Passar em revista os quadros
- capital mais precioso do Partido
Walter Sorrentino*
Os projetos em debate do 11º Congresso
avançam com respeito à reflexão sobre concepções e
práticas de Partido. Buscam reafirmar as perspectivas
revolucionárias, por meio da renovação e reconstrução
da alternativa socialista. Recolhendo as formulações
desenvolvidas desde o 10º Congresso, o documento constrói
uma nova síntese para os desafios do presente da vida do
Partido. Parte-se, digamos assim, da contradição de nosso
tempo histórico: a de que somos um Partido vocacionado para
as viragens, as rupturas políticas, num tempo de defensiva
estratégica, onde tais viragens não amadureceram no campo
de forças e vontades de grandes maiorias sociais. Trata-se
portanto, de um período de acumulação estratégica de
forças, combinando diferentes tipos de intervenção
próprias de uma situação de resistência, mais a luta por
construir um projeto alternativo ao neoliberalismo. A justa
combinação entre luta política - dentro e fora dos
governos conquistados pelas esquerdas e forças
progressistas -, com amplas frentes políticas e sociais, a
luta social e a luta de idéias é a chave dessa
acumulação de forças.
Período desse tipo implica
que o pragmatismo é o principal risco para a força
revolucionária, como pressão tendente a rebaixar o papel
do Partido Comunista. Como atravessar tal tipo de situação
sem se perder ou descaracterizar? Naturalmente, a resposta a
tal indagação envolve numerosos e diferentes elementos,
desde a visão estratégica e tática, de ação política e
de massas, até os ideológicos e organizativos. A síntese
em questão no documento congressual é penetrante: ao lado
das exigências de uma formação partidária grande,
extensa em militância e bases de massas, para um efetivo
protagonismo político na cena do país - e até para isso
-, é essencial uma formação de quadros avançados, ciosos
do caráter do Partido Comunista, de sua unidade e
princípios. É nos quadros que reside a garantia do papel
do Partido.
O documento incide sobre
uma defasagem muito específica em nossa trajetória, quando
afirma a exigência de uma política de quadros atualizada
para a contemporaneidade. O tema não é novo. Na 9ª.
Conferência e nas elaborações posteriores relativos à
concepção e prática de Partido, já se vinha tratando
dessa renovação. Agora vai-se mais longe e avançam-se
diretrizes para o desenvolvimento do tema, porque o PCdoB
cresceu bastante nesse último período. Deve-se descortinar
uma visão ampla da condição de quadros, de nível
superior, intermediário e mesmo de base, ponderando
componentes da política para sua formação e
responsabilização, com base na experiência real que temos
vivido. O novo Estatuto inclui um capítulo específico para
a matéria, pela primeira vez em nossa tradição. Enfim,
há terreno para um debate e prática mais avançados para o
próximo período da atividade partidária.
Isso é uma exigência
incontornável. E seu enfrentamento, a par da consciência
nova propiciada pelo debate dos documentos, já deve estar
em prática desde logo. Isso porque nas Normas Congressuais,
se apresenta um caminho para maior conhecimento dos quadros
partidários em todo o país, sem o que não se pode sequer
falar de uma política de quadros. O cadastramento proposto
pelas normas é trabalhoso, tem que ser persistente, mas
promete ser um instrumento poderoso para iluminar questões.
O PCdoB tem hoje 27
comitês estaduais ativos, com cerca de dois mil comitês
municipais em diferentes estágios de consolidação,
dezenas de comitês distritais. Na atividade política, tem
mais de três centenas de parlamentares e possivelmente
cinco centenas de integrantes de governos em diferentes
níveis. Ao lado disso, na ação de massas atuam milhares
de quadros dirigentes sindicais ou do movimento juvenil,
comunitário, negro, de mulheres e outros. Temos quadros
destacados e respeitados nacionalmente no movimento de
saúde e educação entre outros setores.
Há ainda uma infinidade não conhecida de quadros atuantes
no meio científico, acadêmico, cultural. Na base, ainda um
tanto anônimos, atuam incontáveis quadros operários, de
numerosos setores da produção material e intelectual. Sua
atividade de direção conta com centenas de quadros de
comissões auxiliares de comitês, ou assessores nos
parlamentos e governos.
Tudo somado, estamos a
falar de, digamos, dez mil quadros. A questão é: como
projetar, a partir desse amplo mosaico, a perspectiva
revolucionária no rumo do projeto político do Partido?
Como coesionar mais e profundamente toda essa autêntica
seiva partidária?
Entre os numerosos
componentes que as respostas a essas perguntas comportam, um
se antepõe: é preciso conhecer essa formação! É preciso
metodicamente estudá-la, cotejar sua distribuição,
extração social, sexo, idade, escolaridade, formação
cultural. Conhecimento, nesse campo, é arma afiada para
agir, sem o que restamos cegos e inertes, ou praticando
políticas espontâneas, voluntariosas, o que é ainda mais
problemático quando lidamos com expectativas de homens e
mulheres valorosos. Trabalho de direção hoje, sem esse
nível de conhecimento sistemático, resta debilitado. Foi
Stálin quem, corretamente, usou a metáfora: direção
organizativa do Partido - um dos vetores indispensáveis à
estruturação - é essencialmente controle da atividade e a
boa alocação dos quadros; são como o holofote que ilumina
o estado real do cumprimento das tarefas partidárias!
É imperioso que se
compreenda a importância da proposição do cadastramento
dos quadros neste 11º Congresso. A rigor, a direção
nacional não domina ainda essa realidade; tampouco os
comitês estaduais, sobre quem recai o trabalho cotidiano
com os quadros, têm amplo conhecimento da matéria. Na
prática, se conhece e domina uma camada superior muito
delgada dos quadros partidários - integrantes de comitês
estaduais e de Secretariados dos principais comitês
municipais -, o que pode resultar em práticas estreitas (ou
elitistas?) de formação, promoção e ativização. O
cadastramento proposto pode modificar essa realidade.
Como se sabe, o sistema de
cadastro da direção nacional - REDE VERMELHA - será um
dos mais avançados do país, nessa categoria. Permitirá
informação atualizada em tempo real, conectando todo o
país, permitindo estudo de inúmeras variáveis. Está em
construção. Mas nenhum sistema funciona sem devida
alimentação de um banco de dados. Pela primeira vez os
dados serão inseridos diretamente, daí a necessidade de
novo e completo preenchimento das fichas. Para isso
traçamos uma linha bem definida, amplamente divulgada em
todo o país, e consubstanciada nas normas congressuais.
Assumimos, assim, o ônus de mais uma vez propor o
cadastramento geral, com uma ficha relativamente extensa,
porque a REDE VERMELHA é nova, não sendo factível a
importação dos dados de anos anteriores - que de resto
ainda são bastante fragmentários.
É parte da nossa luta de
concepções por um partido de princípios e renovado em
suas feições, ganhar essa batalha. No fundo, é uma
batalha contra a improvisação amadorística, contra o
espontaneísmo, por uma visão sistêmica e a médio prazo.
Vista de conjunto, integra o esforço pela maior
estruturação partidária, contra as pressões
liberalizantes, por um partido que não se compreenda como
"dunas ao vento" em seus fundamentos
organizativos. Se há acordo sobre isso, resta ainda a
necessidade de uma compreensão essencial da empreitada: o
cadastramento é trabalhoso. Por isso, se propõe combinar
duas vertentes: a primeira, a iniciativa conscienciosa dos
próprios quadros, em preenchê-la; a segunda, a de compor
equipes próprias das comissões de organização voltadas
para isso, controlando o preenchimento das fichas cadastrais
e digitando-as no sistema. A melhor das intenções pode
esbarrar ser derrotada sem esses dois quesitos. Por isso,
mãos à obra!.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de
Organização do Comitê Central do PCdoB
waltersorrentino@pcdob.org.br
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