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O PARTIDO VIVO

A questão ideológica e a perspectiva militante

Walter Sorrentino*

Falamos na última coluna da centralidade de repor e alimentar o trabalho ideológico, voltado a dotar de consciência, vontade e coesão homens e mulheres militantes da causa transformadora. Os problemas da estruturação partidária relacionados à esfera ideológica seguem sendo centrais, neste período histórico marcado pela apostasia e pela crise da perspectiva transformadora. Não se constrói um partido revolucionário sem confiança no projeto transformador, coesão, unidade e disciplina de suas fileiras militantes. Isso implica em repor o caráter militante do partido comunista, sua dedicação à luta dos trabalhadores e os valores éticos e morais de militância.

Malgrado as pressões que se manifestam contra a política, os partidos políticos e a militância política, tendendo a desacreditá-los, lançá-los na vala comum, a experiência histórica do movimento revolucionário indica ser necessário perseverar no cultivo daqueles valores. Muitas organizações de esquerda, a título de adaptação aos novos tempos, enfraqueceram o primado ideológico, e acabaram por se transformar em agrupamentos de centro-esquerda, renegando o marxismo e a perspectiva classista. Pense-se no caso do ex-PCI e mesmo do PPS. Outros movimentos de esquerda dão uma resposta de negação da perspectiva partidária, substituindo-a pelo movimentismo, muitas vezes inorgânico e sem um projeto de poder. Pense-se no zapatismo, por exemplo. Por outro lado, uma resposta de engessamento, tratando de forma reducionista o primado do fator consciente, sem confrontar a crise do socialismo e do marxismo, e sem apreender o movimento real com sua carga inevitável de renovação das formas de consciência, luta e organização, foi uma resposta que desarmou ideologicamente o proletariado. Pense-se no papel dos partidos comunistas pró-soviéticos na crise da URSS desde 1956 e na queda do Leste europeu.

As respostas a dar não devem enfraquecer o primado do consciente, o papel do partido como o fator de ligação da teoria com o movimento espontâneo. Entretanto, isso se dá em condições muito modificadas e desfavoráveis hoje. Retomo aqui, de forma sintética, algumas formulações a esse respeito feitas no 10º Congresso.

Uma é o fato de que atuamos em um quadro de estratégia defensiva. A atual geração de quadros dirigentes vem de um tempo marcado pela perspectiva da revolução no horizonte da própria geração e, em geral, pela idéia de uma estratégia insurrecional. A geração que adentra o partido ou que ingressa na luta dos trabalhadores hoje, não tem nem poderia ter a mesma perspectiva. Alimentar o ethos militante, nessas circunstâncias, exige um outro repertório de trabalho ideológico.

Outra questão é a da própria realidade e consciência social, que não cessa de se alterar em movimento contraditório a ser apreendido pela prática e reelaborado pela teoria. Hoje, ao lado da crise de militância política, geram-se múltiplas militâncias, ou militâncias de múltiplas causas, atraindo diversos estratos da sociedade, na forma de trabalho voluntário, defesa do meio ambiente, a causa feminista, anti-racial, em torno de valores e comportamentos, muitas com marcado conteúdo humanístico e solidário. Especialmente, surge uma histórica manifestação crítica anticapitalista, de caráter global, expressa nos movimentos que fizeram os Fóruns Sociais Mundiais. De certo modo, é o movimento espontâneo, que não cessa de se repor, criando novas formas de luta e organização, e mesmo novos sujeitos. Melhor falar, então, na emergência de uma nova militância, que alimentará a luta por um novo projeto de sociedade.

E para nós, no Brasil, as respostas precisam levar em conta o descondicionamento de nossa visão militante, promovida pelos 16 anos de atividade legal. Fomos muito marcados pela clandestinidade e por um determinado modelo de militante, próprio dessa condição. Vimos tirando conseqüências disso desde o 8o congresso, em situação pressionada pela crise do socialismo e pela hegemonia neoliberal. Podemos comemorar que nessa década de 90 o partido cresceu significativamente. Mas ainda carecemos de respostas mais fundamentadas para dar curso a um partido que, ao lado de perseverar na sua identidade comunista e classista, tenha efetivamente base de massas, adequando critérios de caráter e perfil da militância, do caráter e perfil das formas de organização, para um sistema de organizações amplo com centro único em bases mais amplamente democráticas.

Veremos cada coisa a seu tempo. Importa aqui não perder o fio condutor deste artigo: a problemática do trabalho ideológico, que é central mais que nunca à questão do partido. O 10º Congresso, numa visão crítica, reconhece que tem sido pobre nosso repertório para alimentar ideologicamente a nova militância social e política que desperta para a luta e que pode ingressar no partido. A Intervenção Especial sobre o assunto aborda a questão em três perspectivas: a questão ideológica em correlação com os desafios teóricos na atualidade; os conteúdos do trabalho ideológico do partido em ligação com nosso projeto político; e a formação ideológica da militância comunista. Penso que têm sua atualidade e importância.

O que quero argumentar é que não devemos enfocar o trabalho ideológico, na construção partidária, de modo confinado aos aspectos meramente doutrinários, nem desconectado dessa problemática mais ampla de uma formação partidária extensa e articulada, atuando nas condições presentes da luta de classes. O modo de repor o primado do fator consciente e sua fusão com o movimento real não pode se bastar hoje com esse repertório.

Nesse sentido, uma resposta articulada implicaria em várias ordens de questões. Primeiro, o partido deve ser portador de um projeto político positivado, de conteúdo claro e fixado a cada situação concreta, para infundir à atividade de cada militante um conteúdo antagonista para o trabalho cotidiano, em toda frente de atuação, articulando-as ao projeto de abrir caminho para objetivo estratégico. Segundo, o partido precisa se assumir, de alto a baixo, como o intelectual coletivo orgânico, ou seja, a atividade militante precisa estar imbuída de esforço de elaboração. Assim, a vida interior do partido precisa conceber uma elaboração política nutrida de teoria, como condição para a formação da nova geração revolucionária. Terceiro, a idéia do partido como prefiguração da nova sociedade pela qual lutamos: a vida de partido precisa permitir a expansão das potencialidades e características de cada qual, ser generosa em abrir horizontes mais vastos, e cultivar no seu interior os valores éticos e morais que deve caracterizar a vida pública. Quarto, o partido precisa estar aberto a reforçar seus laços com todo e qualquer movimento "espontâneo" onde se manifeste um embrião que seja de consciência crítica. Essa é a condição para realimentar permanentemente o compromisso de seus militantes com a massa, em primeiro lugar dos trabalhadores, mas também com todos os estratos em contradição com a atual sociedade excludente e estéril do ponto de vista humanista.

E certamente necessita-se de medidas próprias da esfera teórica, ideológica e cultural, para estimular tal militância à aquisição dos conhecimentos essenciais a um papel de vanguarda, e reforçar os valores morais e éticos que caracterizam nossa luta. Pois, uma vez mais, voltamos aos fundamentos, de uma ortodoxia que julgo saudável: sem teoria revolucionária não há ação revolucionária! Sem partido revolucionário não há movimento transformador que efetivamente supere o capitalismo! E sem militantes, homens e mulheres com sólidas convicções ideológicas, não há partido comunista!

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NÃO DEIXE DE LER:  "Sobre o trabalho ideológico do Partido", Intervenção especial de Walter Sorrentino, In: Novos Rumos para o Brasil, 10o congresso do PCdoB. Editora Anita Garibaldi
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Digressão...

PÓS-MODERNIDADE POLÍTICA TUCANA

"Às favas os escrúpulos", proclamou certa vez a velha direita, quando da promulgação do AI-5 em 1968. Outra vez a falta de escrúpulos está presente, desta vez, conduzida pela nova direita, a dos acadêmicos tucanos que viraram banqueiros, cumpridores do programa da banca internacional em nosso país. À sua frente o Planalto, a tucanagem e seu candidato oficial.

É um sinal dos tempos, já registrado por Renato Rabelo em suas colunas: está em curso brutal ofensiva continuísta, disposta a radicalizar os confrontos, mesmo à custa da nação e dos interesses do povo brasileiro, pressionados pela autêntica chantagem financeira.

Ontem foi o instituto da reeleição, para reconduzir um governo que se notabilizou pelas medidas provisórias em profusão. Depois, o atentado da verticalização, decidida pelo TSE e o líder do governo nessa instituição, Nelson Jobim. Que aliás mobilizou seus préstimos à decisiva convenção do PMDB em apoio a Serra. Agora, está em curso formidável máquina de arapongagem, que alcança tudo e todos que se põem no caminho de seus propósitos, na forma de dossiês produzidos ao arrepio de qualquer norma pública civilizada. Do jeito que vai, não demora e saberemos de interesses inescrupulosos que ateiam fogo na nevrálgica questão da segurança pública, buscando colocá-la em pauta central de debate na sucessão presidencial, atemorizando o povo.

O Brasil cada vez mais se defronta com um impasse semelhante às primeiras décadas do século passado, vivendo um impasse que reclama solução. A pós-modernidade tucana só fez agravar os problemas, inclusive no campo das normas democráticas. É esse legado que precisamos superar a partir de outubro.

*Walter Sorrentino, médico, membro da Comissão Política Nacional e Secretário Nacional de Organização

 
e-eletrônico: waltersorrentino@pcdob.org.br

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