumina o estado real do cumprimento das tarefas partidárias!

É imperioso que se compreenda a importância da proposição do cadastramento dos quadros neste 11º Congresso. A rigor, a direção nacional não domina ainda essa realidade; tampouco os comitês estaduais, sobre quem recai o trabalho cotidiano com os quadros, têm amplo conhecimento da matéria. Na prática, se conhece e domina uma camada superior muito delgada dos quadros partidários - integrantes de comitês estaduais e de Secretariados dos principais comitês municipais -, o que pode resultar em práticas estreitas (ou elitistas?) de formação, promoção e ativização. O cadastramento proposto pode modificar essa realidade.

Como se sabe, o sistema de cadastro da direção nacional - REDE VERMELHA - será um dos mais avançados do país, nessa categoria. Permitirá informação atualizada em tempo real, conectando todo o país, permitindo estudo de inúmeras variáveis. Está em construção. Mas nenhum sistema funciona sem devida alimentação de um banco de dados. Pela primeira vez os dados serão inseridos diretamente, daí a necessidade de novo e completo preenchimento das fichas. Para isso traçamos uma linha bem definida, amplamente divulgada em todo o país, e consubstanciada nas normas congressuais. Assumimos, assim, o ônus de mais uma vez propor o cadastramento geral, com uma ficha relativamente extensa, porque a REDE VERMELHA é nova, não sendo factível a importação dos dados de anos anteriores - que de resto ainda são bastante fragmentários.

É parte da nossa luta de concepções por um partido de princípios e renovado em suas feições, ganhar essa batalha. No fundo, é uma batalha contra a improvisação amadorística, contra o espontaneísmo, por uma visão sistêmica e a médio prazo. Vista de conjunto, integra o esforço pela maior estruturação partidária, contra as pressões liberalizantes, por um partido que não se compreenda como "dunas ao vento" em seus fundamentos organizativos. Se há acordo sobre isso, resta ainda a necessidade de uma compreensão essencial da empreitada: o cadastramento é trabalhoso. Por isso, se propõe combinar duas vertentes: a primeira, a iniciativa conscienciosa dos próprios quadros, em preenchê-la; a segunda, a de compor equipes próprias das comissões de organização voltadas para isso, controlando o preenchimento das fichas cadastrais e digitando-as no sistema. A melhor das intenções pode esbarrar ser derrotada sem esses dois quesitos. Por isso, mãos à obra!.


*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de Organização do Comitê Central do PCdoB

waltersorrentino@pcdob.org.br

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