Conflitos da vida partidária
Walter Sorrentino*
Há com mais
freqüência que o imaginável, na vida interna do Partido
pelo país, situações de quebra de relações de
confiança política em coletivos dirigentes. Essas
situações têm sido responsáveis pelos principais atrasos
na vida partidária, levando a divisões, exclusões e
comprometimento dos projetos políticos e eleitorais. Mesmo
neste 11º Congresso, pode-se dizer que os Estados mais
retardatários na mobilização são os que tem por base
tais situações.
A quebra de relações de
confiança política é precedida e acompanhada
inevitavelmente de lógicas facciosas no trabalho de
direção, em diferentes graus, que se instalam em todos os
poros da vida partidária. Segundo essa lógica, o problema
é sempre o outro lado: se excluído o outro, os problemas
estariam resolvidos. Por exclusão aqui, entenda-se desde
sanções disciplinares (em geral são propostas em grau
máximo), até a constituição de uma direção com um lado
só.
Quase sempre, a
fenomenologia dessa situação envolve a presença de
disputas pessoais, em torno de projetos pessoais ou até
mesmo ambições políticas descabidas. Em geral têm a ver
com projetos eleitorais. Quando envolve parlamentares, quase
sempre está presente o personalismo excessivo, a propensão
a não prestar contas do mandato ao coletivo partidário, ou
se sentir acima dele. É o que foi afirmado no projeto em
discussão do 11º Congresso: quer se impor a soberania
pessoal sobre o mandato, o que certamente não é aceito
pelo corpo de militantes que o ajudou a eleger.
Há também o problema
quando da participação em instâncias de governo.
Diferentemente do mandato parlamentar, onde existe clara
pressão da base eleitoral do parlamentar, na participação
em governos esse controle não existe ou é bem menor.
Existe, sim, por outro lado, a pressão pela autonomização
do detentor de tais cargos, ou por ficar sujeitas ao projeto
do executivo. Por isso, previsivelmente os conflitos
políticos no interior do Partido se ampliaram quando essas
participações em governo não são corretamente
acompanhadas pela direção partidária.
Quando as disputas envolvem
quadros que ocupam papéis dirigentes centrais, a receita é
quase infalível: o partido marcha ou para uma divisão, ou
para a paralisia. Quase sempre se afasta da ação política
de massas, seu crescimento fica comprometido e o trabalho
partidário em geral fica estiolado.
O que é menos visível,
mas igualmente falso, é querer equacionar tais situações
com práticas sectárias, autoritárias ou mandonistas de
direção. Ao contrário, tais práticas agravam os
problemas, aprofundam a lógica facciosa, e tende a deixar
inerme o corpo militante, nas mãos dos quais devíamos pôr
os destinos do Partido em tais situações de disputas e
divisões.
Pode-se dizer mesmo que
tais práticas estão na base de outra fenomenologia que
leva ao estiolamento da vida partidária. Partido de
porteiras fechadas, com direções de atitudes estreitas
(política ou ideologicamente) e tacanhas, com cultura
política atrasada, métodos falsos, causam prejuízos
importantes ao Partido. Deixa de atrair para suas fileiras
lideranças expressivas, pois pressente-se que o partido tem
dono. Não devíamos ser mais indulgentes com essa
concepção e prática: elas andam em geral de mãos juntas.
Dizemos, com razão, que se
deve pôr sempre a política no posto de comando.
Princípios, destituídos de sua aplicação política
concreta, resultam em principismo estéril. Mas daí não
deve derivar que podemos nos bastar com uma justa política
no processo de estruturação partidária. Ela é condição
indispensável, mas não suficiente. Além dos conteúdos
ideológicos e da linha organizativa, cumpre reparar também
nos métodos e estilo de direção.
Estamos percorrendo ainda
um caminho aberto lá atrás, no 8º Congresso: persistir no
caminho de um partido revolucionário, classista, norteado
pelo centralismo democrático, ao mesmo tempo renovar
práticas e concepções, livrar-se de visões dogmáticas e
voluntaristas. Isso tem tudo a ver com o novo Estatuto em
debate, e com a necessidade de dotar nossa organização
política de um repertório mais vasto pela estruturação
partidária, que não se basta com fórmulas simplistas e
repetitivas. Essa é uma condição, inclusive, para melhor
combater tendências pragmáticas, liberalizantes e
burocratizantes, justamente postas em evidência central
nesta fase histórica, extraindo conseqüências da idéia
de um partido para um período de acumulação estratégica
de forças.
Isso quer dizer que a vida
partidária precisa adquirir cultura política mais
avançada. É necessário maior institucionalidade
democrática e mais firmeza de procedimentos de respeito a
normas da vida partidária, perante a conflitividade nas
relações internas, inclusive para não resvalar no
pragmatismo político. Nisso vai incluído também proferir
respostas mais precisas a certas questões: por que mesmo
alguém deve permanecer décadas a fio em uma mesma função
de direção? Por que deve ser tão dificultoso substituir
alguém em funções de direção partidária? Por que
alguém deve pôr interesses pessoais acima dos interesses
definidos pela maioria, segundo nosso contrato político
livremente aceito? Por que, pelo outro lado, alguém deve se
sentir constrangido em expressar suas opiniões próprias e
mesmo seus anseios políticos? Por que a militância devia
aceitar métodos mandonistas ou caciquistas de condução
das questões partidárias?
Algumas outras questões
poderiam ser formuladas. Mas que não se caia na tentação
de encontrar essas respostas à margem de uma mediação
política, constitutiva de um projeto político coletivo.
Essa talvez a principal responsabilidade das direções. A
elas cabe perseguir a unidade partidária, mesmo à custa de
desprendimento pessoal de seus integrantes, já que foram
eleitos por todos precisamente para fazer valer o interesse
da maioria.
Uma coisa é certa: a
realidade que temos no Partido foi construída em muitos
anos e construída por todos. Avanços vêm sendo
constatados, mas também insuficiências, como se revela
nestes últimos anos em alguns comitês estaduais. A
desconstrução de práticas atrasadas, defasadas das
exigências, também poderá ser obra mais ou menos
prolongada, a depender da compreensão que tenhamos.
Certamente ela precisará ser de todos os militantes.
Envolve também luta de concepções e métodos adequados,
participação do coletivo nas decisões. Mas não pode se
atrasar. É com base nisso que se pode reforçar aquela
confiança política indispensável a um organismo de
direção.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de
Organização do Comitê Central do PCdoB
waltersorrentino@pcdob.org.br
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