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Partido de quadros e partido de massas - parte 1

A afirmação do papel do Partido na atualidade precisa de respostas atualizadas ao problema do caráter e perfil militantes, bem como ao caráter e perfil das formas de organização

Cazuza é um militante comunista, com a qualidade de ser conhecido em quase todo o país. Isso porque foi o “ator” do nosso curso básico em vídeo, no tema partido. Ator ele não foi, certamente; simplesmente o vídeo retratou sua vida militante. Saía pelas 3 da manhã da periferia Leste da região metropolitana, ia à sua garagem onde trabalhava como condutor uma jornada inteira. Depois, como dirigente sindical, atuava em várias áreas da cidade. Enfim, Cazuza cumpria diversos papéis. Pode-se perguntar: ele deve ser considerado um “modelo” militante? E, ademais, onde militava Cazuza, onde forjava sua consciência, onde apreendia a orientação política partidária, assumia e prestava contras de seus compromissos concretos com a luta e o partido? Com a derrota na eleição sindical dos Condutores, Cazuza milita hoje em base territorial.

Em outra chave, é já clássico entre nós que nos momentos importantes da vida partidária, em comgressos, eleições e debates, reaproximam-se de nós ex-militantes. São muitos, já se contam à esfera de milhares. Não erro se digo que se interessam pelo êxito do partido, votam em nossos candidatos, acompanham nossa luta – e por isso reaproximam-se, diferentemente dos que abandonaram convicções. Afastaram-se da militância cotidiana. É como se nos dissessem: “Aprendi que ser militante é ser dedicado, antes de tudo, ao Partido. Como não posso manter essa dedicação, é melhor afastar-me”. Ou seja, em certa altura de sua jornada, julgaram não ser possível conciliar o papel militante com as demandas da vida social, familiar, profissional, econômica, acadêmica, afetiva... Mas é de se perceber: segundo um “modelo” determinado de militante.

A questão do perfil de militantes e do perfil das formas organizativas que os acolhe está posta em debate, quando no documento-base da Conferência falamos de um PC organizativamente estruturado como de massas, extenso, numeroso. O caráter militante e o pertencimento a uma das organizações partidárias enquanto expressão de compromisso com o Partido e com a luta revolucionária, o compromisso com a sustentação material e aplicação da linha política decidida pela maioria, repõe-se desde sempre para o PC. Aliás, isso integrou-se à moderna teoria do Partido revolucionário marxista e influenciou fortemente as organizações políticas de massa em geral, ao longo do século 20. Lênin foi o grande formulador desse caminho. Somos seus herdeiros.

Já foi muito argumentado entre nós que não decorre de Lênin um modelo único de militante e de formas organizativas, ou seja, há necessidade de tomar historicamente Lênin na sua teoria do partido revolucionário. Teoricamente, ele o fez em combate aberto ao economicismo que fazia a apologia do elemento espontâneo a partir de uma compreensão evolucionista e mecânica da luta do proletariado.

Assentando as fundações do Partido em bases ideológicas, deve-se a Lênin ter levado também ao terreno da organização a luta e demarcação com o oportunismo. Por isso a noção de uma única ideologia – em permanente construção no interior da vida partidária -, ou seja, a ausência de pluralismo ideológico no PC e, conseqüentemente, a necessidade de unidade de ação de suas fileiras, ou seja, a ausência de tendências consolidadas em seu interior. Lênin formulava a unidade de ação em bases políticas – em torno do Programa e da tática, democraticamente formulada por todos sob um centro único de direção, subordinando a minoria à maioria. Em resposta a Rosa Luxemburgo, que o criticou como apologista do ultracentralismo, Lênin argumentou ter defendido “teses elementares de qualquer sistema de qualquer organização concebível de partido”. Lênin preparava um partido verdadeiramente voltado ao movimento revolucionário, capaz de unir uma sólida consciência teórica à iniciativa política concreta mobilizadora das massas. Compreensível, então, o papel destacado dos quadros políticos preparados, a partir “de cima”, com a ampla organização pela base de milhares e milhares de militantes imersos no movimento real das massas de milhões, ligados a ele por laços profundos. Mas, nunca perdemos de vista, ele formulou tais idéias inicialmente em ambiente de absoluta clandestinidade e conspiratividade, implicando em formas organizativas de determinado tipo que, aliás, ele mesmo não deixou de conclamar à superação quando se avançou na conquista de liberdades. Por isso, a contraposição entre partido de quadros e partido de massas – que assolou o debate e até hoje é utilizado como estigma acerca da forma organizativa do Partido – deve ser contextualizada histórica e concretamente, não mantendo validade universal.

Se falamos de modelo organizativo, precisamos, além das bases teórico-ideológicas, falar de outras determinações que concorrem para sua formulação. Uma delas decorre dos caminhos e da estratégia do movimento transformador. Lênin situava-se no tempo de uma situação de ofensiva estratégica, num tempo onde a revolução estava na ordem do dia. Não poucas vezes foi apodado de “jacobinismo”, confundindo espírito e decisão revolucionários com uma estratégia determinada, a do “assalto aos céus”, ou seja, o caminho da insurreição – que naquele contexto conquistou vitória estratégica para o proletariado transformando a velha Rússia na poderosa URSS.

Também a destacar, como determinação do caráter das formas organizativas, as características da realidade social. O início do século 20 foi marcado, por exemplo, pelo processo de ampla industrialização, sob o paradigma fordista-taylorista, que determinava as fábricas como o lócus central do conflito social, o que organizava o conflito no conjunto da sociedade por meio da luta do proletariado no âmbito econômic-sindical e político. Disso entre outras coisas derivava outra determinação, de caráter normativo, assentando o modelo que afinal foi sendo constituído no âmbito da 3ª IC e foi largamente predominante nos PCs. De 1921 é a referência da 3ª IC para as células de fábricas como forma central a predominar no sistema de organizações partidárias. Outras resoluções subseqüentes foram apontando para a necessidade de fazer confluir a estrutura de comitês partidários com a divisão político-administrativo-jurídica do Estado.

Cada uma dessas determinações tem seu próprio desenvolvimento histórico-concreto a cada situação da luta de classes e produziu respostas adaptativas. China, Vietnã, mesmo Cuba – para não falar da luta revolucionária anti-colonial -, fizeram experiências originais, mesmo no âmbito da 3ª IC, ou seja, os caminhos da luta determinaram fortemente a forma organizativa assumida pelo Partido. Outras respostas, pela direita, também foram produzidas e, no fundamental, levaram à descaracterização do caráter do Partido – vários exemplos do eurocomunismo e revisionismo atestam o fato. Também respostas doutrinárias, de cunho dogmático e esquerdista, fossilizaram o papel do PC. Tudo isso é certamente indesligável do conteúdo ideológico e do pensamento político que cada uma dessas forças abraçou, mas também é certo que o papel, função, feição e forma organizativa do PC refletiu esses conteúdos e moldaram “modelos” originais.

Em nossos três últimos Congressos vimos procurando analisar cada uma delas, e isso permanece sendo necessário. Falamos de um tempo de defensiva estratégica, onde a revolução não está na ordem do dia – por isso a exigência de retomar o conceito de construção da hegemonia; falamos das características distintivas da realidade e consciência social contemporâneas, que determina múltiplos focos de conflito social onde não pode faltar a presença organizadora do Partido; falamos da reestruturação produtiva do capital, determinando uma nova configuração de organização dos operários na produção, sua fragmentação, a dispersão das forças do movimento sindical, e da necessidade de repor sua centralidade no processo político e no trabalho organizativo do Partido; falamos das novas características do Estado, que esvazia a representação tradicional e a democracia, substituindo-a pela força do mercado, das grandes corporações financeiras, pela fragmentação... Enfim, tudo isso são processos que impactam a forma-partido, os submetem a crise de representação, afetam a perspectiva militante. Vimos reafirmando a identidade de um PC classista, revolucionário, marxista-leninista, para enfrentar a crise teórica e prática do movimento transformador, que no fundo é a determinação principal destes tempos atuais. Ao mesmo tempo, sabemos que isso nos exige esforços de adaptação do Partido em sua capacidade de auscultar, representar, mobilizar e organizar os trabalhadores e o povo.

Esse um sentido do debate: respostas são necessárias também no sentido organizativo. O perfil e caráter da militância, o perfil e caráter das formas organizativas, o modo de aplicação e desenvolvimento do centralismo democrático incluem-se no rol dessas respostas. Não há um “modelo” imutável, porque são diversas as condições em que se forja a consciência revolucionária marxista hoje e são diversos os problemas da sociedade contemporânea. Além disso, o projeto organizativo precisa ser funcional aos caminhos do movimento transformador e, portanto, deve se desdobrar em linhas de construção adequadas ao propósito do nosso projeto político. Por isso, tal debate é necessário: partidos são instrumentos e não fins em si mesmos, e também estão sujeitos ao desenvolvimento histórico, tanto na prática quanto na teoria.

As respostas que precisamos fornecer no terreno das questões de organização do partido se articulam com as exigências estratégicas de nossa luta. Dito de forma direta, elas se articulam em torno da necessidade de um Partido de vanguarda sim, mas até por isso mesmo, um partido grande, uma formação organizativa ampla, extensa e articulada: um Partido Comunista de vanguarda e de massas, e não meramente um partido de quadros. E, particularmente, forte entre as classes trabalhadoras.

Isso é o que precisa ser melhor discernido e o que veremos na segunda parte do artigo. Enquanto isso, sempre se poderá ler e reler, nas linhas e entrelinhas, os textos do 8o, 9o e 10o Congressos, além do texto da 9a. Conferência em debate hoje.


*Walter Sorrentino, médico, é
Secretário Nacional de Organização do
Comitê Central do PCdoB


 Artigos anteriores:

21/05/03
Lições de vida e de luta

13/05/03
Impulsos e gargalos da vida partidária

07/05/03
Quantos somos os comunistas no país?

16/04/03
Política de quadros para um projeto ampliado

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O tema Partido na 9ª Conferência Nacional

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Tarefas do Partido na última etapa do IV PEP

 

 

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