| Flutuação e
vida militante na base
Walter Sorrentino*
Uma das questões presentes na vida dos
partidos comunistas na atualidade é o da flutuação
militante. Ou seja, filiam-se novos aderentes, mas há
instabilidade na sua militância ou mesmo evasão. Os
italianos da Refundação Comunista, por exemplo, chamam o
fenômeno de intenso turn-over dos inscritos. Alguns estão
às voltas com a diminuição do afluxo de novos aderentes
ou, ainda, com ambas as coisas.
Nossos comitês e bases vivenciam
diretamente esse problema, mas ele ainda é pouco conhecido
e debatido entre nós. Aliás, o IV PEP visa começar esse
debate.
Dados são indispensáveis para uma
análise serena e isenta da questão. E aqui reside o
primeiro grande problema: eles não são disponíveis
apropriadamente, por ora. Os cadastros (iniciados em 1997) e
os PEPs (desde 1999) vão possibilitar um estudo muito
profícuo da questão.
Atentemos
por ora para a tabela abaixo, com números arredondados:
|
Ano
|
Características
|
PEP
|
Novos
filiados
|
Participantes
da vida partidária
|
|
1997
|
9o
Congresso
|
Não
havia
|
Não
disponível
|
20000
|
|
1998
|
Eleição
nacional
|
Não
havia
|
Não
disponível
|
18000
|
|
1999
|
Conferências
Estaduais
|
Primeiro
|
18000
|
21000
|
|
2000
|
Eleição
municipal
|
Segundo
|
6000
|
28000
|
|
2001
|
10O
Congresso
|
Terceiro
|
18000
|
35000
|
Se a aparência fosse a essência não
haveria necessidade de ciência, como disse já o velho
mestre. Há nesses números muitos indicadores e não
podemos nos furtar a deles extrair todas as conseqüências.
A questão infere razões de ordem política, ideológica e
organizativa muito variadas e complexas, e abarca múltiplas
perspectivas, próprias de nossa época e das sociedades
atuais. Para o pensamento de partido, dizem respeito à
atualização de nossa política de organização. Vamos
dizer que tratar disso é uma das razões de existência
desta coluna ao longo do tempo. Consideremos apenas que
está dada a partida.
Fixemos a aparência mais gritante:
partimos de 1997 com 20 mil militantes, filiamos pelo menos
42 mil novos em 5 anos e chegamos em 2001 com 35000.
Particularmente entre 1998 e 1999, partimos de 18 mil,
filiamos novos 18 mil e só trouxemos para a vida
partidária naquele último ano 21 mil militantes (olha aí
o diagnóstico do 9o Congresso quanto à
"defasagem" ideológica e organizativa que se
manifestava na vida partidária e que nos levou a configurar
os PEPs!).
Há uma conclusão inicial a extrair, e
ela se desdobra em duas assertivas:
1. Há um problema real de flutuação,
para o qual não se deve fechar os olhos. Problema menos
agudo porque convive com a expansão das forças
partidárias, mas nem por isso menos importante. Falar em
fortalecimento das fileiras partidárias com novas
filiações exige atentar para o fato de que é preciso
esforço para manter os filiados ativos e ligados ao
Partido.
2. A questão mais diretamente afeta ao fenômeno é o da
vida e atividade das bases partidárias. Elas são a rede
de "ativação" dos militantes. Seu adequado
funcionamento, sua vida e dinamismo, são a chave da
ativação militante do partido. Por isso, essa segue
sendo a questão-chave de nossos problemas de
estruturação partidária. Como se sabe, no IV PEP,
colocamos como alvo a consolidação de CMs, exatamente
como mecanismo que permita avançar na criação e
fortalecimento da vida das bases.
Essas conclusões, de valor imediato,
precisam marchar ao lado de um exame mais aprofundado do
problema. A questão infere perspectiva mais larga,
referentes a nossa concepção de Partido, às formas e
funções que ele assume. Velho debate, hoje ainda mais
presente devido à pressão contra a política, os partidos
políticos e a militância política. Antes, essa pressão
provinha diretamente da luta ideológica contra a
perspectiva transformadora, pela "direita":
clandestinidade, perseguição, prisão, tortura, morte.
Hoje, ela se alimenta do pessimismo, descrédito e até
mesmo de uma série de pressões, digamos assim, pela
"esquerda", de negação dos partidos
revolucionários e adesão aos "movimentos", que
recusam uma perspectiva totalizante de projeto político.
O que se coloca é o seguinte: somos
leninistas, e para a condição de comunistas não nos basta
apenas aderentes ao partido, mas também o compromisso com
sua política e sua sustentação militante. Entretanto,
precisamos responder aos problemas de nosso tempo, de nossa
gente, e que são reais. Que perfil e caráter pode e deve
assumir a militância comunista hoje> Que formas de
organização são mais apropriadas a essa realidade>
Como trabalhar o centralismo democrático num contexto de
partido comunista com base de massas> Como alimentar a
perspectiva ideológica da militância> Como assegurar os
contrapesos necessários para assegurar o caráter classista
proletário da composição partidária>
Fazer as perguntas adequadas pode ser
metade do caminho andado. As formas e funções do partido
emanam da concepção leninista, respondem ao projeto
estratégico que defendemos, e se amparam na realidade do
país, no atual contexto da luta de classes mundial. Não
somos adeptos de modelos pré-estabelecidos. Somos
leninistas, e permanecemos em defesa de nossa identidade
partidária, como reafirmamos desde o 8o Congresso. Mas
precisamos desenvolver o pensamento de partido, nos marcos
do processo de expansão que estamos vivendo, para um forte
partido comunista com ampla base e influência de massas.
Esse pensamento se desdobra na elaboração de uma política
de organização mais adequada aos fenômenos com que nos
defrontamos. Não vamos nos furtar a esse esforço.
Por fim, não se pode deixar de dizer o
óbvio: sem um registro adequado nada se pode conhecer. Sem
conhecimento, não há ação consciente. Acabar com essa
ojeriza ao controle, fruto de prolongada clandestinidade e
falta visão a médio prazo, é parte de nosso combate.
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NÃO DEIXE DE LER: Os materiais
referentes à questão do Partido no 10o
Congresso são muito ricos em pautar esse debate e ainda
foram pouco
valorizados na base. Não devemos perdê-los de vista!
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Digressão...
Cada época tem seus próprios
desafios e gesta seus próprios heróis: a história os
julga. Há 30 anos, nas selvas do Araguaia, homens e
mulheres foram escravos de sua própria consciência
libertária, dedicando-se à luta do partido e do povo.
Sabiam o que faziam, estavam dispostos a pagar com a
própria vida, se necessário fosse. E o foi!
Hoje, herdar a mesma causa que eles nos
legaram também implica desprendimento e abnegação,
confiança e convicção, ideais e disciplina. De um outro
jeito. Na enorme maioria das situações hoje, na
legalidade, não estamos ameaçados de morte pelo fato de
sermos militantes comunistas. A ameaça é outra: matar
nossa consciência revolucionária, desacreditar a luta
transformadora, fazer-nos uma folha levada pelo vento, sem
destino histórico. Assim, pós-modernamente...
É outra circunstância, mas o problema é
o mesmo: é preciso ser militante, vale a pena ser militante
da causa transformadora, marxista e revolucionária. Porque
a militância não nega, ao contrário enriquece com a
consciência e compromisso, outras dimensões
indispensáveis da vida - pessoal, familiar, profissional,
acadêmica, afetiva - e com elas quer conviver.
Heroísmo é um produto histórico,
sofrido ponto de chegada e não fútil ponto de partida.
Também esta época que nos foi dado viver gestará seus
heróis, anônimos ou não. Entre eles estarão militantes
comunistas e eles, sem dúvida, lembrarão sempre do exemplo
dos que foram ao Araguaia.
*Walter Sorrentino, médico, membro da Comissão
Política Nacional e Secretário Nacional de Organização
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