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Pensamento de Partido em
consonância com o pensamento político
Walter Sorrentino*
Nossa coluna tem tratado, reiteradamente, do tema partido,
tomado em sentido amplo. Sempre destacamos o vetor político
como o elemento central impulsionador em sua estruturação.
Nos debates em curso de finalização da 9a. Conferência
Nacional, mais uma vez isso está presente, de modo bastante
saliente. Afinal, trata-se de elaborar uma orientação
política ajustada, sem a qual não se pode dar o impulso que
esperamos para o fortalecimento do PCdoB. O amplo predomínio
do debate político propriamente dito, não deve nos
desguarnecer quanto a suas implicações para o tema partido.
Ao contrário: o conteúdo dado ao debate sobre as implicações
a extrair no novo quadro político quanto ao desenvolvimento
do PCdoB estão em plena consonância com a orientação
política, dela deriva e a completa. Quero destacar alguns
aspectos que, dentre outros, ressaltam ainda mais a
exigência dessa ligação orgânica entre orientação política e
estruturação partidária.
Desenvolvimento de nosso pensamento político
Temos, sabidamente, uma rica tradição de pensamento político
no PCdoB, de sentido tático e estratégico. Isso é o que
ficou demonstrado na prática do movimento político real do
país nestas últimas décadas, com destaque para o período que
vai de 1978 – data da 7a. Conferência Nacional, até o
combate ao neoliberalismo. Isso é reconhecido como uma das
forças do PCdoB, inclusive por amigos e aliados. A primeira
questão que quero ressaltar é que, na nova situação do país,
no entanto, esse pensamento está em desenvolvimento – e essa
é uma das questões mais complexas de nossa atuação presente.
Problemas novos, próprios da situação inédita que alcançamos
no país com o governo Lula, carecem de novas categorias de
análise e ação, para dar conta da singularidade de tal
situação.
O documento da 9a. Conferência explicita várias dessas
categorias. Entre outros exemplos, cito, de modo não
exaustivo, o problema momentoso do desenvolvimento e de um
modelo alternativo ao neoliberalismo – compreendendo que
isso significa subtrair o Brasil da esfera da principal
força econômica, política e militar da atualidade, o capital
financeiro e sua lógica de acumulação de capital. A
problemática, daí derivada, da centralidade da questão
nacional, vale dizer, da luta pela soberania nacional,
articulando os eixos da luta democrática e social. A
essencial e difícil questão da transição – batalha que
envolve uma contradição essencial entre continuidade e
mudança, sem definição prévia de que prevalecerá, que
envolve soluções de compromisso, implica em ambigüidades,
marchas e contra-marchas. As novas condições de alianças
políticas – tradicionais em nosso pensamento – mas agora em
condição de governo, que implica em questões mais complexas
para a unidade e luta, ou seja, defender o programa de
mudanças no âmbito da frente em que atuamos e o projeto
próprio do Partido. A clareza, dada pela experiência, de que
programa de Governo é distinto de programa de Partido, tem
bases sociais distintas, falam para públicos distintos e se
realizam em tempos distintos. A própria idéia de tempo
político, que exige arte e ciência, condições de tempo e
caso em que se diferenciam as posições entre governo e
partidos da base de sustentação.
O documento oferecido ao debate deu grandes passos nesse
sentido. Construiu a síntese de que, nessa situação, o
Partido precisa sustentar e articular três compromissos na
construção de nossas posições: compromisso com a nossa
unidade, construída coletivamente; o compromisso com os
trabalhadores e o povo, sustentado há já 81 anos; o
compromisso que assumimos com o governo e o país, perante a
nação. Contradições poderão existir, nosso pensamento
político precisa deslindá-las a cada caso concreto.
Opções, custos e riscos
Isso justifica a ênfase dada ao debate mais propriamente
político. Em torno desse debate, é natural que tenham
surgido percepções e apreensões diferenciadas de seu
conteúdo, pois a viragem política no país foi muito
marcante. Natural também que tenha havido preocupações
relacionadas com a aplicação prática da nova orientação,
pois são tradicionais os riscos seja de adesismo acrítico,
seja de voluntarismo que precipita as posições – na tradição
da esquerda brasileira, não faltam exemplos de um e outro
desvio.
É precisamente aí que se situa a segunda questão que quero
destacar. Em política, as opções, mesmo quando justas,
implicam custos e riscos. A nova situação encerra realmente
pressões quanto ao papel do Partido, sua ação e até mesmo
caráter. Isso exigirá habilidade para se conduzir nas
contendas, e pede uma recíproca emulação entre direções e
bases, de modo a conferir estabilidade a um processo de
direção da luta política ancorada na firmeza e maturidade
que tem caracterizado a direção do PCdoB em todos estes
anos, ao lado do saudável controle das bases, antenada com a
luta dos trabalhadores e do povo.
Já por isso, avulta o papel da organização partidária e o
aprimoramento da democracia interna, destinada a forjar uma
unidade superior, coletivamente construída. Sem uma
assimilação profunda dessa orientação por parte do coletivo,
comprovada na ação, não avança nosso papel. Isso se realiza
na esfera do Partido, de suas organizações, de suas normas e
métodos. Sem isso o debate não evolui ou degenera em
fragmentação.
Entretanto, não é só essa a esfera de ligação entre
elaboração política e pensamento de partido. Custos e riscos
das opções políticas precisam encontrar contrapesos
conscientes na nossa atuação. É precisamente esse o
significado do tema Partido no documento da Conferência.
Um novo discurso, um novo consenso
O documento, quando aborda os desafios da estruturação
partidária no novo quadro, não deixa margem a dúvidas quanto
a ser compreendido como parte do reposicionamento tático do
PCdoB. Ele está em consonância, portanto, com a orientação
política, e estabelece eixos e medidas destinadas justamente
a reforçar seu papel e caráter nesse quadro. Ele estabelece
os contrapesos necessários a uma fase de intensa atuação
institucional, num contexto contraditório de transição, sob
um governo hegemonizado pelo PT.
É para isso que apontam os eixos estruturadores dessa parte
do documento. A centralidade da questão da luta pela
hegemonia, do maior protagonismo do Partido na cena política
e da luta social, para impulsionar as mudanças, é
precisamente a questão da identidade própria do Partido e da
intensificação da luta por seu projeto político próprio. As
indicações do documento quanto às novas linhas de acumulação
de forças a pôr em ação, são não apenas registro das novas
potencialidades que se abrem, como também registros
autocríticos e antídotos a uma visão acomodada ou
excessivamente institucional. É de realçar, uma vez mais, a
consigna de mergulhar no movimento social, como fator
determinante da acumulação de forças do Partido, ao lado de
uma nova tática eleitoral e da participação institucional,
combinadas para aumentar a interlocução do PCdoB com a
sociedade e permitir um novo ciclo de acumulação estratégica
de sua força. A idéia de atualizar concepções e práticas de
partido, para os tempos e desafios originais que nos são
postos, representa também elementos nessa direção, para que
saibamos alcançar outra esfera de força orgânica.
Enfim, o que se quer dizer, é que nada justifica separar no
debate o tema político e o tema partido. São parte de uma
totalidade orgânica. É na esfera de Partido, de seu
fortalecimento, que se complementa, materializa e comprova a
inteireza da orientação política formulada. Principalmente
para os que compreendem os desafios envolvidos na orientação
política traçada, e visam reforçar o projeto próprio do
Partido, esse é um debate que não deve ficar em segundo
plano. Seria uma maneira antiga, e superada, de tratar do
problema, quando o que se necessita é de uma nova abordagem
sobre o tema. A 9a. Conferência é por isso parte do esforço
laborioso para a construção desse novo discurso e novo
consenso sobre o tema Partido.

*Walter
Sorrentino, médico, é
Secretário Nacional de Organização do
Comitê Central do PCdoB
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