| Estruturação
e organização do Partido
Walter Sorrentino*
O
que faz um secretário de organização? De tudo um pouco,
até dirigir o partido e direcionar os esforços de
estruturação. Digo isso com algum exagero porque não é
pouco freqüente a queixa de vários secretários (ainda
numa reunião nacional a ouvimos): "a gente chega na
sede com algumas prioridades na cabeça; em poucos minutos,
ainda na recepção, já somos atordoados com mil problemas
cotidianos para resolver. O dia passa e não tratei das
prioridades. Até responder pelo café na sala de reuniões
a gente é cobrado".
Um dos vícios mais recorrentes de que fui testemunha é a
idéia de que questões de partido são questões de
organização. Reducionismo puro, que empobrece nossa
visão!
Secretarias de Organização têm uma longa tradição no
movimento comunista. Seu papel central diz respeito a
coordenar e sistematizar a experiência de construção
partidária e gerir a vida interna do partido, como parte do
sistema de direção geral. Para isso lidam com a
elaboração e desenvolvimento de uma política de
organização.
Não raro se verificou a mistificação de ser o segundo
numa pretensa hierarquia partidária. Em boa medida, recaiu
sobre ela a questão momentosa da modelagem dogmática da
construção partidária, a partir de esquemas a
priorísticos, fechados ou intolerantes-autoritários de
condução da vida interna. Em certo sentido, isso se
configurou como causa e conseqüência de uma relativa falta
de desenvolvimento do pensamento de partido, tomado de modo
dogmático, a-histórico, insuficientemente em
correspondência com a realidade social em mutação e até
mesmo com as exigências de um projeto político
transformador.
Disse na última coluna que
o desenvolvimento do pensamento acerca do partido no Brasil
sofreu enormes vicissitudes. Particularmente, fomos marcados
de modo indelével por mais de 60 anos de clandestinidade,
produzindo certo enrijecimento. Difícil por exemplo pensar
a médio prazo, nessas condições de clandestinidade e com
a leitura de ser "iminente" a revolução bater
às portas. A reconhecida vivacidade e flexibilidade do
pensamento político do partido tardou a se aplicar à
esfera da construção e estruturação partidária.
Felizmente, nos últimos anos, com o conceito de
estruturação partidária, começamos a superar isso. Ainda
faz falta bater nessa tecla e desenvolver a abordagem.
Desculpem o jogo de
palavras, mas construção, estruturação e organização
partidárias, sendo conceitos complementares, não são um
só e único conceito. A chave foi definir que a
construção partidária se dá no plano político,
ideológico e organizativo, e que a síntese atual desse
esforço é a sua maior estruturação, que assume hoje o
papel central na atual fase de construção. Os objetivos da
estruturação são traçados nos planos (já estamos no 4o
plano!) e, neles, a organização assume um papel
particular: ela é parte do plano, ao mesmo tempo seu esteio
principal, porque o coordena.
Mas daí a voltar a pensar
que questões de partido são questões de organização
seria como dizer que a parte é o todo, empobrecendo o todo.
E empobrecemos a parte também, porque ela sucumbe às
voltas com um cotidiano massacrante.
Partido é política,
partido é ideologia, partido é organização! Construí-lo
permanentemente e estruturá-lo é tarefa de todos nós:
envolve a direção política e ideológica, de ação de
massas, de organização e formação dos militantes. Pode
ser que a organização coordene esse processo, em algumas
de suas dimensões fundamentais, mas não é tarefa só
dela. "Organizar" sem compreender isso é tentar
embrulhar um pacote vazio.
A partir daí podemos
desaprisionar a organização para desenvolver seu próprio
papel permanente. Compreendo-o como a exigência de dar
corpo a uma política de organização, que sistematizará a
experiência de construção do partido nas várias frentes
e, assim, alimentará o esforço de estruturação. Ponto
destacado disso é uma política de quadros.
A nossa coluna será parte
desse esforço elaborador. Voltaremos ao tema com
freqüência, mas paulatinamente: veremos as coordenadas do
atual plano de estruturação e polemizaremos os componentes
políticos, ideológicos e organizativos, antes de nos
lançarmos à polêmica.
NÃO DEIXE DE LER:
Resoluções do 2º CC do 10º Congresso - 9 e 10 de março
de 2002
IV Plano de Estruturação Partidária
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Digressão
1
Morreu Luis Ricardo,
presidente da UEE-SP, há mais de mês. Neste portal
precisava dar meu preito de solidariedade à sua família,
cujo pai é um antigo e bom militante.
A violência em todas suas formas é uma das indicações
mais evidentes da incivilização em que mergulhamos. Como
indicador, só não ganha da insensibilidade da nova direita
que governa o país, descomprometida de seu povo.
O Brasil está em quinto lugar (atrás da Colômbia, Coréia
do Sul, El Salvador e Rússia) no ranking mundial de
homicídios da ONU. Em São Paulo, a esperança de vida é
quatro anos menor devido aos homicídios. E as mortes
violentas, por causas externas, são a segunda causa de
óbito. Naturalmente, a que mais incide sobre os adultos
jovens. Como Luis Ricardo, inesquecível amigo e camarada.
*Walter Sorrentino é Secretário Nacional de
Organização |