O Partido e suas formas
organizativas de base
Walter Sorrentino*
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A problemática de
ser militante comunista na atualidade está intimamente
vinculada à questão das formas organizativas assumidas
pelo Partido. Parece claro que se há diferentes perfis
militantes (vide artigo anterior), diferentes perfis
de organização e funcionamento das bases se fazem
necessárias. |
As formas organizativas do PC são chamadas a dar vida ao
anseio participativo e eficácia à atuação militante entre o
povo. Para isso, elas devem contribuir para promover maior
adesão à realidade e luta social em cada situação, e
articular funcionalmente o trabalho cotidiano à política do
Partido. Ademais, elas devem representar para os comunistas
a instância formuladora e a comunidade de valores, onde se
forjam compromissos militantes, direitos e deveres, a
disciplina livre e consciente, a expansão das
potencialidades de cada um. Gramsci falava do Partido como
prefigurador da sociedade futura e como o intelectual
orgânico coletivo. É na esfera da organização que se
concretiza essa característica da vida do PC e se
materializa a força do Partido na luta pelo seu projeto
político.
A organização pela base é o núcleo fundamental desse
processo organizativo e, conseqüentemente, esse caráter
precisa se traduzir desde aí. São as bases que respondem
pelo enraizamento partidário entre os trabalhadores e o
povo, dando profundidade ao seu trabalho permanente de
elevação da sua consciência política e organização. Elas são
também o esteio da democracia partidária, pois não há
democracia sem um mínimo de estrutura organizada capaz de
auscultar o conjunto dos efetivos.
Nada disso é novo para nós, não obstante as históricas
dificuldades de garantir efetivamente o funcionamento
partidário em bases. Já argumentei que isso decorre da
tradição do país, e também de pesados condicionamentos de
nosso pensamento de Partido. Elas nos levaram a diagnosticar
a existência de uma defasagem organizativa: nossos dados
demonstram que apenas 40% dos efetivos mobilizados em 2003 o
foram por intermédio de Organizações de Base, existentes em
apenas 169 CMS (cerca de 10% de nossos comitês municipais!).
Sem dúvida, essa defasagem condiciona a força e protagonismo
do Partido.
PC DE MASSAS, ESTRUTURADO PELAS BASES
O que de fato nos será novo é que o não enfrentamento dessa
defasagem, nesta hora de arranque em nosso crescimento, pode
comprometê-lo, quer sob a forma de não termos pernas para
cumprir nossos propósitos, quer pela perda de identidade. Ou
seja, pode impedir-nos de falar efetivamente num PC de
massas, extenso e numeroso. No âmbito de uma formação desse
tipo, acumula-se a pressão por uma estrutura organizativa
amorfa, diluidora do caráter classista e do compromisso
militante, por soluções político-organizativas
liberalizantes. A luta por uma política organizativa justa
integra o esforço por manter o caráter partidário, classista
e transformador. Então, não há sequer como imaginar um
Partido Comunista com uma centena de milhar de efetivos que
não seja organizado pelas bases. Sem isso, o crescimento
partidário se daria como areia solta, como dizem os
chineses, ou como diríamos nós brasileiros, como dunas –
vai-se ao sabor do vento, do espontâneo, o que na prática é
negar a prevalência do fator consciente na concepção
partidária. Por isso também dizemos que não basta crescer,
não basta filiar – o critério central da hora presente é
organizar os efetivos em bases, pô-las em atividade. Esse
foi o motivo central de convocarmos o Encontro Nacional:
lutar pelo papel e caráter do PC na nova situação, lutar
contra as pressões tendentes a rebaixar seu papel
estratégico. Insista-se num ponto nevrálgico: mesmo – e
principalmente – num PC de massas extenso e numeroso, não
perdemos de vista que o amálgama da condição comunista é sua
ideologia, e ela só se forma mediante prolongado processo.
Nesta atual etapa política da luta de classes no Brasil e no
mundo, não está no horizonte “queimar etapas” nesse
processo. A vida militante nas organizações do Partido,
desde a base, lhe é indispensável.
A questão a reter então é que superar a defasagem
organizativa envolve de fato uma luta de concepções e de
práticas, e nela a construção de Organizações de Base tem
primazia. Isso assume o primeiro plano nesta hora, como se
afirma no documento do Encontro Nacional. Localiza-se aí um
dos elos estratégicos que define a maturidade de nossa
corrente de pensamento e ação no país, de seu enraizamento
profundo entre os trabalhadores e o povo. Nessa luta
inclui-se uma visão planejada, exposta nos Planos de
Estruturação, que tem em vista partir da consolidação de
direções municipais nos grandes municípios, como modo de
assegurar a ligação entre a direção e as bases.
PARTIR DA EXPERIÊNCIA
Essencialmente, as organizações de base precisam se
constituir em centros de vivência e participação militante
no seio do povo, instâncias influentes no meio em que atuam,
instrumento de intervenção política, social e cultural. É
por intermédio das OBs que a militância se aglutina, é
ativizada, desenvolve a potencialidade de cada um, cumpre
direitos e deveres da vida partidária, estabelece mil laços
de ligação com os militantes conjunturais ou inconstantes,
os filiados, amigos, simpatizantes, eleitores e mesmo os
não-militantes. É a instância das práticas emancipatórias,
reunida em torno dos valores da solidariedade, da liberdade,
do progresso, do patriotismo e internacionalismo proletário,
da luta contra a exploração e opressão, contra o
individualismo próprio da sociedade capitalista, da elevada
moral e ética de caráter humanista avançado.
O importante é a capacidade de, enquanto coletivo
organizado, abarcar a todos, segundo os diferentes graus de
mobilização, ligando o seu papel cotidiano à consecução do
projeto político do Partido. O cotidiano de uma OB será o
desenvolvimento, segundo cada circunstância, das campanhas
realizadas pelo Partido, de sua mensagem política e
cultural. Por isso falamos que nossas bases precisam se
abrir para fora – falar mais para a sociedade, que é o que
legitima a militância - e para dentro, enriquecendo as
formas de vida interna.
É um pressuposto que tal tipo de organização tenha
estabilidade no tempo e lugar. Constitui-las, portanto,
demanda largo e perseverante trabalho, e não há porque supor
que isso é feito sem o concurso de quadros experientes. Aqui
uma primeira e central questão: organizar o Partido em bases
demandará superar visão reducionista e simplificadora, de
que seja trivial organizá-las. Essa é a experiência que
podemos reunir: bases exigem ao menos um quadro dedicado
(uma espécie de pivô), mais um núcleo militante mais estável
e experiente, menor ou maior, que agregam ao seu redor
dezenas ou centenas de militantes, e centenas ou milhares de
filiados, amigos, eleitores e apoiadores. A questão é de que
é necessário projetar o trabalho de quadros segundo essa
perspectiva e de que quadros dirigentes precisarão empenhar
mais tempo e energia em apoiar esse esforço, que é o busílis
do trabalho de direção dos comitês municipais. E isso, sem
simplificações, exigirá uma pequena revolução interna no
modo como concebemos e praticamos a atividade partidária, a
partir das próprias direções.
FORMAS VARIADAS COM PRIORIDADES
Trata-se, portanto, de uma atividade estratégica na
estruturação partidária. Porque isso tem a ver com nossas
pretensões políticas, sejam as vitórias táticas imediatas,
sejam estratégicas, relacionadas com a hegemonia na luta por
um novo poder político, pelo socialismo.
Mas a luta por constituir bases estáveis inclui,
simultaneamente, a questão de dar caráter multiforme a tal
tipo de organização, adaptando-as às características do
tempo e situação, nas múltiplas modalidades da experiência
participativa do povo brasileiro. Parece claro que se há
diferentes perfis militantes (vide artigo anterior),
diferentes formas de organização e funcionamento das bases
se fazem necessárias.
Na realidade presente, as pessoas além de trabalhar (quando
têm emprego), estudar (em determinados períodos da vida) e
morar em determinado local, podem ter uma determinada área
de interesse temático, ou , setor de atividade. A questão é
aferir – e arbitrar - qual dessas características assume a
principalidade nas relações políticas e sociais daquele
cidadão ou cidadã, além do interesse pessoal, e qual a
prioridade da intervenção política do Partido naquela
circunstância. Às vezes conciliam-se no mesmo militante
todas as questões; em outras há conflitos ou dificuldades.
Entre local de trabalho, estudo, moradia pode haver
quilômetros de distância geográfica nos grandes centros, por
exemplo. Claro que essa resposta é dinâmica no tempo; claro
também que outras determinações concorrem para a definição;
claro, ainda, que em todos os casos precisam pressupor
vínculos reais com aquele movimento. São questões que devem
ser mediadas pelo interesse político do Partido em cada
situação dinâmica. Mas é dessa resposta que emerge a
problemática da forma de organização mais apropriada para
ele ou ela, e parece fora de dúvida que essa variedade
precisa ser admitida e normatizada.
Segundo a linha política de estruturação partidária,
mantém-se central a perspectiva de organizar bases nas
principais sedes das relações e conflitos sociais. Dada a
natureza classista proletária de nosso projeto político,
isso está dado prioritariamente nos locais de trabalho, na
cidade e no campo, em particular nas grandes empresas
modernas do país, com os trabalhadores mais organizados e
avançados na luta. Isso porque aí se concentra o duplo
conflito da opressão e exploração, e porque o proletariado é
o sujeito central para nosso projeto político. Esses locais
são os chamados “centros da luta de classe”, onde o Partido
pode e deve estar presente. Claro que é aí que reside a
dificuldade maior, provinda da falta de democracia no
interior das empresas, dos efeitos da reestruturação
produtiva, das estratégias patronais. Mas é aí que se decide
o projeto de emancipação dos trabalhadores, a luta contra a
alienação, forjando uma consciência política classista e
independente, em vinculação com a organização sindical.
A possibilidade de reforma sindical, constituindo os comitês
sindicais de base, poderão representar um enorme estímulo
para organizar os trabalhadores no PCdoB. Nos próximos anos,
se o país entra de fato na rota do desenvolvimento, milhões
de novos trabalhadores terão uma nova experiência política e
o Partido precisa se pôr a postos para ganhar consciências
dessa nova geração.
A maior experiência do Partido, entretanto, é nos locais de
moradia, que concentram hoje quase três quartos das OBs
indicadas. Nelas, pode adquirir maior expansão imediata a
idéia de as OBs configurarem centros de vivência e ação,
articulando dezenas e até centenas de participantes,
influentes no meio em que atuam, que auscultam o conjunto da
comunidade e intervêm em seu cotidiano, articulando-o com o
projeto político do Partido. Entretanto, a grande maioria
dessas bases tem na realidade o perfil de bases mistas –
juntando trabalhadores, jovens, profissionais etc -, o que
dificulta a aglutinação, motivação e atuação do conjunto de
seus militantes. Bases mistas tem também focos mistos, que
nem sempre mobilizam a todos, e decorre no fundo do
crescimento espontâneo que caracteriza muitas vezes o
Partido.
Na prática, o que é mais certo é que nos bairros se pode e
deve estruturar diferentes tipos de bases, e não
simplesmente aglutinar militantes indistintamente. Bases de
profissionais liberais, de categorias de trabalhadores , de
ativistas de determinado movimento social etc. poderia
aumentar nosso repertório de formas organizativas e
motivações. Mas isso se, e somente se, o bairro for o foco
da relação social e luta que se vivencia, ou a instância que
articula as relações políticas e sociais da militância ou,
ainda, se potencia a aglutinação dela.
Outra problemática é a de local de estudo. Com a resolução
que prevê a atividade do jovem comunista prioritariamente na
UJS, tais bases só têm vida bissexta. As experiências de
Comitês da Universidade, agregando estudantes, professores e
funcionários tem outro escopo, exatamente porque são
comitês. Mas, neles, persiste o problema das bases
estudantis, que precisa ser re-dimensionada, mostrando o
quanto o assunto organização tem seu dinamismo próprio.
O HORIZONTAL E O CORPORATIVO
O que precisa ser melhor fundamentado na maior variedade de
perfil das bases é sua organização por setor ou categoria
profissional ou por área de interesse temático. Experiências
já vêm sendo feitas no Partido, embora careçam de maior
sistematização e normatividade. A experiência de comitês ou
bases de categorias, bases profissionais, bases “especiais”,
sendo exceções, vão já se avolumando. É preciso polemizar
sobre essa experiência, o que comporta debates. Uma série de
questões propriamente organizativas surgem, buscando novas
respostas.
Visando contribuir com esse debate, uma questão refere-se a
alargar essa forma de organização de base. Elas podem
fornecer um instrumento de intervenção aos militantes por
áreas de interesse ou por setor (advogados, profissionais da
saúde, categorias etc), capaz de abarcar a militância que
vem ao Partido para dar maior conseqüência e articulação à
sua atividade em determinadas áreas de atuação. Outro
caso-tipo, é por bases por áreas de interesse ou temáticas.
Isso se deve a que emergiram uma série de outras relações de
conflito social, que dão margem a militâncias, fora do local
de trabalho, estudo e moradia. São militâncias na área de
direitos ligados à questão de gênero, etnia, ambiental,
direitos humanos em geral, criança e adolescente, movimentos
de saúde, educação, cultura etc. que precisam ser
articuladas a um projeto político totalizante. É o Partido
político que pode fazer essa articulação e, portanto, suas
formas organizativas devem dar conta de abarcar esse ímpeto
participativo. Neste caso, tais bases podem incorporar-se ao
esforço organizado de elaborar políticas temáticas para a
atuação partidária.
Ligado a isso, outra questão é como articular essa variedade
de formas organizativas com a territorialização da estrutura
partidária e com a prioridade aos locais de trabalho. Bases
organizadas por áreas de interesse ou categorias não têm
substrato territorial, por definição. É a estrutura
organizativa que precisa dar respostas apropriadas, segundo
os interesses políticos de cada situação. Mas isso tem
condicionantes: elas precisam estar articuladas
funcionalmente ao todo, ou seja, a uma direção única. A
questão é que múltiplas formas de base não geram múltiplas
formas de comitês: estes permanecem em bases territoriais e
no seu seio se articulam diversas formas de atividades.
A existência de comitês distritais e municipais, aos quais
se subordinam as atividades da base, são instrumento para
assegurar aquela direção única e evitar a
compartimentalização do trabalho militante em cada área.
Deve ser pressuposto, por outro lado, que comitês
partidários em qualquer desses níveis só se legitimam se
tiverem sob sua direção Organizações de Base. Isto posto,
bases de tipos variados, que não apenas por local de
trabalho, estudo e moradia, podem ter lugar na estrutura
organizativa territorializada, desde que os comitês
dirigentes de fato tenham no máximo âmbito municipal - sob
pena de adotarmos soluções organizativas transversais ao
Partido – e sejam preparados politicamente para dar conta
das diversas frentes de atuação, com apoio dos comitês
superiores. Em todo o conjunto, se exigirão linhas políticas
positivadas, para ligar a luta específica ao projeto
político global do Partido.
Em todos esses casos, é preciso precaver-se das tendências
corporativistas, localistas ou setorialistas que emergem de
militâncias por áreas de interesse ou de categoria. Não se
pode perder de vista que essas novas OBs são de comunistas,
mesmo que de determinado setor, mas o que os une, antes de
tudo não é a sua profissão, área de interesse, mas a sua
identidade política e ideológica, em torno do programa
tático e estratégico do nosso Partido. Há no Partido
experiências de comitês de categorias, equiparados a comitês
distritais, mas de âmbito municipal ou mesmo regionais. É,
ao que tudo indica, uma distorção organizativa. Podem
justificar-se, sim, dada a prioridade organizativa, se
tiverem âmbito no máximo municipal e se têm sob seu comando
bases por locais de trabalho. Mesmo assim, toda atenção
precisa ser dada para garantir uma atividade que não se
esgote no corporativismo ou transformá-las em apêndice da
atividade sindical.
Quanto às bases por áreas de interesse, ao que tudo indica
por ora, não se justifica constitui-las como regra geral,
extensamente. Militância por área de interesse poderá
coexistir fora de bases específicas, no âmbito de bases por
locais de moradia ou na Universidade, por exemplo. Quando
forem necessárias, poderão constituir-se no âmbito de
comitês distritais ou municipais. Isto, como em todos os
demais casos, não deve dar ensejo a dupla militância, ou
seja, cada militante pertence a apenas uma organização
partidária de base. E exigirá muitas vezes, da parte de
comitês dirigentes, organizar frações ou comissões que dêem
conta da direção política concreta nas batalhas que envolvem
o conjunto da militância desse tipo de organização.
Como se depreende, as formas organizativas serão mais
variadas, como espaço para diversos tipos de militância, com
variados graus de participação. Elas são chamadas em apoio
ao processo de direção, que é essencialmente político.
Nenhuma dessas respostas pode ser encontrada fora da
política, do projeto político do Partido. Mas parece claro
que uma adequação da estrutura organizativa é necessária,
supondo novas regulamentações e mesmo adaptações
estatutárias. Isto, claramente, tendo por pressuposto o
crescimento partidário, e a efetiva incorporação deles à
atividade pelas bases, que segue sendo o grande limitante
para a existência de bases. E, claramente, exigindo grande
fortalecimento dos Comitês Municipais.
O que é certo é que também em organização precisa-se
conceber um processo dinâmico, politizado. Já mencionamos
que a militância será recadastrada a cada processo de
conferências, pressupondo os direitos e deveres dos que
efetivamente assumem compromisso com o Partido. Resta
diversificar as formas organizativas, para dar maior
aderência à atuação do Partido entre o povo, nas múltiplas
formas que assume hoje o processo participativo. E, para
garantir a efetividade de todo esse processo, sustentar uma
estrutura concêntrica e articulada como sistema de direção –
sobretudo os comitês municipais – para ligar a
multiplicidade de ação das bases ao projeto político
concreto do Partido para cada situação. Mantém-se a
referência territorial, mas no seu seio há múltiplos tipos
de bases e linhas de atuação. Normativamente, isso nos pede
estabelecer a possibilidade de bases segundo outras
referências que não apenas trabalho, estudo e moradia, e
estabelecer a exigência de que comitês pressupõem a
existência de bases organizadas e/ou comitês distritais.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de
Organização do Comitê Central do PCdoB
waltersorrentino@pcdob.org.br
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