| Ousar crescer
na campanha eleitoral
Walter Sorrentino*
Como compreender práticas reiteradas de que durante a
campanha eleitoral muitas vezes se adia o esforço por fazer
crescer o partido, ou mesmo a própria vida interna das
organizações do partido?
O centro da batalha atual pelo nosso projeto político está
em ligação com o esforço das eleições de outubro. Definimos
com clareza nosso projeto e nossa aliança, e estamos
demarcando o programa que norteia a disputa. Vamos nos
aproximando paulatinamente da fase decisiva desse esforço
eleitoral: organizar uma disputa política em ligação com uma
campanha de massas, num terreno favorável à oposição.
É de problematizar então o seguinte: o PCdoB nem sempre
cresce e se estrutura no bojo da própria campanha política
eleitoral. Essa é uma questão política nevrálgica: campanhas
eleitorais nacionais são momentos de enorme ebulição política,
chama o conjunto da população a um posicionamento. Nada mais
normal então que, nesse ambiente, o partido aumente sua
presença, se fortaleça com novos militantes. Conseqüentemente,
é nessas batalhas maiores que o partido mantém e busca
aumentar sua estruturação. Ou visto pelo negativo: é
despolitizado e atrasado deixar de fortalecer o partido no
curso desse tipo de batalha.
Como compreender práticas reiteradas de que durante a
campanha eleitoral muitas vezes se abandona o esforço por
fazer crescer o partido, ou mesmo a própria vida interna das
organizações do partido? Parece até que o partido entra em
recesso na campanha pelo voto – se abandona o acompanhamento
das várias frentes, se remanejam atuações militantes para fora
do âmbito de sua inserção social e política, vai-se
supostamente em busca do voto... A prática é particularmente
malsã quando se refere à desestruturação da atuação nas
frentes de massa, como por exemplo a enorme pressão que se faz
sobre a militância da UJS nessas ocasiões, dificultando e não
facilitando sua maior estruturação.
O problema é que essa não é a prática que em regra melhor
favorece a busca do voto. A atuação enraizada, que colhe os
benefícios do conhecimento profundo por parte dos militantes,
no curso das lutas de que eles ou elas participam
cotidianamente, rende mais eleitoralmente, na medida em que
permite multiplicar o número de aderentes que nos ajuda na
campanha eleitoral – e pode retê-los na forma de novas
filiações ao partido. De outra parte, a questão não é neutra
ideológica e organicamente. Porque, afinal, a busca do voto e
da eleição de nossos candidatos é parte da luta maior pelo
projeto político do partido, e este tem no fortalecimento do
próprio partido também um objetivo central no seio da campanha
eleitoral. Meios e fins precisam estar articulados.
Tudo somado, há problemas de concepção e prática nesse
desvio que muitas vezes marca nossa atuação em campanhas
eleitorais. Não se desconhece que, em alguma medida, campanhas
eleitorais forçam situações para as quais o partido nem sempre
está preparado. Notadamente em casos de pouca força acumulada,
ou estrutura do partido rarefeita, muitas vezes a estrutura
partidária sofre intensas adaptações para o esforço eleitoral.
Mas que dizer de situações onde o partido é mais forte e
estruturado? Por que abrir mão dessa estrutura na luta
eleitoral?
O IV Plano de Estruturação Partidária, em curso em todo o
país, assumiu um vetor primordial: manter a estruturação do
partido e incrementa-la no curso da campanha eleitoral e na
ação política de massa. Vejamos hoje a primeira questão.
Falamos de estruturar o partido para que ele cumpra melhor
o seu projeto político. Estruturação e política do partido são
vetores indissociáveis. Sem uma política justa, comprovada na
experiência e vinculada ao projeto do partido, não se pode nem
sequer falar de fazer crescer e estruturar melhor o partido. É
óbvio que não estruturamos um pacote vazio: o conteúdo é o
projeto político do partido. Ele se funda nos valores de nossa
teoria e ideologia classista proletária, e é desdobrado em
orientações políticas concretas, segundo a correlação real das
forças em presença. No caso, nosso projeto eleitoral, as
alianças, as candidaturas, a linha de campanha.
No balanço da implementação desta primeira fase do IV PEP,
fica claro que, nacionalmente, conseguimos pôr a política no
comando. Todos os planos estaduais adotam por centro a batalha
por fazer vitorioso o projeto eleitoral do partido e alcançar
2% dos votos nacionais. Entretanto, a prova concreta ainda
está por ser vencida: durante a campanha, notadamente sua fase
crítica que vai de julho a setembro, comprovar na prática
nossa concepção politicamente avançada e ideologicamente sã de
seguir fortalecendo o partido e suas organizações no seio da
batalha eleitoral.
Como se manifesta e se comprova essa diretiva? Apontamos no
IV PEP algumas indicações: primeiro, realizar as conferências
eleitorais de junho com forte empenho nas Assembléias de Base;
segundo, fortalecer a capacidade de comando dos comitês
municipais durante a campanha, dirigindo a atividade das OBs e
demais organizações intermediárias; terceiro, conectar a luta
eleitoral com as demais atuações permanentes do partido, dando
diretivas políticas e organizativas adequadas a cada uma
delas, sem desestruturá-las ou abandoná-las à própria sorte.
Quarto, despregar uma poderosa campanha de massas, politizada
e aguerrida, por um Novo Rumo para o Brasil, inserindo nela os
candidatos do PCdoB e o esforço por trazer novos combatentes
ao partido.
Bem vistas as coisas, trata-se de um rumo irrecusável,
próprio da maturação e expansão que vem vivendo nosso partido
nos últimos anos. Alargar horizontes e perspectivas de nossos
quadros e militantes, e não soterrá-los sob uma avalanche de
tarefas cotidianas desconectadas da preocupação explícita de
fortalecer o PCdoB no seio da batalha. Fica o alerta: se não
superarmos tais limitações, demonstra-se um atraso subjetivo
de nosso pensamento de partido, que comprometerá a capacidade
de nos imaginarmos ainda maiores e mais estruturados – aliás,
perspectiva bastante plausível na presente situação política
brasileira. Como em tudo o mais em nosso partido, as idéias
caminham na frente. Se as idéias não correspondem às
exigências, nos atrasaremos em perseguir nosso projeto
político.
NÃO DEIXE DE LER:
O documento sobre
Questões Programáticas elaborado pela Comissão Política
Nacional para as eleições de outubro, cuja edição em breve
estará disponível na imprensa partidária e em edição própria.
*Walter Sorrentino, médico, membro da Comissão
Política Nacional e Secretário Nacional de Organização
Endereço eletrônico: waltersorrentino@pcdob.org.br
DIGRESSÃO...
Morreu Stephen Jay Gould. Sua obra é um desses momentos
que, se não é fundador, pode vir a ser reconhecido como
refundador da Teoria da Evolução de Darwin. Isso porque Gould
foi um darwinista convicto, e nesse sentido materialista
conseqüente, ativista inclusive, com uma denúncia viva do
atraso que é o ensino oficial do criacionismo em escolas
norte-americanas. Entretanto, submeteu a apreensão da obra de
Darwin a um profunda visão crítica, combatendo o reducionismo
a que ela foi renitentemente submetida, sob a forma de
determinismo mecânico, seja de base geneticista, seja de
abordagem a-histórica.
Em A Galinha e seus Dentes (1992, Paz e Terra), entre
muitas outras passagens de sua obra, pode-se ler:
“Persegui esse tema [as extraordinariamente amplas e
radicais implicações contidas na proposta de Darwin para um
mecanismo evolutivo - a seleção natural] de modo implacável,
enfocando três pontos de vista. A seleção natural como uma
teoria sobre a adaptação local, e não sobre o progresso
inexorável; a ordenação da natureza, como um subproduto
coincidente da luta entre os indivíduos; e o caráter
materialista da doutrina de Darwin, e em particular sua
desqualificação de qualquer papel causal que pudessem
desempenhar as forças, energias ou poderes espirituais”
(p.119).
“É um erro, embora lamentavelmente comum, considerar que a
utilidade atual de uma característica [evolutiva dos seres
vivos] permite uma inferência sobre as razões de sua origem
evolutiva. A utilidade atual e a origem histórica são assuntos
diferentes... As características complexas são prenhes de
potencialidades; a sua possível utilização não está confinada
à função original. E essas mudanças evolutivas de função podem
ser tão ardilosas e imprevisíveis quão vastos os potenciais da
complexidade” (p 62).
“A dificuldade está em nossa visão simplista e
estereotipada da ciência, considerando-a um fenômeno
monolítico, baseado na regularidade, na repetição e na
habilidade em prever o futuro. As ciências que tratam de
coisas menos complexas e menos ligadas à história do que a
vida (grifo meu) podem seguir esta fórmula... A ciência das
coisas historicamente complexas é uma empreitada diferente, e
não menor... As noções da ciência precisam dobrar-se (e
expandir-se) para acomodar a vida“ (p. 64). “Alguns tipos de
verdade podem requerer sendas estreitas e retilíneas, mas as
trilhas da introspecção científica podem ser tão meândricas e
complexas quanto a mente humana” (p. 95).
Aí encontra-se a meu ver um busílis de sua contribuição,
polêmica certamente, mas enriquecedora a todos os títulos.
Explorando esse ponto de partida, criou a teoria do equilíbrio
pontuado, da macroevolução, argumentando sempre polemicamente
com a imprevisibilidade baseado em copiosa cultura de História
Natural.
Creio que há um paralelo possível para com as ciências
sociais: onde ele refere a vida coloque-se vida social em sua
imensa complexidade e teremos desvendado também um dos
desafios centrais que os marxistas têm na atualidade, de
romper com estereótipos reducionistas e mecanicistas – ou
melhor dizendo petrificados - , para abrir-lhe as fronteiras
para um desenvolvimento da concepção e método, em tudo
necessário aos dias atuais. Com o próprio Gould, sem renunciar
aos fundamentos do materialismo histórico e dialético, mas
desenvolvendo-o às custas de se apropriar histórica e
criticamente do enorme desenvolvimento das ciências em geral
no último período do século passado, que perdura até aqui.
Atitudes científicas e abertas como a de Gould são
enriquecedoras do patrimônio cultural humano.
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